sexta-feira, 24 de julho de 2026

THE ODYSSEY (2026)

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THE ODYSSEY (2026) [172'] [1.43:1] [★★★]

A chegada de The Odyssey às telas, em julho de 2026, representa o mais ambicioso empreendimento de Christopher Nolan mesmo comparado a Oppenheimer que lhe conferiu o Oscar de melhor direção e consagrou sua abordagem do cinema como experiência total. Se naquela ocasião o cineasta britânico mergulhou na consciência torturada do físico que desvendou o átomo, aqui ele transpõe para a Antiguidade grega uma indagação similar: o que faz um homem que concebeu uma arma de destruição em massa – no caso, o Cavalo de Troia – quando percebe que sua engenhosidade condenou inocentes e redefiniu os parâmetros da guerra para sempre? O filme, portanto, não é uma adaptação convencional do poema de Homero, mas antes um diálogo tenso e por vezes contraditório entre a épica milenar e as obsessões que atravessam a filmografia de Nolan desde Memento: a fragmentação do tempo, a memória como prisão, a culpa como motor da ação e a impossibilidade de retornar ao estado anterior de inocência. The Odyssey se distingue de Interstellar, A Origem e Dunkirk porque sua estrutura não-linear não serve a um enigma científico ou a uma estratégia de suspense, mas à erosão gradual da identidade de seu protagonista; ao mesmo tempo, o filme reforça os víeis autorais do diretor ao transformar a jornada de Odisseu em uma espiral de flashbacks e relatos contraditórios, nos quais o herói se revela um narrador de confiança duvidosa, intoxicado por narcóticos do esquecimento e assombrado pela certeza de que suas escolhas aniquilaram não apenas seus companheiros, mas também a própria ordem civilizatória que julgava defender. Nesse sentido, a obra se insere no mundo de 2026 como uma reflexão sobre o fim das certezas – o ocaso de uma era que se autodenominava civilizada e que, como a Grécia micênica retratada na tela, assiste à ruína de suas leis fundamentais. Nolan, ao escolher como tema central a chamada “Lei de Zeus”, o princípio sagrado da hospitalidade (xenia) que Odisseu viola ao introduzir o Cavalo de Troia, estabelece um paralelo inquietante com o momento contemporâneo: o ardil que venceu uma guerra também corrompeu o código ético que sustentava a comunidade humana, e o filme se pergunta se é possível reconstruir qualquer coisa sobre os escombros de uma trapaça que manchou para sempre o conceito de honra. Essa interrogação, porém, ganha contornos menos filosóficos do que poderiam sugerir as pretensões do diretor, pois o tratamento dado aos deuses – reduzidos a aparições esparsas de Atena (Zendaya) e a menções vagas a Zeus e Poseidon – esvazia o poema de sua dimensão sobrenatural e transfere todo o peso dramático para a psique atormentada de um único homem, tornando a épica mais modesta e, paradoxalmente, mais dependente do carisma de seu intérprete principal do que da grandeza cósmica que o texto original inspira.

A trama, tal como Nolan a concebe, inicia-se não no fim da guerra de Troia, mas em Ítaca, vinte anos após a partida de Odisseu (Matt Damon), com a mansão real invadida por pretendentes que "devoram os bens" do rei ausente enquanto Penélope (Anne Hathaway) tece e destece um sudário para ganhar tempo, e Telêmaco (Tom Holland), agora um jovem adulto, tenta, com a impetuosidade própria da idade, expulsar em vão os usurpadores. É a partir desse presente estagnado que o filme desdobra, em sucessivos analepses, a odisseia propriamente dita – uma sucessão de episódios que o roteiro encadeia com a urgência de quem teme não dar conta do relato: o encontro com o Ciclope Polifemo, cuja cegueira provocada por Odisseu enfurece o seu pai Poseidon; o confronto com os Laestrigônios, gigantes antropófagos que destroem a frota; a passagem pela ilha de Circe (Samantha Morton), feiticeira que transforma os homens em porcos e que, depois de subjugada, orienta Odisseu ao Hades; a descida ao mundo subterrâneo dos mortos, onde o herói encontra o profeta Tirésias e os fantasmas dos camaradas caídos, incluindo Sinon (Elliot Page), o soldado cujo sacrifício montando guarda no cavalo de madeira ainda o atormenta; o canto das Sereias, que o herói enfrenta tapando os ouvidos de sua tripulação com cera (e se amarrando ao mastro); a passagem entre Cila e Caríbdis, na qual seis homens são devorados; o extermínio do gado sagrado de Apolo por seus comandados famintos, que provoca a ira divina e a destruição final da nau; e, por fim, o longo cativeiro na ilha de Calipso (Charlize Theron), onde flores de lótus apagam suas memórias até que a ninfa, por razões que o filme nunca esclarece completamente, o ajuda a recordar e a retomar a viagem. Em Ítaca, já disfarçado de mendigo, Odisseu reencontra Telêmaco, tramam juntos o massacre dos pretendentes e, no clímax, o rei verga o arco que nenhum outro consegue entesar e desfere a flecha que atravessa doze machados, sinal para o banho de sangue que se segue. O filme, contudo, não termina na reconquista do trono: após matar os usurpadores (que não se ajoelham !), Odisseu conclui que violou novamente a lei de Zeus ao derramar sangue de hóspedes em seu próprio lar, e, em um gesto que Nolan apresenta como expiação voluntária, entrega o cetro a Telêmaco e parte para o Ocidente com Penélope, navegando em direção ao pôr do sol para honrar os companheiros que pereceu e cumprir uma tradição ancestral da jornada heroica – o exílio autoimposto como preço pela consciência culpada. Os temas principais do longa são, portanto, a culpa do sobrevivente, a fragilidade da memória como testemunha fiel e o colapso dos códigos morais que sustentam a civilização; Odisseu, longe do astuto e eloquente rei homérico, é aqui um homem taciturno e vacilante, cujos conflitos interiores – entre o dever de voltar para casa e o horror de encarar sua própria imagem – o paralisam repetidamente, enquanto Penélope, confinada ao papel de espera e resistência passiva, e as demais figuras femininas (Circe, Calipso, Atena, Helena) funcionam menos como personagens plenas do que como espelhos ou obstáculos para a angústia masculina, com a notável exceção de Circe, cujo segmento de terror corporal oferece a única inflexão verdadeiramente original da narrativa.

É precisamente nesse segmento, que ocupa cerca de vinte minutos da metade final do filme, que a linguagem audiovisual de Nolan atinge seu ponto mais alto e mais perturbador. A sequência em que Circe, interpretada por Samantha Morton com uma intensidade que destoa do registro contido do restante do elenco, estende a mão sobre os homens de Odisseu e os transforma em suínos não se vale de efeitos digitais ostensivos, mas de uma coreografia de metamorfose tátil, na qual a pele dos atores parece derreter e remodelar-se sob a pressão invisível da magia, enquanto a câmera de Hoyte van Hoytema, operando com as novas câmeras IMAX 70mm de peso reduzido, enquadra o processo em primeiríssimos planos que amplificam o horror e a estranheza do instante. Morton, cuja performance foi descrita pelo próprio Nolan como o fulcro sobre o qual o filme viveria ou morreria, imprime a Circe uma ambiguidade fascinante – uma feiticeira que não é nem vilã nem salvadora, mas uma figura de sabedoria antiga e amargurada que enxerga, antes do próprio Odisseu, a podridão moral que ele carrega, e que o submete a uma provação de humilhação e reconhecimento que nenhum outro episódio da jornada oferece. Esse trecho, no entanto, expõe também as limitações impostas pela escolha técnica do diretor: as câmeras IMAX, embora proporcionem uma nitidez e uma profundidade de campo impressionantes nas paisagens escocesas, islandesas e marroquinas, revelam-se desajeitadas nas sequências de ação mais dinâmicas, como o ataque dos Laestrigônios ou a batalha final no salão de Ítaca, onde os movimentos de câmera parecem constrangidos pelo tamanho e pelo ruído dos equipamentos, e a montagem de Jennifer Lame, forçada a recorrer a cortes mais rápidos e fragmentados para disfarçar as limitações de tomada, compromete a fluidez coreográfica que se esperaria de um épico de espada e sandália. A fotografia de van Hoytema, todavia, compensa em parte esses tropeços com seu tratamento da luz natural – o crepúsculo dourado sobre o mar Egeu, a penumbra opressiva da caverna do Ciclope, o negrume vulcânico das praias de Hades – e a trilha sonora de Ludwig Göransson, composta sem orquestra tradicional e baseada em instrumentos da Idade do Bronze, como aulos e gongos de metal, cria uma textura sonora arcaica e áspera que raramente se impõe sobre a imagem, mas que nos melhores momentos (a chegada a Circe, a travessia do Estige) evoca um mundo de rituais e presságios que o roteiro, infelizmente, não sustenta com a mesma convicção... As atuações, de modo geral, refletem o que se poderia chamar de “síndrome do elenco de figurinhas carimbadas”: Matt Damon, robusto e grave, transita com competência entre a vulnerabilidade e a ferocidade, mas seu Odisseu parece mais um veterano do Afeganistão perdido em uma fantasia grega do que um rei micênico; Tom Holland, como Telêmaco e um elo mais fraco aqui, esforça-se para abandonar a sombra do Homem-Aranha, mas sua adolescência tardia soa mais contemporânea do que heroica; Robert Pattinson, no papel do pretendente Antínoo, entrega uma maldade de manual, com sorrisos sarcásticos e olhares de desdém que funcionam melhor no cartaz do que na tela; Anne Hathaway, contida e digna, tem pouco a fazer além de reprimir lágrimas e tecer olhares significativos; e Charlize Theron, como Calipso, parece ter saído diretamente de um anúncio de perfume de luxo, pairando sobre a praia com uma indiferença que beira a autoparódia. Apenas Morton, com sua Circe de movimentos felinos e voz de cetro, escapa ao aplainamento generalizado e confere ao filme a centelha de imprevisibilidade que o restante da produção, por mais suntuosa que seja, raramente alcança.

Ao final de suas quase três horas de duração, The Odyssey de Christopher Nolan deixa no espectador a sensação ambígua de ter testemunhado um espetáculo grandioso e, ao mesmo tempo, insuficientemente habitado – uma catedral de imagens cujos vitrais contam uma história que o diretor parece não querer ou não conseguir abraçar por completo. O veredicto do filme sobre seus temas principais é melancólico e resignado: a culpa não se redime, a memória é um fardo que se carrega para o exílio e a civilização, uma vez corrompida por seu próprio ardil, não pode ser restaurada, apenas transmitida a uma nova geração (Telêmaco) que talvez cometa os mesmos erros. Odisseu, ao partir para o Ocidente, não encontra a paz, mas uma trégua negociada com seu passado, e Penélope, ao segui-lo, abdica do trono que preservou por duas décadas para compartilhar uma penitência que não lhe pertence – um desfecho que, se por um lado honra a tradição das jornadas heroicas que terminam em despedida, por outro frustra a expectativa de recompensa emocional que o arco do personagem parecia prometer. O longa, portanto, impacta a obra de Nolan menos como um coroamento do que como uma encruzilhada: é seu filme mais pessoal e também seu mais desigual, aquele em que a ambição temática e a experimentação técnica colidem com as limitações de um material que resiste à psicologização moderna e com as escolhas de um elenco que, por mais talentoso que seja, nunca se despe de suas identidades contemporâneas para vestir a pele de deuses e heróis. O legado de The Odyssey provavelmente será duplo: para o grande público, permanecerá como a adaptação definitiva do poema homérico para as telas IMAX, um marco visual que redefine o que se pode fazer com a película 70mm; para os cinéfilos mais exigentes, ficará como um testemunho das fronteiras do cinema de Nolan, um diretor cuja obsessão pelo controle narrativo e pela integridade física da imagem encontra, justamente na matéria-prima mais arcaica da literatura ocidental, o seu limite mais revelador – porque, no fim, nem a mais poderosa das câmeras nem a mais intrincada das montagens podem substituir a simplicidade de um herói que, ao chegar em casa, descobre que o verdadeiro monstro sempre foi ele mesmo. É essa descoberta, contudo, que Nolan filma com uma honestidade sombria, e é por ela – e pela feitiçaria inesquecível de Samantha Morton – que o filme merece suas três estrelas, ainda que o caminho até elas seja tão tortuoso e acidentado quanto a viagem de seu protagonista.

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