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THE WAR GAME (1965) [47'] [1.37:1] [***1/2]
Peter Watkins já havia demonstrado, em Culloden (1964), que a televisão britânica podia ser um instrumento de intervenção histórica e política quando submetida a um olhar que recusava a passividade do registro convencional. Com The War Game, realizado no ano seguinte e concebido inicialmente para a série The Wednesday Play, da BBC, o diretor radicaliza esse método e o desloca do passado remoto para um futuro iminente e aterrador. Se Culloden reconstituía uma batalha do século XVIII com os recursos de uma reportagem moderna, The War Game projeta no presente da Guerra Fria as consequências de uma guerra nuclear que ainda não havia ocorrido, mas cuja possibilidade era cotidianamente administrada pelos governos e silenciada pelos meios de comunicação. A diferença central em relação aos demais trabalhos de Watkins está no grau de urgência e na ausência de qualquer mediação histórica tranquilizadora: não se trata de revisitar uma derrota antiga, mas de imaginar a destruição da própria sociedade que assiste ao filme. O que o longa reforça, por outro lado, é a coerência de um projeto autoral fundado na fusão entre documentário e ficção, no uso de atores não profissionais, na quebra da quarta parede e na desconfiança sistemática em relação às versões oficiais dos acontecimentos. Watkins não buscava apenas narrar uma catástrofe, mas expor os mecanismos políticos e midiáticos que tornam essa catástrofe pensável e, ao mesmo tempo, irrepresentável para o público. Lançado em um contexto de intensa ansiedade nuclear, o filme dialoga diretamente com a política de dissuasão adotada pelo governo britânico, com a corrida armamentista entre os blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, com a escalada da Guerra do Vietnã e com a sensação de impotência de uma população que, como o próprio filme demonstra por meio de entrevistas de rua, desconhecia os efeitos concretos de uma explosão nuclear. A decisão da BBC de retirar a obra da programação, alegando que seu impacto era horrível demais para a transmissão televisiva, transformou o lançamento em um acontecimento político por si só e inscreveu The War Game no centro de um debate sobre censura, responsabilidade pública e o papel da televisão na formação da consciência coletiva.
A estrutura narrativa de The War Game organiza-se em três movimentos distintos, mas indissociáveis: a escalada da crise internacional, o ataque nuclear propriamente dito e o rescaldo nas semanas e meses seguintes. A narração, conduzida por Michael Aspel e Peter Graham em um tom sóbrio e administrativo, apresenta inicialmente a doutrina britânica de dissuasão, baseada na ameaça de devastação por meio dos bombardeiros V da Força Aérea Real. O filme explica que a Grã-Bretanha abriga um número tão elevado de alvos potenciais, entre bases militares e centros urbanos, que sua densidade de alvos por área supera a de qualquer outro país. A crise tem início quando forças chinesas invadem o Vietnã do Sul e os Estados Unidos autorizam o uso de armas nucleares táticas; a União Soviética e a Alemanha Oriental ameaçam invadir Berlim Ocidental caso os norte-americanos não recuem. O governo britânico declara estado de emergência, transfere a administração cotidiana para comissários regionais e ordena a evacuação em massa de crianças, mães e enfermos para zonas consideradas seguras, entre as quais o condado de Kent. As casas são requisitadas, o racionamento é implantado, cartilhas sobre como se preparar para um ataque nuclear são distribuídas e as sirenes de alerta são testadas, embora o tempo de aviso estimado seja de apenas três minutos, podendo cair para menos de trinta segundos no caso de um ataque submarino. Não existem abrigos públicos construídos pelo governo, e a tentativa de particulares de erguer abrigos improvisados é frustrada pela escassez de materiais de construção. Em 18 de setembro, os soviéticos e os alemães orientais invadem Berlim Ocidental; a OTAN contra-ataca e é rapidamente sobrepujada, levando ao emprego de armas nucleares táticas pelos Estados Unidos. A União Soviética lança então seus próprios artefatos contra alvos estratégicos, e um míssil de um megaton, destinado à base aérea de Manston, erra o alvo e explode em uma explosão aérea a cerca de dez quilômetros de Canterbury. A cidade é atingida pelo calor intenso; em uma casa, um trabalhador da defesa civil e um menino têm os globos oculares derretidos pela onda térmica, enquanto móveis incendeiam-se e, doze segundos depois, a onda de choque destrói o edifício. Em outra residência, um garoto sofre cegueira por clarão ao olhar diretamente para uma explosão distante; seu pai o carrega para dentro e a família se esconde sob uma mesa enquanto a casa treme com as ondas de choque sucessivas. Em Rochester, uma explosão aérea provoca uma tempestade de fogo que consome a cidade. Os serviços de emergência de Kent entram em colapso, e cada médico sobrevivente passa a enfrentar pelo menos trezentos e cinquenta feridos. As vítimas mais graves são deixadas para morrer sozinhas ou são mortas a tiros por policiais como forma de eutanásia; casos de transtorno de estresse pós-traumático surgem entre os sobreviventes; os corpos são incinerados e as áreas destruídas são isoladas para impedir a interferência de parentes, enquanto a polícia passa a portar armas de fogo rotineiramente. A doença da radiação alastra-se, os suprimentos e serviços essenciais tornam-se inexistentes ou severamente limitados, e a maior parte dos alimentos restantes é reservada aos que mantêm a lei e a ordem, o que provoca motins por recursos. Os motins transformam-se em confrontos armados entre as autoridades e civis desesperados, que saqueiam um caminhão de armas e um depósito de alimentos. Pessoas condenadas por perturbar a ordem pública ou obstruir agentes do governo são executadas por pelotões de fuzilamento, e entre os mortos está o pai do menino cegado anteriormente. O escorbuto surge pela falta de vitamina C, e no dia de Natal, em um abrigo de refugiados em Dover, crianças órfãs são questionadas sobre o que desejam ser quando crescerem; elas respondem que não querem ser nada ou permanecem em silêncio. Uma criança é descrita como tendo apenas sete anos acamada antes de morrer de uma doença crônica semelhante à leucemia, e uma mulher grávida exposta à radiação não sabe se sofrerá um natimorto. O filme não se concentra em experiências individuais, mas na população britânica coletiva, que depende das preparações governamentais e não se convence plenamente dos perigos da guerra nuclear até as horas finais que antecedem o ataque. Os personagens principais, portanto, não são indivíduos dotados de psicologia aprofundada, mas figuras sociais tipificadas: o pai que tenta proteger a família e acaba fuzilado, o menino cegado que representa a inocência destruída, a mulher grávida que encarna a continuidade da vida interrompida, o bispo anglicano e o estrategista nuclear que, com declarações solenes, revelam a desconexão entre a retórica do poder e a realidade da catástrofe. Os conflitos principais opõem a população despreparada às instituições que a deveriam proteger, a retórica oficial da dissuasão à materialidade do horror, e a suposta racionalidade da estratégia militar à irracionalidade de uma destruição que anula qualquer possibilidade de recuperação.
A força de The War Game não reside apenas no conteúdo de sua denúncia, mas na maneira como a linguagem audiovisual é construída para tornar essa denúncia sensorialmente inescapável. A direção de Watkins combina o rigor do documentário de observação com a liberdade da encenação dramática, criando um tecido híbrido em que as fronteiras entre o real e o ficcional são deliberadamente corroídas. A fotografia em preto e branco, com granulação acentuada e contraste elevado, confere às imagens uma textura de registro jornalístico e, ao mesmo tempo, uma qualidade expressionista que amplifica o desconforto. O uso de câmera na mão, de planos fechados e de movimentos inquietos aproxima o espectador dos rostos e dos corpos atingidos, enquanto a luz natural e a ausência de embelezamento reforçam a sensação de imediatez. Em momentos decisivos, a superexposição da imagem simula o clarão ofuscante da explosão nuclear, e a montagem rápida, com cortes bruscos e justaposições violentas, impede qualquer repouso contemplativo. A montagem, aliás, é um dos instrumentos críticos mais poderosos do filme: Watkins alterna cenas de destruição com declarações de autoridades, entrevistas com especialistas e trechos de documentos oficiais, de modo que o contraste entre a frieza burocrática do discurso e a barbárie concreta das imagens produz um efeito de desmascaramento. A sequência em que um estrategista nuclear, com entonação calma, especula sobre a possibilidade de uma guerra mundial limitada, é imediatamente seguida por imagens de uma família queimando dentro de um carro durante a tempestade de fogo em Rochester; a fala de um bispo anglicano sobre a necessidade de lei e ordem é justaposta ao fuzilamento sumário de civis. O som desempenha função igualmente decisiva: a narração em off, sóbria e quase administrativa, funciona como um contraponto à monstruosidade do que é mostrado, enquanto os ruídos diegéticos, as sirenes, os gritos e as explosões criam uma paisagem sonora de caos. A trilha musical, discreta e dissonante, e o uso do hino natalino Silent Night em uma gravação danificada sobre os créditos finais, acrescentam uma camada de ironia trágica. A ausência de atores profissionalmente reconhecíveis, substituídos por Rostos comuns recrutados em reuniões públicas, reforça a dimensão coletiva da tragédia e impede que o espectador se identifique com heróis individuais; a interpretação, marcada pela inexperiência e pela contenção, produz uma autenticidade que o star system dificilmente alcançaria. Os efeitos de maquiagem, com queimaduras, feridas e sinais de radiação, são realistas o suficiente para chocar sem cair no grotesco gratuito, e os cenários destruídos, filmados em locações reais nos arredores de Dover, Tonbridge, Gravesend e Chatham, conferem materialidade ao pesadelo. Todo esse aparato técnico e estilístico está a serviço de uma tese: a de que a guerra nuclear não é um cenário abstrato de estratégia, mas uma realidade física e social que aniquila os corpos, desorganiza as instituições e revela a falência dos discursos de proteção. A forma do filme, portanto, não é um ornamento: é a própria condição de possibilidade de sua crítica.
O veredicto de The War Game sobre os temas que mobiliza é implacável e sem concessões. Peter Watkins não sugere que a dissuasão nuclear seja uma política arriscada, mas administrável; ele demonstra, por meio da simulação minuciosa de um cenário plausível, que a defesa civil britânica da época era uma ficção tranquilizadora, incapaz de proteger a população e destinada a ser varrida pela realidade de uma explosão termonuclear. O filme condena a passividade pública, a indiferença cotidiana e a confiança cega nas autoridades, ao mesmo tempo em que expõe a irresponsabilidade dos que, no poder, tratam a guerra nuclear como um jogo de probabilidades. A obra não oferece saídas nem consolações: não há heroísmo, não há reconstrução, não há futuro. As crianças órfãs que não desejam ser nada, a mulher grávida que teme o natimorto e o pai fuzilado por tentar sobreviver são figuras de uma humanidade reduzida à condição de resíduo. Para a carreira de Watkins, The War Game representa a consolidação de um método e, simultaneamente, um ponto de ruptura: a censura da BBC e a reação do governo britânico levaram o diretor a deixar o Reino Unido e a desenvolver sua obra em outros países, sempre em uma chave de resistência política e experimentação formal. O impacto do filme sobre a produção audiovisual posterior foi profundo: ele estabeleceu um modelo de drama documental de crítica social que seria retomado, décadas mais tarde, por obras como Threads (1984) e The Day After (1983), e sua influência se estende ao cinema de catástrofe, ao falso documentário e a toda uma linhagem de filmes que utilizam a estética do registro jornalístico para interrogar a realidade. O legado de The War Game, no entanto, não se mede apenas pela descendência estética, mas pela permanência de sua advertência: em um mundo que continua a conviver com arsenais nucleares e com a retórica da dissuasão, o filme permanece um documento urgente, capaz de produzir o mesmo desconforto que levou a BBC a bani-lo em 1965. O grau de três estrelas e meia, em uma escala de quatro, reflete o reconhecimento de sua coragem intelectual e de sua invenção formal, mas também a percepção de que, em alguns momentos, a ênfase panfletária e a repetição de recursos podem reduzir a complexidade do debate que o filme propõe. Ainda assim, trata-se de uma obra de excelência indispensável, cuja visão do colapso social conserva uma força perturbadora que poucos filmes sobre o tema conseguiram igualar.
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The War Game insere-se em uma linhagem de obras que, desde o final da década de 1950, vinham explorando o imaginário nuclear no cinema e na televisão. Entre suas influências mais diretas, é possível citar On the Beach (1959), que adaptou o romance de Nevil Shute sobre a espera da morte após uma guerra nuclear global, e Doctor Strangelove (1964), de Stanley Kubrick, que utilizou a sátira para expor a irracionalidade dos mecanismos de dissuasão. Fail-Safe (1964) e The Bedford Incident (1965) também contribuíram para configurar um repertório de ansiedades sobre a possibilidade de uma guerra nuclear acidental, enquanto o estilo de reportagem e a quebra da quarta parede remetem à tradição do cinema direto e do teatro documental. A obra de Watkins, no entanto, radicalizou esses elementos ao abandonar a mediação de personagens heroicos e ao assumir a forma de um programa jornalístico que se dirige diretamente ao telespectador. A descendência de The War Game é igualmente extensa e diversificada: Threads (1984), produzido pela BBC, retomou o formato de drama documental para narrar as consequências de um ataque nuclear a Sheffield, atualizando a advertência de Watkins para a era Thatcher; The Day After (1983), exibido pela rede norte-americana ABC, levou milhões de espectadores a confrontar o horror de uma guerra nuclear no coração dos Estados Unidos; When the Wind Blows (1986), animação baseada na história em quadrinhos de Raymond Briggs, abordou o tema a partir da perspectiva de um casal de idosos que tenta aplicar instruções oficiais de defesa civil, demonstrando a persistência do tema e a diversidade de tratamentos que ele admite. Especiais de televisão como Special Bulletin (1983) e Testament (1983) também devem ser lembrados, assim como a produção posterior de WarGames (1983), que, embora centrada na ameaça de uma guerra nuclear desencadeada por inteligência artificial, dialoga com o mesmo fundo de ansiedade. A trajetória de The War Game é pontuada por episódios que revelam tanto o impacto cultural da obra quanto as tensões políticas que ela provocou: o filme ganhou o Oscar de Melhor Documentário em 1967, apesar de ser uma ficção encenada, e recebeu menção elogiosa de Paul McCartney, que o descreveu como urgente e aterrorizante; Roger Ebert concedeu-lhe a nota máxima e defendeu que deveria ser exibido em praças públicas e na televisão; a BBC só o transmitiu integralmente em 1985, vinte anos após a realização, durante a semana que antecedeu o quadragésimo aniversário do bombardeio de Hiroshima. O título original de trabalho, After the Bomb, foi posteriormente utilizado como nome da temporada especial que finalmente levou o filme ao público britânico. A obra de Watkins, com sua recusa em separar arte e política, permanece como um elo fundamental na corrente de filmes que, por meio de gêneros diversos, da sátira à animação, do drama realista ao falso documentário, celebram a capacidade do cinema de pensar o impensável e de devolver ao público a consciência de sua própria vulnerabilidade. The War Game não é apenas um filme sobre uma guerra que não aconteceu; é um convite permanente a que se imagine o que está sempre a um passo de acontecer, e a que se rejeite, com lucidez e sem pânico, a lógica que o tornaria possível.
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