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THE MANCHURIAN CANDIDATE (1962) [126'] [1.66:1] [★★★★]
Revisitar The Manchurian Candidate, obra-prima de John Frankenheimer lançada em 1962, é reencontrar não apenas um suspense político de primeira grandeza, mas um espelho deformado e perturbadoramente lúcido das ansiedades americanas que, longe de se dissolverem com o tempo, parecem ter encontrado no século vinte e um novos contornos para suas velhas neuroses... Frankenheimer, egresso da televisão ao vivo dos anos de 1950, trazia para o cinema de então uma agilidade narrativa e um senso de urgência que poucos de seus contemporâneos possuíam. Sua filmografia anterior, marcada por trabalhos como The Young Savages e Birdman of Alcatraz, já anunciava um diretor interessado em figuras marginais e em instituições que falham, mas é em The Manchurian Candidate que ele encontra o veículo perfeito para sua visão de mundo: uma sátira mordaz que ataca indistintamente a demagogia anticomunista, a hipocrisia da família tradicional americana e a paranoia de uma nação que se via enredada em suas próprias mentiras (curiosamente todas essas contradições sociais se transmutaram ao longo do tempo e chegaram de alguma forma até o nosso presente)... O filme se insere no coração da Guerra Fria, em um momento em que os Estados Unidos ainda digeriam o trauma do macarthismo e a ameaça real e/ou imaginária do comunismo internacional. Lançado em plena crise dos mísseis de Cuba, a obra parecia capturar o espírito de uma época em que o apocalipse nuclear era uma possibilidade concreta e a lealdade política, uma questão de vida ou morte. No entanto, o que diferencia The Manchurian Candidate dos demais filmes de Frankenheimer é a maneira como ele amalgama gêneros aparentemente inconciliáveis – o suspense, a comédia de costumes, o melodrama familiar, o NOIR e mesmo a ficção especulativa – (*) em uma unidade coesa e desconcertante. O diretor, que vinha de uma tradição televisiva que exigia soluções criativas e econômicas (em termos narrativos e de custos), aplica aqui toda a sua bagagem para criar um filme que é ao mesmo tempo um produto de seu tempo e uma profecia sobre o seu futuro. A sátira política, elemento que percorre toda a sua obra, atinge aqui seu ponto mais alto, não apenas na caricatura do senador demagogo, mas na própria estrutura da narrativa, que sugere que a verdadeira ameaça à democracia americana não vinha de fora, mas de dentro, de suas próprias instituições e de suas figuras de autoridade. O filme, adaptado do romance de Richard Condon por George Axelrod, apresenta uma premissa que poderia soar absurda – um soldado americano lavado cerebralmente na Manchúria para se tornar um assassino comunista – mas que Frankenheimer trata com uma seriedade tão absoluta e um estilo tão inventivo que o absurdo se transforma em uma lógica implacável e aterradora. O diretor, que mais tarde afirmaria que desejava mostrar o quão ridículo era todo o sindicato da direita e da esquerda radicais, encontrou no roteiro de Axelrod a plataforma ideal para sua crítica. Assim, The Manchurian Candidate não é apenas um filme sobre a Guerra Fria; é um filme sobre a natureza da manipulação, sobre a fragilidade da identidade e sobre a maneira como o poder corrompe não apenas os políticos, mas também as relações mais íntimas. A atualidade do filme, 64+ anos depois, reside exatamente nessa capacidade de transcender seu contexto histórico imediato e falar a uma audiência que, em 2026 e além, ainda se vê às voltas com demagogos, com a desinformação e com a ameaça de forças ocultas que operam nas sombras do poder.
(*) Lembramos, por exemplo, de uma inusitadamente tosca luta de "kung fu" envolvendo o personagem de Sinatra e um Guia Norte Coreano que satiriza ambos os lados da Guerra Fria.
A trama de The Manchurian Candidate, intrincada e repleta de camadas, começa em 1952, durante a Guerra da Coreia, quando uma patrulha do exército americano, liderada pelo capitão Bennett Marco (Frank Sinatra), é emboscada e capturada por forças soviéticas e norte-coreanas. Levados para a Manchúria, os soldados, incluindo o sargento Raymond Shaw (Laurence Harvey), são submetidos a três dias de intensa lavagem cerebral, um processo que combina drogas, hipnose e condicionamento em um anfiteatro repleto de agentes, militares e cientistas comunistas que se torna palco de uma das sequências mais icônicas da história do cinema (onde os militares sendo condicionados se imaginam numa reunião trivial de senhoras no saguão de um hotel na américa). Durante esse processo, os homens são programados para acreditar que Shaw salvou a todos heroicamente, quando na verdade ele foi transformado em um agente adormecido, um assassino involuntário que pode ser ativado pelo simples estímulo visual de uma carta de baralho (durante um jogo de paciência): a rainha de ouros! Anos depois, já de fato em território americano, o promovido major Marco, agora trabalhando na inteligência militar, é atormentado por um pesadelo recorrente, no qual revive as sessões de condicionamento, só que confundindo a imagem dos comunistas com a de senhoras de um clube de jardinagem de Nova Jersey (no pesadelo ele presencia Shaw matar dois soldados friamente, algo que de fato ocorreu durante o condicionamento dos prisioneiros). Esse pesadelo, que funciona na trama como uma chave para a verdade, leva Marco a suspeitar que algo está terrivelmente errado com a história oficial. Paralelamente, acompanhamos a ascensão política do padrasto de Shaw [notem que o sargento se torna famoso ao receber a mais alta comenda militar por valor], o senador John Yerkes Iselin (James Gregory), um político oportunista e demagogo que constrói sua carreira (por exemplo) acusando o Departamento de Defesa de ter exatamente cinquenta e sete membros (aliás um número que as vezes varia!) do Partido Comunista. A mãe de Shaw, Eleanor Iselin (Angela Lansbury), é a verdadeira mente por trás da operação: uma matriarca fria e calculista que, em uma das cenas mais perturbadoras do filme, beija o filho na boca em um gesto de possessividade que sugere o incesto. Ela é (vejam só!) a controladora de Shaw nos Estados Unidos, e seu plano (com o auxílio dos comunistas) é usar o filho como uma arma para eliminar os obstáculos políticos que se interpõem no caminho de seu marido em direção à vice-presidência e, subsequentemente, à presidência [Mas notem que a sua aliança com os comunistas é circunstancial e não ideológica. Ela pediu por uma arma mas foi uma fina ironia que justo a mente que ela abusou/destruiu em família ao longo do tempo que foi a mais responsiva ao condicionamento] [Em uma crise colossal de ego que aparenta descolamento da realidade ela sugere na sequência que irá se vingar dos comunistas pelo que fizeram a Shaw!]. O conflito central do filme se desenrola em torno de Marco, que, ao investigar seus próprios pesadelos, descobre a verdade sobre a lavagem cerebral e tenta impedir que Shaw cometa um assassinato que colocaria Iselin na linha de sucessão presidencial. A jornada de Marco é a de um homem que luta para recuperar sua sanidade em um mundo onde a realidade é constantemente distorcida, e sua determinação contrasta com a resignação trágica de Shaw, que, mesmo quando confrontado com a verdade sobre si mesmo, parece incapaz de escapar de seu destino (deixando dúvidas no ar!). O clímax do filme ocorre ás vésperas de uma convenção política para escolher a chapa presidencial do partido (com Iselin como VP), onde Marco, usando (vejam só!) um baralho composto apenas por rainhas de ouros, tenta desativar Shaw (mas o seu sucesso fica indefinido)... Eis que em um gesto final de rebeldia, Shaw, em vez de matar o candidato presidencial como ordenado pela sua mãe/operadora, volta a arma contra si mesmo e contra sua mãe (e padrasto), encerrando sua própria existência e a da mulher que o transformou em um monstro [Culminando a mitológica sequência final do filme: ele morre com as vestes de um padre e a sua medalha de valor no pescoço em uma imagem poderosíssima!]... A estrutura narrativa do filme, que alterna entre a perspectiva de Marco e a de Shaw, serve para desenvolver os temas principais da obra: a natureza da identidade, a falência da memória e a corrupção do poder. Shaw é a vítima máxima de um sistema que o desumanizou, enquanto Marco representa a resistência, a luta de um homem comum contra forças que o transcendem. A relação entre Eleanor e Raymond é o coração sombrio do filme, uma mãe que devora o filho para alimentar suas próprias ambições, uma dinâmica que ecoa os mitos gregos e as tragédias clássicas, mas que aqui é revestida de uma roupagem moderna e brutalmente realista (E duradoura!).
A realização de The Manchurian Candidate é um tour de force de linguagem audiovisual, onde cada elemento técnico é orquestrado com precisão cirúrgica para servir à narrativa e aos seus temas. A fotografia em preto e branco de Lionel Lindon, com sua textura granulada e seus contrastes dramáticos, é fundamental para criar a atmosfera de paranoia e desorientação que permeia o filme. O uso de lentes grande-angulares e de planos com foco profundo, herdados da experiência televisiva de Frankenheimer, distorce os espaços e aproxima os personagens de maneira desconfortável, sugerindo que não há lugar seguro, que o inimigo pode estar em qualquer lugar, inclusive dentro da própria mente. A sequência de lavagem cerebral, uma das mais celebradas do cinema, é um exemplo magistral de montagem e direção. Frankenheimer intercala planos do anfiteatro com as figuras sinistras dos cientistas e as senhoras do clube de jardinagem, criando uma sobreposição de realidades que é ao mesmo tempo confusa e reveladora. A câmera, em um movimento de trezentos e sessenta graus, varre o ambiente, capturando a alienação dos soldados em um espaço que é ao mesmo tempo físico e psicológico. Essa sequência, que poderia ser meramente explicativa, transforma-se em uma experiência subjetiva, colocando o espectador no lugar dos personagens e fazendo-o sentir a mesma desorientação que eles sentem. A montagem de Ferris Webster é igualmente brilhante, especialmente na maneira como corta entre as ações de Marco e as de Shaw, criando um ritmo frenético que espelha a urgência da trama. As atuações são outro pilar do filme. Frank Sinatra, em uma de suas melhores interpretações no cinema, transmite com maestria a fragilidade e a determinação de Marco, um homem à beira de um colapso nervoso mas que se recusa a desistir. Laurence Harvey, com sua postura rígida e seu sotaque britânico, cria um Raymond Shaw que é ao mesmo tempo antipático e trágico, um boneco de ventríloquo que, no fim, encontra uma centelha de humanidade para dar o tiro final [E deixa uma sugestão de algum tipo de neuroatipia em sua composição!]. No entanto, é Angela Lansbury quem rouba a cena com sua interpretação de Eleanor Iselin. A atriz, que na época tinha apenas três anos a mais que Harvey, entrega uma performance assustadoramente fria e calculista, uma mãe que usa a sexualidade e a manipulação como armas. Sua indicação ao Oscar foi mais do que merecida, e sua atuação estabeleceu um novo patamar para a figura da mãe vilã no cinema. A trilha sonora de David Amram, com seu tema de trompete melancólico e seus momentos de harpa e cravo, adiciona uma camada extra de inquietação. A música não apenas sublinha a ação, mas também cria um contraponto irônico, especialmente nas cenas que envolvem Shaw e seu jogo de paciência, onde o som do cravo evoca uma falsa sensação de ordem e civilidade. Em suma, todos os aspectos técnicos do filme – da fotografia à montagem, da direção de arte às atuações – convergem para criar uma obra que é ao mesmo tempo um suspense eletrizante e uma profunda meditação sobre a condição humana em tempos de crise.
O veredicto final de The Manchurian Candidate sobre seus temas e personagens é sombrio e desesperançoso, mas não sem uma ponta de ambiguidade moral. O filme parece sugerir que a verdade, embora possa ser descoberta, raramente traz a redenção... Marco, o herói da história, consegue desvendar a conspiração e impedir o assassinato do candidato a presidência, mas o preço é alto: ele é forçado a testemunhar a morte de Shaw e a encarar a realidade de que sua própria mente também foi violada. O filme termina com Marco olhando para a câmera, em um close que congela sua expressão de horror e incredulidade, enquanto a música atinge um clímax dissonante. Não há vitória triunfante, apenas a constatação de que o mal, uma vez solto, deixa cicatrizes profundas. Para Shaw, a morte é a única saída possível, um ato de rebeldia que, ao mesmo tempo, é uma rendição. Ao matar sua mãe e a si mesmo, ele se liberta do controle, mas também confirma sua condição de peça descartável em um jogo que nunca escolheu jogar. Eleanor Iselin, a grande vilã, morre sem compreender plenamente sua derrota, sua obsessão pelo poder a cega até o último instante. O filme, portanto, não oferece consolo, mas sim uma reflexão amarga sobre a natureza do poder e da manipulação. O legado de The Manchurian Candidate é imenso. Ele não apenas consolidou a reputação de John Frankenheimer como um dos diretores mais talentosos de sua geração, como também definiu o subgênero do thriller de conspiração paranóica, influenciando obras como The Parallax View e Three Days of the Condor. O filme também é um marco na carreira de Frank Sinatra, provando que o célebre cantor também era de fato um ator competente (além de ser o principal responsável pelo financiamento do filme), e lançou Angela Lansbury em uma nova direção, mostrando seu alcance dramático para além dos papéis triviais de mocinha. A frase "Candidato da Manchúria" entrou para o léxico político, sendo usada para descrever qualquer político que se suspeite estar sob influência estrangeira. A influência do filme se estendeu à literatura, à televisão e a outros filmes, incluindo o remake de 2004 dirigido por Jonathan Demme, que, embora competente, não conseguiu capturar a mesma essência perturbadora do original. O que torna The Manchurian Candidate tão duradouro não é apenas sua qualidade técnica ou suas atuações, mas sua capacidade de falar a cada nova geração que o redescobre. Em 2026, em um mundo polarizado e cheio de desinformação, a visão de Frankenheimer sobre uma sociedade manipulada por forças ocultas e por demagogos sem escrúpulos parece mais atual do que nunca. O filme é um alerta, um espelho e, acima de tudo, um exemplo de manual de uma obra de arte que transcende seu tempo.
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O diálogo de The Manchurian Candidate com a tradição do cinema de ficção científica e suspense é tão profundo quanto sua influência sobre as obras que o sucederam. O filme bebeu de várias fontes, tanto literárias quanto cinematográficas, para criar sua síntese única. A ideia de lavagem cerebral, que era um tema recorrente na ficção científica dos anos de 1950, ganhou aqui uma roupagem política e psicológica que a tornou mais aterradora. Filmes como Invasion of the Body Snatchers de 1956, que lidavam com a perda da identidade e a substituição por cópias desumanas, encontram um eco em The Manchurian Candidate, onde a ameaça não vem de alienígenas, mas de ideologias totalitárias que invadem a mente. O próprio romance de Richard Condon, que serviu de base para o filme, é uma obra de sátira política (o que remete diretamente a Doctor Strangelove de Kubrick que viria logo a seguir!) que bebe da tradição dos romances de espionagem e da ficção científica especulativa. A adaptação de George Axelrod, por sua vez, trouxe para o cinema uma linguagem que era ao mesmo tempo literária e cinematográfica, incorporando elementos do noir e do melodrama. A influência do filme, no entanto, é ainda mais vasta. Ele é frequentemente citado como um dos precursores do thriller de conspiração que dominaria o cinema americano na década de 1970, influenciando diretores como Alan J. Pakula e Francis Ford Coppola. A sequência de lavagem cerebral, com sua mistura de realismo e surrealismo, antecipou as experimentações formais de filmes como A Clockwork Orange, de Stanley Kubrick, lançado nove anos depois. A figura da mãe manipuladora, encarnada por Angela Lansbury, tornou-se um arquétipo (extremamente detalhado!) que seria revisitado em inúmeros filmes e séries de televisão. O próprio título do filme se tornou um termo cultural, usado para designar qualquer pessoa que se suspeite estar agindo sob controle externo. A obra também inspirou músicos, como Frank Zappa, cuja trilha sonora de Uncle Meat parece ter sido influenciada pelos temas de cravo de David Amram. O remake de 2004, dirigido por Jonathan Demme, é uma prova do poder duradouro da história, embora a atualização para a Guerra do Golfo tenha perdido a especificidade histórica e a urgência do original. Além disso, o filme ecoa a tradição do expressionismo alemão e do cinema noir, com seu uso de sombras e ângulos distorcidos para criar um estado de ansiedade e desorientação. A sequência final, ambientada em uma convenção política, com sua estética documental e sua atmosfera de caos controlado, parece antecipar o cinema de diretores como Robert Altman e sua abordagem corajosa e multifacetada da narrativa. Em suma, The Manchurian Candidate é um filme que se alimenta de muitas tradições, mas que, ao mesmo tempo, as transcende, criando algo novo e original. Ele é um ponto de inflexão na história do cinema, um filme que mostra como o gênero pode ser usado para explorar as ansiedades mais profundas de uma sociedade e como a ficção especulativa pode se tornar um instrumento de crítica política e social. Ao celebrar o gênero em suas infinitas possibilidades, The Manchurian Candidate nos lembra que o cinema de ficção científica e suspense é, em sua essência, um cinema de ideias, um espaço onde podemos confrontar nossos medos e imaginar outros futuros, mesmo que esses futuros sejam tão sombrios quanto o presente que tentamos esquecer.
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BÔNUS: Marco era ele próprio um agente da Manchúria?
A ideia de que o major Bennett Marco (Frank Sinatra) seja ele próprio mais um agente da Manchúria, operado pela enigmática Eugenie Rose Chaney (Janet Leigh), é uma das camadas mais fascinantes e perturbadoras que emergem de uma releitura atenta do filme, e que frequentemente escapa a uma primeira impressão. Durante toda a trama, Marco é apresentado como o herói detetive, o homem que, atormentado por pesadelos, desvenda a conspiração e tenta salvar Raymond Shaw (Laurence Harvey) de seu destino. No entanto, o filme semeia dúvidas suficientes sobre a própria sanidade e o livre-arbítrio de Marco (fora os dos demais soldados sobreviventes!) para que se possa sustentar que ele também foi vítima do mesmo processo de condicionamento em Manchúria, apenas com um propósito diverso. Enquanto Shaw foi programado para ser um assassino político, Marco pode ter sido programado para ser o instrumento de salvaguarda que, ao desvendar a trama, a conduzisse a um desfecho igualmente benéfico para os conspiradores – ou, pelo menos, que garantisse que o segredo da lavagem cerebral nunca viesse a público de forma a comprometer a operação como um todo. A própria existência de Rose Chaney, uma personagem que surge aparentemente ao acaso no trem usado pelo major (mantendo diálogos estranhíssimos, aparentemente cifrados, com Marco) e que rapidamente se torna a confidente e o interesse amoroso de Marco, é demasiadamente conveniente para ser mera coincidência. Seu nome completo, Eugenie Rose Chaney, carrega uma sonoridade que remete a "eugenia" e a "rose" (rosa), símbolos que, no contexto do filme, podem ser lidos como indícios de uma identidade construída artificialmente. Ela se apresenta a Marco com uma naturalidade desconcertante, e sua função narrativa vai muito além da de um alívio romântico: ela é a única pessoa a quem Marco confia suas dúvidas e descobertas, e é ela quem, em diversos momentos, o orienta e o tranquiliza, como se estivesse a garantir que ele permaneça no caminho correto da investigação. A cena em que Marco, já desconfiado de tudo, pergunta a ela se não estaria sendo manipulado, e ela responde com uma ambiguidade que pode ser interpretada como uma afirmação velada de seu papel de controladora, é um dos momentos mais inquietantes do longa. A própria atuação de Janet Leigh, com sua doçura aparente e seus olhares que sugerem uma sabedoria oculta, contribui para essa leitura: Rose Chaney é o anjo da guarda de Marco, mas um anjo que talvez sirva a mestres muito mais sombrios do que ele imagina. Se Shaw é o "agente" visível, o instrumento para um assassinato espetacular, Marco seria o "agente" invisível, a peça que garante que a engrenagem da conspiração continue funcionando mesmo após a queda de seus motores mais óbvios. O filme, ao não responder de forma definitiva a essa questão, deixa o espectador com uma sensação de paranoia ainda mais profunda: se até o herói pode ser um boneco nas mãos de seus inimigos, então ninguém está a salvo, e a própria noção de verdade e livre-arbítrio se torna uma quimera.
Essa ambiguidade em torno da figura de Marco se conecta diretamente a uma das ideias mais influentes e duradouras que o filme legou à ficção especulativa: a noção de uma "sociedade soviética fantasma" (ou algo análogo) operando dentro da América, uma rede de agentes adormecidos, infiltrados em todos os níveis da sociedade, que agem sem saber de sua própria condição até que sejam ativados por um gatilho específico [Fora todo o concreto sistema infiltrado de suporte também visto no longa! Um verdadeiro submundo soviético na América!]. O filme, ao mostrar que não apenas Shaw, mas todo o pelotão foi submetido a um processo de condicionamento, e ao sugerir que Marco pode ser mais um desses agentes, cria a imagem de um exército invisível de "Manchurian Candidates" prontos para serem despertados. Essa ideia, que no contexto da Guerra Fria refletia os medos reais de uma infiltração comunista nos Estados Unidos, provou ser extraordinariamente fértil para a ficção científica e o thriller de conspiração das décadas seguintes. Ela inspirou obras que exploram a fragilidade da identidade e a possibilidade de que nossas memórias e nossas ações possam ser controladas por forças externas, desde os romances de Philip K. Dick, que frequentemente lidam com realidades falsas e agentes cuja verdadeira natureza lhes é oculta, até filmes como (como os já citados) The Parallax View (1974) e Three Days of the Condor (1975), que retratam conspirações governamentais e a paranoia de indivíduos que descobrem ser peças em um jogo muito maior do que imaginavam. A própria noção de "sleeper agent" (agente adormecido), que se tornou um lugar-comum na cultura pop, deve muito a The Manchurian Candidate. A ideia de que um cidadão comum, um herói de guerra, um político respeitado, possa ser, na verdade, um assassino programado, toca em um medo profundo sobre a natureza da realidade e a confiabilidade de nossas próprias percepções. O filme de Frankenheimer, ao deixar em aberto a possibilidade de que Marco também seja um agente, amplifica esse medo e o transforma em uma reflexão sobre a própria condição humana: se até o herói pode ser manipulado, o que resta de sólido em nossas certezas? Essa pergunta, que ressoa até os dias de hoje em obras como o remake de 2004 e em séries como The Americans, que exploram a vida de espiões soviéticos infiltrados nos Estados Unidos, é o grande legado do filme para a ficção especulativa.
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