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005. THE QUATERMASS XPERIMENT (1955) [82'] [1.37:1] [***]
A filmografia do diretor Val Guest, antes de 1955, era povoada por comédias ligeiras e thrillers modestos, um artesão competente que ainda não encontrara um veículo para imprimir a sua verdadeira assinatura autoral. The Quatermass Xperiment representou uma ruptura sísmica nessa trajetória, sendo o primeiro mergulho de Guest, que ainda dirigiria a sua continuação, Quatermass II de 1957, no território da ficção científica e do horror. Esses dois longas foram, ao lado da obra distópica posterior The Day the Earth Caught Fire (1961), os principais definidores do legado do cineasta. A diferença fundamental reside no abandono do tom jocoso de seus trabalhos pregressos em favor de uma gravidade quase documental, uma seriedade de propósito que beira o cruel (!). Ao mesmo tempo, o filme reforça um viés autoral que se tornaria a marca registrada de Guest: a habilidade de ancorar o fantástico em uma realidade prosaica e recognoscível, utilizando cenários cotidianos e uma abordagem visual despojada para tornar o inacreditável absolutamente verossímil. Ele filma a invasão de uma fazenda inglesa por um foguete espacial com a mesma objetividade com que filmaria a investigação de um crime comum, e é justamente essa colisão entre o ordinário e o extraordinário que confere ao longa sua potência perturbadora... Lançado em 1955, o filme se insere em um mundo ainda convalescente dos traumas da Segunda Guerra Mundial e já imerso nas ansiedades da Guerra Fria. A imagem de um foguete que retorna à Terra trazendo consigo uma ameaça invisível e corruptora era uma metáfora quase transparente para os temores nucleares e bacteriológicos da época, para o medo da contaminação ideológica que infiltrava as sociedades ocidentais. A própria figura do Professor Bernard Quatermass, um cientista civil que comanda um programa espacial com recursos privados e alheio aos controles governamentais, refletia a ambiguidade moral com que a figura do cientista passou a ser encarada após Hiroshima (veja também Godzilla de 1954 sobre esse mesmo tema entre tantos outros): um gênio criador cuja hybris ameaça a própria civilização. A narrativa, ambientada em uma Londres ainda marcada pelas cicatrizes dos bombardeios, captura uma atmosfera de vulnerabilidade e paranóia coletiva que ecoava tanto o imaginário das invasões alienígenas de H.G. Wells quanto o medo contemporâneo de um apocalipse silencioso e invisível, urdido não por exércitos, mas por esporos e mutações. O filme de Guest capturou essa essência ao transformar o corpo humano no campo de batalha final, um microcosmo da luta pela sobrevivência da espécie.
A trama se inicia com o retorno catastrófico da primeira missão espacial tripulada (orbitar a terra em um veículo mono estágio), idealizada pelo Professor Bernard Quatermass (Brian Donlevy). O foguete, que perdera contato com a base, cai em uma propriedade rural inglesa. As equipes de resgate, lideradas pelo próprio Quatermass e pelo pragmático Inspetor Lomax (Jack Warner) da Scotland Yard, descobrem que dos três tripulantes, apenas Victor Carroon (Richard Wordsworth) permanece a bordo, em estado de choque e incapaz de se comunicar. Seus dois colegas simplesmente desapareceram, deixando apenas os seus trajes espaciais vazios. Conduzido a um hospital sob vigilância, Carroon (que mais tarde descobrimos que foi contatado e possuído por alguma forma de vida alienígena não corpórea em sua missão, mesma entidade que eliminou os corpos dos outros dois tripulantes) começa a manifestar uma transformação aterradora: sua estrutura óssea se liquefaz lentamente, suas digitais desaparecem e seu corpo se converte progressivamente em uma massa vegetal que assimila a energia vital e talvez algo mais de toda forma de vida que toca. A pedido da sua esposa Judith (Margia Dean), um falso enfermeiro (que eventualmente é morto pelo próprio astronauta assimilado!) facilita a fuga de Carroon, dando início a uma caçada desesperada pelas ruas e canais de Londres. Nesse percurso, a criatura que Carroon se torna deixa um rastro de morte: absorve um químico industrial em uma farmácia, dizima a fauna de um zoológico e tem um encontro de terrível inocência com uma menina (Jane Asher) à beira de um canal, cena que ecoa o encontro do monstro de Frankenstein com a pequena Maria (das produções da Universal). Quatermass, auxiliado por seu assistente Dr. Gordon Briscoe (David King-Wood), analisa amostras da criatura e compreende a extensão da ameaça: o organismo alienígena está se reproduzindo por esporos e, se completar seu ciclo, libertará uma nuvem de sementes que dizimará eventualmente toda a vida nativa na Terra... O palco do confronto final é a famosa Abadia de Westminster, onde a criatura se revela em sua forma final: uma monstruosidade híbrida de diversas formas de vida por ela atingidas, com tentáculos (!) e matéria vegetal pulsante. Ali, no interior do templo gótico durante uma transmissão televisiva ao vivo sobre a história da sua arquitetura (!!), o horror é exposto em rede nacional antes que Quatermass consiga finalmente eletrocutar o alienígena, reduzindo-o a uma poça de protoplasma fumegante... O filme articula com maestria o tema da desumanização progressiva e da perda da identidade, expressos na transformação muda e agonizante de Carroon, que passa de vítima a vetor de uma ameaça apocalíptica sem jamais pronunciar uma palavra... O conflito central de Quatermass é a tensão entre a responsabilidade moral do cientista e sua obsessão pelo avanço do conhecimento, uma ambivalência que Donlevy traduz em uma atuação brusca e autoritária, distante da empatia que se esperaria de um herói convencional (mas que funciona para o contexto do filme e da época)... O personagem de Lomax, por sua vez, ancora o filme na lógica dos procedimentos policiais, oferecendo um contraponto cético e metódico ao arroubo visionário do professor, enquanto a personagem de Judith personifica o afeto impotente diante do inexorável.
Val Guest, operando com um orçamento de apenas quarenta e duas mil libras da época, extrai o máximo de cada elemento da linguagem cinematográfica para construir uma atmosfera de pavor crescente. A direção adota um registro que flerta com o semidocumental, herdeiro do neorrealismo italiano e do cinema de guerra britânico, com câmeras que se movem nervosamente pelos cenários reais, capturando a ação como se fossem cinejornais de uma tragédia em curso. Essa escolha estilística confere à narrativa uma credibilidade que amplifica o horror: a mutação de Carroon não é filmada como fantasia, mas como um fato clínico aterrador... A fotografia em preto e branco de Walter J. Harvey, rica em contrastes expressionistas, transforma as paisagens industriais de Londres e os interiores claustrofóbicos do hospital em espaços de pesadelo, onde as sombras sugerem mais do que revelam. A sequência noturna no zoológico, com as grades das jaulas projetando padrões sobre o rosto desfigurado de Wordsworth, é um exemplo primoroso de como a iluminação pode externalizar a prisão ontológica do personagem... A montagem de James Needs, econômica e precisa, alterna entre o olhar institucional da caçada policial e os momentos de solidão aterradora da criatura, criando um ritmo que jamais permite ao espectador recuperar o fôlego... A trilha sonora de James Bernard, em sua estreia no cinema, já anuncia o talento que se consagraria nos Dráculas da Hammer: cordas em glissandos inquietantes, metais que irrompem em dissonâncias e um tema principal que mescla grandiosidade marcial com algo profundamente errado, como um hino nacional corrompido por uma biologia alienígena... As atuações, embora desiguais em efetividade, contribuem para o efeito geral. Brian Donlevy impõe um Quatermass antipático e monomaníaco, cuja frieza beira a desumanidade, uma escolha arriscada que distancia o público da figura do herói e reforça a complexidade moral do cientista (mas definitivamente algo funcional no contexto). Jack Warner oferece a solidez de um profissional experiente, enquanto Margia Dean soa deslocada em seu papel (infelizmente!). Mas o coração trágico do filme reside em um estupendo Richard Wordsworth, cuja performance física e sem palavras é uma aula de expressão corporal: ele encena a dissolução da consciência humana com uma economia de gestos que evoca desde o cinema mudo expressionista até as vanguardas teatrais, seus olhos comunicando o terror de uma alma que sente estar sendo apagada e substituída por algo absolutamente outro... A maquiagem de Phil Leakey, aplicada em estágios sobre o rosto anguloso de Wordsworth, complementa aquela atuação com uma progressão de deformidades que culmina em uma das imagens mais perturbadoras do cinema de ficção científica: um braço que se converte em um cacto grotesco, unindo o horror corporal ao horror vegetal.
O veredicto final de The Quatermass Xperiment, dirigido por Val Guest, sobre seus temas e personagens é de uma ambiguidade radical. O mal não é derrotado pela virtude heroica ou pela engenhosidade pura, mas por um ato de força bruta, uma eletrocussão que elimina a criatura sem jamais compreendê-la verdadeiramente... Quatermass, ao final, não é redimido; ele simplesmente retorna ao trabalho, inabalável em sua determinação de construir um novo foguete e repetir o experimento, como se a catástrofe que ceifou várias vidas e quase aniquilou a humanidade fosse apenas um contratempo técnico. Essa recusa do filme em oferecer uma catarse confortável é uma das suas maiores virtudes, alinhando-o com uma tradição de ficção científica adulta que interroga os limites da ciência sem fornecer respostas fáceis (aqui o fazendo de forma radical, inspiradora e brutal!)... Victor Carroon, o astronauta sem voz, é um mártir sem consolo, sua humanidade suprimida tanto pela entidade alienígena quanto pela frieza calculista daqueles que deveriam protegê-lo... O impacto do filme na obra de Guest foi profundo: ele o estabeleceu como um diretor capaz de transitar entre o cinema de gênero e as grandes questões filosóficas, abrindo caminho para a sua potente obra distópica The Day the Earth Caught Fire (1961) e para a sofisticação narrativa de (sim uma continuação direta deste!) Quatermass II (1957) ... Para a Hammer Film Productions, o êxito comercial e crítico do filme representou o divisor de águas que redirecionou o estúdio do melodrama e do suspense tradicional para o horror gótico que o imortalizaria mundialmente, com as suas icônicas versões de Frankenstein e Drácula estreladas pelos mestres Peter Cushing e Christopher Lee... O legado do filme em si transcendeu seu contexto imediato. Ele demonstrou que a ficção científica cinematográfica britânica poderia ser tão impactante quanto a americana, não por meio de grandes orçamentos e efeitos mirabolantes, mas através da força das ideias, da construção atmosférica e da ousadia em abordar temas adultos, como a deterioração do corpo e a ameaça existencial que dispensa exércitos e naves-mãe.
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A herança genética de The Quatermass Xperiment é vasta e ramificada, tecendo uma teia de influências que conecta diferentes épocas e mídias... Seu DNA narrativo, que combina terror cósmico, terror corporal e um terror vegetal assimilador na linha dos esporos de The Thing from Another World (1951) e das vagens de Invasion of the Body Snatchers (1956), pode ser rastreado em obras seminais como Alien (1979), de Ridley Scott, e The Thing (1982), de John Carpenter, esse último diretor um admirador confesso que utilizou o pseudônimo Martin Quatermass em Prince of Darkness (1987) [não listado aqui], filme cuja criatura mutante deve muito ao monstro eletrocutado na Abadia de Westminster no presente longa... A própria ideia de um cientista-investigador enfrentando ameaças alienígenas em tons sombrios (e se considerarmos a adequação etária) ecoa diretamente na série Doctor Who, cuja dívida para com a criação de Nigel Kneale é amplamente reconhecida, ao mesmo tempo que o conceito de uma entidade com tantos e tão ricos (estética e tematicamente) estágios de desenvolvimento antecipa até mesmo os horrores de filmes como The Blob e The Fly em todas as suas versões, entre tantos outros exemplos possíveis [como o próprio The Fly (1986) de David Cronenberg]... O Escritor Stephen King dedicou páginas de seu livro (um livro de não ficção que na realidade é uma celebração pessoal do gênero Terror) Danse Macabre (1981) a analisar o impacto do filme sobre sua imaginação, e a influência do longa pode ser sentida em suas obras como em The Tommyknockers (1987)... O caminho que conduz de The Quatermass Xperiment a esses monumentos do cinema e da literatura fantástica é o testemunho de como uma produção modesta, enraizada nas ansiedades específicas da Grã-Bretanha do pós-guerra, pode destilar arquétipos e temores universais que reverberam através das gerações. É uma celebração do gênero em sua mais pura essência: a capacidade de, com recursos limitados e uma ideia poderosa, criar mundos, pesadelos e questionamentos que se alojam no imaginário coletivo e inspiram outros artistas a explorar as infinitas possibilidades da ficção especulativa, seja nos confins do espaço, nas profundezas do corpo humano ou mesmo no silêncio de uma mente que se desfaz.
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