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PROJECT HAIL MARY (2026) [156'] [2.39:1] [★★★]
A dupla formada por Phil Lord e Christopher Miller construiu sua carreira na habilidade de transgredir gêneros conhecidos por dentro, entregando obras que, a um só tempo, reverenciam e subvertem as convenções que abraçam. Como em The Lego Movie e na franquia Spider-Verse eles testaram os limites do que uma animação poderia ser, e em 21 Jump Street fizeram o mesmo com a comédia de ação, a expectativa em torno de sua estreia no cinema de ficção científica de apelo familiar era grande. Em Project Hail Mary, os diretores se deparam com um material, o romance de Andy Weir, que parece feito sob medida para suas sensibilidades: há espaço para o humor rápido, para a desconstrução do arquétipo do herói solitário e para uma sofisticação visual que já lhes rendeu até um Oscar compartilhado. No entanto, o resultado final, embora competente e em muitos aspectos notável, expõe pela primeira vez uma espécie de limite em sua abordagem. O filme reforça seus vícios autorais — a ênfase no trabalho de equipe sobre o individualismo, o protagonista relutante que precisa ser empurrado para a grandeza, a estética vibrante que mescla o tátil com o digital — mas o faz com uma segurança que beira o automatismo, entregando um produto que parece mais uma reciclagem elegante de elementos consagrados do gênero do que uma nova proposição. Lançado em um momento em que a exploração espacial real ganha novo fôlego com os preparativos para o retorno à Lua e a promessa de ida a Marte, o filme tenta se posicionar como um espelho ficcional desses anseios, mas sua visão de futuro, curiosamente, soa mais nostálgica do que visionária.
A narrativa apresenta Ryland Grace (Ryan Gosling), um professor de ciências de escola média que, ao acordar de um coma induzido a bordo de uma espaçonave em um sistema estelar distante, descobre ser o único sobrevivente da tripulação da nave Hail Mary. Com a memória fragmentada, Grace reconstrói, por meio de flashbacks, sua própria história: um cientista brilhante mas de temperamento difícil, cuja teimosia intelectual o afastou da academia e o levou a uma vida isolada e modesta como educador. É justamente essa modéstia que o torna alvo da implacável comandante da missão, Eva Stratt (Sandra Hüller), que o recruta contra sua vontade — literalmente o sedando e embarcando à força — para uma empreitada que definirá o futuro da humanidade. A Terra está morrendo, com seu Sol sendo drenado por um organismo microscópico apelidado de Astrophage, e a única esperança está em uma amostra desse parasita encontrada em um sistema solar próximo. A essa estrutura de sobrevivência espacial e reconstrução de memória, junta-se o elemento mais ousado e bem-sucedido do filme: a amizade entre Grace e Rocky (James Ortiz), uma criatura alienígena de aparência pétrea e hábitos musicais, cuja nave também está na região para resolver o mesmo problema que aflige sua própria estrela-mãe. É no desenvolvimento dessa relação, que força Grace a superar seu isolamento emocional e sua covardia inicial, que o filme encontra seu coração. O conflito principal do protagonista não é meramente a sobrevivência física ou a solução de um quebra-cabeças científico, mas a jornada para transformar sua indiferença e medo em um ato de sacrifício genuíno, culminando em uma escolha final que o vê abandonar a chance de retornar à Terra para salvar seu companheiro alienígena.
Visualmente, Lord e Miller utilizam a linguagem do espetáculo para tentar equalizar a vastidão fria do espaço com a intimidade emocional que buscam construir. A fotografia e a direção de arte são impecáveis, criando contrastes marcantes entre os interiores claustrofóbicos e dourados da Hail Mary e as paisagens alienígenas de uma beleza estonteante. O uso de câmera é dinâmico, com movimentos fluidos que frequentemente subvertem a orientação do espectador, sugerindo o estado de desorientação de Grace. Daniel Pemberton, colaborador de longa data da dupla, compõe uma trilha sonora que, em muitos momentos, é o verdadeiro motor narrativo do filme. No entanto, é justamente nesse aspecto que se manifesta um dos problemas centrais aqui... A partitura de Pemberton, assim como a seleção musical de canções pop que pontuam momentos-chave — incluindo a já famosa canção de despedida Po Atarau —, frequentemente opera em um nível de sugestão emocional que antecipa e, em certos casos, duplica o choro dos atores em tela. As cenas de sacrifício e reconciliação são compostas com uma orquestração tão deliberadamente comovente que a emoção deixa de ser descoberta pelo espectador para ser imposta a ele. Da mesma forma, a manipulação dos bonecos e da voz do alienígena Rocky (com a decisão acertada de usar o próprio manipulador, James Ortiz, como intérprete vocal) é um triunfo técnico que, paradoxalmente, expõe uma fragilidade no roteiro. O personagem é tão calculadamente construído para ser cativante — com seus maneirismos infantis e uma sintaxe de fala propositalmente truncada — que sua adorabilidade beira o artificioso, lembrando mais um produto de marketing pensado para a venda de brinquedos do que uma criatura orgânica. As atuações, especialmente a de Gosling, que transita com eficiência entre o sarcasmo do professor frustrado e o pânico do homem comum colocado em situação extraordinária, e a de Hüller, cuja autoridade fria ganha camadas de vulnerabilidade nos acréscimos românticos ao roteiro, sustentam a estrutura, mas não conseguem escapar da sensação de que estão servindo a um projeto que as instrumentaliza em vez de explorá-las.
Ao final, Project Hail Mary se revela como um empreendimento ambicioso que, apesar de seus muitos méritos técnicos e de uma narrativa central envolvente, sucumbe à própria necessidade de agradar. O veredicto sobre seus temas principais — a ideia de que a verdadeira coragem é encontrada quando se tem alguém ou algo pelo qual lutar, e que o altruísmo pode florescer mesmo em um homem definido por sua covardia — é apresentado de forma límpida, mas sem a complexidade que o filme parece crer ter. A escolha final de Grace, que o vê abandonar a glória de um retorno triunfante para construir uma nova vida ao lado de Rocky em Érid, é um final de certa forma ousado que subverte as expectativas do blockbuster convencional . No entanto, essa subversão é, em si mesma, dramaticamente segura, encapsulada em um epílogo que funciona como uma garantia de que tudo deu certo, esvaziando parte do peso trágico da decisão. Para a filmografia de Lord e Miller, o longa representa um momento de consolidação, em que sua assinatura — a comédia afetuosa, a metalinguagem, a defesa da colaboração interespécies — se torna quase um checklist. O filme não mancha seu legado, mas também não o expande. É o trabalho de artesãos talentosos operando no auge de sua capacidade, mas que, pela primeira vez, parecem mais interessados em entregar exatamente o que se espera deles dentro de um gênero talvez já meio saturado. O resultado é um espetáculo visualmente deslumbrante e emocionalmente competente, mas que, ao tentar tanto tocar o coração do público, esquece que a emoção mais duradoura é aquela que se descobre, e não aquela que se é ensinado a sentir.
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