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terça-feira, 23 de junho de 2026

009. Quatermass II (1957) [SCIFI]

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QUATERMASS II: ENEMY FROM SPACE (1957) [85'] [1.37:1] [★★★]

Val Guest, diretor britânico de formação versátil que transitou com igual desenvoltura pela comédia musical e pelo drama policial antes de se fixar no território da ficção científica, retorna ao comando da segunda adaptação cinematográfica das peripécias do Professor Bernard Quatermass, criação do roteirista Nigel Kneale para a televisão da BBC da época. Se no filme anterior, The Quatermass Xperiment (1955), Guest já ensaiava um tratamento documental para o horror espacial, em Quatermass II: Enemy From Space o cineasta aprofunda essa abordagem realista, expandindo o orçamento e as ambições narrativas sem jamais sacrificar a crueza visual que caracterizara a obra precursora. Enquanto a primeira aventura do cientista lidava com a contaminação alienígena de um único astronauta retornado do espaço, numa trama de inspiração gótica que (tipicamente) confinava o terror a espaços fechados e à perseguição de uma criatura em fuga, a sequência amplia o escopo para uma conspiração em escala nacional, na qual o próprio Estado britânico se revela infiltrado por uma inteligência extraterrestre. Essa mudança de escala não é meramente quantitativa: ela sinaliza uma inflexão temática decisiva na filmografia de Guest, que abandona o horror contido e claustrofóbico do primeiro longa em favor de uma parábola política de contornos nítidos, onde a ameaça vem de dentro das instituições que deveriam proteger a população. O filme se insere, assim, num momento particularmente fecundo da ficção científica dos anos 1950, quando o medo da Guerra Fria e da infiltração comunista encontrava na tela prateada uma válvula de escape e um campo de batalha simbólico. Contudo, diferentemente das produções estadunidenses que frequentemente associavam a ameaça vermelha a uma força externa e facilmente identificável, Quatermass II opta por um alvo mais sutil e mais perturbador: a própria burocracia governamental, seus mecanismos de opacidade e sua cumplicidade com forças que escapam ao controle democrático. O longa-metragem dialoga diretamente com o clima de desconfiança que se instalara no Reino Unido do pós-guerra, marcado pelo declínio irreversível da potência imperial e pela percepção de que as antigas certezas sobre a superioridade moral e institucional do Ocidente começavam a ruir. A escolha de Guest e Kneale por ambientar a trama em instalações industriais e áreas rurais britânicas, em vez dos cenários futuristas típicos do gênero, ancora o fantástico numa realidade reconhecível, potencializando o desconforto do espectador diante da possibilidade de que o inimigo já esteja entre nós, não como um soldado invasor, mas como um funcionário público de aparência inofensiva portando um estranho sinal em forma de V no corpo.

A trama de Quatermass II: Enemy From Space tem início quando o Professor Bernard Quatermass (Brian Donlevy), ainda abalado com o recente cancelamento do financiamento governamental para seu projeto de colonização lunar, toma conhecimento de relatos sobre centenas de meteoritos que têm caído numa área remota conhecida como Winnerden Flats. Acompanhado de seu assistente Marsh (Bryan Forbes), o cientista dirige-se ao local e depara-se com uma imensa planta industrial em construção, cujo projeto arquitetônico reproduz com precisão suspeita os planos de sua própria colônia na Lua. Quando Marsh manuseia um dos meteoritos, este se abre, liberando um gás que queima seu rosto e lhe deixa uma marca em forma de V. Imediatamente, guardas armados surgem das instalações, todos ostentando a mesma cicatriz, e levam Marsh sob custódia, enquanto Quatermass é agredido e forçado a deixar a área. A partir desse momento, o filme desenrola uma investigação que progressivamente revela a extensão da conspiração: os meteoritos não são fenômenos naturais, mas pequenos veículos alienígenas que transportam organismos gasosos capazes de se apoderar do sistema nervoso de suas vítimas, transformando-as em zumbis subservientes à vontade coletiva da espécie invasora. Quatermass conta com a ajuda do Inspetor Lomax (John Longden), que já o auxiliara no caso anterior, e de um membro do parlamento chamado Vincent Broadhead (Tom Chatto), que vinha tentando investigar o sigilo que envolve as operações em Winnerden Flats. Numa visita oficial à planta, Broadhead consegue se esgueirar para dentro de uma das cúpulas gigantes que dominam a paisagem, mas é encontrado por Quatermass já moribundo, coberto por uma gosma preta corrosiva, alertando-o sobre o que viu antes de expirar. Perseguido pelos guardas, o cientista foge e expõe a Lomax sua conclusão: a fábrica produz de fato alimento sintético, mas não para consumo humano – trata-se de um ambiente controlado que sustenta as pequenas criaturas alienígenas resgatadas dos meteoritos e alojadas nas cúpulas. A gravidade da situação se torna plenamente evidente quando Lomax tenta alertar seus superiores e descobre que o próprio comissário de polícia exibe a marca em V, indicando que os alienígenas já tomaram controle dos mais altos escalões do governo. Resta ao cientista e ao inspetor recorrer ao (ali disponível!) jornalista cínico Jimmy Hall (Sid James), que inicialmente duvida da história, mas aceita visitar Winnerden Flats. No centro comunitário local, os trabalhadores da construção civil, irlandeses na sua maioria, recebem os visitantes com hostilidade, pois estão bem pagos e instruídos a não fazer perguntas sobre o que constroem. O clima muda drasticamente quando um meteorito atravessa o telhado do edifício, ferindo e infectando a jovem Sheila (Vera Day). Os guardas da planta invadem o local e matam Hall a tiros enquanto ele tenta telefonar para seu jornal. Este assassinato brutal, testemunhado pelos trabalhadores, funciona como a gota d'água que transforma a passividade dos operários em revolta: eles formam uma multidão que marcha sobre o complexo industrial, invadindo seus portões ao lado de Quatermass e Lomax. Uma vez dentro, parte do grupo se entrincheira na sala de controle da planta, e Quatermass postula que a atmosfera terrestre é venenosa para os alienígenas. Ele então sabota o sistema de suporte de vida das cúpulas, bombeando oxigênio puro para o interior, o que sufoca as criaturas. Simultaneamente, seu assistente Brand (William Franklyn), que permanecera na base de foguetes, consegue lançar um segundo foguete (agora com propulsão atômica!) em direção ao asteroide próximo à Terra que serve (tudo indica!) como base dos invasores. A destruição do asteroide e a exposição das criaturas à atmosfera terrestre faz com que elas se combinem em massas gigantescas de cento e cinquenta pés de altura (ou algo assim!), que irrompem das cúpulas apenas para daí colapsarem e morrerem. As marcas em V desaparecem dos humanos controlados, que não guardam memória do que ocorreu. A conclusão do filme, no entanto, é deliberadamente ambígua: enquanto Lomax se pergunta como redigirá um relatório final crível sobre os acontecimentos, Quatermass questiona se esse relatório será realmente o último, deixando pairar a inquietante possibilidade de que a ameaça não tenha sido totalmente erradicada... Os conflitos dos personagens principais são igualmente elucidativos: Quatermass, o cientista racional, vê-se confrontado com uma burocracia que se recusa a ouvir a verdade, e sua luta é tanto contra os alienígenas quanto contra a inércia e a cumplicidade das autoridades; Lomax, o policial metódico, precisa conciliar seu dever institucional com a descoberta de que sua própria hierarquia está comprometida; e os trabalhadores da planta, figura central da crítica social do filme, encarnam a alienação do homem comum diante de forças que não compreendem, sendo manipulados tanto pelos alienígenas quanto pelos governantes que deveriam protegê-los, e sua adesão final à revolta representa a única via de ação possível quando as instituições falham.

A realização técnica de Quatermass II: Enemy From Space constitui um dos seus maiores ativos, e é nesse terreno que a assinatura de Val Guest se manifesta com maior clareza... O diretor, que vinha do cinema documental e do thriller realista, aplica à ficção científica um tratamento visual deliberadamente despojado, que recusa os exageros expressionistas típicos do gênero na década de 1950 em favor de uma crueza quase jornalística... A fotografia de Gerald Gibbs, em preto e branco, explora com maestria os contrastes entre luz e sombra, criando uma atmosfera opressiva que acompanha a progressão da trama. Gibbs faz uso extensivo da técnica de dia para noite, fotografando cenas diurnas com subexposição para simular a escuridão noturna, o que confere às sequências externas uma textura granulada e inquietante. As cenas noturnas em Winnerden Flats, com as silhuetas das cúpulas industriais recortadas contra um céu pesado, evocam uma paisagem pós-industrial de sonho febril, onde o progresso tecnológico se confunde com a monstruosidade. A escolha de filmar em locações reais – incluindo a refinaria de Shell Haven em Essex, que serviu de cenário para o complexo alienígena – e não em estúdios, reforça o realismo documental que Guest buscava. As cenas de ação, em particular a invasão da fábrica pelos trabalhadores e o tiroteio subsequente, são filmadas com câmera na mão, num estilo extremamente verossímil... A montagem de James Needs é ágil e funcional, mantendo o ritmo da narrativa sem jamais se render ao melodrama, e as transições entre os ambientes fechados do laboratório de Quatermass e os espaços abertos e industriais da planta são costuradas com precisão cirúrgica... A trilha sonora de James Bernard, um dos compositores mais associados à Hammer, é um elemento à parte nesse dispositivo audiovisual. Bernard, que mais tarde se tornaria célebre por suas partituras para os filmes de horror gótico do estúdio, compõe para Quatermass II uma música que oscila entre o suspense eletrônico e o romantismo sombrio, com momentos de intensidade quase insuportável, como na cena em que as criaturas gigantes emergem das cúpulas. Cabe notar, no entanto, que em certos trechos a música se sobrepõe aos diálogos, num desequilíbrio de mixagem que talvez reflita as limitações orçamentárias da produção... As atuações, por sua vez, são uniformemente competentes, com destaque para Brian Donlevy, que reprisa o papel de Quatermass com uma segurança (um pouco mais serena aqui!) que faltara no filme anterior. Donlevy, ator americano de voz grave e presença imponente, traz agora ao cientista uma combinação de autoritarismo intelectual e vulnerabilidade física que o torna mais humano: ele não é mais apenas o homem que berra ordens, mas alguém que corre, se esconde, atira e é repetidamente (!) ignorado pelas autoridades, mas persevera mesmo assim. Sid James, conhecido por seus papéis cômicos, surpreende como o jornalista Jimmy Hall, trazendo um alívio cínico e tragicamente interrompido à narrativa. John Longden, substituindo Jack Warner (do filme anterior) no papel de Lomax, oferece uma performance contida de policial burocrático que gradualmente desperta para a magnitude do perigo... O conjunto de atores coadjuvantes, muitos deles figuras habituais do elenco da Hammer, como Michael Ripper, contribui para a textura de um mundo onde ninguém é totalmente confiável, e onde a linha entre vítima e cúmplice se dissolve na indiferença burocrática. É precisamente nesse ponto que a linguagem audiovisual do filme encontra sua função mais poderosa: ao tratar o fantástico com a sobriedade de um documentário, Guest e Gibbs transformam a alegoria em denúncia, e a fábrica de Winnerden Flats, com suas cúpulas e seus guardas de marca em V, deixa de ser apenas um cenário de ficção científica para se tornar a imagem de um Estado que se tornou estranho a si mesmo.

Ao chegar ao seu desfecho, Quatermass II: Enemy From Space apresenta um veredicto sombrio sobre os temas que mobilizou ao longo de sua projeção. O filme não oferece a catarse típica do cinema de aventura espacial, na qual o herói triunfa e a ordem é restaurada; em vez disso, Guest e Kneale constroem uma conclusão que é, ao mesmo tempo, vitoriosa e profundamente ambígua. Os alienígenas são derrotados, as marcas em V desaparecem e os controlados recuperam a consciência, mas a pergunta final de Quatermass – sobre se aquele relatório será realmente o último – ecoa como um aviso de que a burocracia que encobriu a invasão continua intacta, pronta para abrigar a próxima ameaça que surgir. Os personagens principais, cada um a seu modo, sofrem transformações que confirmam a crítica central do longa: Quatermass, que começara como o cientista frustrado por um governo que não ouve a razão, termina como o herói que precisa agir à margem da lei, porque a lei já foi subvertida; Lomax, o representante da ordem, descobre que sua própria instituição está podre e que sua lealdade deve ser à verdade, não à hierarquia; e os trabalhadores da planta, símbolo da alienação proletária, só encontram agência quando a violência direta se torna a única linguagem compreensível diante do assassinato de um dos seus. O filme, assim, se alinha com uma tradição do cinema de ficção científica britânico que recusa o otimismo tecnológico americano em favor de uma desconfiança profunda em relação ao progresso e às instituições que o gerem. Val Guest, com este longa, consolida sua posição como um dos diretores mais politicamente engajados do gênero na década de 1950, ainda que seu engajamento se manifeste de forma indireta, através da escolha de cenários, da austeridade visual e da construção de personagens que são menos heróis do que sobreviventes de um sistema que os traiu. O legado de Quatermass II é, por isso mesmo, duradouro e multifacetado. Ele não apenas estabeleceu um padrão para o tratamento realista da ficção científica no cinema britânico, influenciando diretamente obras posteriores como The Day the Earth Caught Fire (1961), também dirigido por Guest, mas também antecipou em vários aspectos a estética do suspense conspiratório que dominaria o cinema das décadas seguintes. A ideia de que o inimigo não vem de fora, mas já está instalado nos corredores do poder, encontraria eco em filmes tão diversos quanto The Manchurian Candidate (1962) e, mais tarde, na prolífica safra de thrillers políticos dos anos 1970. No âmbito estritamente do gênero, a imagem dos meteoritos como veículos de infiltração e a noção de controle mental atestado por meio de marcas físicas seriam retomadas e reelaboradas em incontáveis produções de ficção científica, desde a série de televisão Doctor Who até o cinema de invasão corporal que floresceria nas décadas seguintes (Isso sem falar na série "V"!).

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A influência de Quatermass II: Enemy From Space, no entanto, não se restringe ao seu próprio tempo, nem se limita às fronteiras do cinema britânico. O longa-metragem de Val Guest deve muito, em sua concepção original, ao serial televisivo de Nigel Kneale exibido pela BBC em 1955, que por si só já representava um marco na história da ficção científica televisionada. Kneale, ao criar a narrativa de uma invasão alienígena que se aproveita da estrutura burocrática do Estado para se disseminar, estava respondendo a ansiedades profundamente enraizadas na cultura britânica do pós-guerra: o medo da tecnologia nuclear, o desconforto com a industrialização desenfreada e a percepção de que o Império Britânico, outrora onipotente, se via agora reduzido a uma potência secundária na ordem mundial dominada pelos Estados Unidos e pela União Soviética. A adaptação cinematográfica, ao condensar e modificar o desfecho do serial – substituindo a viagem de Quatermass ao espaço por um ataque não tripulado e mais realista à base alienígena –, acabou por criar uma obra que, embora fiel ao espírito de Kneale, adquiriu personalidade própria. Essa operação de transposição de mídia, da televisão ao cinema, é por si só um objeto de interesse para a história do gênero, pois demonstra como as narrativas de ficção científica, num período de rápida transformação tecnológica dos meios de comunicação, migravam e se adaptavam a diferentes formatos, ganhando novas camadas de significado. O filme, por sua vez, influenciou uma geração de realizadores que viam na Hammer não apenas uma fábrica de horrores góticos, mas também um laboratório de ideias para a ficção científica socialmente consciente. É possível traçar uma linha direta de Quatermass II a obras posteriores como o já mencionado The Day the Earth Caught Fire, no qual Guest novamente utiliza o formato de quase-documentário para discutir o desastre nuclear, e até mesmo a produções contemporâneas como a série The X-Files, cujo tom de conspiração governamental e invasão silenciosa deve muito (!) à matriz estabelecida por Kneale e Guest. Mais amplamente, o filme se insere numa tradição da ficção científica que utiliza o fantástico não como escapismo, mas como lente para examinar as contradições do presente – uma tradição que inclui desde os primeiros trabalhos de H.G. Wells até as distopias cinematográficas do final do século XX. Ao celebrarmos Quatermass II: Enemy From Space, celebramos, portanto, não apenas um filme notável de um estúdio lendário, mas um elo essencial numa corrente que conecta o medo da guerra atômica dos anos 1950 às ansiedades sobre vigilância e controle do século XXI. A obra de Guest permanece como um testemunho da capacidade do gênero de transformar o terror cósmico em crítica social, e de fazer do desconhecido – seja ele um alienígena de outro mundo ou um funcionário público de marca suspeita – o espelho de nossas próprias fragilidades institucionais. Que outros filmes, em outras épocas, continuem a explorar esse território fértil onde a ficção científica encontra a política, e onde a imaginação, longe de ser um mero divertimento, se torna um instrumento indispensável para compreender o mundo que habitamos. O legado de Quatermass, afinal, não é apenas o de um cientista fictício que salvou a Terra algumas vezes, mas o de uma narrativa que nos lembra, com inquietante persistência, que o maior perigo para a humanidade pode não vir das estrelas, mas sim das salas fechadas de reunião onde de fato se decidem nossos destinos.

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domingo, 24 de maio de 2026

005. The Quatermass Xperiment (1955) [SCIFI]

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005. THE QUATERMASS XPERIMENT (1955) [82'] [1.37:1] [***]

A filmografia do diretor Val Guest, antes de 1955, era povoada por comédias ligeiras e thrillers modestos, um artesão competente que ainda não encontrara um veículo para imprimir a sua verdadeira assinatura autoral. The Quatermass Xperiment representou uma ruptura sísmica nessa trajetória, sendo o primeiro mergulho de Guest, que ainda dirigiria a sua continuação, Quatermass II de 1957, no território da ficção científica e do horror. Esses dois longas  foram, ao lado da obra distópica posterior The Day the Earth Caught Fire (1961), os principais definidores do legado do cineasta. A diferença fundamental reside no abandono do tom jocoso de seus trabalhos pregressos em favor de uma gravidade quase documental, uma seriedade de propósito que beira o cruel (!). Ao mesmo tempo, o filme reforça um viés autoral que se tornaria a marca registrada de Guest: a habilidade de ancorar o fantástico em uma realidade prosaica e recognoscível, utilizando cenários cotidianos e uma abordagem visual despojada para tornar o inacreditável absolutamente verossímil. Ele filma a invasão de uma fazenda inglesa por um foguete espacial com a mesma objetividade com que filmaria a investigação de um crime comum, e é justamente essa colisão entre o ordinário e o extraordinário que confere ao longa sua potência perturbadora... Lançado em 1955, o filme se insere em um mundo ainda convalescente dos traumas da Segunda Guerra Mundial e já imerso nas ansiedades da Guerra Fria. A imagem de um foguete que retorna à Terra trazendo consigo uma ameaça invisível e corruptora era uma metáfora quase transparente para os temores nucleares e bacteriológicos da época, para o medo da contaminação ideológica que infiltrava as sociedades ocidentais. A própria figura do Professor Bernard Quatermass, um cientista civil que comanda um programa espacial com recursos privados e alheio aos controles governamentais, refletia a ambiguidade moral com que a figura do cientista passou a ser encarada após Hiroshima (veja também Godzilla de 1954 sobre esse mesmo tema entre tantos outros): um gênio criador cuja hybris ameaça a própria civilização. A narrativa, ambientada em uma Londres ainda marcada pelas cicatrizes dos bombardeios, captura uma atmosfera de vulnerabilidade e paranóia coletiva que ecoava tanto o imaginário das invasões alienígenas de H.G. Wells quanto o medo contemporâneo de um apocalipse silencioso e invisível, urdido não por exércitos, mas por esporos e mutações. O filme de Guest capturou essa essência ao transformar o corpo humano no campo de batalha final, um microcosmo da luta pela sobrevivência da espécie.

A trama se inicia com o retorno catastrófico da primeira missão espacial tripulada (orbitar a terra em um veículo mono estágio), idealizada pelo Professor Bernard Quatermass (Brian Donlevy). O foguete, que perdera contato com a base, cai em uma propriedade rural inglesa. As equipes de resgate, lideradas pelo próprio Quatermass e pelo pragmático Inspetor Lomax (Jack Warner) da Scotland Yard, descobrem que dos três tripulantes, apenas Victor Carroon (Richard Wordsworth) permanece a bordo, em estado de choque e incapaz de se comunicar. Seus dois colegas simplesmente desapareceram, deixando apenas os seus trajes espaciais vazios. Conduzido a um hospital sob vigilância, Carroon (que mais tarde descobrimos que foi contatado e possuído por alguma forma de vida alienígena não corpórea em sua missão, mesma entidade que eliminou os corpos dos outros dois tripulantes) começa a manifestar uma transformação aterradora: sua estrutura óssea se liquefaz lentamente, suas digitais desaparecem e seu corpo se converte progressivamente em uma massa vegetal que assimila a energia vital e talvez algo mais de toda forma de vida que toca. A pedido da sua esposa Judith (Margia Dean), um falso enfermeiro (que eventualmente é morto pelo próprio astronauta assimilado!) facilita a fuga de Carroon, dando início a uma caçada desesperada pelas ruas e canais de Londres. Nesse percurso, a criatura que Carroon se torna deixa um rastro de morte: absorve um químico industrial em uma farmácia, dizima a fauna de um zoológico e tem um encontro de terrível inocência com uma menina (Jane Asher) à beira de um canal, cena que ecoa o encontro do monstro de Frankenstein com a pequena Maria (das produções da Universal). Quatermass, auxiliado por seu assistente Dr. Gordon Briscoe (David King-Wood), analisa amostras da criatura e compreende a extensão da ameaça: o organismo alienígena está se reproduzindo por esporos e, se completar seu ciclo, libertará uma nuvem de sementes que dizimará eventualmente toda a vida nativa na Terra... O palco do confronto final é a famosa Abadia de Westminster, onde a criatura se revela em sua forma final: uma monstruosidade híbrida de diversas formas de vida por ela atingidas, com tentáculos (!) e matéria vegetal pulsante. Ali, no interior do templo gótico durante uma transmissão televisiva ao vivo sobre a história da sua arquitetura (!!), o horror é exposto em rede nacional antes que Quatermass consiga finalmente eletrocutar o alienígena, reduzindo-o a uma poça de protoplasma fumegante... O filme articula com maestria o tema da desumanização progressiva e da perda da identidade, expressos na transformação muda e agonizante de Carroon, que passa de vítima a vetor de uma ameaça apocalíptica sem jamais pronunciar uma palavra... O conflito central de Quatermass é a tensão entre a responsabilidade moral do cientista e sua obsessão pelo avanço do conhecimento, uma ambivalência que Donlevy traduz em uma atuação brusca e autoritária, distante da empatia que se esperaria de um herói convencional (mas que funciona para o contexto do filme e da época)... O personagem de Lomax, por sua vez, ancora o filme na lógica dos procedimentos policiais, oferecendo um contraponto cético e metódico ao arroubo visionário do professor, enquanto a personagem de Judith personifica o afeto impotente diante do inexorável.

Val Guest, operando com um orçamento de apenas quarenta e duas mil libras da época, extrai o máximo de cada elemento da linguagem cinematográfica para construir uma atmosfera de pavor crescente. A direção adota um registro que flerta com o semidocumental, herdeiro do neorrealismo italiano e do cinema de guerra britânico, com câmeras que se movem nervosamente pelos cenários reais, capturando a ação como se fossem cinejornais de uma tragédia em curso. Essa escolha estilística confere à narrativa uma credibilidade que amplifica o horror: a mutação de Carroon não é filmada como fantasia, mas como um fato clínico aterrador... A fotografia em preto e branco de Walter J. Harvey, rica em contrastes expressionistas, transforma as paisagens industriais de Londres e os interiores claustrofóbicos do hospital em espaços de pesadelo, onde as sombras sugerem mais do que revelam. A sequência noturna no zoológico, com as grades das jaulas projetando padrões sobre o rosto desfigurado de Wordsworth, é um exemplo primoroso de como a iluminação pode externalizar a prisão ontológica do personagem... A montagem de James Needs, econômica e precisa, alterna entre o olhar institucional da caçada policial e os momentos de solidão aterradora da criatura, criando um ritmo que jamais permite ao espectador recuperar o fôlego... A trilha sonora de James Bernard, em sua estreia no cinema, já anuncia o talento que se consagraria nos Dráculas da Hammer: cordas em glissandos inquietantes, metais que irrompem em dissonâncias e um tema principal que mescla grandiosidade marcial com algo profundamente errado, como um hino nacional corrompido por uma biologia alienígena... As atuações, embora desiguais em efetividade, contribuem para o efeito geral. Brian Donlevy impõe um Quatermass antipático e monomaníaco, cuja frieza beira a desumanidade, uma escolha arriscada que distancia o público da figura do herói e reforça a complexidade moral do cientista (mas definitivamente algo funcional no contexto). Jack Warner oferece a solidez de um profissional experiente, enquanto Margia Dean soa deslocada em seu papel (infelizmente!). Mas o coração trágico do filme reside em um estupendo Richard Wordsworth, cuja performance física e sem palavras é uma aula de expressão corporal: ele encena a dissolução da consciência humana com uma economia de gestos que evoca desde o cinema mudo expressionista até as vanguardas teatrais, seus olhos comunicando o terror de uma alma que sente estar sendo apagada e substituída por algo absolutamente outro... A maquiagem de Phil Leakey, aplicada em estágios sobre o rosto anguloso de Wordsworth, complementa aquela atuação com uma progressão de deformidades que culmina em uma das imagens mais perturbadoras do cinema de ficção científica: um braço que se converte em um cacto grotesco, unindo o horror corporal ao horror vegetal.

O veredicto final de The Quatermass Xperiment, dirigido por Val Guest, sobre seus temas e personagens é de uma ambiguidade radical. O mal não é derrotado pela virtude heroica ou pela engenhosidade pura, mas por um ato de força bruta, uma eletrocussão que elimina a criatura sem jamais compreendê-la verdadeiramente... Quatermass, ao final, não é redimido; ele simplesmente retorna ao trabalho, inabalável em sua determinação de construir um novo foguete e repetir o experimento, como se a catástrofe que ceifou várias vidas e quase aniquilou a humanidade fosse apenas um contratempo técnico. Essa recusa do filme em oferecer uma catarse confortável é uma das suas maiores virtudes, alinhando-o com uma tradição de ficção científica adulta que interroga os limites da ciência sem fornecer respostas fáceis (aqui o fazendo de forma radical, inspiradora e brutal!)... Victor Carroon, o astronauta sem voz, é um mártir sem consolo, sua humanidade suprimida tanto pela entidade alienígena quanto pela frieza calculista daqueles que deveriam protegê-lo... O impacto do filme na obra de Guest foi profundo: ele o estabeleceu como um diretor capaz de transitar entre o cinema de gênero e as grandes questões filosóficas, abrindo caminho para a sua potente obra distópica The Day the Earth Caught Fire (1961) e para a sofisticação narrativa de (sim uma continuação direta deste!) Quatermass II (1957) ... Para a Hammer Film Productions, o êxito comercial e crítico do filme representou o divisor de águas que redirecionou o estúdio do melodrama e do suspense tradicional para o horror gótico que o imortalizaria mundialmente, com as suas icônicas versões de Frankenstein e Drácula estreladas pelos mestres Peter Cushing e Christopher Lee... O legado do filme em si transcendeu seu contexto imediato. Ele demonstrou que a ficção científica cinematográfica britânica poderia ser tão impactante quanto a americana, não por meio de grandes orçamentos e efeitos mirabolantes, mas através da força das ideias, da construção atmosférica e da ousadia em abordar temas adultos, como a deterioração do corpo e a ameaça existencial que dispensa exércitos e naves-mãe.

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A herança genética de The Quatermass Xperiment é vasta e ramificada, tecendo uma teia de influências que conecta diferentes épocas e mídias... Seu DNA narrativo, que combina terror cósmico, terror corporal e um terror vegetal assimilador na linha dos esporos de The Thing from Another World (1951) e das vagens de Invasion of the Body Snatchers (1956), pode ser rastreado em obras seminais como Alien (1979), de Ridley Scott, e The Thing (1982), de John Carpenter, esse último diretor um admirador confesso que utilizou o pseudônimo Martin Quatermass em Prince of Darkness (1987) [não listado aqui], filme cuja criatura mutante deve muito ao monstro eletrocutado na Abadia de Westminster no presente longa... A própria ideia de um cientista-investigador enfrentando ameaças alienígenas em tons sombrios (e se considerarmos a adequação etária) ecoa diretamente na série Doctor Who, cuja dívida para com a criação de Nigel Kneale é amplamente reconhecida, ao mesmo tempo que o conceito de uma entidade com tantos e tão ricos (estética e tematicamente) estágios de desenvolvimento antecipa até mesmo os horrores de filmes como The Blob e The Fly em todas as suas versões, entre tantos outros exemplos possíveis [como o próprio The Fly (1986) de David Cronenberg]... O Escritor Stephen King dedicou páginas de seu livro (um livro de não ficção que na realidade é uma celebração pessoal do gênero Terror) Danse Macabre (1981) a analisar o impacto do filme sobre sua imaginação, e a influência do longa pode ser sentida em suas obras como em The Tommyknockers (1987)... O caminho que conduz de The Quatermass Xperiment a esses monumentos do cinema e da literatura fantástica é o testemunho de como uma produção modesta, enraizada nas ansiedades específicas da Grã-Bretanha do pós-guerra, pode destilar arquétipos e temores universais que reverberam através das gerações. É uma celebração do gênero em sua mais pura essência: a capacidade de, com recursos limitados e uma ideia poderosa, criar mundos, pesadelos e questionamentos que se alojam no imaginário coletivo e inspiram outros artistas a explorar as infinitas possibilidades da ficção especulativa, seja nos confins do espaço, nas profundezas do corpo humano ou mesmo no silêncio de uma mente que se desfaz.

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A saga audiovisual do Professor Bernard Quatermass, concebida pela mente visionária de Nigel Kneale, desdobrou-se ao longo de vinte e seis anos em quatro minisséries televisivas e três adaptações para o cinema, constituindo um dos mais notáveis ciclos de ficção científica adulta já produzidos... A jornada iniciou-se em 18 de julho de 1953, quando a BBC Television transmitiu ao vivo, a partir do Alexandra Palace, The Quatermass Experiment, uma minissérie em seis episódios protagonizada por Reginald Tate. A trama apresentava o primeiro voo tripulado do Grupo Experimental Britânico de Foguetes, cujo retorno à Terra trazia apenas o astronauta Victor Carroon (Duncan Lamont) a bordo, enquanto uma entidade alienígena começava a consumi-lo e a transformá-lo em uma ameaça vegetal. A produção, dirigida por Rudolph Cartier e com trilha incidental de Mars, Bringer of War de Gustav Holst, foi a primeira obra de ficção científica escrita para o público adulto na televisão britânica e causou comoção nacional, inspirando eventualmente séries como Doctor Who e influenciando de Alien a TheThing ente outros. Apenas dois dos seis episódios originais sobreviveram nos arquivos, pois as transmissões ao vivo não eram integralmente registradas na época... Dois anos depois, entre 22 de outubro e 26 de novembro de 1955, a BBC exibiu Quatermass II, novamente com direção de Cartier e seis episódios de meia hora. Uma tragédia marcou a produção: Reginald Tate, o Quatermass original, faleceu subitamente em 23 de agosto de 1955, sendo substituído por John Robinson. A narrativa introduziu uma conspiração de infiltração alienígena no governo britânico, relacionada a estranhas chuvas de meteoritos e uma sinistra instalação industrial que produzia um alimento sintético utilizado para sustentar os alienígenas em nossa atmosfera. O próprio Quatermass, desta vez, precisou usar seu instável protótipo de foguete nuclear, que causara um desastre na Austrália, para destruir a ameaça extraterrestre. Esta foi a primeira minissérie da série a sobreviver integralmente nos arquivos da BBC, e sua alegoria sobre os efeitos desumanizadores da industrialização e da corrupção governamental pelo grande capital foi amplamente elogiada... O terceiro capítulo televisivo, Quatermass and the Pit, foi ao ar entre 22 de dezembro de 1958 e 26 de janeiro de 1959, novamente em seis episódios ao vivo sob a batuta de Cartier. Com agora André Morell no papel do professor, a história escavava fundo nas origens da humanidade: obras de expansão do metrô de Londres, em Knightsbridge, descobriam um crânio pré-humano e, posteriormente, uma nave marciana enterrada por cinco milhões de anos. A nave, que a princípio se acreditou ser uma bomba não detonada da Segunda Guerra, emanava uma influência psíquica maligna, revelando que os alienígenas haviam modificado geneticamente os hominídeos primitivos, legando à humanidade uma propensão à guerra e ao conflito racial. A produção, com trilha original de Trevor Duncan, foi considerada pelo British Film Institute como um dos cem maiores programas da televisão britânica e influenciou diretamente a obra do escritor Stephen King e a obra do cineasta John Carpenter... Após um hiato de vinte anos, Kneale retomou o personagem em Quatermass, também conhecida como Quatermass IV ou The Quatermass Conclusion em seu lançamento cinematográfico internacional. Produzida pela Euston Films para a Thames Television e exibida na rede ITV entre 24 de outubro e 14 de novembro de 1979, a minissérie em quatro episódios de cinquenta e quatro minutos trazia um John Mills idoso no papel de um Quatermass desacreditado, vivendo em uma Inglaterra distópica assolada por gangues juvenis e combates de gladiadores televisionados. O cientista investigava o desaparecimento de sua neta Hettie e de milhares de jovens atraídos por um culto chamado Planet People, que se reunia em sítios pré-históricos acreditando que seriam transportados para um mundo melhor, mas que na verdade estavam sendo ceifados por uma força alienígena. A produção, dirigida por Piers Haggard e influenciada pelo movimento hippie e pelas tensões geopolíticas da década de 1970, recebeu uma versão condensada de 102 minutos para os cinemas... Complementando a cronologia na TV: em 2005, a BBC Four encenou uma recriação ao vivo de The Quatermass Experiment, com Jason Flemyng no papel-título, David Tennant como Briscoe e Andrew Tiernan como o astronauta Carroon, transmitida diretamente dos estúdios de Wimbledon, celebrando o legado perene da criação de Kneale. 

Paralelamente, a trilogia cinematográfica da Hammer Film Productions expandiu o alcance dos três primeiros itens da franquia (adaptando-os)... The Quatermass Xperiment, dirigido por Val Guest e lançado em 28 de setembro de 1955 com Brian Donlevy como Quatermass, adaptou a primeira minissérie com um orçamento de quarenta e duas mil libras, inaugurando a era de horror gótico do estúdio... Quatermass 2, novamente com Guest e Donlevy, estreou em 1957 e entrou para a história como o primeiro filme sequencial a utilizar o numeral dois no título... Finalmente, lançado em 9 de novembro de 1967, Roy Ward Baker dirigiu Andrew Keir em Quatermass and the Pit, o capítulo cinematográfico mais aclamado da trilogia, que condensou os respectivos seis episódios televisivos em noventa e sete minutos de horror arqueológico e especulação cósmica, com um orçamento de duzentas e setenta e cinco mil libras. Esta foi a única adaptação a contar com a aprovação irrestrita de Kneale, que detestara a escalação de Donlevy como um Quatermass brutal e monossilábico nos dois primeiros filmes. 

O ciclo completo, portanto, não apenas definiu os parâmetros da ficção científica adulta na televisão e no cinema britânicos, mas também demonstrou a extraordinária capacidade de Nigel Kneale de reinventar seu protagonista e seus temas ao sabor das angústias de cada época: o medo atômico e a paranoia da Guerra Fria nos anos cinquenta, a desconfiança nas instituições e o horror das raízes ocultas da violência humana nos anos sessenta, e a desintegração social e o desespero geracional no crepúsculo dos anos setenta.

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