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001. THE THING FROM ANOTHER WORLD (1951) [87'] [1.37:1] [***1/2]
Christian Nyby, montador de formação e colaborador próximo de Howard Hawks, assina a direção deste que é, sem dúvida, o trabalho mais emblemático de sua filmografia. Nyby, que mais tarde se dedicaria prolificamente à televisão em séries como Gunsmoke e Wagon Train, encontrou neste projeto uma oportunidade singular de transitar da sala de montagem para o comando de um longa-metragem. Contudo, a história do cinema registra The Thing from Another World não apenas como a estreia de Nyby na direção, mas também como um capítulo fascinante da política autoral, dada a presença dominante de Howard Hawks na produção. Hawks, que supervisionou o roteiro, esteve presente no set diariamente e moldou o tom do filme, deixou uma impressão digital tão profunda que muitos estudiosos consideram a obra parte integrante de seu cânone. O filme difere dos demais trabalhos de Nyby exatamente por essa dualidade: enquanto suas outras realizações como diretor jamais alcançaram tamanha ressonância cultural, The Thing from Another World carrega as marcas inconfundíveis do estilo Hawksiano — os diálogos rápidos e sobrepostos, a camaradagem profissional, a mulher de personalidade forte e a celebração da competência coletiva. Ao mesmo tempo, o longa reforça o viés autoral que Nyby absorveu de Hawks, notadamente a crença de que um grupo de profissionais bem treinados, operando sob pressão e com senso de dever, pode enfrentar qualquer ameaça. Inserido no contexto de seu lançamento, em 1951, o filme reverbera as ansiedades profundas de uma América recém-saída da Segunda Guerra Mundial e já imersa na Guerra Fria. O trauma de Hiroshima e Nagasaki, a crescente desconfiança em relação à ciência desprovida de freios morais e o temor de uma invasão vinda dos céus — seja por mísseis soviéticos ou por discos voadores — impregnavam o imaginário popular. O longa captura esse zeitgeist ao apresentar um alienígena como um invasor implacável e inteligente, um misto de planta carnívora e exército de invasão de um homem só (conceito que o roteiro defende com unhas e dentes!) que precisa ser combatido com a união de forças militares e civis. A famosa conclamação final, "Watch the Skies" , sintetiza a paranoia da época, mas também funciona como um chamado à vigilância constante que definiria grande parte da ficção científica dos anos 1950. Além disso, o filme se insere em um momento de transformação na indústria cinematográfica, no qual o cinema B começava a explorar temas sérios com orçamentos enxutos, provando que era possível fazer ficção científica de qualidade sem os recursos dos grandes estúdios (aqui a RKO apenas distribui). A produção, filmada (de modo geral) internamente em um depósito de gelo em Los Angeles e externamente no Parque Nacional Glacier (na fronteira Canadense), demonstra como a inventividade técnica pode suprir a falta de meios sofisticados, um princípio que se tornaria recorrente no gênero.
A trama começa em Anchorage, no Alasca, onde o jornalista Ned Scott (Douglas Spencer), conhecido como Scotty, chega ao clube de oficiais da Força Aérea em busca de uma boa história. Ali ele encontra o Capitão Patrick Hendry (Kenneth Tobey), piloto que acaba de receber ordens do General Fogerty para voar até a remota Estação Polar Seis. O motivo: o Dr. Arthur Carrington (Robert Cornthwaite), laureado com o Nobel e líder da expedição científica, comunicou que um objeto não identificado caiu nas proximidades. Aceito a bordo da aeronave, Scotty se junta à equipe, que inclui o copiloto Tenente Dykes (James Young), o chefe de tripulação Bob (Dewey Martin) e o cabo Barnes (William Self). Ao chegarem ao posto avançado, os militares são recebidos pelo operador de rádio Tex (Robert Nichols) e pela secretária Nikki Nicholson (Margaret Sheridan), que já tivera algum relacionamento amoroso com Hendry. O reencontro entre ambos reacende um romance pontuado por provocações e pela famosa (e inusitada) cena em que Nikki amarra Hendry a uma cadeira, momento de humor e erotismo que sobreviveu à tesoura da censura. A missão principal, contudo, logo se impõe: Hendry e os cientistas vão até o local do impacto e descobrem, enterrado no gelo, um disco voador. Na tentativa de libertá-lo com termite, causam uma reação química que destrói a nave. Entretanto, um contador Geiger detecta algo mais: um corpo humanoide congelado nas proximidades. O bloco de gelo contendo a criatura é transportado para a base, e uma tempestade ártica isola o grupo do mundo exterior. Hendry assume o comando, vetando a divulgação da história por Scotty e impedindo que os cientistas dissequem o espécime. Durante a noite, o cabo Barnes, perturbado pelo olhar fixo da coisa através do gelo que derrete, cobre o bloco com um cobertor elétrico sem perceber que estava ligado. A criatura descongela e escapa, matando dois cães de trenó e perdendo parte do antebraço direito no confronto. A análise do tecido revela que o ser é uma forma avançada de vida vegetal, capaz de se nutrir de sangue (de alguma forma). Enquanto os militares iniciam uma caçada, Carrington, fascinado pela superioridade biológica do alienígena, passa a defender que se deve tentar comunicar-se com ele, mesmo que isso coloque vidas em risco. O monstro ataca novamente, matando dois cientistas e ferindo gravemente o Dr. Stern (Eduard Franz). Hendry confronta Carrington, ordenando que permaneça em seu laboratório. Contudo, o obstinado pesquisador já começara a cultivar pequenas plantas alienígenas a partir de sementes retiradas do braço decepado, alimentando-as com o plasma sanguíneo do posto — o mesmo plasma que poderia ajudar Stern. A obsessão de Carrington o coloca em rota de colisão com Hendry e com a necessidade premente de sobrevivência. O clímax se desenrola quando a criatura, após ser incendiada com querosene pelos militares, foge para a tempestade e sabota o suprimento de óleo dos aquecedores, forçando o grupo a se refugiar na sala do gerador. Lá, improvisam uma armadilha elétrica de alta voltagem. No momento decisivo, Carrington tenta dialogar com o ser, que o arremessa violentamente antes de pisar na armadilha e ser eletrocutado. Reduzido a cinzas por ordem de Hendry, o invasor é derrotado. Quando o tempo limpa, Scotty finalmente consegue transmitir sua reportagem e encerra com a célebre advertência: "Watch the skies everywhere... Keep watching the skies." A história, portanto, não é apenas uma sucessão de sustos, mas um estudo sobre como diferentes visões de mundo — a científica, a militar e a jornalística — colidem e se complementam diante de uma crise existencial... O alienígena não é um metamorfo telepata aqui, afastando-se do terror cósmico, mas funciona muito bem dentro do recorte escolhido [Antecipando curiosamente Invasion of the Body Snatchers (1956).].
A força de The Thing from Another World reside em grande parte na sua linguagem audiovisual, que combina com maestria elementos do cinema de terror e da ficção científica com a assinatura estilística de Howard Hawks. A direção — seja ela atribuída a Nyby, a Hawks ou a uma simbiose de ambos — imprime um ritmo vertiginoso à narrativa. Os diálogos, frequentemente sobrepostos, conferem naturalidade às interações e reforçam a sensação de urgência. Essa técnica, característica do cinema Hawksiano, faz com que as conversas soem como genuínas trocas entre profissionais sob pressão, ao mesmo tempo em que acelera a exposição de informações. A montagem de Roland Gross é econômica e precisa: as transições entre os momentos de calma e os picos de terror são executadas com um senso de tempo que mantém o espectador em constante estado de alerta. A fotografia em preto e branco de Russell Harlan merece destaque especial. Harlan, que mais tarde assinaria a imagem de clássicos como To Kill a Mockingbird, emprega contrastes profundos para criar uma atmosfera claustrofóbica dentro da base polar. As sombras que engolem os corredores, a luz dura que recorta os rostos suados dos personagens e a genial decisão de manter a criatura frequentemente na penumbra ou fora de quadro amplificam o horror por sugestão. O monstro, interpretado pelo gigantesco James Arness, é revelado em vislumbres calculados: um vulto na escuridão, um braço que se agita, uma silhueta ameaçadora atrás de uma porta. Essa economia de exposição, em parte ditada por limitações orçamentárias, revela-se uma virtude, pois ativa a imaginação do público de forma muito mais eficaz do que um monstro plenamente iluminado conseguiria. A trilha sonora de Dimitri Tiomkin, compositor prolífico e colaborador frequente de Hawks, utiliza o theremin — instrumento eletrônico que se tornaria sinônimo da ficção científica da época — para criar uma atmosfera de estranheza e desconforto. As notas agudas e flutuantes do theremin funcionam como um presságio sonoro da ameaça extraterrestre, contrastando com os momentos de alívio proporcionados por canções diegéticas como A Lovely Way to Spend an Evening, ouvida no rádio da base. Quanto às atuações, o elenco entrega um trabalho coeso e vibrante. Kenneth Tobey compõe um Capitão Hendry de autoridade inquestionável, mas nunca caricatural; sua rigidez militar é temperada por uma humanidade calorosa, especialmente nas cenas com Margaret Sheridan, cuja Nikki Nicholson é uma parceira à altura — inteligente, espirituosa e dona de si, um arquétipo da heroína Hawksiana. Robert Cornthwaite, como Carrington, personifica o cientista obcecado com uma convicção que beira a insanidade, mas sem jamais perder a credibilidade. Douglas Spencer, como Scotty, oferece o alívio cômico na medida certa, enquanto a criatura de Arness, mesmo com suas aparições limitadas, impõe uma presença física ameaçadora que ancora o horror. A direção de arte, embora modesta, é eficaz ao transformar o posto avançado em um labirinto de corredores metálicos e salas escuras, reforçando a sensação de confinamento e vulnerabilidade. O uso de efeitos práticos, como o fogo real na ESTUPENDA cena da criatura em chamas — uma das primeiras cenas de dublê com fogo integral já filmadas —, confere um realismo cru que as técnicas digitais posteriores dificilmente igualariam. Dessa forma, a linguagem audiovisual não apenas serve à história, mas a eleva, transformando uma premissa simples em uma experiência sensorial completa.
Ao final de sua jornada, The Thing from Another World, sob a assinatura oficial de Christian Nyby mas com a alma criativa de Howard Hawks, entrega um veredicto claro sobre seus temas centrais. A ameaça externa, seja ela alienígena ou ideológica, só pode ser vencida pela cooperação entre diferentes esferas da sociedade — militares, cientistas, jornalistas e civis —, desde que cada um aceite os limites de sua competência. Carrington, apesar de sua genialidade, fracassa porque sua busca pelo conhecimento ignora as consequências humanas de seus atos; Hendry, por sua vez, representa a ação pragmática, mas precisa aprender a ouvir os conselhos técnicos que os pesquisadores podem oferecer. O filme não rejeita a ciência, mas adverte contra o cientificismo desprovido de ética, um tema profundamente enraizado no pós-guerra e que ecoaria em inúmeras produções subsequentes. O legado do longa é imenso. Embora Nyby não tenha voltado a dirigir outro filme para o cinema com o mesmo impacto — sua carreira se consolidou na televisão —, esta obra permanece como um monumento da ficção científica dos anos 1950. Ela estabeleceu um modelo para o subgênero de invasão alienígena que seria reproduzido e subvertido nas décadas seguintes. A influência sobre John Carpenter é a mais notória: em Halloween, o personagem de Jamie Lee Curtis assiste ao filme na televisão, e em 1982 Carpenter lançou The Thing, uma adaptação muito mais fiel ao conto original de Campbell (ver abaixo), mas que ainda assim dialoga diretamente com a versão de 1951 ao replicar a sequência de abertura com letras queimando sobre o fundo. O impacto se estende a Ridley Scott, cuja obra-prima Alien deve muito ao conceito de um grupo isolado combatendo uma criatura letal em um ambiente confinado, e a séries como The X-Files, que no episódio Ice homenageia tanto o conto quanto os dois filmes. A frase final do repórter Scotty transcendeu o filme e se tornou um emblema da era atômica, um lembrete de que o cosmos guarda perigos que exigem vigilância perpétua. The Thing from Another World não é, portanto, apenas um produto de seu tempo; é uma obra que ajudou a definir a gramática do cinema de gênero e que, mais de sete décadas depois, ainda convida o espectador a olhar para o céu com um misto de fascínio e temor. A seleção do filme para o National Film Registry da Biblioteca do Congresso em 2001, como obra culturalmente significativa, comprova a durabilidade de sua relevância. Além disso, a pontuação em sites como Rotten Tomatoes e TSPDT, além da classificação como o melhor filme de ficção científica dos anos 1950 pela revista Time, atestam que a obra conquistou um lugar seguro no panteão do cinema de gênero.
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O quinto ato deste exame histórico nos convida a percorrer a cadeia de influências que conectam The Thing from Another World ao passado e ao futuro da ficção científica cinematográfica. O ponto de partida é, indiscutivelmente, o conto Who Goes There?, de John W. Campbell Jr., publicado em 1938 sob o pseudônimo de Don A. Stuart. Campbell, editor visionário da revista Astounding Science-Fiction, concebeu uma história de Terror Cósmico e paranoia, na qual um alienígena metamorfo (e telepata) se infiltra em uma estação antártica. O filme de 1951, ao optar por um monstro vegetal humanoide, distanciou-se da premissa original, mas bem capturou sua essência de desconfiança e isolamento. Essa divergência, longe de empobrecer a adaptação, abriu caminho para que outras obras retomassem o conto com novas roupagens. A própria literatura de terror e de ficção científica do início do século XX, incluindo (o marco do TC) At the Mountains of Madness de H.P. Lovecraft, forneceu o terreno fértil para a imaginação de cenários polares e descobertas terríveis. Avançando no tempo, a influência do filme de Nyby e Hawks se irradia por múltiplas direções. John Carpenter, assumidamente um devoto da obra, inseriu cenas do longa original em Halloween, de 1978, como forma de prestar tributo e contextualizar o terror que estava por vir. Mais significativamente, sua refilmagem de 1982, The Thing, retornou ao conceito de Campbell do alienígena capaz de assumir qualquer forma, elevando-o com efeitos práticos revolucionários e uma atmosfera de paranoia que redefiniu o horror corporal. O filme de 1951 também pavimentou o caminho para uma leva de produções da década de 1950 que exploravam o medo da invasão, como The War of the Worlds (1953), It Came from Outer Space (1953) [NÃO INCLUÍDA EM NOSSA SELEÇÃO!] e Invasion of the Body Snatchers (1956), cada qual a seu modo ecoando a advertência de Scotty. No outro extremo da galáxia cinematográfica, Alien (1979), de Ridley Scott, transportou a premissa do isolamento e da criatura implacável para o espaço profundo, enquanto The X-Files (e outros seriados), nos anos 1990 (e além), recuperou em episódios como Ice a dinâmica de desconfiança entre os membros de uma equipe confinada. Mais recentemente, a prequela The Thing (2011) [NÃO INCLUÍDA EM NOSSA SELEÇÃO!] tentou costurar as duas versões cinematográficas, ainda que com resultados artísticos discutíveis. O que une todas essas manifestações é a consciência de que o gênero da ficção científica, em sua infinita capacidade de combinar alegorias sociais, terror psicológico e especulação científica, deve uma parcela significativa de sua gramática visual e narrativa a este modesto filme em preto e branco de 1951. The Thing from Another World não é apenas um elo na corrente; é um daqueles raros momentos em que o cinema de gênero, operando com recursos limitados e sob o signo da colaboração artística, conseguiu capturar os temores de uma era e transformá-los em um entretenimento que, ainda hoje, ressoa com vigor. Celebrar este filme é celebrar a própria essência da ficção científica: o olhar curioso e cauteloso que lançamos às estrelas, perguntando-nos, como Scotty, o que mais pode estar à espreita na imensidão silenciosa do universo. Não se pode esquecer, ainda, que a trilha sonora de Tiomkin, com seu theremin hipnótico, influenciou a sonoridade de incontáveis filmes do gênero, assim como a representação do monstro como uma força da natureza indomável antecipou o horror ecológico de produções posteriores. Em suma, a obra funciona como um ponto de confluência onde o terror gótico (de variante cósmica!), a ficção científica pulp e as ansiedades geopolíticas se encontram, gerando uma linhagem que continua a se desdobrar nas telas contemporâneas.
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