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(1950-1960: PRIMEIRA FASE DOS FILMES SCIFI)
FILMES DE 001 A 010 AQUI
A década de 1950 inaugurou no cinema de ficção científica uma era de maturidade temática e formal que encontrou no medo da Guerra Fria o seu combustível mais potente. A revisão crítica que iniciamos com os dez primeiros filmes desta lista não se limitou a catalogar obras que já conquistaram o desafio do tempo, mas sim a desenhar um mapa da ansiedade humana diante do apocalipse atômico e da perda de centralidade no cosmos... O ponto de partida, The Thing from Another World (1951), de Christian Nyby (com a sombra tutelar de Howard Hawks), estabeleceu o paradigma do invasor vindo dos céus, um ser de corpo vegetal e inteligência letal que devia ser combatido com a união de militares e cientistas, capturando a paranoia de uma América recém-saída da guerra e já imersa na suspeita contra o outro... Poucos meses depois, Robert Wise ofereceu uma antítese radical com The Day the Earth Stood Still (1951), substituindo o monstro sanguinário por um emissário interestelar chamado Klaatu, cuja advertência pacifista invertia a lógica belicista: a verdadeira ameaça não vinha das estrelas, mas da incapacidade humana de superar o tribalismo e a violência. Juntos, esses dois filmes de 1951 já anunciavam os limites do espectro completo sobre o qual a ficção científica da década se debruçaria: o medo do ataque externo e o temor de que a humanidade fosse seu próprio algoz.
Em 1953, The War of the Worlds, dirigido por Byron Haskin e produzido por George Pal, levou essa dualidade ao paroxismo do espetáculo tecnológico. Adaptando H.G. Wells para a paisagem suburbana da Califórnia, Haskin substituiu os tripés vitorianos por máquinas voadoras pairando sobre cidades americanas, cujas armas de calor reduziam tanques e aviões a cinzas com a mesma indiferença com que a guerra nuclear vaporizara Hiroshima. O filme condensou em suas sequências mais aterrorizantes a impotência do poderio militar: o exército atira, os mísseis são lançados, até a bomba atômica é detonada sobre os invasores, e tudo falha, revelando que a única salvação viria de um acidente biológico, os microrganismos terrestres para os quais os marcianos não tinham defesa. Essa resolução irônica, que devolvia ao planeta uma vitória involuntária, carregava um pessimismo profundo sobre a arrogância científica humana, ecoando a desconfiança que os testes nucleares no Pacífico já despertavam na opinião pública. A recusa do Pentágono em colaborar com a produção, por considerar que a representação de um exército derrotado equivalia a uma admissão de fraqueza ante o comunismo, apenas sublinhou o quanto o filme tocava em nervos expostos. Mais do que um mero filme de monstro, The War of the Worlds serviu como um prelúdio grandioso para as metáforas atômicas que viriam, preparando o público para a chegada de Godzilla no ano seguinte, que levaria essa mesma angústia para o outro lado do Pacífico com uma potência alegórica ainda mais visceral e trágica.
A escalada da corrida armamentista e os testes nucleares no Pacífico encontraram em Godzilla (1954), de Ishirô Honda [e um dos "dois corações" desta nossa primeira fase], a sua mais devastadora transfiguração artística. Mais do que um filme de monstro, a obra de Honda é um réquiem visual pelo Japão pós-Hiroshima, uma nação que via o terror atômico reavivado pelo incidente do Lucky Dragon 5, e o diretor, veterano de guerra, canalizou essa dor coletiva em uma metáfora multifacetada onde o réptil radioativo era ao mesmo tempo a bomba, a hybris científica e a natureza vingativa contra a arrogância humana... Em contraponto a essa dimensão trágica e oriental, o cinema britânico, com The Quatermass Xperiment (1955) e Quatermass II (1957), ambos dirigidos por Val Guest, trouxe uma abordagem documental e realista, ancorando o horror espacial em cenários prosaicos e na figura do cientista ambíguo, cuja hybris (ao seu modo) ameaçava/salvava a civilização... Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Invasion of the Body Snatchers (1956), de Don Siegel, transformava a paranóia macarthista em uma alegoria perturbadora sobre a perda da individualidade e a invasão silenciosa do conformismo, um filme que os próprios criadores insistiram não ser político, mas que se tornou um documento involuntário e poderoso de sua época... E, como se o gênero buscasse constantemente elevar sua ambição intelectual, Forbidden Planet (1956), de Fred M. Wilcox [e o nosso "outro coração" aqui], surgiu como um oásis de sofisticação, substituindo as ameaças externas por um mergulho nas cavernas do inconsciente freudiano, onde o verdadeiro monstro era o id do Dr. Morbius, materializado por uma tecnologia alienígena incompreendida.
O final dos anos 1950 aprofundou essa tendência de interiorização do terror, e The Incredible Shrinking Man (1957), de Jack Arnold, com roteiro de Richard Matheson, levou a ficção científica para o território mais íntimo e desolador: o próprio corpo do protagonista. O encolhimento progressivo de Scott Carey, desencadeado por uma névoa radioativa, não era apenas uma alegoria do pânico nuclear, mas uma tragédia doméstica e pessoal sobre a dissolução do casamento, da carreira e da própria humanidade diante de forças cósmicas indiferentes... A mesma vertente britânica que Val Guest inaugurara encontrou em Quatermass II uma expansão da conspiração para escala nacional, onde o Estado britânico se revelava infiltrado por uma inteligência extraterrestre, uma parábola política sobre a opacidade burocrática e a cumplicidade das instituições que deveriam proteger a população... E, fechando este primeiro ciclo com chave de ouro, Village of the Damned (1960), de Wolf Rilla, levou ao extremo a ideia de que o inimigo poderia estar dentro de casa, utilizando os ventres das mulheres inglesas como incubadoras para uma prole de olhos prateados e inteligência inumana, um reflexo distorcido das ansiedades de uma nação que via seus valores tradicionais sendo questionados por forças que não compreendia [Notem as referências dos três últimos filmes a: indivíduo , família e Estado]... Esses dez filmes, que cobrem de 1951 a 1960, não apenas definiram os arquétipos do gênero, mas também provaram que a ficção científica era o veículo mais poderoso para o cinema pensar a si mesmo e ao seu tempo, um legado que agora se prepara para ser expandido e subvertido na segunda fase desta jornada.
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