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segunda-feira, 9 de março de 2026

QUEENSRYCHE (1983-1994)

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ÁLBUNS

01 (1983) Queensrÿche - EP  [***]
02 (1984) The Warning [***1/2]
03 (1986) Rage for Order  [****]
04 (1988) Operation: Mindcrime [****]
05 (1990) Empire [***1/2]
06 (1994) Promised Land [***1/2]

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PESSOAL

Chris DeGarmo – guitarras etc.
Geoff Tate – vocais etc.
Scott Rockenfield – bateria & percussão etc.
Michael Wilton – guitarras etc.
Eddie Jackson – baixos etc.

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Uma Jornada Sônica de 1983 a 1994: A Ascensão e Reinado do Queensrÿche

Tudo começou não com um estrondo, mas com um assobio acidental. Em 1982, em um estúdio de Redmond, o vocalista Geoff Tate, ainda apenas um músico convidado, apagou as luzes e acendeu uma vela para entrar no clima da balada The Lady Wore Black. Enquanto a guitarra introdutória soava, ele assobiou junto, sem saber que os microfones estavam gravando. Esse momento de puro acaso, mantido na fita por soar "legal", tornou-se a porta de entrada para o som de uma banda que, vinda do subúrbio de Seattle, redefiniria o heavy metal . Os anos que se seguiram, de 1983 a 1994, testemunharam a metamorfose do Queensrÿche, de uma promissora promessa do underground a uma potência das paradas de sucesso, num percurso repleto de riscos artísticos e triunfos estrondosos.

Antes mesmo de 1983, a base estava sendo cimentada na garagem dos pais do baterista Scott Rockenfield, apelidada de The Dungeon. O que era então a banda The Mob, tocando covers de Judas Priest e Iron Maiden, sonhava em criar algo próprio  . Com a saída de Tate, que não queria viver de covers, o quarteto (Chris DeGarmo, Michael Wilton, Eddie Jackson e Rockenfield) juntou dinheiro de subempregos para gravar uma demo (o que atraiu Tate de volta). O resultado foi um EP independente, lançado em 1982, que trazia a energia crua de Queen of the Reich e a maturidade surpreendente de The Lady Wore Black. A crítica especializada, como a da revista Kerrang!, se rendeu, e o burburinho forçou Geoff Tate a ficar. Em meados de 1983, com Tate agora vocalista em tempo integral e recém-contratados pela EMI, o Queensrÿche estava pronto para conquistar o mundo, num momento em que o rock era dominado pelo glamour de bandas como Mötley Crüe e pelo metal tradicional do Iron Maiden.

O ano de 1984 viu o lançamento do primeiro álbum, The Warning, uma obra que respirava a influência de bandas progressivas como Pink Floyd, mas com a pujança do power metal USA. Produzido por James Guthrie, o disco enfrentou a insatisfação da banda com a mixagem final, imposta pela gravadora . Ainda assim, faixas como a épica Roads to Madness e o hino Take Hold of the Flame projetaram o grupo para turnês ao lado de gigantes da época como Kiss e Iron Maiden  . Se o primeiro álbum foi um alerta, Rage for Order, de 1986, foi uma declaração de intenções. Numa era dominada pelo hair metal, a banda ousou. Sob pressão da gestão para adotar uma imagem mais glamourosa, o resultado foi um choque visual e sonoro: os integrantes surgiram com maquiagem pesada e sobretudos, enquanto a música mergulhava em texturas de teclados, vocais processados e letras sobre inteligência artificial e intrusão governamental  . Canções como Walk in the Shadows e a cover Gonna Get Close to You mostravam uma banda em plena ebulição criativa, pavimentando o terreno para sua obra-prima.

O clímax artístico do período chegou em 1988 com Operation: Mindcrime. Numa época em que o rock pesado era frequentemente associado a letras hedonistas, o Queensrÿche entregou uma ópera-rock complexa e sombria. Inspirado por conversas com separatistas quebequenses e pela decadência do vício em drogas, Geoff Tate concebeu a história de Nikki, um junkie transformado em assassino político pelo enigmático Dr. X  . Álbuns conceituais não eram novidade, mas poucos na história do metal alcançaram tamanha coesão narrativa e musical. A tensão de Revolution Calling, a beleza trágica de Suite Sister Mary e o clímax desesperador de Eyes of a Stranger elevaram a banda a um novo patamar de respeito crítico, influenciando uma geração inteira de bandas de metal progressivo que viriam a seguir, como Dream Theater e Fates Warning, que consolidariam o chamado BIG3 do gênero .

Se Mindcrime foi o auge artístico, Empire, lançado em 1990, foi o ápice comercial. A banda que antes explorava os becos obscuros da psique humana agora ampliava seu alcance para as massas. A balada Silent Lucidity, com seus arranjos orquestrais de Michael Kamen, tornou-se um fenômeno mundial, chegando ao topo das paradas e apresentando o som da banda a um público que pouco sabia sobre as tramas de Mindcrime  . A faixa-título Empire e a vibrante Jet City Woman provaram que o grupo não havia abandonado sua complexidade, mas sim a embalado em produções mais refinadas e acessíveis. O legado do Queensrÿche, até então, era duplo: haviam provado ser possível unir a complexidade do rock progressivo à agressividade do metal, e agora também demonstravam que essa fórmula poderia levar uma banda ao estrelato mundial, influenciando bandas de rock alternativo e até mesmo o mainstream a incorporar elementos mais sofisticados.

Finalmente, em 1994, após quatro anos de estrada e pressão, o grupo lançou Promised Land. Longe dos holofotes do sucesso fácil, o álbum era uma reação visceral ao estrelato, um mergulho introspectivo e deliberadamente anticomercial. Gravado parcialmente nas casas dos músicos, o disco abria com 9:28 a.m., uma colagem de sons criada por Rockenfield que simulava o nascimento, e explorava temas de isolamento e desencanto com faixas como a melancólica Bridge e a angustiante Someone Else? . Se Empire os projetou para o estrelato, Promised Land os mostrou desconfortáveis com ele. Ao final de 1994, o Queensrÿche havia percorrido uma trajetória notável: de um bando de jovens num porão, inspirados por Judas Priest, a inovadores que influenciaram incontáveis bandas, deixando um legado de ousadia que poucos na história do rock puderam reivindicar. Os anos de 1983 a 1994 não foram apenas a primeira fase da banda, mas sim a construção de um império sonoro que ainda hoje ecoa.

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01 (1983) Queensrÿche - EP [***]

Antes de conquistarem estádios, o Queensrÿche era apenas uma demo tape de quatro faixas que se recusava a morrer. Em 1982, em Seattle, os jovens Michael Wilton, Chris DeGarmo, Eddie Jackson e Scott Rockenfield, então conhecidos como The Mob, juntaram recursos para gravar um material próprio. Sem vocalista fixo, chamaram Geoff Tate, que relutantemente topou, desde que pudesse fazê-lo sem que sua banda principal, Myth, soubesse (ou assim ele disse!). O resultado foi uma fita poderosa que, rejeitada por todas as gravadoras, ganhou vida através de uma resenha elogiosa na Kerrang! e do selo independente 206 Records, do dono da loja Easy Street Records  . Lançado originalmente em 1982 e relançado pela EMI em 1983, o EP Queensrÿche chegou ao mundo num momento em que a New Wave of British Heavy Metal, capitaneada por Iron Maiden e Judas Priest, ainda ecoava com força, mas o glam metal americano começava a dar seus primeiros e chamativos passos. O EP, no entanto, soava como um sopro de ar fresco e sério vindo do noroeste americano. As quatro faixas eram um manifesto de juventude e técnica. A faixa de abertura, Queen of the Reich, era um hino de poder, com vocais agudos e guitarras gêmeas que rivalizavam com qualquer coisa vinda da Inglaterra, estabelecendo imediatamente a identidade da banda . Nightrider e Blinded mantinham a pegada agressiva, com mudanças de ritmo que já sugeriam a complexidade vindoura. No entanto, era na faixa de encerramento, The Lady Wore Black, que o futuro da banda realmente se anunciava. Uma balada lenta e sombria, construída sobre um riff de guitarra melancólico e a interpretação dramática de Tate, sua letra (escrita por ele na mesma semana da gravação) e aquele assobio acidental que abria a canção mostravam uma maturidade incomum para músicos na faixa dos vinte anos . O EP Queensrÿche não era apenas um cartão de visitas; era a declaração de que uma nova força estava emergindo, capaz de unir a agressividade do metal à sofisticação e à atmosfera, um prenúncio do que viria a ser chamado de metal progressivo em retrospectiva.

02 (1984) The Warning [***1/2]

Se o EP foi um tiro de largada certeiro, The Warning, lançado em setembro de 1984, foi a corrida de obstáculos que testou a resistência do Queensrÿche. Ansiosos por capitalizar o burburinho, a banda viajou para Londres para gravar com o renomado produtor James Guthrie (Pink Floyd, Judas Priest). A experiência, no entanto, deixou cicatrizes. A banda, empolgada, estourou o orçamento e, como punição, a gravadora EMI entregou as fitas para o engenheiro Val Garay mixar sem qualquer input dos músicos. O resultado, para Geoff Tate e seus companheiros, foi uma "grande decepção", uma mixagem que não refletia a visão do grupo . Apesar da frustração interna, The Warning, lançado em 1984, encontrava o rock em uma encruzilhada: o glam metal de Los Angeles ganhava as rádios com seus hinos festeiros, enquanto bandas como Metallica solidificavam o thrash metal. O Queensrÿche, mais uma vez, ficava em uma posição intermediária. O álbum soava mais pesado e direto que o EP, mas já continha faíscas de experimentação. A faixa de abertura, Warning, é um petardo direto, com um riff cortesia de Michael Wilton que abre o disco com energia. Já Take Hold of the Flame, que se tornaria "O" hino da carreira da banda, especialmente no Japão, é o ponto alto do disco, equilibrando peso e melodia com um refrão épico que sintetizava a ambição do grupo . No entanto, é na longa e complexa Roads to Madness que a insatisfação com a mixagem mais contrasta com a qualidade da composição: a música, com suas múltiplas seções e clima progressivo, já apontava o caminho que a banda queria trilhar, um caminho que seria plenamente realizado nos discos seguintes. A turnê, dividindo palcos com Kiss e Iron Maiden, provou que, mesmo com um som que não os agradava plenamente, o Queensrÿche já tinha estatura para voos mais altos.

03 (1986) Rage for Order [****]

Se The Warning foi um passo em falso na produção, Rage for Order, de 1986, foi um salto ousado em direção ao futuro, mesmo que vestido com as roupas do passado. A pressão da gravadora e da gestão para que a banda adotasse uma imagem mais comercial e alinhada ao glam rock da época resultou nas fotografias promocionais que mostravam os cinco integrantes com maquiagem carregada, cabelos permanentados e sobretudos, um visual que o próprio Tate mais tarde admitiria ter sido um equívoco  . Musicalmente, porém, Rage for Order era tudo, menos comercial. Numa era dominada por riffs simples e refrões grudentos, o Queensrÿche optou pela complexidade. As guitarras de DeGarmo e Wilton agora duelavam com teclados proeminentes, criando camadas de som que remetiam a um futuro distópico. As letras abordavam inteligência artificial, controle governamental e experimentação genética. A produção, a cargo de Neil Kernon, era limpa e repleta de texturas, com uso de reverbs invertidos e outros artifícios de estúdio . A faixa de abertura, Walk in the Shadows, ainda mantinha uma estrutura mais acessível, mas rapidamente o álbum mergulhava em terrenos mais áridos. A cover de Gonna Get Close to You, da cantora Dalbello, era uma escolha bizarra e perfeita, uma canção sobre obsessão doentia que se encaixava como uma luva na temática do disco . Já a faixa de encerramento, I Will Remember, uma balada acústica e emocional, mostrava que, sob as camadas de sintetizadores e experimentos, o coração da banda ainda pulsava forte. Rage for Order foi um tapa de luva de pelica na indústria: mostrou que era possível ser progressivo sem ser chato, e pesado sem ser previsível, consolidando o som que influenciaria toda uma geração do metal. (*) VER BÔNUS AO FINAL DO ARTIGO!

04 (1988) Operation: Mindcrime [****]

Em 1988, o cenário do rock pesado estava fragmentado entre o thrash metal da Bay Area e o glam metal de Los Angeles, com poucas bandas ousando pensar além do próximo riff ou refrão. Foi nesse contexto que o Queensrÿche, isolado em estúdios na Pensilvânia e no Canadá, pariu uma das obras mais ambiciosas da história do gênero. Operation: Mindcrime não era apenas um conjunto de canções; era um organismo vivo. A ideia surgiu na mente de Geoff Tate ao se mudar para Montreal e se envolver, ainda que superficialmente, com as conversas de militantes separatistas quebequenses, combinadas com suas memórias de amigos destruídos pelas drogas  . A história de Nikki, um viciado recrutado por um demagogo conhecido apenas como Dr. X para assassinar líderes políticos, era um mergulho sombrio na paranoia, na manipulação e na redenção falha. A produção de Peter Collins deu à narrativa um brilho cinematográfico, enquanto a banda, em especial o guitarrista Chris DeGarmo, criou uma tapeçaria musical que ia do (quase) thrash metal urgente de Revolution Calling à beleza operística de Suite Sister Mary, uma faixa de quase dez minutos que contava com a participação da cantora Pamela Moore como a trágica freira Mary. A jornada de Nikki, desde a lavagem cerebral em Operation: Mindcrime até seu colapso final em Eyes of a Stranger, onde ele não se reconhece mais no espelho, era uma tragédia shakespeariana em vinil. O single I Don't Believe in Love chegou a ser indicado ao Grammy, mas o verdadeiro prêmio foi o reconhecimento imediato da crítica e de um público que viu ali não apenas um disco de metal, mas uma obra de arte que DEFINITIVAMENTE rivalizava com os grandes álbuns conceituais do rock progressivo. Mindcrime não era sobre o que a banda era, mas sobre o que a música poderia ser!

05 (1990) Empire [***1/2]

Dois anos após a obra-prima conceitual, o Queensrÿche emergiu das sombras de Nikki e do Dr. X para a luz ofuscante do estrelato mundial. Empire, lançado em 1990, encontrou a banda num momento de transição, tanto sonora quanto comercial. O thrash metal (em uma nova fase já caminhando para o groove metal e afins) e o rock alternativo começavam a ganhar força, mas a balada poderosa ainda reinava nas rádios. E foi exatamente com uma balada que o Queensrÿche conquistou o planeta. (A Floydiana) Silent Lucidity, com seus arranjos orquestrais de Michael Kamen e sua melodia etérea, tornou-se um fenômeno, atingindo o topo das paradas e apresentando a banda a um público que jamais ouvira falar de Mindcrime  . No entanto, reduzir Empire a essa canção seria um erro crasso. O álbum era um equilíbrio refinado entre a complexidade progressiva do passado e uma abordagem mais direta e madura (e mesmo pop). A faixa-título, Empire, era um comentário social contundente sobre o poder, embalado num riff pesado e vibrante. Jet City Woman, uma homenagem à sua Seattle nativa, combinava melodia contagiante com uma seção rítmica vigorosa, tornando-se um dos maiores clássicos da banda. Della Brown, por sua vez, com a sua base sublime remetendo ao Police é outro desconcertante colosso (e fala sobre a população de rua de Seattle). O produtor Peter Collins, novamente à frente da mesa, poliu as arestas sem perder a alma, criando um som grandioso que preenchia estádios. A turnê subsequente foi monumental, e a banda passou a performar Operation: Mindcrime na íntegra, mostrando aos novos fãs a profundidade de seu catálogo. Empire foi a prova definitiva de que o Queensrÿche podia ser ao mesmo tempo inteligente e acessível, um equilíbrio raro que os elevou ao patamar de headliners mundiais e lhes rendeu um triplo disco de platina .

06 (1994) Promised Land [***1/2]

Após o furacão Empire, que os levou a quatro anos de turnês exaustivas e ao topo das paradas, o Queensrÿche precisava de ar. Em vez de capitalizar em cima da fórmula de sucesso, a banda fez o movimento mais contraintuitivo de sua carreira: recuou. Promised Land, lançado em 1994, é o som de artistas bem-sucedidos confrontando o vazio do estrelato. Gravado parcialmente nas casas dos músicos, num processo que se estendeu por quase dois anos, o álbum respira introspecção e experimentalismo . Já estávamos na era do grunge, com o rock alternativo dominando as paradas, e o Queensrÿche, ironicamente vindo de Seattle, respondeu não com barulho, mas com silêncio e angústia. O disco abre com 9:28 a.m., uma colagem de sons ambientes criada por Rockenfield que simula o nascimento e o despertar da consciência, antes de explodir no riff pesado e tortuoso de I Am I, uma declaração de individualidade em meio à pressão . A canção Bridge, escrita por Chris DeGarmo sobre a relação com seu pai falecido durante as gravações, é um dos momentos mais crus e emocionais já registrados pela banda, uma joia acústica de beleza dilacerante . A faixa-título, Promised Land, é uma viagem sombria de oito minutos pelos efeitos colaterais do sucesso, com direito a saxofone tocado por Tate e uma atmosfera densa que termina num bar, com conversas ao fundo. O álbum se encerra com Someone Else?, apenas voz e piano, onde Tate questiona sua própria identidade. Promised Land foi um disco deliberadamente difícil, um tapa na cara dos fãs que esperavam Empire II. Comercialmente, foi um passo atrás, mas artisticamente, foi uma declaração de integridade, mostrando que, para o Queensrÿche, a jornada musical sempre seria mais importante que o destino final.

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BÔNUS DO RAGE FOR ORDER:

Neue Regel: O Manifesto Sônico de um Futuro que Já Chegou

Há músicas que simplesmente ouvimos; há outras que nos transportam para dentro de um mundo. Neue Regel, a sétima faixa do seminal Rage for Order, de 1986, pertence categoricamente ao segundo grupo. Defendê-la como uma das melhores composições do Queensrÿche (talvez a melhor!) não é apenas uma questão de gosto pessoal, mas sim o reconhecimento de uma peça que sintetiza, como nenhuma outra, a audácia experimental e a visão futurista que definiram a banda em seu período mais criativo. Num álbum que já era um choque sonoro para a época, Neue Regel surge como o seu coração mecânico e pulsante, uma anomalia genial que ainda hoje soa como uma transmissão de rádio vinda de uma distopia que se concretizou.

A grandeza de Neue Regel reside, primeiramente, na sua arquitetura sonora singular. Enquanto faixas como Walk in the Shadows ainda mantinham uma estrutura de rock (pesado) mais convencional, Neue Regel mergulha de cabeça na experimentação. A música é construída sobre uma base rítmica que mais parece o funcionamento interno de uma máquina complexa. A percussão de Scott Rockenfield, descrita por críticos como mecânica e comparada ao tique-taque de um relógio industrial, dita um andar frio e preciso. Sobre essa base, camadas de teclados e samples criam uma paisagem sonora consonante, com sons que evocam explosões distantes e alarmes, um trabalho de produção que levou o engenheiro Neil Kernon a utilizar todas as ferramentas disponíveis num estúdio dos anos 80 para criar algo que, em vez de datado, soa tecnicamente avançado até os dias de hoje.

No entanto, é a voz de Geoff Tate que atua como o guia neste labirinto de aço e circuitos. Em Neue Regel, Tate não apenas canta; ele manipula sua própria voz como um instrumento a mais na parafernália digital. Os versos são entregues com um tom quase robótico, processado eletronicamente, que contrasta de forma magistral com o refrão. Quando a música explode no chorus, os efeitos se dissipam e sua voz emerge em camadas harmônicas de uma beleza cristalina, cantando: I can hear the chimes / Ringing for you for me. É um momento de humanidade e conexão que irrompe da frieza mecânica, sugerindo que, mesmo num mundo dominado pela tecnologia, a centelha da união e da emoção persiste. Essa dualidade entre o homem e a máquina, entre o frio e o calor, é o cerne da canção e a razão pela qual ela ressoa com tanta força.

A letra, creditada a DeGarmo e Tate, é um chamado à ação enigmático e poderoso. Neue Regel, do alemão, significa nova regra ou novo regime. A canção não é sobre uma rebelião política no sentido tradicional, mas sobre uma transformação de consciência, um despertar para uma nova ordem. Versos como Reach for a new horizon / Setting sights on a circuit scream e Join us on the stay the road is mine / Poets line in a rhyme of silence convocam o ouvinte a fazer parte de algo maior, uma vanguarda pronta para abandonar o velho mundo. É um hino para os desconectados, para aqueles que enxergam além da superfície. O refrão, com seu apelo coletivo (Come together hold the light / Keep the flame we can’t let this world remain the same), transforma a canção num manifesto, provando que o Queensrÿche conseguia ser incisivo e pesado sem precisar recorrer aos clichês do metal tradicional.

Além disso, Neue Regel funciona como a peça central que valida a tese de que Rage for Order foi um álbum pioneiro, frequentemente citado como uma das pedras fundamentais do que viria a ser o metal progressivo e até mesmo o industrial metal. Enquanto Gonna Get Close to You chamava a atenção por ser uma cover estranha e Screaming in Digital explorava a paranoia da inteligência artificial de forma mais direta, Neue Regel equilibra perfeitamente a agressividade do metal com a atmosfera soturna do rock gótico e a experimentação eletrônica. É a prova de que a banda, naqueles anos, não estava apenas tocando músicas; estava construindo mundos. Defendê-la como uma das melhores da banda é reconhecer que, na curta discografia do Queensrÿche até aquele ponto, nenhuma outra faixa havia ousado tanto e conseguido voar tão alto. Neue Regel não é apenas uma grande canção; é uma declaração de princípios, o som de uma banda que se recusava a seguir as regras antigas e, em vez disso, criava as suas próprias (!).

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

HUMBLE PIE (1969-1971)

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ÁLBUNS

1969 - As Safe as Yesterday Is [**1/2]
1969 - Town and Country [**1/2]
1970 - Humble Pie [***1/2]
1971 - Rock On [****]
1971 - Performance: Rockin' the Fillmore (LIVE) [****]

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PESSOAL

Steve Marriott: vocais , guitarras , teclados etc.
Peter Frampton: vocais , guitarras , teclados etc.
Greg Ridley: vocais , baixos.
Jerry Shirley: bateria , percussão.

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INTRODUÇÃO

Entre o fim dos anos sessenta e o início dos anos setenta, enquanto o rock se fragmentava do psicodelismo em direção a formas mais brutais e enraizadas, surgiu uma banda que personificou essa transição com uma autenticidade ruidosa. O Humble Pie nasceu de uma frustração criativa e de uma amizade improvável. No último dia de 1968, um Steve Marriott insatisfeito abandonou o palco com os Small Faces e telefonou, ainda na madrugada, para o jovem guitarrista Peter Frampton (do The Herd). Unindo-se ao baixista Greg Ridley e ao baterista Jerry Shirley, eles formaram uma das primeiras super bandas britânicas, mas escolheram um nome irônico, Humble Pie ("Torta Humilde"), para rebater as altas expectativas. Seu legado, entretanto, seria tudo menos modesto, influenciando futuras gerações de bandas de hard rock e blues, de Aerosmith a The Black Crowes, com sua mistura crua de força rítmica e alma soul.

O período entre 1969 e 1971 foi de uma metamorfose acelerada. A banda começou explorando um folk-rock acústico e canções introspectivas, mas foi redirecionada pela visão do novo empresário Dee Anthony, que queria o foco no mercado americano e exigia um som mais agressivo e direto, com Marriott como frontman inquestionável. Nos bastidores, esse foi um tempo de intensa atividade: gravações frenéticas para a falida Immediate Records, turnês desgastantes pelos EUA e momentos definidores, como a noite em que Frampton, enfrentando problemas de feedback (microfonia), recebeu de um fã uma guitarra Les Paul extremamente customizada que se tornou a sua marca registrada (e posteriormente apelidada de 'Phoenix'). O ápice dessa era foi a conquista da América não através de singles de sucesso, mas pelo poder avassalador de seus shows ao vivo, selada com históricos concertos no Hyde Park de Londres e principalmente no Shea Stadium de Nova York, onde ofuscaram a banda principal, Grand Funk Railroad. Em apenas três anos, o Humble Pie evoluiu de uma promessa "ecumênica" para uma coesa máquina de rock pesado e soul, deixando uma marca indelével no cenário do rock setentista.

1969 - AS SAFE AS YESTERDAY IS

Lançado em agosto de 1969, As Safe as Yesterday Is chegou em um momento de redefinição no rock britânico. A era psicodélica dava lugar a sons mais terrenos, com bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath forjando um caminho mais pesado. O Humble Pie, recém-formado, apresentou neste álbum de estreia uma miscelânea que refletia as diversas influências de seus integrantes, transitando do folk ao blues e apresentando mesmo passagens de proto metal. Produzido enquanto a banda ainda se conhecia, o álbum soa mais como uma coleção de ideias individuais do que como uma declaração coesa de grupo, o que lhe confere um charme despretensioso, mas também uma certa falta de direção... (I) A faixa-título (e destaque do álbum), As Safe as Yesterday Is, é uma espécie de suíte que exibe a versatilidade da banda e da voz de Marriot (uma influência mais do que óbvia para Robert Plant!). (II) Em claro contraste, Natural Born Woman (de Marriot), single que alcançou o top 5 britânico, é um blues-rock bem direto, com um riff central pegajoso e a voz agressiva de Marriott, antecipando a veia mais comercial que explorariam posteriormente. (III) Já I'll Go Alone, composta por Frampton, traz uma riff inicial similar ao de Communication Breakdown do Led Zeppelin, antes de embarcar na distinta assinatura pesada porém melódica do guitarrista vocalista, antevendo a veia composicional que ele desenvolveria em sua carreira solo (e um solo já muito interessante no final da canção)... O álbum é um retrato honesto de uma banda talentosa em busca de sua voz coletiva, um primeiro passo promissor, mas que ainda não capturava a fúria sinérgica que os tornariam famosos ao vivo.

1969 - TOWN AND COUNTRY

Apressadamente lançado em novembro de 1969, apenas três meses após o álbum de estreia, Town and Country surgiu de um período criativo febril e sob a sombra do colapso financeiro da gravadora Immediate Records. Enquanto o rock endurecia com o surgimento do hard rock, o Humble Pie tomou aqui uma direção surpreendentemente pastoral. O álbum é predominantemente acústico, focando em harmonias vocais e arranjos delicados, um contraponto consciente ao barulho crescente da cena. Esta foi uma encruzilhada artística: o disco celebra o talento individual para a composição de todos os quatro membros, mas também revela a tensão entre essa abordagem folk e a atração pelo poder bruto que seu empresário americano exigia... (I) A faixa de abertura, Take Me Back, é uma bela e nostálgica canção country-rock liderada por Frampton, destacando seus vocais suaves e a rica tapeçaria de violões. (II) The Sad Bag of Shaky Jake é uma narrativa blues acústica peculiar com a voz característica de Marriott, mostrando seu dom para a contação de histórias e seu humor cáustico. (III) O ponto alto absoluto, no entanto, é a canção Every Mother's Son, uma extensa narrativa folk de quase seis minutos que se tornou o centro de seus shows na época. Com sua estrutura de conto e arranjos acústicos elaborados, a música exemplifica a busca do álbum por um som pastoral e introspectivo, demonstrando a capacidade da banda de criar atmosferas densas mesmo longe do rock elétrico... Town and Country é um álbum de transição íntimo e ambicioso, um último suspiro acústico antes da banda mergulhar de cabeça no hard rock. É um trabalho admirado pela coragem, mas que, em sua diversidade, carece do impacto unificado que definiria seus lançamentos seguintes.

1970 - HUMBLE PIE

O álbum homônimo de 1970, frequentemente chamado de The Beardsley Album por sua capa com ilustração de Aubrey Beardsley, marca um ponto de virada decisivo. Era o primeiro trabalho para a A&M Records e sob a gestão férrea de Dee Anthony, que pressionou por um som mais pesado e comercial para o mercado americano. O resultado é um disco de personalidade (ainda) dividida, mas fascinante, que oscila entre um certo rock progressivo e um hard rock mais cru, servindo como um laboratório para a fórmula que iria explodir em breve. A faixa de abertura, Live With Me, não deve ser confundida com a dos Rolling Stones; é uma longa e atmosférica jam de quase oito minutos com influências pós-psicodélicas, mostrando a banda explorando texturas e dinâmicas complexas (simplesmente excepcional!). Em nítido contraste, One Eyed Trouser Snake Rumba é um rock pesado e irreverente, um prenúncio claro do estilo barulhento e divertido que se tornaria sua marca, com um riff central primitivo e eficaz. Outro destaque é a poderosa versão de I'm Ready, de Willie Dixon, onde Marriott entrega uma performance vocal absolutamente visceral, cheia de ganchos de guitarra e um sentimento de blues elétrico que se tornaria central em seu repertório ao vivo. O álbum também contém Theme from Skint, uma sátira mordaz de Marriott sobre a falência da Immediate Records e Earth and Water Song, uma balada etérea de Frampton que demonstra o contraste estilístico ainda presente dentro da banda (com um belo solo)... Humble Pie é um álbum de transição bem-sucedido (e já excelente), onde a banda começa a encontrar sua voz coletiva poderosa, abrindo caminho para a consolidação que viria no ano seguinte.

1971 - ROCK ON

Gravado em janeiro de 1971, Rock On é a cristalização em estúdio de tudo o que o Humble Pie vinha buscando. É um álbum confiante, coeso e brutalmente eficaz, que abraça plenamente sua americanização com uma mistura de hard rock, R&B e soul. Considerado por muitos seu melhor trabalho em estúdio, o disco apresenta a banda no ápice de sua forma como unidade, com Marriott no comando vocal absoluto e Frampton contribuindo com alguns de seus melhores momentos na guitarra. A abertura com Shine On, de Frampton, é energética e otimista, estabelecendo um tom contagiante. O verdadeiro coração do álbum, porém, é Stone Cold Fever, uma jam monstruosa e primitiva que se tornou um hino da banda. Com um riff inesquecível e a performance cavernosa de Marriott, a música é frequentemente citada como uma influência fundamental para bandas como o Aerosmith. Outro momento essencial é a versão sulfurosa de Rollin' Stone (de Muddy Waters), onde o grupo demonstra suas profundas raízes no blues, com Frampton entregando solos reminiscentes de Jimmy Page (e além!) e Marriott vocalizando com intensidade crua. O álbum também mostra sua amplitude com A Song for Jenny, uma balada soul tocante escrita por Marriott para sua esposa, enriquecida pelos vocais de fundo das "Soul Sisters" (PP Arnold, Doris Troy e Claudia Lennear)... Rock On prova que o Humble Pie era muito mais do que uma "Liga Secundária dos Rolling Stones"; era uma força única, inventando um rock pesado com alma que ecoaria por décadas.

1971 - PERFORMANCE: ROCKIN' THE FILLMORE (LIVE)

Se Rock On definiu o poder da banda em estúdio, Performance: Rockin' the Fillmore, lançado no final de 1971, foi a sua coroação absoluta. Gravado durante duas noites no lendário Fillmore East de Nova York, este álbum ao vivo capturou o Humble Pie em seu habitat natural e no auge de seus poderes, transformando-os de uma banda promissora em uma atração de estádio. O disco é um monumento ao rock de arena setentista, caracterizado por jams extensas, energia crua e a dinâmica eletrizante entre Marriott e Frampton... A faixa que resume esse espírito é I Don't Need No Doctor, uma explosão de funk-rock que se tornou um padrão das rádios FM americanas e impulsionou o álbum ao status de ouro. A performance é uma avalanche de ritmo, com a guitarra de Frampton e os gritos soul de Marriott criando uma catarse irresistível... Outro pilar é a épica interpretação de I Walk On Gilded Splinters, do Dr. John, que ocupava um lado inteiro do vinil original. A banda transforma a canção em uma jam psicodélica e tribal de quase 25 minutos, uma viagem hipnótica que mostra sua coragem e sua conexão simbiótica em palco... Stone Cold Fever, já poderosa em estúdio, ganha aqui dimensões ainda mais colossais, com a seção rítmica de Ridley e Shirley provando ser uma fundação implacável e a dupla de guitarras atingindo clímaxes estrondosos... O álbum é pura adrenalina, a essência do que tornou a banda lendária ao vivo. Sua liberação quase coincidiu com a saída de Frampton (que toca demais nesses dois últimos álbuns!) para carreira solo (mais do que uma pena!), tornando-o um registro histórico perfeito e insuperável de uma formação lendária em seu momento de glória.

CONCLUSÃO

A jornada do Humble Pie de 1969 a 1971 foi uma ascensão meteórica alimentada por talento bruto, vontade férrea e uma transformação artística radical. Eles começaram como um coletivo de músicos de prestígio tentando escapar de seus rótulos pop, passaram pela experimentação folk e emergiram como uma das forças mais brutais e carismáticas do rock ao vivo. Seu legado, no entanto, transcende a breve janela de seu maior sucesso. Eles foram arquitetos de um som que fundia o peso do hard rock britânico com a profundidade do soul americano, uma fórmula que irrigaria o rock das décadas seguintes. A voz visceral de Steve Marriott, reverenciada por ícones como Robert Plant e Ozzy Osbourne (entre outros), permanece um padrão de entrega emocional crua. As guitarras de Peter Frampton no Fillmore prenunciaram a era dos guitar heroes dos anos 70. Mesmo após o fim da formação clássica, o espírito da banda provou ser indestrutível, inspirando reinvenções e tributos. Em apenas três anos intensos, o Humble Pie assou uma "torta" nada humilde, mas sim um banquete sonoro robusto e duradouro, cujos ecos de guitarra distorcida e soul gritado continuam a ressoar, um testemunho perene do poder do rock em seu estado mais puro e passional.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

KAI HANSEN (1984-2000)

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(1984) Helloween [***]
(1985) Helloween Walls Of Jericho [****]
(1987) Helloween Keeper Of The Seven Keys - I [****]
(1988) Helloween Keeper Of The Seven Keys - II [****]
(1989) Helloween Live In The U.K [****]
(1990) Gamma Ray Heading For Tomorrow [***1/2]
(1991) Gamma Ray Sigh No More [***]
(1993) Gamma Ray Insanity & Genius [***]
(1995) Gamma Ray Land Of The Free [****]
(1997) Gamma Ray Somewhere Out In Space [****]
(1999) Gamma Ray Powerplant [***]
(2000) Gamma Ray Blast From The Past (Compilation) [***]

- Kai Hansen: guitars , vocals [01-02] , vocals [09-12].
- Michael Kiske: vocals [03-05].
- Michael Weikath: guitars [01-05].
- Markus Grosskopf: bass [01-05].
- Ingo Schwichtenberg: drums [01-05].
- Ralf Scheepers: vocals [06-08].
- Uwe Wessel: bass [06-07].
- Mathias Burchardt: drums [06].
- Dirk Schlächter: guitars [07-09] , bass [10-12].
- Uli Kusch: drums [07].
- Jan Rubach: bass [08-09].
- Thomas Nack: drums [08-09].
- Henjo Richter: guitars , keyboards [10-12].
- Daniel Zimmermann: drums [10-12].

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THIN LIZZY (1974-1979)

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1974 Night Life [**1/2]
1975 Fighting [***1/2]
1976 Jailbreak [****]
1976 Johnny The Fox [***1/2]
1977 Bad Reputation [****]
1978 Live & Dangerous (LIVE) [****]
1979 Black Rose  [****]

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PESSOAL:

- Brian Downey: bateria e percussão.
- Scott Gorham: guitarra.
- Phil Lynott: baixo, vocais, guitarras eventuais.
- Brian Robertson: guitarra, vocais de apoio [01-06].
- Gary Moore: guitarra, vocais de apoio [07].

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Thin Lizzy (1974-1979)

O período de 1974 a 1979 representa a era de ouro incontestável do Thin Lizzy. É a história de uma banda que se transformou de contendente promissora em lenda do rock, definindo um som e uma atitude que ecoariam por décadas. Esta era começou com a estabilização da formação clássica — o poeta e baixista Phil Lynott, o baterista Brian Downey, e o recém-chegado ataque de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson. Ao longo desses seis anos, eles navegaram turbulências internas, conflitos pessoais e um cenário musical dominado pela ascensão do punk. Sua resposta foi forjar uma identidade única: uma mistura de potência hard rock, narrativa urbana e um coração distintamente irlandês. Seu uso pioneiro de solos de guitarra harmonizados (pós WishBone Ash) se tornou um modelo para bandas vindouras de metal e hard rock.

A jornada teve início em 1974, um ano de transição e fundação. Com a nova formação clássica, a banda buscava solidificar seu som, mas o álbum *Night Life* adentrou um território mais suave, em descompasso com sua energia ao vivo. O ano foi mais sobre plantar sementes, incluindo o solo do convidado Gary Moore na célebre canção "Still in Love with You", do que colher frutos. Em 1975, determinados, eles entraram com um propósito renovado. O álbum *Fighting* foi uma reação direta, mostrando uma banda endurecendo seu ataque com uma crueza e confiança recém-descobertas. Foi o combate necessário antes da guerra pelo mundo do rock.

Então veio 1976, o ano da explosão. *Jailbreak* foi uma obra-prima de concisão e carisma que os catapultou ao estrelato internacional, impulsionado pelo hino atemporal "The Boys Are Back in Town". No entanto, o triunfo foi imediatamente seguido pela turbulência da hospitalização de Lynott, que mesmo assim e ainda em 76 rendeu o ágil e sombrio *Johnny the Fox*. Na esteira de um ano fraturado, 1977 foi sobre uma resiliência feroz. Com um dos guitarristas lesionado, a banda gravou *Bad Reputation* como um power trio, forjando seu álbum de estúdio mais pesado e desafiador. Em 1978, era hora de capturar a mágica do palco. O álbum *Live and Dangerous* imortalizou a energia explosiva da formação clássica com Gorham e Robertson, consagrando-se como um dos maiores discos ao vivo da história do rock. O ápice artístico final veio em 1979 com *Black Rose: A Rock Legend*. O retorno do virtuose Gary Moore para a gravação em estúdio empurrou a banda a novas alturas de brilho técnico e ambição, culminando na epopeia celta da faixa-título. Dos passos hesitantes de 1974 ao cume magistral de 1979, esta é a trajetória do Thin Lizzy em seu momento mais vital e criativo.

1974 Night Life [**1/2]

Surgindo no final de 1974, *Night Life* captura o Thin Lizzy em um momento de transição e exploração. O mundo do rock estava em fluxo, com a era grandiosa dos gigantes do início dos anos 70 dando lugar a uma abordagem mais direta e crua. Para o Thin Lizzy, este álbum introduziu a formação fundamental de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson, mas a música em si tomou um desvio surpreendente. Produzido com um brilho suave, quase soul, por Ron Nevison, ele contrasta fortemente com a força crua e hard rock que a banda exibia ao vivo. O disco parece um esforço consciente para mostrar versatilidade e habilidade na composição, por vezes em detrimento do fogo inato da banda. É um álbum de humores e melodias, apresentando baladas e números blues que destacam o desenvolvimento de Phil Lynott como um compositor de nuances. As faixas-chave contam essa história. Still in Love with You é a peça central inegável do álbum, uma balada blues de queima lenta elevada por um solo de guitarra emotivo e incisivo do convidado Gary Moore. Ela revelou a capacidade de Lynott para a alma profunda e o anseio romântico. Por outro lado, She Knows abre o álbum com um ritmo gentilmente propulsivo, mostrando um lado mais contido e melódico que era novo para a banda. Finalmente, It's Only Money fornece um golpe necessário de rock and roll mais duro e primal, um lembrete da energia central da banda lutando para brilhar através da produção polida. *Night Life* é um disco competente e muitas vezes bonito, mas parece uma pedra fundamental, um experimento que apontava para o som mais pesado e confiante que eles logo dominariam.

1975 Fighting [***1/2]

Se *Night Life* foi um passo tentativo, *Fighting*, de 1975, foi um salto decisivo para frente. Este álbum marca o momento em que o Thin Lizzy encontrou sua verdadeira voz e começou a lutar com todo o seu peso. O contexto era uma cena rock faminta por hinos, e com Lynott agora no comando da produção, a banda conscientemente se livrou do verniz mais suave do ano anterior para um som mais cru e assertivo. O título era uma declaração de intenção: este era o som de uma banda lutando por reconhecimento, afiando suas garras e estabelecendo a base essencial para os triunfos que viriam. Em comparação com as divagações soul de *Night Life*, *Fighting* é tudo sobre foco e força. O ataque de guitarras gêmeas de Gorham e Robertson começa a se unir no som harmonizado característico que se tornaria sua marca registrada, não apenas como decoração, mas como uma força motriz e melódica. O álbum arde com uma confiança recém-descoberta, canalizando a energia de seus shows ferozes para o estúdio. Três faixas definem essa mudança pivotal. Wild One é um dos primeiros grandes hinos de Lynott dirigidos a personagens, uma ode amarga e doce a um espírito inquieto, envolta em uma melodia que é tanto dura quanto terna. Suicide é um juggernaut hard rock, impulsionado pelos tambores trovejantes de Brian Downey e um riff implacável e urgente que anunciou a nova direção mais dura da banda. Talvez o mais revelador seja o cover de Rosalie, de Bob Seger, que eles reinventam completamente e tornam seu, injetando nele uma energia arrogante e celebratória que se tornaria um clássico ao vivo. *Fighting* é o som de uma banda crescendo em seu poder, um álbum crucial e emocionante onde todas as peças finalmente começaram a se encaixar.

1976 Jailbreak [****]

*Jailbreak* é o marco, o momento em que tudo cristalizou. Lançado em março de 1976, ele impulsionou o Thin Lizzy de ato de rock respeitado para estrelas internacionais. Em uma paisagem do rock cheia de fantasia e excesso, as canções de Lynott sobre rebeldes urbanos, fora-da-lei desesperados e cowboys românticos pareciam vividamente reais. O álbum é uma obra-prima de equilíbrio — duro, mas melódico, hínico, mas pessoal, capturando perfeitamente a essência da alquimia das guitarras gêmeas e da narrativa poética de Lynott. Seguindo a base de *Fighting*, *Jailbreak* refinou esse poder em uma coleção impecável de músicas, cada uma um single em potencial, mas parte de um todo coeso. Foi um sucesso criativo e comercial, quebrando o Top 20 em ambos os lados do Atlântico e finalmente dando a eles um hit global. O trio de músicas em seu núcleo é intocável. The Boys Are Back in Town é mais do que um hit; é um marco cultural, um hino arrogante e cheio de histórias, com um riff imortal e uma guitarra principal harmonizada que definiu uma era. Jailbreak abre o álbum com drama cinematográfico, uma narrativa tensa conduzida por uma linha de guitarra ameaçadora e preenchimentos explosivos de bateria de Downey. Cowboy Song mostra seu alcance dinâmico, passando de uma melodia nostálgica e desejosa para uma seção intermediária de hard rock galopante. *Jailbreak* não é apenas um álbum de sucesso; é uma declaração perfeita de identidade, o ápice da fórmula que a banda vinha construindo, e continua sendo o ponto de entrada definitivo para sua herança.

1976 Johnny The Fox [***1/2]

No calor do sucesso de *Jailbreak*, o Thin Lizzy lançou *Johnny the Fox* apenas sete meses depois, em outubro de 1976. Nascido do caos — escrito por Lynott enquanto se recuperava de hepatite — o álbum é um trabalho mais denso, complexo e, por vezes, mais sombrio. Enquanto o punk começava a ganhar força, desafiando as estrelas do rock estabelecidas, o Thin Lizzy respondeu não simplificando, mas aprofundando seu rock narrativo e rico em camadas. Comparado ao foco direto de *Jailbreak*, *Johnny the Fox* é mais variado e experimental, um álbum que prova que a banda não era um cavalo de um só truque. Apesar das circunstâncias difíceis de sua criação, o álbum rendeu hits e músicas de qualidade. A abertura Don't Believe a Word é uma aula de economia rock, um riff de blues cru e uma letra cínica que se tornou um single de sucesso. Rocky mostra o lado mais pesado e quase épico da banda, com harmonias de guitarra complexas e uma narrativa de luta. No extremo oposto do espectro, Old Flame é uma das baladas mais sinceras e bonitas de Lynott, uma reflexão suave sobre o amor perdido que demonstra sua amplitude emocional. *Johnny the Fox* pode carecer da consistência inabalável de seu predecessor imediato, mas compensa com ambição e profundidade, mostrando uma banda confiante o suficiente para explorar seus limites mesmo sob pressão extrema.

1977 Bad Reputation [****]

Em 1977, com as tensões internas crescendo e o guitarrista Brian Robertson temporariamente fora devido a uma lesão, o Thin Lizzy poderia ter facilmente desmoronado. Em vez disso, eles produziram um dos discos mais ferozes e focados de sua carreira: *Bad Reputation*. Gravado essencialmente como um power trio, o álbum possui uma crueza e uma urgência que refletem sua gênese turbulenta. Em um ano onde o punk e a nova onda desafiavam o antigo regime do rock, o Thin Lizzy respondeu com um disco que era pura atitude e potência. A faixa-título, Bad Reputation, é uma faixa monstro de hard rock, uma declaração desafiante construída sobre um riff impiedoso e a entrega vocal de Lynott no seu mais confiante. Dancing in the Moonlight, por outro lado, mostrou seu gênio para a música pop-rock inteligente, com um riff de baixo inesquecível e uma sensibilidade quase new wave que a tornou um clássico atemporal. O álbum também explora temas mais sombrios, como em Opium Trail, que reflete as batalhas pessoais crescentes de Lynott. *Bad Reputation* é um álbum de resiliência feroz. Ele prova que o núcleo criativo da banda — Lynott, Downey e Gorham — era inquebrável, capaz de transformar adversidade em arte poderosa e reafirmar seu lugar como uma das maiores bandas de rock da era.

1978 Live & Dangerous [****]

Muitas bandas lançam álbuns ao vivo como preenchimento entre discos de estúdio, mas *Live and Dangerous* do Thin Lizzy, lançado em 1978, é uma obra-prima que redefine o próprio gênero. Capturando a eletricidade de suas performances no palco entre 1976 e 1977, o álbum não apenas documenta a banda no auge de seus poderes, mas também aprimora miticamente seu legado. Em um momento em que o rock estava se tornando cada vez mais produzido em estúdio, *Live and Dangerous* foi um lembrete visceral do poder bruto e da conexão com o público. A versão de Jailbreak aqui é mais explosiva e urgente do que a original em estúdio. Cowboy Song se expande em uma jam épica, destacando a improvisação magistral e a química entre os guitarristas. A performance de Still in Love with You se torna uma balada monumental, com o solo de guitarra ganhando uma intensidade emocional avassaladora. É crucial notar que o som característico de guitarras gêmeas neste álbum é inteiramente de **Scott Gorham e Brian Robertson**, a formação estável da era de ouro. *Live and Dangerous* é mais do que um grande álbum ao vivo; é uma cápsula do tempo que congelou a essência do Thin Lizzy como uma força da natureza no palco, solidificando sua reputação como uma das maiores bandas ao vivo de todos os tempos.

1979 Black Rose [****]

*Black Rose: A Rock Legend*, de 1979, representa o pináculo artístico do Thin Lizzy. Com o retorno do guitarrista Gary Moore (no lugar de Robertson), a banda alcançou um novo nível de virtuosismo e ambição temática. Este álbum é a fusão final de todas as facetas do Thin Lizzy: o hard rock potente, a sensibilidade pop, a narrativa lírica e as raízes celtas, tudo embrulhado em uma produção impecável. O single Waiting for an Alibi é um exemplo perfeito de seu rock direcionado às rádios, com um riff cativante e uma letra cheia de personagens urbanos. Do You Believe in Love mergulha em um território mais pesado e complexo, com mudanças de tempo dinâmicas e harmonias de guitarra intrincadas. No entanto, a coroa do álbum é a faixa-título, Róisín Dubh (Black Rose). Esta epopeia de sete minutos é uma obra-prima ambiciosa, uma jornada musical que tece tradicionais irlandesas, como "The Mason's Apron" e "Danny Boy", em uma tapeçaria de hard rock poderosa. É a declaração definitiva de identidade de Lynott, celebrando sua herança irlandesa de uma forma inigualável no rock. *Black Rose* é o trabalho de estúdio mais coeso e realizado da banda, um álbum que prometia um futuro ainda mais brilhante e, de certa forma, serviu como um ponto final perfeito para sua era de ouro.

Conclusão

O legado do Thin Lizzy, forjado no intenso período entre 1974 e 1979, é duradouro. Eles transcenderam a classificação de simples banda de hard rock para se tornarem contadores de histórias musicais, cujo som — definido pela poesia de rua de Phil Lynott e pelo ataque pioneiro das guitarras gêmeas — influenciou gerações de artistas, do heavy metal ao rock alternativo. Mais do que uma sequência de álbuns, essa foi uma jornada de transformação, resiliência e pura magia no palco, que garantiu seu lugar eterno no panteão do rock.

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WISHBONE ASH (1970-1973)

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ÁLBUNS

1970 - Wishbone Ash [★★★½]
1971 - Pilgrimage [★★★½]
1972 - Argus [★★★★]
1973 - Wishbone Four [★★½]
1973 - Live Dates [★★★★]

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PESSOAL

Andy Powell: guitarras solo, rítmicas e acústicas, vocais. 
Ted Turner: guitarras solo, slides, rítmicas e acústicas, vocais. 
Martin Turner: baixo, vocais. 
Steve Upton: bateria, percussão.

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INTRODUÇÃO

Entre 1970 e 1973, o Wishbone Ash forjou sua lenda em um dos períodos mais férteis e transformadores do rock. No alvorecer da década, com o fim de ícones como o Cream, o cenário musical ansiava por novas vozes que pudessem fundir o poder do blues rock emergente com a ambição do rock progressivo que ganhava forma. Foi nesse espaço que o quarteto formado por Martin Turner, Steve Upton, Andy Powell e Ted Turner surgiu, trazendo consigo uma arma secreta que redefiniria a linguagem de duas guitarras no rock: o ataque duplo e harmonizado, uma ideia com ecos dos Yardbirds, mas elevada a uma complexidade melódica e contrapontística então inédita. Apoiados por um endosso crucial de Ritchie Blackmore do Deep Purple, que os recomendou ao produtor Derek Lawrence e ajudou a fechar o contrato com a Decca/MCA, eles lançaram seu álbum homônimo de estreia no final de 1970, um trabalho cheio de energia crua e promessa.

Em 1971, a banda embarcou em uma verdadeira peregrinação artística. Enquanto o rock se fragmentava entre o hard rock hegemônico e as complexidades do prog em expansão, o Wishbone Ash explorou trilhas folk, acústicas e mesmo jazzísticas em Pilgrimage, mostrando uma maturidade composicional crescente e a consolidação de sua técnica instrumental. Após turnês extenuantes, esse período de experimentação e refinamento preparou o terreno para o salto quântico de 1972. Naquele ano, eles não apenas lançaram um álbum, mas ergueram um verdadeiro monumento: Argus. Uma fusão perfeita de temas mitológicos, hard rock encorpado e harmonias de guitarra sublimes, a obra foi coroada como "Álbum do Ano" pelos leitores das revistas Sounds e Melody Maker, um triunfo imenso, superando concorrentes como Machine Head do Deep Purple e Ziggy Stardust de David Bowie (entre muitos e muitos outros rivais de peso). Este feito cimentou seu status como influência central para a onda do heavy metal que se avizinhava, inspirando diretamente futuras gerações de músicos de bandas como Priest, Lizzy, Maiden etc.

O ano de 1973, no entanto, trouxe ventos de mudança. Enquanto o Glam e o Prog dominavam, a banda optou por um caminho mais introspectivo e orientado para canções em Wishbone Four, seu primeiro disco autoproduzido, que, apesar de seus méritos, soou como uma deliberada mudança de curso após a épica grandiosidade de Argus (o que desapontou a sua base de fãs). Contudo, o mesmo ano terminou com um triunfo inquestionável: a liberação do duplo Live Dates. Capturando a energia elétrica e a maestria técnica da formação clássica no palco, este álbum ao vivo serviu como um testemunho definitivo de seu poder performático e como um ponto de exclamação adequado para esta fase fundadora, pouco antes de mudanças na formação. Assim, em apenas quatro anos, o Wishbone Ash evoluiu de uma promessa ruidosa para arquitetos de uma obra-prima eterna, deixando um legado indelével na história do rock através da inovação sonora que colocou suas guitarras gêmeas em harmonia perfeita com a eternidade.

1970 - Wishbone Ash [***1/2]

Lançado em 4 de dezembro de 1970, o álbum de estreia do Wishbone Ash chegou em um momento em que o rock britânico buscava novos caminhos. O debut é um retrato de uma banda jovem e faminta, aproveitando a oportunidade dada por Blackmore e Lawrence... Musicalmente, é um caldeirão de influências: o blues rock shuffle de Blind Eye, a balada folk em 12/8 (outro shuffle) de Errors of My Way (que já contém as características harmonias de guitarras e de vocais da banda além de uma bela secção solo) (*) E as longas viagens instrumentais de Handy (essa ainda meio amorfa e claramente construída a partir de colagem de diferentes seções revividas de ensaios e de shows, apesar de bons momentos) e Phoenix (obra-prima do álbum e da banda, realmente muito bem composta em claro contraste a anterior) mostram um grupo disposto a explorar... As três faixas essenciais (entre outras)  são: Blind Eye que abre o disco com interessantes chamados e respostas com a bateria (instrumento excelente por toda a faixa) e estabelece o diálogo entre as guitarras ("O" ponto de partida para a banda) ; Errors of My Way, uma balada melancólica e de fluxo livre que demonstra a sensibilidade folk e composicional da banda, trazendo curiosamente à mente o som de algo como um Fairport Convention da vida (!) e Phoenix, a épica de dez minutos que se tornaria um pilar dos shows ao vivo (em versões cada vez maiores) , um campo de prova para os solos entrelaçados de Powell e Turner. O álbum soa como um promissor trabalho de estreia – cheio de ideias, talvez um pouco inconsistente, mas já irradiando a química única que definiria o som da banda (e talvez até ganhando uma meia estrela extra por conta disso).

(*) Além de ter uma estrutura global cíclica (ou quase), comum ao progressivo e que influenciaria compositores pesados posteriores: como o Steve Harris do Iron Maiden por exemplo... 

(Outras coisas do Wishbone Ash em geral que lembram o Maiden em geral: um arsenal interminável de ritmos shuffles e variantes, além de: seções solo de baixo, baixo como único instrumento em cena e mesmo servindo como elemento disparador para novas secções da música em questão.)

(Desde o primeiro álbum a banda teve uma atitude de jazz-com-guitarra-guitarra-baixo-bateria, tanto composicional quanto improvisacional. Algo que influenciou bandas posteriores do rock e até mesmo bandas pesadas como o OPETH.)

1971 - Pilgrimage [***1/2]

Pilgrimage, lançado em setembro de 1971, encontra o Wishbone Ash em um momento de reflexão e expansão. Enquanto o rock progressivo florescia, a banda decidiu não apenas se aprofundar no hard rock, mas também em paisagens mais acústicas e jazzísticas (com direito a quatro instrumentais que não desapontam dentre sete faixas). O álbum funciona como um diário de viagem sonoro, mostrando um grupo mais confiante em sua técnica após turnês intensas... As três faixas-chave (entre outras) são: The Pilgrim, uma jornada instrumental de oito minutos que é a espinha dorsal do disco e uma joia menos conhecida no cânone da banda, alternando seções mais contemplativas com segmentos de puro peso cristalino excepcionalmente bem produzido e executado (soando as vezes para os ouvidos desta Castanha como um Proto Rush) ; Jail Bait, um rock direto e cativante, composto rapidamente em um pub e que se tornou um favorito imediato e perene nos palcos (que a produção consegue encaixar surpreendentemente bem no álbum) e Vas Dis, uma vigorosa interpretação de um tema de jazz de Jack McDuff, mostrando a versatilidade e o senso de humor da banda (com todos tocando e cantando muito numa faixa que soa desconcertantemente  contemporânea)... A inclusão da faixa final ao vivo Where Were You Tomorrow adiciona um sabor cru e espontâneo (Jam Hard Rock total!)... Pilgrimage é um álbum de transição essencial, com visíveis melhoras nas composições (apesar de termos partes reaproveitadas novamente) e especialmente na execução dos seus integrantes, algo que pavimentou o caminho para a obra-prima que estava por vir.

(Notem o inusitado reggae no final de Valediction.)

1972 - Argus [****]

Argus, lançado em 28 de abril de 1972, é a obra-prima absoluta do Wishbone Ash e um dos álbuns mais importantes do rock dos anos de 1970. Em um ano repleto de clássicos lendários, ele se destacou ao ser votado “Álbum do Ano” pela revista Sounds, superando concorrentes como Machine Head e Ziggy Stardust. O álbum é uma fusão perfeita de conceito, melodia e poder: suas letras (em geral) evocam um mundo medieval e mitológico, enquanto a música une a força do hard rock à delicadeza do folk progressivo (o feel do álbum parece combinar: coragem serena, nostalgia, anseio, melancolia e beleza). A produção virtuosa e cristalina de Lawrence criou um som atemporal (sem exageros), que mais do que superou o teste do tempo... As joias imperdíveis (dentre todas) são: Time Was, misturando folk acústico com partes pesadas super polidas e harmonias/solos de guitarras para além dessa terra (somente essa faixa já vale a compra do álbum)  ;  Blowin’ Free, talvez o hino do álbum, com seu riff contagiante e letra inspirada em um romance de verão – com a música excepcionalmente se entrelaçando e potencializando tal prosa ; The King Will Come, uma abertura majestosa com riffs triunfantes e harmonias de guitarra que soam como um chamado às armas (introdução em convenção e a estética épica liricamente retratada remetem ao Maiden e ao Power Metal Europeu que viria)  E Throw Down the Sword, a favorita desta Castanha, um final epicamente melancólico que encerra uma não terminada jornada ultimamente com um monstruoso solo duplo de guitarra que faz até uma pedra se emocionar (notem a semelhança com Fade to Black do Metallica nos versos)... Argus é o legado sonoro do Wishbone Ash, um disco virtualmente perfeito, ao mesmo tempo frágil e etéreo, estridente e eufórico, que continua a inspirar gerações (54+ anos e contando).

(E o que dizer da belíssima Sometime World que eventualmente apresenta um insano baixo Rushiano sobreposto a harmonias vocais cativantes e inesquecíveis?)

(Leaf and Stream segue a rota folk com graça até o fim, com Martin Turner soando muito parecido com John Wetton.)

(Warrior é  a mais a frente do seu tempo em estrutura e peso. Notem a majestade e a atualidade da ponte por exemplo. Certas partes (notem o refrão principalmente) lembram a canção Revelations do Maiden.)

1973 - Wishbone Four [**1/2]

Wishbone Four, de maio de 1973, representou uma mudança de curso ousada e divisiva. Pela primeira vez, a banda assumiu as rédeas da produção, afastando-se do produtor Derek Lawrence (e isso é algo aparente negativamente). Em um momento em que muitas bandas de rock consolidavam seus estilos, o Wishbone Ash optou por explorar mais o folk acústico e canções mais curtas, diluindo um pouco o ataque duplo de guitarras que os consagrou (isso sem falar na menor inspiração composicional)... As três faixas mais representativas são: So Many Things to Say, uma abertura energética que mantém o espírito roqueiro anterior (lembra o The Who em partes) ; No Easy Road, o single que surpreendeu com sua seção de metais e backing vocals, mostrando uma clara tentativa de alcançar um som mais radiofônico (esse um destaque bastante negativo que desanima o ouvinte) E Everybody Needs a Friend, uma longa balada de quase nove minutos não muito focados que, apesar de bem intencionada, traz, por exemplo, falta do ímpeto improvisacional de épicas passadas... O álbum soa como uma tímida coletânea de razoáveis/boas canções em busca de uma identidade coesa, largamente ofuscado pela sombra gigantesca de Argus. É um trabalho razoavelmente digno, mas que marca um ponto de inflexão na então trajetória ascendente da banda.

(A segunda metade do álbum é muito sem sal, para o bem e para o mal.)

1973 - Live Dates [****]

Live Dates, lançado em novembro de 1973, é a consagração do Wishbone Ash como uma das grandes forças ao vivo de sua geração (até as músicas do WAIV melhoram no palco). Gravado em junho daquele ano em várias casas de espetáculo britânicas com o renomado estúdio móvel dos Rolling Stones, o álbum captura a banda no auge de seu poder no palco. É a antítese do marasmo de estúdio de Wishbone Four: um documento cru, energético e virtuosístico que celebra o melhor do seu repertório clássico. As três performances essenciais (entre outras) são: The King Will Come, que ganha uma dimensão ainda mais grandiosa e urgente ao vivo ; Phoenix, em versão épica de 17 minutos que é a peça central do disco, uma verdadeira odisseia de solos de guitarra entrelaçados e dinâmica implacável, superando até mesmo sua já poderosa versão de estúdio E Blowin’ Free, onde o hino de Argus explode em uma celebração eufórica, confirmando seu status como clássico instantâneo (sem exageros). Live Dates não é apenas um grande álbum ao vivo (comparável aos melhores do período) ; é um testemunho definitivo da química da formação original e um lembrete potente de por que o Wishbone Ash deixou uma marca tão profunda na história do rock.

CONCLUSÃO

A jornada do Wishbone Ash entre 1970 e 1973 é um dos arcos mais fascinantes e influentes do rock clássico. Em apenas quatro anos, a banda evoluiu de um promissor grupo de hard rock e blues para os arquitetos de uma obra-prima atemporal, Argus, passando por experimentações folk/jazz e culminando em um dos grandes discos ao vivo da era. Seu legado, no entanto, vai muito além das vendas ou das posições nas paradas. A inovação do seu “ataque duplo de guitarras gêmeas harmonizadas", refinado nesses anos, tornou-se uma pedra fundamental para o desenvolvimento do heavy metal e do hard rock das décadas seguintes, ecoando em bandas como Thin Lizzy, Judas Priest e Iron Maiden (influenciou a NOWBHM e daí pulou para as vertentes mais extremas e/ou progressivas do rock pesado). Esta coleção de seis trabalhos – da energia crua do debut, passando pela peregrinação eclética de Pilgrimage, pelo pináculo de Argus, pela encruzilhada de Wishbone Four e pelo testemunho triunfante de Live Dates – forma um retrato completo de uma banda que, em seu período clássico, soube equilibrar ambição artística, poder instrumental e um melodismo inconfundível. É um legado sonoro que, mais de cinco décadas depois, continua a ressoar com força e inspiração, celebrado em novos lançamentos de arquivo e turnês contínuas que honram este período dourado.

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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

CAMEL (1973-1978)

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01 1973 Camel [****]
02 1974 Mirage [****]
03 1975 The Snow Goose [****]
04 1976 Moonmadness [****]
05 1977 Rain Dances [***]
06 1978 A LIVE Record [****]

- Andy Latimer / guitars, flute, vocals
- Peter Bardens / keyboards, vocals
- Doug Ferguson / bass, vocals [01-04][06]
- Andy Ward / drums, percussion

- Mel Collins / Goodwind [05-06]
- Richard Sinclair / bass, vocals [05-06]

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sexta-feira, 25 de julho de 2025

MOTORHEAD (1977-1983)

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OS TRÊS AMIGOS:

Lemmy , Phil e Eddie
 
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OS ÁLBUNS:
 
1977 - Motorhead [***]
1979A - Overkill [****]
1979B - Bomber [****]
1980 - Ace Of Spades [****]
1981 - No Sleep 'til Hammersmith LIVE [****]
1982 - Iron Fist [***]
 
1983 - Another Perfect Day [***1/2]

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OS CRÉDITOS:


- Lemmy Kilmister / vocais e baixo
- Eddie Clarke / guitarra [01-06]
- Phil Taylor / bateria

- Brian Robertson /
guitarra [07]

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COMENTÁRIOS:
 
Período clássico que não só definiu a banda inglesa como praticamente inventou um gênero próprio. Os anos de 1977 a 1983 foram uma montanha-russa de caos, rock 'n' roll puro e sucesso.

Este período é abençoado pela formação dos "Três amigos":

Lemmy Kilmister (baixo e vocais) - Coração, alma e uma voz gutural toda particular.

"Fast" Eddie Clarke (guitarra) - O feeling de blues e o braço "rápido".

Phil "Philthy Animal" Taylor (bateria) - A força destrutiva e tribal por trás do kit.
 
Linha do Tempo e Marcos Principais (1977-1983):

1977 Lançamento do álbum de estreia homônimo, Motörhead... Gravado em 1976 (como On Parole) e com uma formação diferente (Larry Wallis na guitarra e Lucas Fox na bateria), foi considerado "inaudível" pela gravadora, que se recusou a lançá-lo (até oportunisticamente fazê-lo em 1979 com o sucesso de Overkill/Bomber). Lemmy, Eddie e Phil regravaram quase todas as faixas do original e salvaram um disco de estreia dali. Já se anunciava o que estava por vir.
 
1979 O ponto de virada da banda... Lançamento de Overkill (março) e de Bomber (outubro). Esses dois álbuns são a fundação do legado do grupo. Overkill introduziu o histórico trabalho de dois bumbos de Phil (na faixa título), algo extremamente influente para o que viria a ser o speed e o thrash metal (ao lado de nomes contemporâneos da bateria pesada como Cozy Powell do Rainbow e Les Binks do Judas Priest).

1980 O seu ápice comercial e crítico... Lançamento de Ace of Spades (novembro). O álbum é uma obra-prima do rock pesado em alta velocidade. A faixa título se tornou o hino indiscutível da banda e um dos riffs de baixo mais reconhecíveis do planeta.

1981 O auge ao vivo... Lançamento do lendário álbum No Sleep 'til Hammersmith (junho). Captura perfeitamente a energia crua e avassaladora do Motörhead nos palcos. Alcançou um grande sucesso, provando que a sua música, apesar de incrivelmente barulhenta e agressiva, tinha um inegável apelo massivo... A melhor introdução possível ao som da banda (com as versões das suas canções ao vivo superando com sobras as suas contrapartes de estúdio).

1982 Mudanças e tensões... Lançamento de Iron Fist (abril). Embora um álbum sólido, muitos fãs e a própria banda sentiram que não havia atingido o brilho de seus antecessores (boas canções com uma produção claudicante parece ser o consenso). As tensões internas, especialmente entre Eddie Clarke e os outros dois músicos, estavam no auge. Eddie deixa a banda durante a turnê de Iron Fist (não havia sido a primeira "saída" do guitarrista mas foi então a definitiva).

1983 O fim de uma era... Com Brian "Robbo" Robertson (vindo do Thin Lizzy) na guitarra agora, a banda lança Another Perfect Day. Um álbum divisivo, com um som mais melódico e complexo devido ao estilo mais limpo de Robbo. Musicalmente interessante, mas não soava como o Motörhead clássico para muitos (NOTA: Esta Castanha o considera um álbum diverso e historicamente injustiçado). PhilTaylor deixa a banda pouco depois, encerrando oficialmente a era de ouro (com Lemmy sozinho tendo que reformar a banda a partir do zero).
 
Características Sonoras e Musicais do Período Citado:

O som do Motörhead clássico é uma criatura única, um híbrido de três estilos:

1.  Velocidade do Punk Rock: A atitude e a energia crua e acelerada vinham diretamente da cena punk. Eles eram mais rápidos que quase qualquer banda de rock pesado da época.
 
2. Peso do Heavy Metal: O volume, a distorção e a atitude "somos mais pesados do que todos" influenciariam diretamente a nova onda do metal britânico (NWOBHM) e, depois, o speed e o thrash metal.
 
3.  Alma do Rock 'n' Roll Clássico: No fundo, Lemmy sempre insistiu que o Motörhead era uma banda de rock 'n' roll (apesar disso ser uma afirmação pouco intuitiva para alguns). Mas a sensibilidade blues de Eddie Clarke e as estruturas simples e diretas das músicas comprovam isso paradoxalmente.

A trinca de músicos era perfeita para a proposta da banda:
 
Lemmy tocava o seu baixo RickenBaker como uma guitarra base, usando cordas especiais e grande distorção (que potencializavam o timbre natural característico e agressivo de tal instrumento), criando uma parede de médios que era o alicerce do som da banda (uma das sonoridades mais instantaneamente reconhecíveis de todo o rock pesado em todos os tempos)... Sua voz também era prontamente identificável (virtualmente inconfundível!), muito agressiva mas (curiosamente) com uma atitude geral um tanto relaxada e até bastante compreensível liricamente.

Eddie era o contraponto perfeito para esse líder carismático: Seus solos eram cheios de feeling, blues e melodia, evitando o excesso de técnica pela técnica (não que fosse algum virtuoso do instrumento apesar do apelido "Fast").

Phil era um furacão (ou seria um "animal"?). Sua bateria era barulhenta, caótica e incrivelmente poderosa, muitas vezes usando dois bumbos, sendo um dos pioneiros do seu consistente uso no rock pesado. Um herói do estilo por vezes injustamente esquecido historicamente.
 
Legado e Influência:

A importância do Motörhead neste período (especialmente) é impossível de exagerar.:
 
Ponte entre o Punk e o Metal: Eles eram a única banda aceita e respeitada pelas duas tribos igualmente. Metallica, Slayer, Anthrax e Megadeth entre outros (e virtualmente todos os fãs de thrash metal) citam o Motörhead como uma influência fundamental.
 
NWOBHM: Eram a referência (ao lado do Judas Priest) para tal movimento. Mais velhos, mais experientes e mais *rock 'n' roll* que todos, eles de fato pavimentaram o caminho para bandas como Iron Maiden e Saxon.

ATITUDE: A filosofia do Motörhead era "não se importar com o que os outros pensam". Eles eram eles mesmos, 100% do tempo. A imagem de couro, ferro e suor tornou-se icônica. Viraram sinônimo de naturalidade e de autenticidade na cena metal... E como eles gostavam de estar na estrada em turnê.
 
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Descansem em Luz, irmãos. E obrigado por tudo: 

Ian Fraser Kilmister (24/12/1945 – 28/12/2015)

Edward Allan Clarke (5/10/1950 – 10/01/2018)

Philip John Taylor (21/09/1954 – 12/09/2015)

 
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AC/DC (1976-1981)

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YOUNG E SCOTT EM AÇÃO
 
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 ÁLBUNS:
 
1976A High Voltage [***]
1976B Dirty Deeds Done Dirt Cheap [***]
1977 Let There Be Rock [****]
1978A Powerage [****]
1978B If You Want Blood...  LIVE [****]
1979 Highway to Hell [****]
1980 Back in Black [****]
1981 For Those About To Rock [***1/2]

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PESSOAL:

- Bon Scott / Vocais [01-06]
- Brian Johnson / Vocais [07-08]

- Angus Young / Guitarras
- Malcolm Young / Guitarras Base e Vocais de Apoio
- Phil Rudd / Bateria

- Mark Evans / Baixo e 
Vocais de Apoio [01-03]
- Cliff Williams / 
Baixo e Vocais de Apoio [04-08] (*)

(*) Completando a formação clássica com Scott por três álbuns [04-06]

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O PICO DA BANDA
 
A fase de 1976 a 1981 da banda AC/DC não é apenas a sua "Era de Ouro", ela é um dos capítulos mais explosivos, influentes e definidores da história do rock and roll em geral. Foi uma época de tragédia imensa, mas também de resiliência absoluta e de uma produção musical que se tornou sinônima de hard rock (se tornando meio que "o fato" só que definitivamente MUITO "após o fato", algo deveras extraordinário).

Vamos mergulhar nos detalhes...
 
O Contexto: A Consolidação de uma Máquina de Rock

No início de 1976, o AC/DC já havia estabelecido sua identidade visual (como o icônico uniforme escolar de Angus Young nas apresentações ao vivo, por exemplo) e sonora (rock and roll cru, potente e pesado com riffs marcantes) na sua terra natal da Austrália (já com dois álbuns por lá lançados em 1975: High Voltage (em fevereiro) e T.N.T. (em dezembro)). O desafio era conquistar o mundo... A mudança para o Reino Unido e a assinatura com a Atlantic Records foram os primeiros passos cruciais nesse sentido...

A combinação do espírito rebelde e ao mesmo tempo malandro de Bon Scott com os riffs
enganadoramente "fáceis", matadores  e pesados dos irmãos Young e a bateria minimalista (porém com um feel sempre impecável) de Phil Rudd era simplesmente perfeita...
 
ÁLBUM A ÁLBUM

0. High Voltage (A VERSÃO INTERNACIONAL)
(MAIO DE 1976): Compilação dos dois primeiros álbuns australianos... Oferecia um aperitivo do som da banda para audiências internacionais (com uma produção não tão pesada como a posteriori, porém bastante clara, crua e com o estilo da banda certamente já bem reconhecível)... Abundam momentos memoráveis: "It's A Long Way To The Top (If You Wanna Rock 'N' Roll)" (com um icônico arranjo de gaita de fole todo especial e tocado pelo próprio Scott) , "The Jack" , "Live Wire" , "T.N.T."  e "High Voltage".

1. Dirty Deeds Done Dirt Cheap (SETEMBRO DE 1976): Scott continua com seu próprio estilo bem humorado de contar "histórias épicas" sobre Rock, Sexo e Bebida, apoiado como sempre na rifferama robusta e cada vez mais pesada dos Young... Destaques: A faixa título , "A Problem Child" , "Big Balls" , "Ride On" (clássico absoluto da banda e uma das melhores performances e letras de Scott)  e "Jailbreak".

2.  Let There Be Rock (JULHO DE 1977): O primeiro clássico da banda (com uma qualidade de produção de encher os olhos)... Aqui muito mais rápida e pesada (metálica até diriam alguns), com estilo já inegavelmente estabelecido e completamente identificável. Destaques (na verdade todo o álbum): "Whole Lotta Rosie" , o  estonteante épico
titular "Let There Be Rock" , "Hell ain't a Bad Place to Be" e "Problem Child" (com um baita solo de guitarra) solidificaram o som de arena da banda.

3.  Powerage (MAIO DE 1978): Considerado o álbum favorito pessoal por muitos dos fãs mais hardcore da banda e também por muitos críticos. É o mais "blueseiro" e complexo musicalmente da era Bon Scott, com o baixo de Cliff Williams finalmente entrando na mixagem da produção. Destaques: "Rock 'n' Roll Damnation", "Sin City" e a absurdamente grooveada "Riff Raff". A faixa "Down Payment Blues" mostra uma letra mais sóbria e mesmo social de Bon Scott.

4. If You Want Bad Blood...  LIVE (OUTUBRO DE 1978): Outro clássico absoluto, com grande repertório, performance e produção, com as versões das canções ao vivo superando facilmente as suas respectivas contrapartes de estúdio.
 
5. Highway to Hell (JULHO DE 1979): Se a trilogia anterior (2-3-4) construiu a base, Highway to Hell foi a explosão que levou a banda ao estrelato mundial absoluto...

=> Produtor Mutt Lange: A contratação de um novo produtor foi um golpe de gênio (substituindo os anteriores Harry Vanda & George Young). Lange manteve a energia crua da banda, mas poliu finamente as arestas, dando aos vocais de Scott e aos riffs dos irmãos Young um "punch estereofônico" inédito até então que conquistou as rádios sem vender a alma do grupo no processo.
 
=> Sucesso Comercial: Foi o primeiro álbum da banda a chegar ao topo nos EUA, eventualmente vendendo milhões de cópias.

=> Canções imortais: A faixa título "Highway to Hell" é possivelmente o maior hino de rock de todos os tempos (ou muito próximo disso). "Girls Got Rhythm", "Touch Too Much" e "If You Want Blood (You've Got It)" são igualmente monstruosas... O álbum era uma celebração do estilo de vida rock and roll e Bon Scott era o seu poeta melhor laureado, no auge de sua forma... O que torna tão triste  e marcante o que logo se seguiria...
 
A Tragédia e a Transição: 1980

Em 19 de fevereiro de 1980, após uma noite de bebedeira pesada em Londres, Bon Scott foi encontrado morto em um carro. A causa oficial foi "intoxicação alcoólica aguda" listada como "morte por acidente".

O mundo do rock parou. A banda perdeu não apenas seu vocalista, mas seu rosto, sua personalidade e seu letrista. A pergunta era óbvia: o AC/DC continuaria?

Contra todas as expectativas, os irmãos Young decidiram que Bon teria querido que a banda continuasse. Após uma audição, escolheram então o Inglês Brian Johnson, ex-vocalista do Geordie, cuja voz potente e aguda impressionou Angus e Malcolm.
 
6. Back in Black (JULHO DE 1980):

Lançado apenas um ano após o álbum anterior (que representou o alçamento da banda para o estrelato internacional), apenas cinco meses após a morte de Bon Scott, Back in Black talvez seja o maior ato de resiliência da história do rock pesado:

=> A capa totalmente preta era um tributo solene a Bon Scott;

=> Brian Johnson não tentou imitar Scott, ele trouxe sua própria persona de uma espécie de "herói de classe trabalhadora" e uma voz que era sim (ao seu modo) poderosa o suficiente para preencher tamanho vazio;

=> Com Mutt Lange novamente na produção, o álbum soa colossal. Cada riff de Malcolm, cada solo de Angus, cada nota da bateria de Phil Rudd é (sem exagero) perfeito;

=> As faixas são uma sucessão de hinos: a sinistra badalada de sino em Hells Bells, o riff mais reconhecível do mundo na faixa título, o groove de You Shook Me All Night Long (que se tornou seu maior sucesso em rádios pop) e a brutalidade melódica de Shoot to Thrill. Entre outros.
    
=> Back in Black não é apenas o ápice da fase de ouro da banda, ele é um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos, um monumento ao rock pesado e um testamento eterno ao espírito de Bon Scott.

7. For Those About to Rock (1981): Encerra este período de ouro (ainda com Lange na produção)... O álbum foi um sucesso comercial imediato, chegando ao topo nos EUA, solidificando o AC/DC como a maior banda de rock do planeta naquele momento. A faixa título, com seus 21 canhões de verdade disparando ao vivo, se tornou o clímax absoluto de todos os shows do grupo dali em diante, um hino de celebração ao seu gênero e aos seus fãs (um verdadeiro show a parte).

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Durmam em luz, irmãos:
 
Ronald Belford Scott (09/06/1946 a 19/02/1980)
 
Malcom Mitchell Young (06/01/1953 a 18/11/2017)
 
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