segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O OSCAR NÃO GOSTA DE FILMES DE TERROR (VERSÃO 2026) ?

----------


----------

(I) Lista de todos os filmes de terror (incluindo “terror camuflado de outra coisa”) indicados a Melhor Filme até o Oscar 2026

Critérios que vamos usar: terror (The Exorcist , Get Out , Frankenstein ...) ou terror/terror psicológico que a crítica e a historiografia já tratam como terror, mesmo que a campanha da época tenha vendido como “thriller psicológico”, “drama”, etc. (Silence of the Lambs , The Sixth Sense , Black Swan , Sinners ...).

Com isso até a cerimônia de 2026 (98ª edição, com filmes de 2025) temos:

The Exorcist – Ano de lançamento: 1973 – Cerimônia do Oscar: 1974 (46ª) – Gênero: terror sobrenatural – Observação: primeiro filme de terror explicitamente reconhecido como tal a ser indicado a Melhor Filme.

Jaws – Ano de lançamento: 1975 – Cerimônia do Oscar: 1976 (48ª) – Gênero: geralmente rotulado como “thriller”, mas amplamente aceito como terror (terror animal ou de predador). – Observação: um caso clássico de “terror camuflado”: vendido como suspense/aventura, mas encarado como terror pela crítica e pela historiografia do gênero.

The Silence of the Lambs – Ano de lançamento: 1991 – Cerimônia do Oscar: 1992 (64ª) – Gênero: terror psicológico / thriller de serial killer – Observação: único filme de terror a ganhar Melhor Filme, varrendo o chamado “Big Five” (Filme, Diretor, Ator, Atriz, Roteiro). Na época foi muito vendido como thriller, mas hoje é padrão para “terror psicológico”.

The Sixth Sense – Ano de lançamento: 1999 – Cerimônia do Oscar: 2000 (72ª) – Gênero: thriller psicológico / terror sobrenatural (fantasmas, atmosfera de assombração) – Observação: outro típico “camuflado”: campanha enfatizava suspense/prestígio, mas é listado em praticamente todas as listas sérias como terror.

Black Swan – Ano de lançamento: 2010 – Cerimônia do Oscar: 2011 (83ª) – Gênero: terror psicológico (assim descrito em boa parte da crítica acadêmica e jornalística), embora também seja drama. – Observação: vendido como drama artístico sobre uma bailarina, mas a gramática visual é de terror (paranoia, corpo, duplicidade).

Get Out – Ano de lançamento: 2017 – Cerimônia do Oscar: 2018 (90ª) – Gênero: terror social / terror psicológico – Observação: reavivou o debate sobre “terror elevado” e racismo como matéria-prima do terror. Campanha usava muito a expressão “social thriller”, mas o filme é assumidamente terror.

The Substance – Ano de lançamento: 2024 – Cerimônia do Oscar: 2025 (97ª) – Gênero:  terror corporal / terror psicológico – Observação: entra claramente como terror corporal e é tratado como terror nas críticas e em textos sobre a temporada.

Frankenstein – Ano de lançamento: 2025 – Cerimônia do Oscar: 2026 (98ª) – Gênero: terror gótico / terror de monstro, com forte componente dramático – Observação: a imprensa e os textos sobre o Oscar 2026 o tratam exatamente assim. Foi indicado a Melhor Filme e a várias categorias técnicas e de atuação.

Sinners – Ano de lançamento: 2025 – Cerimônia do Oscar: 2026 (98ª) – Gênero: musical de terror / terror vampírico  – Observação: é um caso de horror assumido: a cobertura chama o filme de “vampire musical horror” e ele domina as indicações (recorde de 16 nomeações).

(II) Número total de filmes de terror X número total de cerimônias

Primeira cerimônia do Oscar: 1929. 

Cerimônia considerada em 2026 (com filmes de 2025): 98ª edição.

Total de 9 filmes de terror indicados a Melhor Filme: The Exorcist – Jaws – The Silence of the Lambs – The Sixth Sense – Black Swan – Get Out – The Substance – Frankenstein – Sinners.

Total de cerimônias até 2026: 98

Proporções:

Cerimônias em que pelo menos um filme de terror foi indicado a Melhor Filme: 8 em 98.

Vitórias em Melhor Filme: apenas 1 (The Silence of the Lambs) em 98 cerimônias.

O detalhe interessante é que 4 desses 9 filmes de terror são muito recentes (Get Out, The Substance, Frankenstein, Sinners – desde 2017), o que mostra uma abertura recente da Academia para o gênero, ainda que de forma tímida.

(III) Discussão: o que os dados sugerem sobre o tratamento do terror pela Academia?

(III.1) Sub-representação histórica

Olhemos para quatro coisas:

– Popularidade do terror (bilheteria, fandom, presença cultural). 

– Inovação formal (Psycho, The Shining, Alien, etc.). 

– Número de filmes por ano produzidos nesse gênero. 

– Presença no Oscar de Melhor Filme (8 edições em 98).

Posto isso, fica claro que o terror é um dos gêneros mais sub representados na categoria principal.

Filmes de drama (como gênero) , biografia , guerra , melodrama familiar etc. aparecem quase sempre. 

OBS: Fantasia e ficção científica já apanharam muito, mas hoje estão mais presentes (The Lord of the Rings: The Return of the King , Avatar , Mad Max: Fury Road , Dune, etc.) do que o terror.

(III.2) O que têm em comum os poucos filmes que entram?

Se você observar esses 9 filmes, há um padrão bem claro:

– Ligação com uma certa abstração de “Prestígio”: • The Silence of the Lambs – estudo psicológico de personagens, tema de crime/justiça, performances enormes. • Black Swan – “filme de balé”, drama artístico, atuação de prestígio. • Get Out – comentário social fortíssimo sobre racismo. • The Substance – terror corporal com subtexto sobre envelhecimento, padrão de beleza, misoginia. • Frankenstein – adaptação literária clássica, abordagem profundamente emocional. • Sinners – musical de terror, dirigido por um cineasta já reconhecido, e visto como grande obra “sobre” raça, poder, etc. – Campanhas de marketing que evitam rotular o filme apenas como “terror”: • Silence, Black Swan, Get Out, The Sixth Sense são frequentemente apresentados ao Oscar como “thriller psicológico”, “drama”, “social thriller”. – Estética “séria”: • Direção de fotografia e montagem alinhadas ao padrão de “cinema de prestígio”. • Ênfase em atuação e roteiro, não (apenas) em sustos ou gore.

Ou seja, o terror indicado tende a ser o terror que mais se aproxima do chamado drama de prestígio, do comentário social ou da adaptação literária “respeitável”.

(III.3) Critérios objetivos que pesam contra o gênero

Não são regras escritas, mas padrões observáveis:

(A) Temas que  fogem do explicitamente “sério” e legível. A Academia valoriza histórias claramente “importantes”: guerras, biografias, temas políticos. Por outro lado, o terror frequentemente trabalha esses mesmos temas em forma de metáfora (monstros, demônios, vampiros, corpos mutados). Quanto mais direto é o “discurso respeitável” (Silent of the Lambs como estudo da mente criminosa ou Get Out como sátira racial ou Sinners como épico vampírico com subtexto social), mais chance tem.

(B) Rotulagem e marketing sincero. EstúdioTradicional/Netflix/A24/ETC. dificilmente chegam na campanha dizendo “este é o grande filme de terror do ano, deem a ele Melhor Filme”. Em vez disso utilizam disfarces como: “romance gótico”, “thriller psicológico”, “thriller social”, “drama”, “terror gótico” etc. com ênfase numa certa artesania. Isso é objetivo: basta ver como a imprensa e as campanhas se referem a Frankenstein (terror gótico com forte drama) e Sinners (épico musical vampírico) e como, historicamente, Silence e Get Out foram empurrados como “thrillers”.

(C) Perfil conservador do corpo votante. A composição da Academia por décadas foi majoritariamente mais velha, mais ligada a um tipo de cinema “de prestígio clássico". Isso se reflete em onde o terror aparece: • Frequente em categorias técnicas (maquiagem, som, efeitos, trilha). • Raro em atuação principal e, sobretudo, em Melhor Filme. [Tal perfil votante tem se modificado em anos recentes.]

(D) Aversão ao grotesco e ao “baixo”. Terror lida com corpo, morte, fluidos, monstros, traumas – muitas vezes de forma exagerada ou chocante. A Academia tende a premiar trabalhos que tratam de sofrimento de forma “digna”, contida, mais próxima do drama clássico. Exemplo: filmes como Hereditary, The Witch, The Babadook, The Texas Chain Saw Massacre, The Thing (entre tantos outros), todos cultuadíssimos, nenhum chegou a Melhor Filme.

(E) Histórico de exclusão que se retroalimenta. Se a tradição diz que terror “não é material de Oscar”, cada novo ano reforça essa expectativa. E as exceções (Silence, Get Out e agora Sinners/Frankenstein) são narradas como “quando o terror transcende o gênero”, em vez de “prova de que terror é tão bom quanto qualquer outro gênero”.

(III.4) O que muda em 2026?

Com Sinners e Frankenstein indicados juntos em 2026, a fotografia geral muda um pouco:

Até 2010, só tínhamos: The Exorcist, Jaws, Silence, Sixth Sense. De 2011 em diante, entram Black Swan, Get Out, The Substance, Frankenstein, Sinners. Ou seja, quase metade dos filmes de terror indicados a Melhor Filme está concentrada nos últimos 15 anos.

Isso sugere:

Um certo “descongelamento” do preconceito de gênero. Uma tendência forte a premiar ou ao menos indicar o que o discurso crítico chama usualmente de “terror elevado”: filmes que misturam terror com drama psicológico, comentário social ou um viés inegavelmente autoral.

Ainda assim, em números absolutos, continuamos no ridículo: 9 filmes em 98 cerimônias.

(IV) Síntese

Lista até o Oscar 2026: 9 filmes de terror e "camuflados" indicados a Melhor Filme... The Silence of the Lambs continua sendo o único a vencer a categoria principal... Esses 9 representam menos de 9% das cerimônias... Em mais de 90% dos anos o gênero não está nem entre os finalistas... Critérios objetivos que, na prática, excluem o terror: • foco quase exclusivo em “prestígio temático visível" • campanhas que disfarçam o rótulo “terror” • perfil conservador do eleitorado • aversão a estética grotesca/excessiva • tradição histórica de sub-representação do gênero.

Ou seja: não existe uma regra escrita “não votem em terror”, mas existe um conjunto de preferências estruturais que empurra o gênero para fora – a não ser quando ele vem embalado como drama psicológico, comentário social ou alto prestígio.

----------

domingo, 1 de fevereiro de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP04 (2026)

 ----------


----------

EPISÓDIOS

S01.E04 ∙ Vox in Excelso [**]

----------

ACASTANHADAS 

Episódio melhor do que o anterior, o que pouco quer dizer... 

Engraçado que essa velha Castanha nunca aceitou a ideia da destruição de Romulus (em ST2009 e mais gravemente em Picard e na sua posteridade) e agora cá estamos com os Klingons também a beira da extinção. Qual será o próximo passo: o Grande Elo do Dominion fazendo Cosplay de poça de chuva? [Será que é alguma espécie de Bingo?]

(Se falássemos da ABOMINÁVEL segunda temporada de Picard, ainda poderíamos falar do Q Contínuo e da Coletividade Borg, dando até um jeito de morder um pedaço do Grande Elo no processo se incluíssemos também a terceira.)

(O Picardo falhando na citação de Aaron Satie logo no início foi um péssimo sinal.)

Central ao episódio é o cadete Kraag, um dos menos interessantes até aqui e assim permanece... Devemos lê-lo como um Klingon Neuroatípico?  Como um Klingon Gay? Como um Klingon típico mas hiper sensível (com extrema dificuldade de socialização, paralisante até!) e que apenas quer ser médico (e que tem uma postura "vegana/vegetariana" completamente esdrúxula para um universo de comidas replicadas)?

O episódio conectar os conflitos de Kraag com o destino de seu povo parece ultimamente artificial (a Klin'Hadar ou um sem número de oficiais poderia contribuir para o desfecho sem as contribuições do cadete). O "Combate Fake" como apresentado ao final tem suporte do cânone (e nele bem se encaixa!) mas é visceralmente inexistente quando presenciado.

(*) O estilo de enunciação/vocalização de Kraag é tão bizarro que chega a pôr em dúvida se não existe algum pós processamento na sua voz e se a duração do longuíssimo episódio poderia ser reduzida se ele falasse de um modo digamos "mais convencional".

(*) Melhor uso da Klin'Hadar até aqui. Mas é um pequeno consolo.

(*) Ake tem um caso antigo com um Klingon que é justamente o atual líder dos refugiados. Santo universo pequeno!

(*) Os Klingons não poderiam estar apenas com sérias dificuldades, eles tem que estar a "beira da extinção".

(*) Caleb Mir é um grande debatedor. Como?

(*) Os flashbacks dos Kraags são pífios. Eles tem algo de Battlefield Earth dentre todas as coisas.

(*) Os Klingons tem dutos lacrimais ou não?

(Não falamos diretamente de "queima" , "estética bizarra" e "tecnologia mágica" explicitamente mas estão lá e sempre estarão para o nosso: "deleite!")

----------

sábado, 31 de janeiro de 2026

QUEM VAI GANHAR O OSCAR 2026?

 --------------------------------------------------------------------------------------------------------


QUEM VAI GANHAR O OSCAR 2026?

01 VALOR SENTIMENTAL (*) 09 PONTOS
02 UMA BATALHA APÓS A OUTRA (*) 08 PONTOS
03 PECADORES (*) 07 PONTOS
04 MARTY SUPREME (*) 05 PONTOS
05 HAMNET 04 PONTOS
06 BUGONIA 03 PONTOS
07 FRANKENSTEIN 03 PONTOS
08 O AGENTE SECRETO 03 PONTOS
09 F1 02 PONTOS
10 SONHOS DE TREM 02 PONTOS

CRITÉRIO USADO (Cada indicação vale 1 ponto nas categorias):

Melhor Filme
Melhor Filme Internacional
Melhor Direção
Melhor Montagem
Melhor Roteiro Original
Melhor Roteiro Adaptado
Cada indicação de atuação (ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante)

Desempate entre filmes com a mesma pontuação, nesta ordem:

1) Quem tem indicação em Montagem
2) Depois, quem tem indicação em Direção
3) Depois, quem tem indicação em Roteiro (original ou adaptado)
4) Persistindo empate, ordem alfabética do título em português

Marcação especial:

Filmes que têm simultaneamente indicação em Filme + Direção + Montagem recebem um (*) ao lado do nome. Pelo Oscar 2026, são eles: Valor Sentimental, Uma Batalha Após a Outra, Pecadores, Marty Supreme.  

CONSULTA

--------------------------------------------------------------------------------------------------------
VALOR SENTIMENTAL (*) – 09 PONTOS
Melhor Filme – Sentimental Value
Melhor Filme Internacional – Noruega
Melhor Direção – Joachim Trier
Melhor Atriz – Renate Reinsve
Melhor Ator Coadjuvante – Stellan Skarsgård
Melhor Atriz Coadjuvante – Elle Fanning
Melhor Atriz Coadjuvante – Inga Ibsdotter Lilleaas
Melhor Roteiro Original – Joachim Trier & Eskil Vogt
Melhor Montagem – Olivier Bugge Coutté
Pontuação:
Filme (1)
Filme Internacional (1)
Direção (1)
Atriz (1)
Ator Coadjuvante (1)
Atriz Coadjuvante (2)
Roteiro Original (1)
Montagem (1)
= 9 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
UMA BATALHA APÓS A OUTRA (*) – 08 PONTOS
Melhor Filme – One Battle After Another
Melhor Direção – Paul Thomas Anderson
Melhor Ator – Leonardo DiCaprio
Melhor Ator Coadjuvante – Benicio Del Toro
Melhor Ator Coadjuvante – Sean Penn
Melhor Atriz Coadjuvante – Teyana Taylor
Melhor Roteiro Adaptado – Paul Thomas Anderson
Melhor Montagem – One Battle After Another
Pontuação:
Filme (1)
Direção (1)
Ator (1)
Ator Coadjuvante (2)
Atriz Coadjuvante (1)
Roteiro Adaptado (1)
Montagem (1)
= 8 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
PECADORES (*) – 07 PONTOS
Melhor Filme – Sinners
Melhor Direção – Ryan Coogler
Melhor Ator – Michael B. Jordan
Melhor Ator Coadjuvante – Delroy Lindo
Melhor Atriz Coadjuvante – Wunmi Mosaku
Melhor Roteiro Original – Sinners
Melhor Montagem – Sinners
Pontuação:
Filme (1)
Direção (1)
Ator (1)
Ator Coadjuvante (1)
Atriz Coadjuvante (1)
Roteiro Original (1)
Montagem (1)
= 7 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
MARTY SUPREME (*) – 05 PONTOS
Melhor Filme – Marty Supreme
Melhor Direção – Josh Safdie
Melhor Ator – Timothée Chalamet
Melhor Montagem – Marty Supreme
Melhor Roteiro Original – Marty Supreme
Pontuação:
Filme (1)
Direção (1)
Ator (1)
Montagem (1)
Roteiro Original (1)
= 5 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
HAMNET – 04 PONTOS
Melhor Filme – Hamnet
Melhor Direção – Chloé Zhao
Melhor Atriz – Jessie Buckley
Melhor Roteiro Adaptado – Hamnet
Pontuação:
Filme (1)
Direção (1)
Atriz (1)
Roteiro Adaptado (1)
= 4 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
BUGONIA – 03 PONTOS
Melhor Filme – Bugonia
Melhor Atriz – Emma Stone
Melhor Roteiro Adaptado – Bugonia
Pontuação:
Filme (1)
Atriz (1)
Roteiro Adaptado (1)
= 3 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
FRANKENSTEIN – 03 PONTOS
Melhor Filme – Frankenstein
Melhor Ator Coadjuvante – Jacob Elordi
Melhor Roteiro Adaptado – Frankenstein
Pontuação:
Filme (1)
Ator Coadjuvante (1)
Roteiro Adaptado (1)
= 3 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
O AGENTE SECRETO – 03 PONTOS
Melhor Filme – The Secret Agent
Melhor Filme Internacional – Brasil
Melhor Ator – Wagner Moura
Pontuação:
Filme (1)
Filme Internacional (1)
Ator (1)
= 3 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
F1 – 02 PONTOS
Melhor Filme – F1
Melhor Montagem – F1
Pontuação:
Filme (1)
Montagem (1)
= 2 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
SONHOS DE TREM – 02 PONTOS
Melhor Filme – Train Dreams
Melhor Roteiro Adaptado – Train Dreams
Pontuação:
Filme (1)
Roteiro Adaptado (1)
= 2 pontos
--------------------------------------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP03 (2026)

 ----------


----------

EPISÓDIOS

S01.E03 ∙ Vitus Reflux [*]

----------

ACASTANHADAS 

Episódio bastante fraco: uma história muito fina esticada sobre uma duração excessiva, uma história de universitários que pensa e age como uma história de colegiais, uma história de Star Trek (ultimamente) sobre pegadinhas entre alunos que parece roubada de Wednesday.

O episódio é de Reymi com direito a rotinas, montagens e voice overs ajudando a contar uma história surrada de pais narcisistas e filhos escrotos. O desenvolvimento pessoal é incremental na melhor das hipóteses após cruzarmos um mar de constrangimentos para ele e para a audiência (OBS: Para a surpresa de ninguém, Genesis emerge aqui como a líder construtiva da turma.).

(*) Muito tem se falado que a irreverente linguagem corporal da Chanceler reflete a sua extrema longevidade e experiência pessoal: "Eu realmente não dou a mínima para o que os outros pensam!" ...  Mas cabe salientar que existem inúmeras maneiras de transparecer uma atitude assim e esse ato de estar sempre de pé descalço e de se deitar por cima do mobiliário em cada cena claramente mostrou limitações aqui... Os Cadetes vão começar a notar e comentar isso? ... Deveriam!

(*) Será que vão ter a cara de pau de eventualmente pautar IA como Ferramenta de Ensino, especialmente discutir os seus abusos nesse contexto, na esteira do uso e abuso do DNA do Decano da Academia Rival aqui (não que ele não tenha feito bobagens antes disso) ? 

(*) Abundam aparentes materiais de prateleiras, incluindo roupas, equipamentos, utensílios, cenários etc. ... A unidimensional Klin'Hadar permanece como uma favorita com sinal trocado (com o agasalho esportivo e o apito convidando ao ridículo!).

----------

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

FRIEREN S2 (2026)

 ----------

 
 
----------

EPISÓDIOS

01 "Shall we go, then?" [***1/2]
02 "The Hero of the South" [***1/2]
03 "Somewhere She'd Like" [***1/2]

----------   

ACASTANHADAS

2X01-02: A descoberta pelo trio de uma caverna de cristais anuladores de magia abre possibilidades para se discutir a situação de Stark no grupo, mesmo uma chance dele deixá-las com o retorno de Wirbel que o convida para a sua própria companhia, mas ele recusa ("fofamente") dizendo que se torna diariamente uma pessoa melhor por causa das duas e que ele se sente em casa com elas (estupendo flashback em paralelo na fuga da tal caverna aliás)... O personagem titular do segundo episódio merecia um episódio só para ele (Será que ele retornará em algum flashback futuro?). Já havia sido sugerido que Himmel não era o maior dos heróis e aqui encontramos o verdadeiro maioral na forma de uma estátua a ser limpa (especialidade do nosso trio aparentemente). Vemos que Frieren recusou o convite do Sulista para ir combater o Rei Demônio e que ele profetizou a própria morte em batalha um ano depois e a vinda de Himmel logo em seguida (e que ela aceitaria o convite dessa feita). Comovente a noção de que ele (mesmo morto) enfraqueceu as hordas demoníacas o suficiente para permitir a vitória final do quarteto de Himmel. [A outra metade do segmento trata da recuperação de uma espada roubada por um demônio. Redux da mesma tarefa por parte do quarteto original. Pão com manteiga da série e executado com excelência aqui.]

2X03: Este é um episódio que é ainda mais dependente de pequenos momentos do que os dois anteriores... Na primeira parte, o trio principal vai em busca de um poço de águas termais que se mostra (Sem surpresas!) não mais do que um escalda pés para os três. Frieren revive a mesmíssima ação de outrora como parte do quarteto de Himmel e Stark fica feliz por de certo modo poder viver uma lembrança tão querida do seu mentor [E de poder compartilhar um banho termal com as garotas sem ser chamado de pervertido no processo.]. Uma cena belíssima... A segunda parte é um prólogo para um encontro entre Stark e Fern que virá no próximo episódio. Stark procura Frieren para conselhos a respeito (Logo ela!?) e ambos acabam chegando a um entendimento de que meio sem se dar conta a Maga é SIM uma excelente mãe para Fern (E descobrimos também o que acontece quando a Elfa fica revoltada com alguém da sua convivência: Ela faz uma birra colossal por dias! Um momento absolutamente hilário do segmento e uma clara expansão em relação ao mangá.). 

----------

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP01-02 (2026)

----------


----------

EPISÓDIOS

S01.E01 ∙ Kids These Days [**]
S01.E02 ∙ Beta Test [**]

----------

ACASTANHADAS 

(correspondentes aos dois primeiros episódios de StarFleet Academy e que formam o seu de fato piloto)

A melhor personagem em geral é mesmo a capitão/chanceler-da-academia Nahla Ake (Holly Hunter), dupla posição essa estabelecida com uma trama efetiva que os fãs da terceira era de Star Trek vão achar bastante familiar e não se iludam: o retorno dela para a frota é por demais súbito e perfeito (especialmente tendo que sincronizar a recuperação/convencimento-de-Caleb-para-se-alistar no mesmo pacote!), justo para assumir uma dupla função politicamente carregada e crucial para a continuidade da Federação e da Frota Estelar. Isso parece testar a nossa suspensão de descrença!

Caleb Mir (Sandro Rosta) foi separado com cinco anos da mãe, presa por algum tipo de furto famélico com agravantes pela Federação representada por Ake. Caleb passou então a viver sozinho de situação ruim para situação pior e Ake pediu exoneração e foi ensinar crianças (muito envergonhada pelo ocorrido). A proposta de Vance (comandante da frota estelar) se torna deveras irresistível agora pela soma de todos esses eventos (especialmente se fatorarmos a longevidade multi centenária da capitã que foi testemunha de muitas glórias federadas do passado e a perda do seu próprio filho cadete com a "Queima").

Por outro lado, Nus Braka (vivido por Paul Giamatti) é infelizmente (ao menos aqui) um pirata-genérico-espanador-de-cenários com diálogos de prateleira (diálogos ruins que também assolam os cadetes, especialmente o inexplicável "cunhado betazoide" na cena final do segundo episódio). Braka faz parte do passado dos Mir e esperamos mais complexidade nas próximas aparições desse Klingarita = Klingon + Telarita... Giamatti e Tatiana Maslany (que interpreta com facilidade a mãe de Caleb) são atores convidados na série.

(A trama se contorce de dor para a emboscada de Braka contra a Athena funcionar nos seus termos: antes, durante e depois! Athena é a nave estelar comandada por Ake nas suas duas funções... Esta Castanha prefere Minerva a Athena por falar nisso!)

(Se chamarmos de "Conta de Fadas Trek" (TM) a história do Ferengi Nog na Frota Estelar, teremos que dizer que a de Caleb aqui é ordens de grandeza mais fantasiosa. Esgarçando a suspensão de descrença.)

(O segundo episódio é melhor: sem ação tradicional, falsa encrenca e cadetes salvando o dia. E o fato de Betazed receber a presidência federada nessa nova fase para finalmente concordar em "voltar ao lar" foi mesmo uma cartada capaz de encerrar qualquer negociação bem intencionada. E o melhor momento da série até aqui dada a ocorrência da "Queima".)

-

Dentre os cadetes, a mais gostável (até meio que por construção francamente) é Genesis (Bella Shepard): sempre bem preparada para agir e para tirar foto, mas também sempre muito gentil e (muito importante) sem ser boboca ou babaca no processo... Achamos desnecessário o "Cadete X-Men": George Hawkins como Darem Reymi...  E a SAM (Kerrice Brooks) soa muito over... Por outro lado o Klingon Jay-Den Kraag (Karim Diané) sofre do problema oposto, duelando por atenção com o espaço vazio e com a sua confusa caracterização... Caleb teve simplesmente tempo demais em tela (juntando os dois episódios) e a ênfase na busca pela mãe trouxe um certo cansaço (talvez o desgaste terminal desta era). Mas vamos supor por enquanto que os outros regulares terão espaço comparável mais tarde...

(Aguardamos o comportamento de Tarima Sadal (Zoë Steiner) como cadete da Escola de Guerra nos próximos episódios... Por hora, diremos que Tarima foi mais interessante do que Caleb com muito menos tempo de tela. Ela é a filha do presidente de Betazed por falar nisso! E ele não tem nada de extrema direita!)

-

(*) Não entendemos bem o uso de "linguagem de sinais" e de "tradução simultânea" por parte da delegação Betazoide... Será algum efeito colateral do seu isolacionismo?

(*) Mostrar a Federação tão burocratizada, fraca e incompetente é um osso muito duro de roer para qualquer fã (principalmente por que ela fica parecida demais com dezenas de organizações análogas do SCIFI em geral: exceto com a própria Federação!). O conceito da "Queima" foi um erro criativo grosseiro para a franquia.

(*) A "namorada betazoide" vai perder o controle em qual episódio?

(*) Entendemos que a Escola de Guerra é um artefato de ideias de episódios de Discovery mas será mesmo uma boa ideia sustentar tal conceito?

(*) Contracheque fácil para Picardo e Notaro que deve aparecer pouco. Se Castanha fosse showrunner (ao invés de um fruto seco), sacaríamos os dois do formato além da Klin'Hadar e colocaríamos apenas um primeiro oficial e mesmo uma adida acadêmica (no lugar da atual): ambos com personalidade para dentro e irmanados... Doutor, Engenheira e Klin'Hadar estão ali para (com o testemunho da nossa indiferença) apostar no humor (especialmente a última que é lamentavelmente uma espécie de sargenteante clichê enérgica e rigorosa).

(*) E mesmo já não gostando da estética e da tecnologia desse século as naceles da Athena (com aparentes motivos gregos) nos fizeram dar risadas involuntárias...

(*) O Quartel General da Frota Estelar fica estacionado aonde mesmo?

----------

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

IT WAS JUST AN ACCIDENT (2025)

----------


----------

 "IT WAS JUST AN ACCIDENT" (2025) [104'] [1,85:1] [***]

O realizador iraniano Jafar Panahi, figura cuja carreira se confunde com uma luta contínua contra a censura e a repressão no seu país, apresenta com It Was Just an Accident uma obra que simultaneamente marca uma evolução e uma consolidação no seu percurso cinematográfico. Após uma série de trabalhos metacinematográficos e profundamente autorreflexivos, como This Is Not a Film e No Bears, nos quais a impossibilidade de filmar se tornava o próprio tema, Panahi retorna aqui a uma narrativa ficcional mais clássica, sem, contudo, abdicar do substrato político que define a sua filmografia. O filme, rodado clandestinamente sem autorização das autoridades iranianas, opera uma mudança de registro ao adotar a estrutura de um thriller moral, carregado de tensão e reviravoltas, distanciando-se do tom documental e introspetivo de muitos dos seus predecessores. No entanto, reforça de maneira inabalável os seus vícios autorais: a crítica feroz, ainda que por vezes sardónica, ao aparelho estatal e à corrupção institucionalizada ; a exploração do espaço confinado como microcosmo da sociedade E a atenção dedicada aos indivíduos comuns aprisionados em dilemas éticos de grande magnitude. Inscrevendo-se no mundo contemporâneo do seu lançamento, o filme transcende o contexto específico do Irã para erguer uma reflexão universal e premente sobre os ciclos de violência, o peso do trauma coletivo e a difícil distinção entre justiça e vingança em sociedades marcadas por um passado de opressão. A história, inspirada em relatos que Panahi ouviu durante o seu próprio período na prisão, funciona como um potente alegoria sobre a incapacidade de uma nação se reconciliar consigo mesma quando os fantasmas do passado permanecem impunes e ativos no presente.

A narrativa, aparentemente simples, desdobra-se com uma implacável lógica de pesadelo. Tudo começa quando Eghbal (Ebrahim Azizi), um homem com uma prótese na perna, atropela acidentalmente um cão durante uma viagem noturna com a família. Esta colisão provoca uma avaria no automóvel, levando-o à oficina de Vahid (Vahid Mobasseri), um mecânico cuja vida aparentemente banal esconde as feridas profundas de ter sido um prisioneiro político. Ao ouvir o som característico da prótese e a voz de Eghbal, Vahid é transportado de volta aos seus tempos de tortura e identifica no cliente ocasional o seu antigo algoz, um guarda prisional conhecido pelo apelido de Perna de Pau. Movido por um impulso de revolta, Vahid sequestra Eghbal e, consumido pela dúvida sobre a sua identidade, parte numa jornada urbana para reunir outros sobreviventes que possam confirmá-la. Este grupo improvável, que constitui o núcleo dramático do filme, inclui a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Golrokh (Hadis Pakbaten) e o seu noivo Ali (Majid Panahi), e o temperamental Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr). O dilema central que os une e os divide não é apenas o de reconhecer o rosto de quem os torturou de olhos vendados, mas o de decidir o que fazer com ele: executar a vingança há muito desejada ou encontrar um caminho diferente que quebre a cadeia de violência. Os seus conflitos principais radicam precisamente nesta tensão entre o desejo visceral de retribuição, que os aproxima moralmente dos seus opressores, e uma centelha de humanidade que teima em sobreviver, simbolizada num momento crucial em que interrompem o seu plano para levar a esposa grata de Eghbal ao hospital. Esta estrutura de caça e julgamento informal serve como mecanismo perfeito para desenvolver os temas principais do longa: a natureza cíclica e corrosiva da violência, a difusa fronteira entre vítima e carrasco quando o primeiro adota os métodos do segundo, e a complexa busca por redenção e perdão num contexto onde a justiça formal é inexistente ou cúmplice.

Panahi serve-se de uma linguagem audiovisual contida, realista e profundamente eficaz para conferir peso e autenticidade a esta parábola moral. A direção, necessariamente discreta devido às condições clandestinas de filmagem, aposta numa montagem que privilegia planos sequência longos, especialmente no tenso clímax do filme, aumentando a sensação de claustrofobia e imersão no dilema dos personagens. A fotografia de Amin Jafari, com uma paleta de cores terrosas e uma luz natural, mantém um olhar observacional que recusa o melodrama, enquanto a quase ausência de trilha sonora não diegética intensifica o realismo cru e coloca o foco total nas palavras e nos silêncios carregados dos protagonistas. As atuações, maioritariamente de um elenco não profissional, são de uma sobriedade e veracidade notáveis. Vahid Mobasseri transmite com intensidade contida a agonia interna de Vahid, dividido entre a fúria e a dúvida. Mariam Afshari, como Shiva, oferece um contraponto de racionalidade cansada, enquanto Mohamad Ali Elyasmehr explode como a encarnação viva do ódio incontrolável em Hamid. Ebrahim Azizi, por sua vez, constrói um Eghbal complexo, um homem que pode ser tanto um monstro quanto um marido e pai comum, forçado a confrontar o seu passado. Apesar da gravidade do tema, Panahi injeta na narrativa momentos de um humor negro e absurdo, sátiras ácidas à burocracia e à corrupção endémica, como a cena em que uma propina é paga com uma máquina de cartões, que funcionam como válvulas de alívio e, simultaneamente, como comentários sociais cortantes. Esta mistura de tons, habilmente equilibrada, impede que o filme se torne um exercício de pura agonia, revelando antes o absurdo trágico que permeia a vida sob repressão.

Em conclusão, It Was Just an Accident de Jafar Panahi não oferece respostas fáceis para as questões profundas que levanta, e a sua grandeza reside precisamente nessa recusa. O veredicto final sobre os seus personagens e temas é deliberadamente ambíguo, encapsulado no final magistral e aberto à interpretação. Após forçar uma confissão e um pedido de desculpas vazio de Eghbal, Vahid opta por libertá-lo, num ato que poderá ser lido como perdão, exaustão ou a recusa definitiva em replicar a violência do opressor. No derradeiro plano, o som do passo de uma prótese aproxima-se e depois se afasta de Vahid, um ruído que o próprio realizador sugere poder existir apenas na mente do protagonista, um fantasma psicológico que talvez nunca o abandone. Esta ambiguidade genial coloca o espectador no lugar do personagem, obrigando-o a ponderar se o ciclo de violência foi verdadeiramente interrompido por um acto de misericórdia, ou se o trauma é uma prisão perpétua da qual não há fuga. Para a obra de Panahi, este filme representa um ponto de chegada e de maturidade artística, a síntese bem-sucedida entre a urgência política de um cineasta dissidente e o domínio formal de um contador de histórias exímio. Para além da sua filmografia, impacta o cinema contemporâneo como um testemunho corajoso e uma obra de rara potência moral, demonstrando que a mais elevada expressão artística pode nascer mesmo sob as condições mais opressivas, servindo tanto como reflexão intemporal sobre a condição humana quanto como documento vital e insurgente do seu tempo.

----------

TO BE HERO X SEASON 01 (2025)

----------


----------

EPISÓDIOS

S1E01: Nice [***1/2]
S1E02: Moon [***1/2]
S1E03: The Ever-Standing Hero [***]
S1E04: The Commoner [****]
S1E05: One Actor [***1/2]
S1E06: Two E-Souls [***1/2]
S1E07: Three Seats[****]
S1E08: The Cyan Girl [***]
S1E09: Loss and Gain [***]
S1E10: The Truth Behind Luck [***1/2]
S1E11: Road to the Crown [***1/2]
S1E12: Fall of the Star [****]
S1E13: Tough Girl [**1/2]
S1E14: Impromptu Counterattack [**1/2]
S1E15: Affective Disorder [****]
S1E16: The Cure [***1/2]
S1E17: Whisper Flower [***]
S1E18: Died-Out Flame [***]
S1E19: Breaking the Balance [****]
S1E20: The Ruins Incident[****]
S1E21: Nurturing God [****]
S1E22: The Last Smile [****]
S1E23: Lie [****]
S1E24: X [****]

----------

REVIEW

A primeira temporada do donghua (*) To Be Hero X, lançada ao longo de 2025, consolida-se como um marco ambicioso na carreira de seu criador, diretor e roteirista, Haoling Li, e um ponto de inflexão para a indústria da animação asiática. Li, já aclamado por obras animadas anteriores, expande aqui o universo conceitual iniciado com To Be Hero e To Be Heroine, transcendendo-as em escala e profundidade temática. Esta produção é fruto de uma colaboração internacional sem precedentes, unindo o estúdio chinês BeDream, a gigante japonesa Aniplex e a plataforma de streaming chinesa Bilibili, além de reunir talentos de múltiplos estúdios de animação, simbolizando uma convergência criativa entre China e Japão. Para Li, To Be Hero X representa a maturidade de sua narrativa, abandonando a estrutura de protagonista único em favor de uma teia complexa (com múltiplos protagonistas e múltiplos pontos de vista) e não linear (a narrativa vai e volta no tempo do começo ao fim), um movimento arrojado que confirma sua reputação como contador de histórias inovador (**). Para a televisão e o mundo em 2025, a série oferece uma reflexão urgente e incisiva. Ela insere-se em um contexto global de saturação de narrativas de super-heróis e de questionamento sobre a espetacularização da vida pública, funcionando como uma lente de aumento crítica sobre a economia da atenção, a idolatria digital e a volatilidade da confiança social. Ao transformar a popularidade em um sistema de poder literal, a série comenta diretamente sobre a era das redes sociais, dos influenciadores e da política como espetáculo, posicionando-se não apenas como entretenimento, mas como um comentário social pertinente e provocador para sua audiência.

(*) A arte animada chinesa análoga ao anime.

(**) Impressiona a confiança na contação de história aqui em: (i) trazer a origem de um herói cachorro (Ahu, um top10 ao fim da temporada) e todo um novo arsenal de técnicas de animação JUSTO no penúltimo episódio da temporada , (ii) associar o chaveamento das técnicas de animação em tela ao característico estalar de dedos do X como se ele estivesse manipulando aquele mundo tanto ou mais do que as agências e a associação de heróis (Algo mais forte no presente do que no passado, sugerindo uma relação com o histórico de poderes do personagem) , (iii) dobrar a aposta para além de tanta complexidade global: o criador surpreende também dentro de um único sub arco e mesmo dentro de um único episódio etc.

A narrativa de To Be Hero X constrói-se sobre uma premissa poderosa: em seu mundo, os heróis não nascem, são eleitos pela percepção pública. O poder de um indivíduo é diretamente proporcional ao seu Valor de Confiança, uma métrica quantificada e manipulada por agências de marketing e conglomerados de mídia. O ápice desse sistema é o título de X, concedido ao herói mais confiável em um torneio bienal. A história, contada de forma não linear e através de onze arcos focados em diferentes protagonistas, desvenda as complexidades morais desse universo. O arco inicial (por exemplo) apresenta Lin Ling (dublado por Natsuki Hanae), um publicitário comum que, após testemunhar o suicídio do herói perfeito Nice (também dublado por Natsuki Hanae), é coagido (pela semelhança física e por escrever as campanhas do herói) a assumir sua identidade. Através dos olhos de Ling, exploramos a maquinaria por trás dos heróis: a pressão por uma imagem impecável, a relação simbiótica e por vezes parasítica com os fãs, e a perda da individualidade sob o peso das expectativas coletivas (Se acham que ele é o Nice, ele vai se tornar cada vez mais fisicamente parecido com o Nice ; Se acham que ele é muito certinho e cheio de manias, ele começa a desenvolver TOCs etc.). Essa investigação se aprofunda com outros heróis, como o trágico Homem Firme, cujo poder, derivado da crença pública em sua invencibilidade, o impede fisicamente de se curvar ou deitar, transformando-o em uma estátua viva de seu próprio mito (e a sua existência em uma penitência). Já Ciano da Sorte (dublada por Inori Minase), uma cantora cujo poder é a boa sorte, lida com a exploração de sua imagem desde a infância, ilustrando como a inocência é consumida pelo espetáculo... (***) O conflito central de cada personagem é uma variação do mesmo tema: a luta para preservar uma identidade autêntica em um sistema que os reduz a símbolos comerciais. Paralelamente, a série introduz uma ameaça sistêmica maior, o Valor de Medo, um poder simétrico e oposto que alimenta os vilões a partir do terror coletivo, sugerindo que a sociedade cria seus monstros a partir das mesmas emoções que forjam seus ídolos.

(***) A explicação para a bebê Ciano ser a única sobrevivente de um muito suspeito desastre aéreo (e que é também a origem da sua sorte) é deveras comovente (aliás todo o seu arco desde criança santa no orfanato até estrela pop é em tese bem movediço conceitualmente e acaba sendo muito bem executado aqui.). 

(As Agências dos Heróis são largamente inspiradas nas Big Techs ao mesmo tempo que a Comissão de Heróis parece representar uma agência reguladora francamente corrompida por essas... Por outro lado, a Comissão também lembra o Partido Comunista Chinês no sentido de zelar para que a aprovação de um herói não cresça sem limite o tornando indistinguível de uma divindade... Inclusive isso já aconteceu  no passado, com o heroi zero, com um resultado trágico, evento que serve de ponto de partida para o calendário vigente e para a criação da própria Comissão. ) 

(Os líderes das agencias são criaturas grotescamente amorais, manipuladoras sem qualquer limite e traem uns aos outros e até os seus próprios agenciados. Um desses líderes é devoto do herói zero e procura ativamente transformar algum novo herói em um deus e/ou trazer Zero de volta a vida.)

A realização audiovisual de To Be Hero X é um dos pilares de sua excelência e ambição. A direção de Haoling Li e a colaboração entre os estúdios resultam em uma revolução estilística que serve diretamente à narrativa e aos temas. A série é notória por sua mistura fluida e intencional de técnicas de animação 2D e 3D, com uma cinematografia que evoca a coreografia aérea e teatral dos filmes de artes marciais chineses (wuxia), desafiando constantemente a gravidade e a perspectiva tradicional. Este ecletismo visual não é mero exibicionismo; é diegético. O poder do misterioso herói X (dublado por Mamoru Miyano) permite-lhe manipular a própria realidade, alterando o estilo de arte ao seu redor com um estalar de dedos. Assim, as transições bruscas entre um CGI estilizado algo reminiscente da série Arcane, sequências em 2D tradicionais e mesmo estética de cartoon americano tornam-se manifestações literais de seu domínio sobre o meio, uma metalinguagem brilhante sobre o poder da animação (e sugere um entendimento profundo do personagem sobre o mundo da série e provavelmente além). A trilha sonora, supervisionada pelo renomado Hiroyuki Sawano (de Attack on Titan) e por uma constelação de compositores, eleva a experiência a outro patamar. Mais do que acompanhar, a música narra (mas raramente de maneira óbvia). Temas específicos para cada herói, como PARAGON para Nice ou NEON RAIN para E-Soul (OBS: Fiquem de olho no arco do E-Soul original. É de explodir a mente e cortar o coração!), atuam como leitmotifs emocionais, enquanto a poderosa abertura INERTIA e a inserção estratégica de músicas em clímax narrativos, como no confronto entre Lin Ling e God Eye, sincronizam batida cardíaca e impacto dramático com maestria. As atuações do elenco de dublagem, tanto japonês quanto chinês, conferem profundidade humana a esses arquétipos superpoderosos, capturando desde a angústia silenciosa de Nice até a determinação vulnerável de Lin Ling, entre outros.

Em conclusão, a primeira temporada de To Be Hero X, sob a visão criativa de Haoling Li e o esforço conjunto de BeDream, Aniplex e Bilibili, ergue-se como uma conquista monumental. Seu veredito final sobre os temas que explora é complexo e matizado: o heroísmo, como commodity social, é mostrado como uma força tanto redentora quanto destrutiva, capaz de inspirar, mas igualmente de esmagar identidades e perverter intenções puras (OBS: Vejam o arco do novo E-Soul para esses dois últimos itens). Para personagens como Lin Ling, a jornada termina com a reafirmação de si para além do símbolo; para outros, como o Homem Firme, a liberdade só é encontrada na renúncia ao título. A série não oferece respostas fáceis, mas conclui sua trama intrincada recompensando a audiência atenta com um desfecho coerente que amarra suas diversas linhas narrativas, confirmando que cada ação e escolha reverberou significativamente (e mais está por vir, especialmente sobre X, a nave alienígena abandonada e toda a mitologia desse mundo). O impacto de To Be Hero X transcende seu próprio universo. Para sua audiência, é uma experiência que exige e recompensa o engajamento intelectual, elevando o padrão do que uma animação de super-heróis pode aspirar a ser. Para a televisão e a indústria da animação, a série serve como um farol de inovação, demonstrando o potencial criativo explosivo das coproduções internacionais e estabelecendo um novo patamar de sofisticação visual e narrativa para os donghua, desafiando a hegemonia narrativa ocidental no gênero. Como um todo, To Be Hero X consagra-se não apenas como uma das melhores produções de 2025, mas como uma obra que redefine as possibilidades de sua forma, provando que a animação pode ser, simultaneamente, espetacular, filosoficamente profunda e culturalmente relevante.

-

Sobre o conservadorismo: (I) A sexualidade é virtualmente não existente na série... O Nice Original parece ser cifrado como homossexual, com sua aparência e modos delicados, com um amigo herói inseparável que vira vilão/nemesis (*) no contexto do seu relacionamento falso com uma outra heroína (obrigada contratualmente e pela expectativa popular a colaborar na farsa) (lembrem-se: tudo cifrado!)... E ainda existem duas jovens adultas que se adoram como melhores amigas que em uma produção ocidental certamente seriam um casal. 

(*) Mecanismo aliás que serve de combustível a carreira dele como um tudo. Modelo de manipulação da opinião pública. 

(II) Existe ao menos um personagem neuro divergente com essa característica sendo tragicamente amplificada pela expectativa popular (de onde também vem infelizmente toda a sua persona assassina)... O que origina uma tocante tragicomédia: por amar demais a filha e não ter nenhuma ferramenta social para lidar com isso (muito pelo contrário!)... Aliás abundam na série problemas de relacionamentos entre pais e filhos (as) , sobram perdas e não falta luto.

(III) As personagens femininas são via de regra muito bonitas, capazes e com grande empatia (entre outras qualidades) (Mas não são perfeitas!)... Notamos que uma personagem neuro divergente (casada com esse aí de cima) aparentemente se regula neurologicamente permanentemente quando descobre estar grávida de uma menina... Todos os CEOs malignos são homens... A personagem feminina central é a heroína Queen, (originalmente uma criança prodígio) alguém com uma atitude tão marcante que serve de inspiração para toda uma nova era de heroínas desde os seus 12 anos. Ela tem a principal luta da temporada (um confronto brutal, do tipo vencer ou morrer, contra uma outra heroína TOP que sucumbiu ao valor do medo, uma vitória tristíssima para Queen) e ainda o principal momento heroico da temporada (uma majestosa redenção).

-

Alguma perspectiva: Consideremos todo esse capítulo de 20 anos de histórias de super heróis começado com a primeira temporada da série Heroes em 2006... Nele incluímos as produções tradicionais de DC e MARVEL (e afins) , as produções desconstrutivas como Invincible e The Boys (entre outras) e mesmo episódios específicos de Black Mirror (e correlatas) por tratarem do contemporâneo de redes sociais e dos seus satélites... Posto isso, To Be Hero X resume e supera todos esses esforços no gênero, trazendo uma mudança de paradigma.   

-

Material EXTRABLOG01: aqui

Material EXTRABLOG02: aqui

----------

THE PITT S2 (2026)

  ----------


----------

EPISÓDIOS

S2.E01 ∙ 07:00 A.M. [***]
S2.E02 ∙ 08:00 A.M. [***]
S2.E03 ∙ 09:00 A.M. [***]
S2.E04 ∙ 10:00 A.M. [***]

----------

ACASTANHADAS

07:00 AM: "The Pitt retorna preservando o formato vencedor (de público e crítica)  da primeira temporada, com mais um plantão  de 15 horas, agora ambientado no feriado americano de quatro de julho... O Doutor Robby (O chefe do PS) está de volta no seu último plantão antes de embarcar em um trimestre sabático. Assim como a enfermeira chefe Evans (apesar da agressão sofrida), o residente sênior Langdon (regressando de uma clínica de reabilitação) entre outros favoritos... Robby não quer discutir de forma alguma com Langdon o que ocorreu com seu amigo e pupilo (mas supomos que eles vão conversar sobre TUDO até o episódio oito)... Robby também parece estar em rota de colisão com a sua substituta temporária (a doutora Baran Al-Hashimi vivida por Sepideh Moafi, uma advogada do uso de IA Generativa no PS e além) (Será que vamos ter, durante a temporada, um pulso eletromagnético transportando o PS para idade da pedra ou algo assim?) ... Sólida abertura de temporada com as atuações e os valores de produção já esperados."

(Dúvida da Castanha: Garcia e Santos tem ou tiveram um caso?)

(Dúvida da Castanha: Robby conduzir a moto sem capacete na cena de abertura tendo um claramente disponível tem algum significado transcendental?)

(Al-Hashimi se comporta MUITO estranhamente na presença de uma bebê recém nascida abandonada no PS. O que virá dai?)

-

08:00 AM: "King ("Mel") está visivelmente distraída e apreensiva com a aproximação do seu depoimento em um processo de erro médico em que ela é ré (Robby diz que ser assim processado é algo comum na sua carreira como desinfetar as mãos enquanto Al-Hashimi não tem ideia do que é IMAGINAR ser processada por causa da sua prática médica e quer permanecer assim... Dizer que a nossa "Mel" ficou absolutamente confusa no meio desses dois doidos não seria nenhum exagero!)... "Mel" leva depois um tombo feio de um "bandido-paciente" perseguido pela polícia no meio do PS (quando os policiais ameaçam querer tomar o seu testemunho no caso, ela começa a se desregular mas é protegida e acolhida por Langdon)... Como era mesmo "O dia da Mel", ela acaba (juntamente com Santos) cuidando de um SEVERO caso de priapismo e drenando o sangue do pênis enfermo (!) ... Outro bom episódio e estamos "desconfiados" do aparente caso de abuso infantil sobre uma paciente de Santos (parece já elaborado demais para receber uma solução banal)."

(Whitaker é o novo pupilo de Robby no lugar de Langdon.)

(O "reencontro" de Santos e Langdon promete. Mas supomos que vai quebrar expectativas.)

-

09:00 AM: "A paciente criança de Santos foi bem resolvida como um caso de Porfiria (tudo bem atuado ao redor). O caso menor de McKay também parece que se resolveu com um tumor no cérebro (Entra agora outro paciente com um ator convidado de destaque. Aguardemos!). Enquanto isso o caso de Louie parece se deteriorar... Um motociclista sem capacete que entra morto no PS parece oferecer mais um vislumbre com relação ao futuro do Doutor Robby. Chama atenção ainda uma senhora judia que entra com queimaduras nas pernas, ela é uma sobrevivente do Massacre da Tree Of Life (*). Mais um vislumbre?"

(*) O Massacre da Sinagoga Tree of Life (Árvore da Vida), ocorrido em 27 de outubro de 2018, em Pittsburgh, Pensilvânia, foi o ataque antissemita mais mortal da história dos Estados Unidos.

-

10:00 AM: "Descobrimos que Robby está fazendo terapia faz algum tempo e que existe uma sombra REAL sobre o seu iminente trimestre sabático (advinda desse tratamento)... No PS , o fechamento de um hospital próximo já começa a trazer sobrecargas de casos, que acreditamos (por óbvio!) que só irão piorar... Whitaker parece sugerir um problema com a sua licença médica ou com o seu crédito estudantil... "Mel" começa a mostrar um interesse de mentora sobre Santos, parece que ela enxergou ali alguma neuroatipia (talvez TDAH) na companheira (que parece ter muita dificuldade em manter as fichas dos seus pacientes atualizadas, sua obrigação como residente)... McKay parece que finalmente vai transar e reduz uma fratura no cóccix de um paciente na base da "dedada"... Descobrimos que Javadi é uma espécie de Influencer (sob a alcunha de "DR. J")... Langdon está para voltar do castigo da triagem."

-

----------

HUMBLE PIE (1969-1971)

----------


----------

ÁLBUNS

1969 - As Safe as Yesterday Is [**1/2]
1969 - Town and Country [**1/2]
1970 - Humble Pie [***1/2]
1971 - Rock On [***1/2]
1971 - Performance: Rockin' the Fillmore (LIVE) [****]

----------

PESSOAL

Steve Marriott: vocais , guitarras , teclados etc.
Peter Frampton: vocais , guitarras , teclados etc.
Greg Ridley: vocais , baixos.
Jerry Shirley: bateria , percussão.

----------

INTRODUÇÃO

Entre o fim dos anos sessenta e o início dos anos setenta, enquanto o rock se fragmentava do psicodelismo em direção a formas mais brutais e enraizadas, surgiu uma banda que personificou essa transição com uma autenticidade ruidosa. O Humble Pie nasceu de uma frustração criativa e de uma amizade improvável. No último dia de 1968, um Steve Marriott insatisfeito abandonou o palco com os Small Faces e telefonou, ainda na madrugada, para o jovem guitarrista Peter Frampton. Unindo-se ao baixista Greg Ridley e ao baterista Jerry Shirley, eles formaram uma das primeiras super bandas britânicas, mas escolheram um nome irônico, Humble Pie ("Torta Humilde"), para rebater as altas expectativas. Seu legado, entretanto, seria tudo menos modesto, influenciando futuras gerações de bandas de hard rock e blues, de Aerosmith a The Black Crowes, com sua mistura crua de força rítmica e alma soul.

O período entre 1969 e 1971 foi de uma metamorfose acelerada. A banda começou explorando um folk-rock acústico e canções introspectivas, mas rapidamente foi redirecionada pela visão do novo empresário Dee Anthony, que focou no mercado americano e exigiu um som mais agressivo e direto, com Marriott como frontman inquestionável. Nos bastidores, esse foi um tempo de intensa atividade: gravações frenéticas para a falida Immediate Records, turnês desgastantes pelos EUA e momentos definidores, como a noite em que Frampton, enfrentando problemas de feedback (microfonia), recebeu de um fã a lendária guitarra Les Paul 'Phenix' que se tornou sua marca registrada. O ápice dessa era foi a conquista da América não através de singles de sucesso, mas pelo poder avassalador de seus shows ao vivo, selada com históricos concertos no Hyde Park de Londres e principalmente no Shea Stadium de Nova York, onde ofuscaram a banda principal, Grand Funk Railroad. Em apenas três anos, o Humble Pie evoluiu de uma promessa "ecumênica" para uma coesa máquina de rock pesado e soul, deixando uma marca indelével no cenário do rock setentista.

1969 - AS SAFE AS YESTERDAY IS

Lançado em agosto de 1969, As Safe as Yesterday Is chegou em um momento de redefinição no rock britânico. A era psicodélica dava lugar a sons mais terrenos, com bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath forjando um caminho mais pesado. O Humble Pie, recém-formado, apresentou neste álbum de estreia uma miscelânea que refletia as diversas influências de seus integrantes, transitando do folk ao blues e a passagens proto metal. Produzido enquanto a banda ainda se conhecia, o álbum soa mais como uma coleção de ideias individuais do que como uma declaração coesa de grupo, o que lhe confere um charme despretensioso, mas também uma certa falta de direção. A faixa-título, As Safe as Yesterday Is, é uma balada melancólica com toques de piano que mostra a faceta mais introspectiva e folk de Marriott, evidenciando a influência de bandas como The Band (com uma mudança de clima no final). Em claro contraste, Natural Born Boogie, single que alcançou o top 5 britânico, é um blues-rock acelerado e contundente, com um riff central pegajoso e a voz agressiva de Marriott, antecipando a veia mais comercial que explorariam posteriormente. A música (e o álbum) também tem o curioso destaque de ter sido descrita pela revista Rolling Stone como heavy metal, um dos primeiros usos do termo, ainda que de forma pejorativa. Já I'll Go Alone, composta por Frampton, destaca o lado mais melódico e introspectivo do guitarrista, com uma levada mais folk acústica que contrasta com o blues elétrico dominante do disco, antevendo a veia composicional que ele desenvolveria em sua carreira solo. O álbum é um retrato honesto de uma banda talentosa em busca de sua voz coletiva, um primeiro passo promissor, mas que ainda não capturava a fúria sinérgica que os tornariam famosos ao vivo.

1969 - TOWN AND COUNTRY

Apressadamente lançado em novembro de 1969, apenas três meses após a estreia, Town and Country surgiu de um período criativo febril e sob a sombra do colapso financeiro da gravadora Immediate Records. Enquanto o rock endurecia com o surgimento do hard rock, o Humble Pie tomou aqui uma direção surpreendentemente pastoral. O álbum é predominantemente acústico, focando em harmonias vocais e arranjos delicados, um contraponto consciente ao barulho crescente da cena. Esta foi uma encruzilhada artística: o disco celebra o talento individual para a composição de todos os quatro membros, mas também revela a tensão entre essa abordagem folk e a atração pelo poder bruto que seu empresário americano exigia. A faixa de abertura, Take Me Back, é uma bela e nostálgica canção country-rock liderada por Frampton, destacando seus vocais suaves e a rica tapeçaria de violões. The Sad Bag of Shaky Jake é uma narrativa blues acústica peculiar com a voz característica de Marriott, mostrando seu dom para a contação de histórias e seu humor cáustico. O ponto alto absoluto, no entanto, é a canção Every Mother's Son, uma extensa narrativa folk de quase seis minutos que se tornou o centro de seus shows na época. Com sua estrutura de conto e arranjos acústicos elaborados, a música exemplifica a busca do álbum por um som pastoral e introspectivo, demonstrando a capacidade da banda de criar atmosferas densas mesmo longe do rock elétrico... Town and Country é um álbum de transição íntimo e ambicioso, um último suspiro acústico antes da banda mergulhar de cabeça no hard rock. É um trabalho admirado pela coragem, mas que, em sua diversidade, carece do impacto unificado que definiria seus lançamentos seguintes.

1970 - HUMBLE PIE

O álbum homônimo de 1970, frequentemente chamado de The Beardsley Album por sua capa com ilustração de Aubrey Beardsley, marca um ponto de virada decisivo. Era o primeiro trabalho para a A&M Records e sob a gestão férrea de Dee Anthony, que pressionou por um som mais pesado e comercial para o mercado americano. O resultado é um disco de personalidade dividida, mas fascinante, que oscila entre o rock progressivo e o hard rock cru, servindo como um laboratório para a fórmula que iria explodir em breve. A faixa de abertura, Live With Me, não deve ser confundida com a dos Rolling Stones; é uma longa e atmosférica jam de quase oito minutos com influências pós-psicodélicas, mostrando a banda explorando texturas e dinâmicas complexas. Em nítido contraste, One Eyed Trouser Snake Rumba é um rock pesado e irreverente, um prenúncio claro do estilo barulhento e divertido que se tornaria sua marca, com um riff central primitivo e eficaz. Outro destaque é a poderosa versão de I'm Ready, de Willie Dixon, onde Marriott entrega uma performance vocal absolutamente visceral, cheia de ganchos de guitarra e um sentimento de blues elétrico que se tornaria central em seu repertório ao vivo. O álbum também contém Theme from Skint, uma sátira mordaz de Marriott sobre a falência da Immediate Records, e Earth and Water Song, uma balada etérea de Frampton que demonstra o contraste estilístico ainda presente dentro da banda. Humble Pie é um álbum de transição bem-sucedido, onde a banda começa a encontrar sua voz coletiva poderosa, abrindo caminho para a consolidação que viria no ano seguinte.

1971 - ROCK ON

Gravado em janeiro de 1971, Rock On é a cristalização em estúdio de tudo o que o Humble Pie vinha buscando. É um álbum confiante, coeso e brutalmente eficaz, que abraça plenamente sua americanização com uma mistura de hard rock, R&B e soul. Considerado por muitos seu melhor trabalho em estúdio, o disco apresenta a banda no ápice de sua forma como unidade, com Marriott no comando vocal absoluto e Frampton contribuindo com alguns de seus melhores momentos na guitarra. A abertura com Shine On, de Frampton, é energética e otimista, estabelecendo um tom contagiante. O verdadeiro coração do álbum, porém, é Stone Cold Fever, uma jam monstruosa e primitiva que se tornou um hino da banda. Com um riff inesquecível e a performance cavernosa de Marriott, a música é frequentemente citada como uma influência fundamental para bandas como o Aerosmith. Outro momento essencial é a versão sulfurosa de Rollin' Stone (de Muddy Waters), onde o grupo demonstra suas profundas raízes no blues, com Frampton entregando solos reminiscentes de Jimmy Page e Marriott vocalizando com intensidade crua. O álbum também mostra sua amplitude com A Song for Jenny, uma balada soul tocante escrita por Marriott para sua esposa, enriquecida pelos vocais de fundo das "Soul Sisters" (PP Arnold, Doris Troy e Claudia Lennear). Rock On prova que o Humble Pie era muito mais do que uma "Liga Secundária dos Rolling Stones"; era uma força única, inventando um rock pesado com alma que ecoaria por décadas.

1971 - PERFORMANCE: ROCKIN' THE FILLMORE (LIVE)

Se Rock On definiu o poder da banda em estúdio, Performance: Rockin' the Fillmore, lançado no final de 1971, foi a sua coroação absoluta. Gravado durante duas noites no lendário Fillmore East de Nova York, este álbum ao vivo capturou o Humble Pie em seu habitat natural e no auge de seus poderes, transformando-os de uma banda promissora em uma atração de estádio. O disco é um monumento ao rock de arena setentista, caracterizado por jams extensas, energia crua e a dinâmica eletrizante entre Marriott e Frampton. A faixa que resume esse espírito é I Don't Need No Doctor, uma explosão de funk-rock que se tornou um padrão das rádios FM americanas e impulsionou o álbum ao status de ouro. A performance é uma avalanche de ritmo, com a guitarra + wah-wah de Frampton e os gritos soul de Marriott criando uma catarse irresistível. Outro pilar é a épica interpretação de I Walk On Gilded Splinters, do Dr. John, que ocupava um lado inteiro do vinil original. A banda transforma a canção em uma jam psicodélica e tribal de quase 25 minutos, uma viagem hipnótica que mostra sua coragem e sua conexão simbiótica em palco. Stone Cold Fever, já poderosa em estúdio, ganha aqui dimensões ainda mais colossais, com a seção rítmica de Ridley e Shirley provando ser uma fundação implacável e a dupla de guitarras atingindo clímaxes estrondosos. O álbum é pura adrenalina, a essência do que tornou a banda lendária ao vivo. Sua liberação quase coincidiu com a saída de Frampton para carreira solo, tornando-o um registro histórico perfeito e insuperável de uma formação lendária em seu momento de glória.

CONCLUSÃO

A jornada do Humble Pie de 1969 a 1971 foi uma ascensão meteórica alimentada por talento bruto, vontade férrea e uma transformação artística radical. Eles começaram como um coletivo de músicos de prestígio tentando escapar de seus rótulos pop, passaram pela experimentação folk e emergiram como uma das forças mais brutais e carismáticas do rock ao vivo. Seu legado, no entanto, transcende a breve janela de seu maior sucesso. Eles foram arquitetos de um som que fundia o peso do hard rock britânico com a profundidade do soul americano, uma fórmula que irrigaria o rock das décadas seguintes. A voz visceral de Steve Marriott, hoje reverenciada por ícones como Robert Plant e Ozzy Osbourne, permanece um padrão de entrega emocional crua. As guitarras de Peter Frampton no Fillmore prenunciaram a era dos guitar heroes dos anos 70. Mesmo após o fim da formação clássica, o espírito da banda provou ser indestrutível, inspirando reinvenções e tributos. Em apenas três anos intensos, o Humble Pie assou uma "torta" nada humilde, mas sim um banquete sonoro robusto e duradouro, cujos ecos de guitarra distorcida e soul gritado continuam a ressoar, um testemunho perene do poder do rock em seu estado mais puro e passional.

----------