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FAIL SAFE (1964) [112'] [1.85:1] [***]
Sidney Lumet dirigiu Fail Safe no auge de uma década em que o cinema americano parecia obcecado pela possibilidade de uma guerra nuclear acidental, e o fez logo depois de realizar The Pawnbroker, que conta a sua história sobre o ponto de vista de um sobrevivente do holocausto e é um marco cultural em múltiplos níveis. Entretanto, ao contrário de seus filmes mais conhecidos, como 12 Angry Men, que se concentra na tensão de um júri confinado, ou Dog Day Afternoon, que retrata um assalto em tempo real nas ruas de Nova York, Fail Safe mergulha em uma sala de guerra subterrânea onde homens poderosos perdem progressivamente o controle sobre os acontecimentos. Por outro lado, o que aproxima este filme do restante da filmografia de Lumet é justamente a sua obsessão por instituições falhas e por indivíduos esmagados por sistemas maiores do que eles. Em 12 Angry Men, o sistema judiciário é testado por preconceitos; em Serpico, a polícia é corrupta; em Network, a televisão transforma a realidade em espetáculo. Em Fail Safe, o sistema é a própria máquina de guerra nuclear, e a falha não está em um homem mau, mas (essencialmente) em um transistor defeituoso... O filme se insere no mundo de 1964, ano em que o presidente Lyndon Johnson enfrentava a campanha eleitoral contrária de Barry Goldwater, cujas declarações sobre o uso de armas nucleares alimentavam o medo popular. A crise dos mísseis de Cuba, ocorrida dois anos antes, ainda estava fresca na memória coletiva, e a ideia de que um erro técnico pudesse desencadear o apocalipse não era ficção científica, mas uma possibilidade real discutida em jornais e revistas. Lumet capta esse clima de paranoia com uma sobriedade que contrasta com o sarcasmo de Stanley Kubrick, lançado poucos meses antes, e oferece uma reflexão amarga sobre a impotência humana diante de sua própria criação.
A trama de Fail Safe começa com o Brigadeiro-General Warren Black (Dan O'Herlihy) voando para Washington para participar de uma conferência no Pentágono liderada pelo Professor Groeteschele (Walter Matthau), um estrategista político conhecido por seu anticomunismo ferrenho e por defender que uma guerra nuclear pode ser vencida. Na noite anterior, em um jantar, Groeteschele despreza os temores de que um conflito atômico destruiria a humanidade, argumentando que milhões de mortes seriam o preço necessário para eliminar a ameaça soviética. Enquanto isso, radares de alerta antecipado detectam uma aeronave não identificada sobre a Baía de Hudson, o que leva a mobilização de bombardeiros estratégicos americanos. Após momentos de tensão no Comando Aéreo Estratégico, confirma-se que o intruso é um avião civil fora de rota. No entanto, uma falha em um componente do computador faz com que o Grupo 6, uma esquadrilha de bombardeiros Vindicator, receba ordens aparentemente válidas para atacar Moscou. O Coronel Jack Grady (Edward Binns), comandante do grupo, obedece, e seis bombardeiros supersônicos partem em direção ao Ártico. Todas as tentativas de revogar a ordem fracassam, pois os protocolos de segurança contra um recall fraudulento são rigorosos demais, e os soviéticos conseguem interferir nas comunicações de rádio. O Presidente dos Estados Unidos (Henry Fonda), em uma sala subterrânea da Casa Branca, tenta pessoalmente ordenar o retorno dos bombardeiros, sem sucesso, e depois ordena que sejam abatidos. Enquanto Groeteschele pressiona por um ataque total aproveitando o acidente, o General Black, amigo de faculdade do Presidente, adverte que os soviéticos retaliarão com tudo o que têm. Caças americanos são enviados para interceptar o Grupo 6, mas não conseguem alcançar os Vindicator, que voam a Mach II, e acabam caindo no Ártico após ficarem sem combustível. Comunicações são abertas com o Premier soviético, e com a ajuda dos americanos, os soviéticos conseguem a habilidade de detonar antes do lançamento os mísseis de defesa dos Vindicator, os destruindo. O Presidente luta para encontrar uma solução que evite um holocausto nuclear e envia o General Black em uma missão secreta para Nova York. Enquanto isso, os soviéticos abatem alguns bombardeiros, mas um deles, pilotado por Grady, consegue escapar. O Presidente, percebendo que Moscou está condenada, faz um pacto com o Premier soviético: para provar que o ataque foi um acidente e não uma agressão deliberada, os Estados Unidos destruirão uma de suas próprias cidades. A escolha recai sobre Nova York, onde estão a esposa do Presidente e a família do General Black. Este, cumprindo a ordem, lança a bomba atômica sobre a cidade e se suicida em seguida com uma injeção letal. Os moradores de Nova York, que não foram evacuados porque a evacuação causaria mais danos do que benefícios, são pegos de surpresa, e o filme termina com imagens do cotidiano da cidade antes da explosão que a incinera completamente.
O uso da linguagem audiovisual em Fail Safe é um dos aspectos mais notáveis do filme, e Lumet utiliza recursos deliberadamente austeros para potencializar a tensão. A fotografia em preto e branco de Gerald Hirschfeld é marcada por sombras profundas e enquadramentos fechados, criando uma sensação de claustrofobia que se intensifica à medida que a crise avança. Os close-ups são abundantes, especialmente nos momentos em que o Presidente recebe informações catastróficas pelo telefone. Em uma das cenas mais emblemáticas, a câmera permanece fixa no rosto de Henry Fonda enquanto ele ouve a confirmação de que a primeira bomba foi lançada sobre Moscou, e a expressão de dor contida do ator comunica mais do que qualquer efeito especial poderia. A montagem de Ralph Rosenblum alterna entre os diferentes espaços da narrativa, a sala do Presidente, o centro de comando do Comando Aéreo Estratégico e as cabines dos bombardeiros, criando um ritmo que se acelera gradualmente. A ausência total de trilha sonora é uma decisão ousada e eficaz. Lumet rejeitou a partitura composta por Hal Schaefer e preferiu que o filme fosse acompanhado apenas por efeitos sonoros eletrônicos, como o zumbido agudo que abre e fecha a narrativa, e que mais tarde se revela ser o tenebroso som de um telefone derretendo após o holocausto. Esse silêncio quase absoluto amplifica a sensação de isolamento dos personagens e força o espectador a se concentrar nos diálogos e nas expressões faciais. As atuações são uniformemente excelentes. Henry Fonda compõe um Presidente digno e torturado, cuja autoridade é minada pela impossibilidade de controlar a máquina que deveria proteger o país. Walter Matthau surpreende ao abandonar sua persona tipicamente cômica para interpretar Groeteschele com uma frieza perturbadora, defendendo o extermínio como uma questão de lógica estratégica. Dan O'Herlihy, como o General Black, encarna o soldado leal que se torna o instrumento de sua própria destruição, e sua decisão final de cumprir a ordem presidencial e se matar é ao mesmo tempo um ato de obediência e de desespero. Edward Binns, como o Coronel Grady, transmite a determinação cega de um militar treinado para cumprir ordens sem questioná-las, mesmo quando o mundo ao seu redor desmorona. Larry Hagman (muito jovem aqui), como o intérprete Buck, serve como ponte entre o Presidente e o Premier soviético, e sua presença constante nas cenas de comunicação reforça a ideia de que a diplomacia é a última linha de defesa contra o apocalipse.
O veredicto final de Fail Safe sobre seus temas principais e seus personagens é profundamente pessimista, embora não desprovido de uma certa nobreza trágica. O filme argumenta que a tecnologia, criada para proteger a humanidade, pode se voltar contra ela de maneiras imprevisíveis e irreversíveis. A falha de um único transistor é suficiente para desencadear uma cadeia de eventos que culmina na destruição de duas grandes cidades e na morte de milhões de pessoas. O Presidente, interpretado por Fonda, é um homem de boa vontade e inteligência, mas sua autoridade é limitada pelos próprios protocolos que deveriam garantir a segurança nacional. Ele não pode simplesmente ordenar que os bombardeiros retornem, pois as salvaguardas contra um falso alarme são rígidas demais. A ironia é amarga: quanto mais seguro o sistema tenta ser, mais vulnerável ele se torna a erros catastróficos. Sidney Lumet constrói um filme que, embora ambientado na Guerra Fria, ressoa com questões contemporâneas sobre automação, inteligência artificial e a delegação de decisões críticas a máquinas. A escolha de destruir Nova York para evitar uma guerra total é um ato de sacrifício que ecoa a história bíblica de Abraão e Isaque, mas invertida: o Presidente sacrifica sua própria cidade, sua própria esposa, para salvar o restante do mundo. O General Black, ao lançar a bomba e se matar, torna-se simultaneamente carrasco e vítima, executando a ordem que seu amigo lhe deu e pagando com a própria vida pelo horror que ajudou a perpetrar. O legado de Fail Safe é paradoxal. Na época de seu lançamento, foi ofuscado por Dr. Strangelove, que transformou o mesmo tema em uma comédia sombria e conquistou o público com sua irreverência. No entanto, ao longo das décadas, o filme de Lumet foi reavaliado e hoje é reconhecido como uma das obras mais sérias e angustiantes já feitas sobre a guerra nuclear. Sua influência pode ser vista em filmes posteriores como By Dawn's Early Light e The Sum of All Fears, que também exploram a possibilidade de um ataque nuclear acidental. A decisão de Lumet de não usar trilha sonora e de apostar em uma encenação quase teatral, com poucos cenários e muitos diálogos, influenciou gerações de cineastas interessados em thrillers políticos de baixo orçamento. Fail Safe permanece como um lembrete sombrio de que a linha entre a segurança e a catástrofe é mais tênue do que gostaríamos de admitir, e que a confiança cega na tecnologia pode ser tão perigosa quanto a confiança cega nos homens.
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Fail Safe dialoga diretamente com uma linhagem de obras que, desde o início da Guerra Fria, exploraram o medo do apocalipse nuclear. Entre seus predecessores mais evidentes está The Day the Earth Stood Still, de 1951, que já alertava para a necessidade de cooperação internacional diante da ameaça atômica, e On the Beach, de 1959, que retratava as consequências de uma guerra nuclear total. O romance Red Alert, de Peter George, publicado em 1958, serviu de base tanto para Dr. Strangelove quanto, indiretamente, para a controvérsia judicial que cercou Fail Safe. O próprio Dr. Strangelove, lançado meses antes, funciona como um espelho invertido: onde Kubrick ri, Lumet chora; onde Kubrick satiriza, Lumet lamenta. Após Fail Safe, o cinema continuou a explorar o tema em obras como The Bedford Incident, de 1965, e Colossus: The Forbin Project, de 1970, que levou a ideia de uma máquina fora de controle a extremos ainda mais literais. A influência de Fail Safe também se estende a filmes mais recentes, como WarGames, de 1983, que atualizou a discussão para a era dos computadores pessoais, e Thirteen Days, de 2000, que revisitou a crise dos mísseis de Cuba com um olhar documental. A minissérie The Day After, de 1983, e o filme Threads, de 1984, levaram às últimas consequências o pessimismo de Lumet, mostrando em detalhes horripilantes o que aconteceria após uma troca nuclear. Mais recentemente, o livro Command and Control, de Eric Schlosser, publicado em 2013, revelou que acidentes envolvendo armas nucleares foram muito mais comuns do que se imaginava, validando a premissa de Fail Safe e reacendendo o interesse pelo filme. A adaptação televisiva ao vivo de 2000, transmitida pela CBS em preto e branco, demonstrou a atualidade do material e sua capacidade de gerar tensão mesmo décadas depois. Fail Safe celebra o gênero de ficção científica em sua vertente mais sóbria e especulativa, aquela que não precisa de alienígenas ou naves espaciais para criar terror, pois encontra o horror na realidade mesma das instituições humanas e de suas ferramentas tecnológicas. É uma obra que merece ser lembrada não apenas como a versão séria de Dr. Strangelove, mas como um marco na representação cinematográfica da Guerra Fria, um filme que continua a nos alertar sobre os perigos de confiar nossa sobrevivência a sistemas que não compreendemos completamente e a líderes que, por mais bem-intencionados que sejam, podem ser tão prisioneiros desses sistemas quanto nós.
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