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segunda-feira, 1 de junho de 2026

STAR CITY S1 (2026)

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EPISÓDIOS

01 The Eyes [***]
02 A Bear on a Chain [***]
03 Bad Dancer [***]
04 Dark Forest [***]
05 Bite Your Elbow [***1/2]
06 Awl in a Sack [****]
07 Plow Deep [***]
08 The Wolves [***1/2]

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ANÁLISE

A primeira temporada de Star City, lançada em 2026 no serviço de streaming Apple TV, representa um dos empreendimentos mais ambiciosos e sombrios do universo narrativo concebido por Ronald D. Moore, Ben Nedivi e Matt Wolpert. Os criadores, que já haviam consolidado uma abordagem distinta da ficção científica histórica em For All Mankind, aqui operam uma mudança de paradigma radical ao transferirem o centro da ação da NASA para o coração do programa espacial soviético do título. Se na série original a tônica era o otimismo tecnológico e a superação de obstáculos com um quê de exaltação patriótica, em Star City essa mesma engrenagem narrativa é submetida a um banho de realismo opressivo. A produção, conduzida pela Sony Pictures Television e exibida pela Apple TV, reúne um elenco de peso para dar vida a essa distopia alternativa. Rhys Ifans, conhecido por seus trabalhos em House of the Dragon e na franquia Harry Potter, assume o papel do Engenheiro-Chefe [Sergei Korolev], uma figura enigmática que move os bastidores do programa espacial soviético com a discrição de um fantasma. Ao seu lado, Anna Maxwell Martin, vencedora de prêmios BAFTA e Emmy por seus trabalhos em Bleak House e Until I Kill You, entrega uma performance aterrorizante como Lyudmilla Raskova, a chefe do departamento de vigilância da KGB em Star City. A escalação ainda conta com Agnes OCasey, de Black Doves e Wolf Hall, como a agente novata Irina Morozova, e Alice Englert, filha da cineasta Jane Campion e vista em The Power of the Dog, como a cosmonauta Anastasia Belikova. Para os fãs de For All Mankind, a novidade não está apenas na troca de bandeira, mas na completa inversão de tom: onde a série mãe era arejada e esperançosa, Star City é claustrofóbica e desoladora. Esta primeira temporada, composta por oito episódios de aproximadamente uma hora de duração cada, não apenas reforça a habilidade dos showrunners em criar quebra-cabeças narrativos tensos ao estilo Apollo 13 (por assim dizer), mas também introduz uma complexidade moral que desafia o espectador a simpatizar com personagens que servem a um regime totalitário. Em um momento histórico em que o mundo assiste a novos realinhamentos geopolíticos e ao ressurgimento de discursos autoritários, a série ressoa como um alerta frio sobre os custos humanos da ambição desmedida quando desprovida de liberdades individuais. A recepção crítica foi amplamente favorável, com a temporada alcançando pontuações notáveis no Rotten Tomatoes e no Metacritic, que atestam a qualidade técnica e a força narrativa da produção. Contudo, a obra não se furta a dividir opiniões, especialmente no que tange à sua representação unilateral e frequentemente caricatural/excessiva da União Soviética (ainda que obviamente ficcional). Ainda assim, é inegável que a primeira temporada de Star City se estabelece como um experimento corajoso e visualmente coeso, que expande as fronteiras do universo de For All Mankind ao mesmo tempo em que se afirma como uma entidade dramática autônoma e perturbadoramente relevante.

A trama da primeira temporada de Star City se desenrola em um universo de história alternativa onde a União Soviética venceu a corrida espacial, tendo colocado o primeiro homem na Lua em 1969. Oito episódios se passam em meio à guerra fria tecnológica, focando no Centro de Treinamento de Cosmonautas Yuri Gagarin, a Cidade das Estrelas que dá nome à série. A narrativa se inicia com a decisão do programa espacial soviético de enviar uma mulher à Lua, uma missão que coloca Anastasia Belikova (Alice Englert) sob os holofotes. Anastasia, uma cosmonauta inexperiente e de origem humilde, rapidamente se vê enredada em um jogo de poder que não compreende totalmente. Sua ascensão à fama a transforma em um símbolo do regime, mas a proximidade incidental com o cosmonauta Sasha (Solly McLeod) a coloca em rota de colisão com a vigilância implacável do estado. Paralelamente, a tenente Irina Morozova (Agnes OCasey), uma recruta da KGB, recebe a missão de investigar uma possível infiltração de um espião americano no programa espacial. Sua investigação a leva a descobrir que Valya (Adam Nagaitis), um cosmonauta e instrutor, é o agente duplo procurado. A descoberta de Irina desencadeia uma crise que testa sua lealdade ao partido e sua humanidade, especialmente quando ela se vê obrigada a ajudar a esposa de Valya, Tanya (Ruby Ashbourne Serkis), a professora de piano da sua filha, a escapar da prisão iminente. O episódio cinco, intitulado Bite Your Elbow, é um dos destaques secundários da temporada, justamente por retratar o momento em que Irina, recém-descoberta a verdade, precisa tomar decisões impossíveis entre o dever e a compaixão. A tensão atinge seu ápice no sexto episódio, Awl in a Sack, considerado o grande destaque da temporada. Nele, a coronel Lyudmilla Raskova (Anna Maxwell Martin), ao saber da missão não autorizada a Vênus e da presença do traidor Valya a bordo, toma o controle da operação com uma frieza assustadora. Raskova, cuja lealdade ao regime é absoluta e cujos métodos beiram o psicótico, força a despressurização da nave, condenando Valya à morte no vácuo e colocando em risco a vida de Sasha e da cosmonauta indiana Lakshmi (Priya Kansara). O episódio termina com uma explosão a bordo, sugerindo a morte de todos os tripulantes e deixando o público em estado de choque. A temporada se encaminha para a conclusão com o sétimo episódio, Plow Deep, que estabelece as consequências políticas do desastre, e culmina no oitavo e último episódio, The Wolves [outro destaque]. No final, revela-se que Sasha e Lakshmi (numa emocionante reviravolta) sobreviveram à explosão e estão retornando à Terra após nove meses no espaço. Valya, por sua vez, ao contrário do que parecia, sacrificou-se para corrigir a trajetória da nave, morrendo ao atingir a superfície de Vênus (notem que a sua batisfera resistiu um bom tempo na superfície antes de ser esmagada, um feito histórico!). O Engenheiro-Chefe (Rhys Ifans) e o técnico Sergei Nikulov (Josef Davies) [responsáveis por toda a insana missão a vênus] são presos, enquanto Anastasia, usando sua atual posição na estação espacial, desvia (usando instruções passadas por Nikulov) a aterrissagem da cápsula para a Finlândia, numa tentativa desesperada de salvar Sasha. No entanto, Irina, agora mais cínica e pragmática [e temendo por ela e por sua filha], denuncia o plano, resultando na queda da nave forçada por Raskova ainda em território soviético, que a danifica com um jato de combate... O destino de Sasha e Anastasia fica então por um fio na proximidade da fronteira dos dois países [aguardemos a próxima temporada!]... Os temas principais da temporada são a ausência de liberdades individuais, a brutalidade do estado como mecanismo de controle e a tristeza profunda que emana de um sistema onde o talento e a coragem são sufocados pela paranoia. Cada personagem principal carrega um conflito central: Lyudmilla Raskova luta para manter a ordem e sua própria posição de poder, utilizando a crueldade como ferramenta; Irina Morozova busca conciliar sua eficiência como agente com lampejos de empatia que podem significar sua ruína; e Anastasia Belikova, a moça simples do povo, tenta preservar sua decência e seu amor por Sasha em um ambiente que a consome. Esses conflitos não são resolvidos, mas sim aprofundados, sugerindo que, em "Purgatory City", a sobrevivência é a única vitória possível.

A realização técnica de Star City é um componente essencial para a construção de sua atmosfera opressiva e melancólica, atuando como um personagem silencioso que dita o ritmo e o humor de cada cena. A fotografia, assinada por Brendan Uegama, é talvez o elemento mais imediatamente perceptível e eficaz da série. Uegama optou por uma estética granulada e desbotada, que remete às imagens de arquivo da década de 1960 e ao cinema de espionagem da Guerra Fria. A paleta de cores é deliberadamente monótona, composta por cinzas, marrons e brancos sujos, onde o céu nunca é azul e as árvores nunca são verdes. Essa escolha não é meramente estilística; ela captura instantaneamente a tristeza e a desesperança que permeiam a vida na Cidade das Estrelas. A ausência de cor vibrante é um reflexo visual da ausência de liberdade, transformando cada quadro em uma pintura de uma realidade sufocante. As cenas internas, especialmente nos apartamentos funcionais e nos corredores do centro de treinamento, são claustrofóbicas, com uma iluminação que parece sempre artificial e doentia, reforçando a sensação de aprisionamento. A direção, compartilhada por Kasia Adamik, Nick Murphy, Jamie Payne e Stefan Schwartz, mantém um estilo visual coeso, utilizando frequentemente planos fechados e uma câmera de mão trêmula para aumentar a tensão e a sensação de vigilância constante. A montagem, ágil e precisa, intercala habilmente as tramas terrestres com as missões espaciais, criando um ritmo que, embora por vezes lento, nunca perde o foco na construção do suspense. O episódio Awl in a Sack, dirigido por Kasia Adamik, é um exemplo magistral de como a linguagem audiovisual pode amplificar o drama. A sequência da despressurização da nave é um tour de force de montagem e som, onde o silêncio do vácuo é contrastado com a respiração ofegante dos personagens, culminando em um caos visual de faíscas e fogo que é tão belo quanto aterrorizante. As atuações são o pilar sobre o qual toda essa técnica se sustenta. Anna Maxwell Martin entrega uma performance hipnotizante como Lyudmilla Raskova. Sua interpretação é uma aula de contenção e ameaça; seus olhos gelados e sua postura rígida transmitem uma autoridade que dispensa gritos. Ela é mais KGB do que a própria KGB, uma burocrata da maldade cuja frieza a torna fascinante e repulsiva ao mesmo tempo. A atriz consegue humanizar o monstro apenas o suficiente para que suas ações choquem ainda mais. Agnes OCasey, como Irina, é a alma torturada da série. Sua jornada de agente ingênua a sobrevivente cínica é retratada com uma sutileza dolorosa, especialmente nos momentos em que sua competência profissional colide com seus raros e inesperados lampejos de empatia. O espectador se pergunta, a cada episódio, quais tragédias futuras moldarão sua personalidade, tornando-a ainda mais dura. Alice Englert, como Anastasia, oferece o contraponto humano. Sua interpretação é cheia de uma vulnerabilidade genuína, representando a moça simples do povo que encontra um amor verdadeiro em Sasha, mesmo sabendo que esse amor está fadado à destruição pelas forças que a cercam. A trilha sonora, composta por Federico Jusid, conhecido por seu trabalho em A Gentleman in Moscow, complementa perfeitamente o visual. Sua música é melancólica e discreta, utilizando cordas soturnas e pianos minimalistas para sublinhar a solidão e o desespero dos personagens, nunca competindo com a imagem, mas sim acentuando sua carga emocional. A produção como um todo, desde os figurinos de época até os efeitos visuais que recriam as naves e a superfície lunar, é impecável, criando um mundo imersivo e crível em sua decadência. A soma de todos esses elementos técnicos não apenas serve à história, mas a define, transformando Star City em uma experiência sensorial que é tão importante quanto seu enredo. A fotografia granulada e lavada, a direção claustrofóbica, a montagem tensa e as atuações geralmente diretas (especialmente das três mulheres) se unem para criar um retrato inescapável da brutalidade inclemente de um sistema que, mesmo ao alcançar as estrelas, mantém seus cidadãos acorrentados à terra.

Ao fim de seus oito episódios, a primeira temporada de Star City se consolida como uma obra de ficção científica dramática que, embora lastreada na premissa de exploração espacial, é, em sua essência, um estudo de caso sobre a alma humana sob opressão. O veredicto final sobre a temporada, que merece sólidas três estrelas em quatro, reflete precisamente essa dualidade: tecnicamente brilhante e narrativamente potente, mas limitada por uma visão de mundo que, ao priorizar a desolação, por vezes se torna unidimensional e sufocante. A série, criada por Ben Nedivi, Matt Wolpert e Ronald D. Moore, cumpre com maestria o papel de espelho sombrio de For All Mankind, provando que a perspectiva soviética não é apenas uma inversão de bandeiras, mas uma exploração de um sistema de valores intrinsecamente diferente, onde o indivíduo é sempre descartável em nome do Estado. Os temas principais da temporada – a ausência de liberdades individuais, a brutalidade do estado e a tristeza de um programa espacial que deveria inspirar mas que apenas oprime – são explorados até suas últimas consequências. A jornada de Anastasia Belikova, a moça simples do povo, é particularmente emblemática; ela começa a temporada como um símbolo de esperança e a termina como uma peça em um jogo de xadrez geopolítico, seu amor por Sasha transformado em uma arma contra ela. O destino dos dois, pairando entre a vida e a morte após o retorno da nave de Vênus, encapsula a incerteza e o perigo constantes que definem a existência dentro da Cidade das Estrelas. Irina Morozova, por sua vez, emerge como a personagem de maior potencial para o futuro. Sua evolução de agente leal a uma mulher que começa a questionar as ordens que recebe, mesmo que de forma pragmática, sugere que tragédias ainda virão em sua direção, moldando um eu futuro que pode ser ainda mais cínico ou, quem sabe, rebelde. Sua competência infinita e seus flashes de empatia a tornam a personagem mais fascinante e imprevisível, um verdadeiro trunfo para a narrativa. Lyudmilla Raskova, a antagonista, é a personificação do sistema. Ela não é má por maldade, mas por convicção; sua lealdade ao partido é tão absoluta que a crueldade se torna uma ferramenta lógica, o que a torna ainda mais aterrorizante. A temporada não oferece redenção para seus personagens, apenas sobrevivência. O impacto de Star City para a audiência e para a televisão como um todo é significativo. Em uma era de conteúdo saturado, a série se destaca por sua ousadia em apresentar uma narrativa complexa e moralmente cinzenta, que não oferece respostas fáceis. Ela desafia o espectador a simpatizar com personagens que servem a um regime totalitário, forçando uma reflexão desconfortável sobre a natureza da ambição, do patriotismo e do sacrifício. Para a televisão, ela estabelece um novo padrão para spin-offs, demonstrando que é possível expandir um universo narrativo não através da repetição, mas da subversão completa de suas premissas originais. Contudo, a série também carrega o fardo de sua própria escuridão. A brutalidade inclemente, embora tematicamente justificada, por vezes se torna cansativa e prejudica o programa, pois a ausência total de alívio cômico ou de momentos de genuína alegria pode distanciar o espectador. A sensação de que Star City deveria se chamar Purgatory City é precisa; a série é um retrato da vida em um purgatório burocrático e violento, onde a esperança é um luxo que poucos podem pagar. A primeira temporada de Star City, portanto, é uma conquista notável e profundamente perturbadora, uma joia negra no catálogo da Apple TV. Ela planta as sementes para um futuro incerto, onde a pergunta que fica no ar, especialmente sobre o destino de personagens como Irina e Anastasia, é se algum dia conseguirão escapar das garras do lobo que as criou. A série é, acima de tudo, um testemunho da resiliência humana em condições limites, um lembrete de que, mesmo sob a mais brutal das vigilâncias, o amor, a coragem e a decência podem florescer, ainda que por breves e dolorosos instantes. E nessa tristeza, há uma beleza trágica que a torna inesquecível.

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