ANÁLISE: Introdução
Era o outono de 1968 quando quatro músicos ingleses se reuniram em um porão em Londres, sob a taciturna liderança de um guitarrista já veterano das batalhas do rock. Jimmy Page, vindo das cinzas dos Yardbirds, carregava a missão de construir algo que desafiasse a leveza psicodélica que dominava as paradas. Ao seu lado, o experiente baixista/tecladista/arranjador John Paul Jones, o pesadíssimo baterista John Bonham e um vocalista de cabelos loiros e alcance estratosférico vindo de Midlands, Robert Plant. Batizaram-se Led Zeppelin, um nome que o colega Keith Moon, baterista do The Who, sugerira ser tão pesado que insanamente flutuaria como um “balão de chumbo”. Era uma profecia invertida. Em janeiro de 1969, quando lançaram o álbum de estreia, o mundo do rock estava num impasse: o verão do amor havia esfriado, o Cream se despedira e o espírito de experimentação dos anos sessenta começava a ceder espaço para uma nova virilidade sônica. Nesse vácuo, o Led Zeppelin não apenas preencheu o espaço, mas redefiniu seus limites. A banda rapidamente se tornou o arquétipo do que se chamaria de rock pesado, mas seu legado transcende o dos blues distorcidos. Eles influenciaram MUITO do que veio depois: o peso do Black Sabbath, a teatralidade do Queen, a agressividade do grunge (largamente via o próprio Sabbath) e mesmo a sutileza do folk rock. Ao mesmo tempo, bebiam das fontes mais profundas possíveis do delta do blues, de nomes como Howlin’ Wolf e Willie Dixon, e da mística Celta e de J.R.R. Tolkien. Eles não eram apenas uma banda; eram uma força da natureza que redefiniu o conceito de “de facto supergrupo” e a relação entre o artista e a indústria fonográfica, recusando-se a lançar singles e exigindo contratos que lhes davam controle artístico total.
A jornada entre 1969 e 1979 é uma epopeia de excessos, genialidades e contradições. Nos primeiros anos, a banda viveu dentro de aviões e ônibus, construindo uma reputação feroz. Há uma história curiosa sobre o segundo álbum, Led Zeppelin II: a maior parte foi gravada às pressas durante a primeira turnê americana, em estúdios improvisados de cidade em cidade. Dizem que Plant escreveu a letra de Whole Lotta Love em um momento de inspiração súbita, enquanto a fita rodava. Esse frenesi criativo contrastava com a reclusão que viria logo depois, quando se refugiaram na remota propriedade rural de Bron-Yr-Aur, no País de Gales, para compor o terceiro disco. Lá, sem eletricidade, eles redescobriram o violão e a mitologia céltica, mostrando que a besta do rock também sabia sussurrar. Foi na esteira desse período de transição que nasceu o álbum sem título, o seu quarto, que abriga (o seu hino maior) Stairway to Heaven. A recusa em colocar um nome ou mesmo o nome da banda na capa foi uma declaração de guerra à expectativa comercial. Era o puro poder da música falando por si. Em 1973, quando lançaram Houses of the Holy, já eram a maior atração do planeta, lotando estádios com uma pompa que beirava o assombroso/assustador, enquanto Jimmy Page mergulhava em rituais de magia negra e Plant se tornava um ícone sexual de proporções míticas.
No entanto, o mito também tem suas não poucas tragédias. Em 1975, quando lançavam o extremamente ambicioso Physical Graffiti, a exaustão e os excessos começaram a cobrar seu preço. Plant e sua esposa sofreram um grave acidente de carro na Grécia, deixando o vocalista de cadeira de rodas por meses e atrasando a produção de Presence, um disco mais sóbrio, sombrio e menos acessível. O que se seguiu foi um período de crescente isolamento e dependência química, especialmente para Page, cuja maestria musical começou a ser ofuscada e visto como uma figura espectral, ausente e debilitada. O punk rock surgiu em 1977 com a promessa de “matar” o rock progressivo e os excessos como os do Led Zeppelin, mas a banda sobreviveu, ainda que desgastada. Em 1979, ensaiaram um retorno triunfal (porém frustrado artisticamente!) com In Through the Out Door, um disco dominado pelos teclados de Jones, que sinalizava uma tentativa de se reinventar diante da new wave e da discoteca.
O final, contudo, veio de forma brutal e silenciosa. Em 25 de setembro de 1980, John Bonham, o coração pulsante da banda, foi encontrado morto em sua cama. Após um dia de consumo excessivo de álcool nos ensaios para a turnê americana, o baterista de 32 anos acabou sufocado pelo próprio vômito enquanto dormia. O choque foi irreparável. Embora tivessem alcançado o topo do mundo e dominado a década de 1970 como nenhum outro, os membros restantes entenderam que não havia Led Zeppelin sem Bonzo. A decisão de encerrar tudo em dezembro daquele ano foi um ato de lealdade raro na história do rock. O legado que deixaram, portanto, não é apenas o de uma máquina de hits, mas o de um organismo vivo, criativo e trágico, cujo corpo sucumbiu à própria intensidade, deixando uma obra que se mantém como um farol fundamental para o rock pesado e além.
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E agora... Análise Álbum a Álbum...
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Led Zeppelin I (1969)
Quando as primeiras notas de Good Times Bad Times ecoaram dos alto-falantes em janeiro de 1969, o mundo do rock ainda estava se recuperando do golpe final da contracultura. O ano anterior fora marcado por tragédias e pela sensação de que a euforia dos anos sessenta dava lugar a algo mais sombrio e fragmentado. Foi nesse cenário de transição que o Led Zeppelin, então ainda um projeto contratual/pessoal de Jimmy Page, lançou seu álbum de estreia, uma obra que parecia ter sido gravada não em estúdio, mas em uma usina de força. O disco foi esculpido em apenas trinta e seis horas, por um custo irrisório de cerca de três mil e quinhentos dólares, uma eficiência que contrastava com a imensidão do som produzido. A crítica inicial, especialmente a hoje famosa resenha da Rolling Stone, foi cruel, chamando a banda de desperdício de talento e comparando-os negativamente aos antigos Yardbirds. Mas o público, especialmente o americano, sentiu o terremoto antes dos sismógrafos. A combinação do riff e solo cortantes de Page, a bateria de Bonham que parecia explodir em cada toque múltiplo de bumbo, o baixo melódico e destacado de Jones e o uivo primal (e ainda assim melódico e acessível) de Plant criaram um novo idioma.
Cada faixa é uma declaração de intenções. Good Times Bad Times abre com uma levada em contratempo com cowbell que, até hoje, desafia bateristas, mostrando a técnica super característica de Bonham. A calmaria inicial enganosa de Babe I’m Gonna Leave You, uma conhecida canção folk que Page transformou em um épico de crescendos, revela a dinâmica de luz e sombra que definiria a banda. Dazed and Confused, com seu arco de violino na guitarra, é o momento mais psicodélico e sombrio, uma jam que Page traria dos tempos de Yardbirds (e lá já inspirada em materiais pré existentes), transformada em um verdadeiro ritual de improviso ao vivo. O lado blues aparece pesado em You Shook Me e I Can’t Quit You Baby, ambas de Willie Dixon, mas aqui reinterpretadas com uma densidade que beira o hard rock. Communication Breakdown é pura energia (Paranoid antes de Paranoid), uma explosão de três acordes que mostrava que a banda não era apenas sobre longas improvisações. A faixa de encerramento, How Many More Times, é uma colagem de estilos, onde Plant até imita um sotaque sulista (!) e a banda desfila com uma confiança inabalável por todos eles, como se já soubessem que estavam criando o manual de um novo rock que viria a seguir.
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Led Zeppelin II (1969)
Se o primeiro álbum (em janeiro) foi uma declaração de chegada, o segundo, lançado em outubro do mesmo ano, foi uma tomada de poder. Gravado durante a maratona de turnês pela América, em estúdios tão diversos quanto Nova York, Los Angeles, Memphis e até Vancouver, Led Zeppelin II captura o som de uma banda vivendo no olho do furacão. Esse é o disco do riff definitivo (*). Enquanto o primeiro era a apresentação, este é a consagração: atingiu o primeiro lugar tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, destronando a hegemonia dos álbuns de trilha sonora e consolidando a “invasão britânica” dos anos 70. É o álbum que definiu o que viria a ser chamado de hard rock, com um peso que parecia comprimir os tímpanos do ouvinte. Ainda que houvesse resquícios da psicodelia, a ênfase agora era na potência bruta da música e na sexualidade mal disfarçada das letras (!), um contraponto direto à inocência que ainda restava na música pop.
A faixa de abertura, Whole Lotta Love (*), é o coração do monstro. Construída sobre um riff que Page improvisou em um momento de inspiração (inspirado em Dixon sem dúvidas), ela se tornou um marco por seu solo de guitarra de chamado/resposta e do uso de um theremin em sua seção central quase psicodélica que fragmenta a música antes de reconstruí-la em um clímax conclusivo feroz. A sequência Heartbreaker e Living Loving Maid (She‘s Just a Woman) mostrou o poder do hard rock como amigo do rádio, a primeira com um dos solos mais influentes da história, repleto dos “hammer-ons” que se tornaram marca registrada de Page (e deveras inspiradores para as futuras gerações, vide Eddie Van Halen, por exemplo). Ramble On, por outro lado, mostra a versatilidade, com passagens acústicas que antecipam o folk do terceiro álbum e letras que fazem referência a O Senhor dos Anéis, revelando os interesses místicos da banda (e tudo isso sem abrir mão do peso, a melhor do disco e uma das melhores de toda a discografia da banda!). What Is and What Should Never Be é um estudo sobre dinâmica, alternando calmaria e tormento, enquanto Thank You, um dos primeiros flertes com o órgão por Jones, oferece um raro momento de vulnerabilidade romântica (uma das grandes baladas de todo o rock). O disco termina com Bring It On Home (inspirada em Dixon mais uma vez), uma homenagem a Sonny Boy Williamson II que começa com um gaita e violão para explodir em mais um riff colossal, encerrando o ano de 1969 com a certeza de que o rock nunca mais seria o mesmo...
(E AINDA ... The Lemon Song é uma aula de baixo de Jones inspirada por Howlin' Wolf. E, apesar da óbvia indulgência, é impossível não mencionar o icônico solo de bateria de Bonzo: Moby Dick.)
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Led Zeppelin III (1970)
A pressão sobre o Led Zeppelin em 1970 era imensa. Após dois discos que basicamente definiram "peso" no contexto do rock, qualquer movimento em falso seria interpretado como fraqueza. Em vez de repetir a fórmula, eles se retiraram para a cabana de pedra Bron-Yr-Aur, no País de Gales, um lugar sem eletricidade, onde apenas os violões poderiam falar. O resultado, Led Zeppelin III, foi recebido com perplexidade pela crítica e por parte dos fãs mais radicais. O disco abria com a fúria nórdica de Immigrant Song, um dos riffs mais marcantes da carreira, mas rapidamente mergulhava em um território de folk e música acústica que muitos interpretaram como uma traição. Hoje, sabe-se que foi exatamente essa ousadia que impediu a banda de se tornar uma caricatura de si mesma.
O disco é um estudo sobre dualidade. Immigrant Song, inspirada em uma turnê pela Islândia, é uma cavalgada tercinada de guerra com a voz de Plant em seu registro mais agudo. Porém, a magia real está nas camadas mais profundas... Friends, com sua afinação aberta e influências orientais, é uma das composições mais complexas de Page. Since I‘ve Been Loving You é o momento de blues definitivo da banda, gravado em uma tomada que captura a emoção crua de Plant e o solo dilacerante de Page (um dos seus melhores), provando que eles ainda eram mestres do blues, mesmo quando inovavam em outros gêneros... E de fato inovavam... (i) Gallows Pole: Uma canção tradicional, remexida e rearranjada até se transformar numa espécie de mini épico acústico. (ii) Tangerine: Lindissima canção com estupendos arranjos de Page (usando até um pedal steel). (iii) That’s the Way: Onde a pureza da instrumentação acústica e a harmonia vocal entre Plant e Page criam um momento de introspecção poética que revela a alma folk da banda com uma sinceridade comovente. (iv) Bron-Y-Aur Stomp: Uma celebração da natureza e da amizade embalada por um violão dedilhado com virtuosidade e um pé batendo no chão, mostrando que o Led Zeppelin também sabia ser despretensioso e radiante. E (v) Hats Off to (Roy) Harper: Uma homenagem crua e experimental ao blues delta onde Jimmy Page entrega um slide guitar abrasivo e hipnótico em afinação aberta, enquanto a voz de Robert Plant emerge de uma caixa de eco distorcida como um fantasma vindo do fundo de um poço, provando que a banda tinha coragem de encerrar seu álbum mais folk com a mais pura e suja essência das raízes que os formaram... A capa com o disco giratório, que projetava imagens através de um mecanismo de papelão, era uma metáfora perfeita para o que estava dentro: um som que precisava de interação e paciência para ser desvendado. Foi a ponte de ouro para o que viria a seguir...
(E AINDA ... Celebration Day, uma faixa pesada mais tradicional para o Led e com um solo muito legal, ajuda a compor o álbum... Out on the Tiles é ainda melhor com um fantástico groove de Bonham casado com um inspirado riff de Page...)
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Led Zeppelin IV (1971)
Em 1971, o rock estava em plena era do prog e do início do glam, com bandas como Yes e David Bowie redefinindo o visual e a complexidade musical. O Led Zeppelin, no entanto, estava fora dessa briga. Após a controvérsia (retrospectivamente tola) do terceiro disco, eles decidiram lançar o quarto álbum sem título, sem nome de banda, e com quatro símbolos místicos escolhidos por cada integrante na capa. Era um desafio ao mercado: se você quer saber quem somos, ouça a música. E que música. Este é o álbum que vendeu mais de vinte e três milhões de cópias apenas nos Estados Unidos, transformando-os de estrelas do rock em instituição cultural. A indústria e a crítica, que os menosprezaram no início, agora se curvavam.
Black Dog abre com um riff sincopado que parece tropeçar nas próprias pernas antes de se levantar, um truque de tempo e contratempo que confundia e confunde a todos. Rock and Roll (outro enigma para se achar o tempo de entrada da bateria) é uma celebração crua dos anos cinquenta, mas com a fúria dos setenta, provando, como em uma espécie de aperto de mãos, que a energia do rock era eterna. No centro do disco, como uma catedral gótica em meio a uma cidade, está Stairway to Heaven (o maior hino da banda!). Começando com flautas simuladas e arpejos de violão, a faixa constrói uma narrativa pacientemente progressiva de oito minutos que explode em um dos solos mais celebrados da história, unindo o folk britânico, o misticismo e o peso do rock em uma única viagem. Porém, reduzir o álbum a essa única música seria um erro. Pois ainda temos (entre outras): (i) The Battle of Evermore, com a bela participação de Sandy Denny, um dos raros duetos da banda, aqui evocando a mitologia escocesa. (ii) When the Levee Breaks, um blues de Memphis Jones repaginado pesadamente, transformado por Bonham em uma aula de bateria, com aquele timbre cavernoso mitologicamente gravado no saguão de uma mansão. E (iii) Going to California, uma ode à Califórnia e a Joni Mitchell... Aqui eles fecham um ciclo, apresentando uma banda no auge absoluto de sua criatividade, dominando todos os estilos que se propunham a tocar...
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Houses Of The Holy (1973)
O mundo em 1973 era outro. O movimento hippie estava morto, o glam rock reinava e a sofisticação do rock progressivo ocupava as rádios. Lançado em março, Houses of the Holy representa o Led Zeppelin abraçando o palco global com uma produção mais polida e uma paleta de cores mais vibrante do que o misticismo sombrio do quarto álbum. Gravado em diversos locais, incluindo os famosos estúdios de Mick Jagger em Stargroves, o disco mostra a banda tentando escapar da própria sombra. É um álbum sobre a transição para o estrelato absoluto, cheio de experimentações que nem sempre caíram no gosto unânime, mas que revelam uma banda disposta a sempre correr riscos e não se acomodar nunca.
As quatro canções clássicas aqui são monumentos. The Song Remains The Same, que batizaria o filme gravado ao vivo na sequência, é uma sucessão de riffs em alta velocidade (e aninhados em camadas) que mostra a interação telepática entre Page e Bonham (além de todo o resto!). The Rain Song, talvez a resposta de Page à música de George Harrison, é uma balada orquestral deslumbrante, onde os teclados de Jones criam um clima de melancolia sublime (além do exercito de violões e guitarras de Page em ação sem parar obviamente). Over The Hills And Far Away alterna um início acústico delicado com um refrão pesado, resumindo a dualidade da banda em uma única faixa (talvez melhor do que qualquer uma outra na discografia!). No Quarter, dominada pelo piano elétrico de Jones, é a mais sombria do disco, uma paciente e cuidadosa viagem para o território do progressivo e que se tornaria talvez o mais específico clássico da discografia... As outras quatro faixas mostram a banda brincando com funk (The Crunge), reggae (D‘yer Mak’er) e rockabilly (Dancing Days), resultando em momentos que, embora menos coesos, revelam a vontade de não se repetir. Houses of the Holy não é o seu disco mais pesado, mas talvez seja "O" mais diverso e ousado de sua carreira.
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The Song Remains The Same - LIVE 73 (1973)
No meio da década de 1970, o rock ao vivo havia se tornado um espetáculo de dimensões bíblicas, e o Led Zeppelin era o papa dessa religião. The Song Remains The Same, lançado em 1976 mas registrando os shows de 1973 no Madison Square Garden, foi concebido para capturar essa experiência. No entanto, o resultado é problemático. O cinema e o rock estavam tentando encontrar uma linguagem comum, e a tentativa da banda de criar um filme com sequências de fantasia individuais para cada membro (Page escalando uma montanha, Plant como um cavaleiro etc.) datou drasticamente o material de forma quase instantânea. Do ponto de vista musical, o álbum é uma cápsula do tempo que revela tanto a grandiosidade quanto os excessos do quarteto.
O problema central é a indulgência. Canções que em estúdio tinham precisão cirúrgica (em seus arranjos) são esticadas para além do limite razoável. Dazed and Confused, que no disco original dura pouco mais de seis minutos, aqui se aproxima da meia hora, mergulhando em um mar de improvisos com violino de arco que, embora impressionantes no contexto ao vivo, testam a paciência do ouvinte. Moby Dick, o cansativo solo de bateria de Bonham, também se estende por uma duração (E por phasers e tímpanos pelo amor de Deus!) que só funcionava mesmo para quem estava presente no frenesi do show. Além disso, a voz de Plant, que em 1969 parecia um instrumento divino, já mostra sinais de desgaste devido ao uso excessivo ao vivo e aos agudos insanos dos primeiros discos (e as múltiplas camadas de guitarras de estúdio, já bem comuns nos dois últimos álbuns, não são tão bem traduzidas ao vivo, fora os cada vez mais presentes escorregões adicionais de Page). As versões de Stairway to Heaven e Whole Lotta Love são até defensáveis e mantêm o DNA da banda, mas o conjunto soa mais como um documento histórico necessário para entender a dimensão do fenômeno do que como uma obra-prima musical autônoma (especialmente se o compararmos aos DE FATO grandes álbuns ao vivo do período como o Made In Japan de 1972 do Deep Purple). É o registro de uma banda que, naquele momento, tinha mais carisma do que disciplina.
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Physical Graffiti (1975)
O ano de 1975 marcou o auge dos excessos no rock. O Led Zeppelin, agora dono de seu próprio selo, Swan Song, lançou Physical Graffiti, um álbum duplo de estúdio que era uma declaração de soberania. Era o disco mais aguardado de suas carreiras, e eles responderam com um monumento de quase oitenta e três minutos, recheado de sobras de sessões anteriores (dos cinco primeiros álbuns) e de novas composições. A crítica e o público se renderam ao volume e à ambição. Fisicamente, a capa com as janelas recortadas que permitiam trocar os moradores dos prédios era uma obra de arte interativa. Musicalmente, era a antítese formal da new wave que começava a fermentar no underground.
O álbum é dividido entre o novo e o velho para a banda... As faixas inéditas são algumas das mais ambiciosas da carreira, vamos comentá-las uma a uma agora (e apenas dizer que as demais existem):
(i) Custard Pie: Um desfile de sujeira e sensualidade onde o slide de Jimmy Page e a gaita de Robert Plant (e uma cozinha de primeira linha) despertam o espírito do blues do delta com uma ferocidade que anuncia, logo na abertura, que o Physical Graffiti seria um banquete sem moderação.
(ii) In My Time Of Dying: Uma jornada épica de quase doze minutos em que a banda se transforma em uma congregação do blues apocalíptico, com John Bonham martelando os bumbos como pregos no caixão de um pecador (Santa levada!) enquanto Page conduz um solo de slide que parece o próprio Juízo Final (Sem quebrar o personagem do começo ao fim!) saindo dos pântanos da Louisiana.
(iii) Trampled Under Foot: O groove mais irresistível já concebido pela banda, com John Paul Jones dominando o teclado clavinet em uma linha funky que transforma o asfalto em pista de dança e Page respondendo com riffs cortantes como lâminas, provando que o Led Zeppelin (surpreendentemente) podia ser tão urbano e suado quanto qualquer máquina de soul. [Fora os intermináveis duplos sentidos entre carros e mulheres. Obviamente!]
(iv) Kashmir: Nesta que é, ao lado de Achilles Last Stand, o ponto mais alto de toda a sua discografia, o Led Zeppelin transcende os limites do rock para construir uma catedral sonora de proporções mitológicas. Jimmy Page tece em afinação DADGAD um motivo hipnótico que remonta às caravanas do deserto, enquanto John Bonham entrega a levada mais majestosa de sua carreira (obviamente minimalista!), uma marcha triunfal que parece mover montanhas. Robert Plant canta como um profeta perdido entre dunas, e a orquestração de cordas e metais, concebida pelo próprio Page (mas trazida a vida por Jones), não soa como um adorno, mas como a própria alma do Oriente Médio transposta para o estúdio. Mais do que uma música, Kashmir é um território, um estado de espírito onde a grandiosidade do rock se encontra com a eternidade.
(v) In The Light: Uma incursão ao místico que se inicia com um sintetizador de Jones soando como um alvorecer em outro planeta, desabrochando em camadas de guitarra slide que envolvem o ouvinte em um manto de introspecção transcendental, uma das composições mais corajosas e menos convencionais da banda. Outra favorita absoluta desta Castanha!
(vi) Ten Years Gone: O lirismo em sua forma mais sofisticada, com Page sobrepondo até uma dúzia de guitarras em diferentes registros para criar uma tapeçaria de nostalgia e arrependimento, enquanto Plant entrega uma das letras mais pessoais de sua carreira, transformando uma história de amor abandonado em um monumento melancólico de rara elegância.
(vii) The Wanton Song: Um choque de energia primitiva que combina um riff de guitarra em staccato com uma linha de baixo/bateria que avança como um animal enjaulado, mostrando que mesmo após anos de experimentações, o quarteto ainda sabia ser direto e agressivo como nos primeiros discos.
(viii) Sick Again: Um encerramento que celebra com ironia e peso a decadência típica dos excessos do rock, onde o riff sujo de Page e a bateria solta de Bonham ecoam a atmosfera sufocante das turnês, entregando uma última investida de sujeira e poder antes que os cortinados se fechem.
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Presence (1976)
Se 1975 foi o auge dos excessos, 1976 trouxe a ressaca. O mundo do rock mudava rapidamente com a chegada do punk, que declarava guerra então aos “dinossauros” como o Led Zeppelin. Presence foi gravado em um período conturbado, enquanto Robert Plant se recuperava do grave acidente de carro que sofrera na Grécia. Forçado a usar uma cadeira de rodas, o vocalista assistia às gravações de um canto, enquanto Jimmy Page, mergulhado em seu próprio vício, assumia as rédeas da produção com uma ferocidade desesperada. O resultado é o álbum mais direto, seco e pesado da carreira, mas também o mais anacrônico em meio à efervescência mainstream do punk e da disco. Indo além, o "peso" referido aqui não é (sejamos honestos!) o mesmo PESO dos riffs principais de Sympton of the Universe (Sabbath) e de Victim of Changes (Priest) [E existem muitos outros exemplos desse último ponto!]. Isto é, a banda já estava perigosamente ilhada aqui, neste momento, nem pop e nem de fato pesada, três anos antes do seu derradeiro (e fraquíssimo) álbum (de estúdio).
A única exceção, no sentido de ser uma canção que move a banda artisticamente para a frente, e a favorita de muitos/todos aqui, é a faixa de abertura, Achilles Last Stand. Com mais de dez minutos, é uma cavalgada mitológica, um monumento que rivaliza com Kashmir em ambição (as duas formam o topo absoluto da discografia da banda), mas com um ritmo muito mais frenético e uma musicalidade muito mais pesada. Incrível arranjo de bateria e baixo, melhor trabalho de Page na discografia (E isso não é uma afirmação nada trivial!) e um dos melhores de Plant... Outro bom momento é Nobody‘s Fault but Mine, meio que um blues reinterpretado com uma urgência quase punk, onde a gaita de Plant e o slide de Page duelam com extrema violência. Indo além, A bateria de Bonham neste disco está em um nível fantástico, mais criativa e poderosa do que nunca na carreira (Ela faz valer quase que sozinha o arredondamento da nossa recomendação para as três estrelas!). ... For Your Life, uma canção tremendamente monótona e esquecível e Tea for One, um blues lento e esparso que tenta (em vão!) recriar/recapturar a magia de Since I’ve Been Loving You, mostram uma banda marchando no mesmo lugar. O que antes era vigor e sensualidade agora soa como cansaço existencial (e as demais faixas pouco ajudam!) ... O álbum soa anacrônico não por ser frontalmente ruim, mas por ignorar completamente as revoluções sonoras que ocorriam ao seu redor. É o disco de uma banda que se isolou em seu próprio universo particular (já relativamente envelhecido!) , uma fortaleza sitiada que resistia em tocar suas próprias regras, ainda que isso significasse soar deslocada no contexto do rock pesado em franca evolução.
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In Through The Out Door (1979)
O fim da década de 1970 foi um período de caos para o rock. O punk já havia dado lugar à new wave, o disco imperava e o Led Zeppelin parecia uma relíquia de um passado distante. Lançado em agosto de 1979, In Through the Out Door é um reflexo direto dessa confusão de identidades. Com Jimmy Page muitas vezes ausente ou debilitado, a liderança criativa passou para John Paul Jones, que trouxe uma avalanche de sintetizadores e texturas que nunca haviam sido tão proeminentes na sonoridade do grupo. A capa, com seis versões diferentes em um saco de papel pardo, era uma simplória tentativa de recriar a mística do passado, mas o conteúdo revelava uma banda tentando (mesmo aos trancos e barrancos) ainda se agarrar à relevância contemporânea (e passando alguma vergonha no processo).
O disco abre com In the Evening, uma faixa que tenta resgatar a grandiosidade sombria já tentada em Presence, com um riff (aceitavelmente) pesado e uma produção atmosférica que até funciona bem (notem o registro bem mais grave da voz de Plant). Porém, dali em diante, a fragilidade se mostra presente... Fool in the Rain traz (apesar do seu belo groove principal de bateria!) eventualmente uma levada de samba e uma seção de metais que soa como uma tentativa de abraçar a música pop latina, resultando (aparentemente) em uma um tanto desesperada tentativa de obter um hit em um novo mercado. All My Love, a balada que Plant dedicou ao filho falecido, é, por sua vez, demasiadamente ingênua em termos radiofônicos, trazendo ainda mais constrangimento. Carouselambra, uma faixa de mais de dez minutos, é o exemplo mais claro da falta de liderança: um sintetizador incessante, uma linha de baixo (inegavelmente) complexa/interessante e uma letra enigmática, mas que se perde eventualmente em meio à ausência de um riff marcante de Page (fora a vergonhosa discoteca fake do final). E o que dizer da medonha Hot Dog (talvez a pior canção de toda a discografia) entre outras ofensas... O álbum soa como uma banda se esfacelando, incapaz de fazer uma ponte entre o passado pesado e/ou eclético para algum futuro minimamente coerente. Ainda assim, atingiu o primeiro lugar (em quatro países: EUA, Inglaterra, Canadá e Nova Zelândia), prova de que o nome Led Zeppelin ainda tinha um poder de fogo imenso, mesmo quando a munição criativa estava na prática esgotada. Um ano depois, a morte de Bonham enterraria qualquer chance de uma nova batalha.