terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

THE SECRET AGENT (2025)

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THE SECRET AGENT (2025) [161] [1.85:1] [★★★½]

 Ao longo de sua carreira, Kleber Mendonça Filho consolidou uma filmografia que dissecava o Brasil por meio de suas dinâmicas de classe e violência latente, de O Som ao Redor à alegoria explosiva de Bacurau. Com The Secret Agent, o diretor pernambucano realiza um movimento duplo: aprofunda seu olhar autoral sobre o passado traumático do país, mas o faz através de uma lente formal inédita em sua obra. Se Aquarius e Bacurau lidavam com o contemporâneo ou um futuro distópico, aqui ele se volta para 1977, o coração da ditadura militar, para criar um thriller político de fôlego. O filme difere de seus trabalhos anteriores pela ambição de costurar uma tapeçaria histórica mais ampla, utilizando o gênero de espionagem e o clima de paranoia como veículos para explorar a resistência. No entanto, reforça suas obsessões fundamentais: a arquitetura como expressão de poder, a memória como ato de resistência e a comunidade como último baluarte contra a barbárie. Lançado em um momento de revisão histórica global, o filme ressoa com as ansiedades contemporâneas sobre autoritarismo e a fragilidade das liberdades conquistadas, dialogando diretamente com os fantasmas que ainda assombram a democracia brasileira.

 A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário e especialista em tecnologia que vive sob identidade falsa após ter sua vida ameaçada pelo regime. Durante o feriado de carnaval no Recife, ele busca se reconectar com o filho pequeno, Fernando (Enzo Nunes), e obter passaportes falsos com a ajuda de Elza (Maria Fernanda Cândido) para fugir do país. Através de flashbacks, revela-se que sua perseguição começou após um conflito com Ghirotti (Luciano Chirolli), um poderoso empresário que cortou o financiamento de sua pesquisa na universidade e agora envia dois assassinos de aluguel, Bobbi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Villela), para silenciá-lo definitivamente. O que parece uma narrativa linear de fuga se expande em diversas ramificações: encontros com uma comunidade de refugiados políticos, sobreviventes do Holocausto como o enigmático Hans (Udo Kier), cuja presença adiciona uma camada histórica sobre a perseguição e o exílio, e até mesmo uma digressão sobre uma perna encontrada no estômago de um tubarão, que funciona como uma metáfora brutal da violência que devora corpos e memórias. Essas histórias aparentemente secundárias convergem para um mosaico que expõe a violência de Estado e a teia de cumplicidades entre setores privados e o regime que sustentavam a opressão. A estrutura fragmentada, que culmina num epílogo ambientado décadas depois com uma jovem pesquisadora (Laura Lufesi) investigando o passado por meio de fitas cassete, sublinha os temas principais: a dificuldade da fuga, a corrupção institucionalizada e a necessidade imperiosa de revisitar a história para compreender o presente, num gesto que ecoa a própria função do cinema como arquivo e testemunho.

 É na linguagem audiovisual que a trama ganha sua textura mais rica. A fotografia de Evgenia Alexandrova, filmada em Panavision, imerge o espectador no calor e na decadência do Recife dos anos 1970, utilizando uma paleta de cores que remete aos filmes de gênero da época, criando uma tensão palpável entre a euforia do carnaval e a brutalidade iminente. A montagem, assinada por Matheus Farias e o próprio diretor, que salta entre passado e presente com uma liberdade que alguns críticos chamaram de errática, na verdade serve a um propósito claro: espelhar o estado de alerta e a desorientação de um homem acuado, cuja memória fragmentada é tudo o que lhe resta. Wagner Moura entrega uma atuação magnética e contida, canalizando a paranoia e a dor de um pai que é ao mesmo tempo vítima e peça em um jogo maior que ele não controla completamente, enquanto Maria Fernanda Cândido oferece um contraponto de solidez e mistério. O diretor, ex-crítico de cinema, infunde a obra com referências que vão dos thrillers políticos de Alan J. Pakula, como The Parallax View, ao horror corporal de David Cronenberg, mas as amalgama em uma voz própria, onde a trilha sonora de Tomaz Alves Souza e Mateus Alves jamais sublinha o óbvio, preferindo criar um ruído de fundo incômodo, como a lembrança de um trauma que se recusa a cicatrizar. A direção de arte de Juliano Dornelles recria com precisão a estética dos anos 1970, dos móveis de madeira aos cartazes de cinema, ancorando a narrativa em um realismo que torna a violência ainda mais impactante.

(O longa procura emular os filmes produzidos na época em que se passa a história, utilizando: o uso livre do zoom , varreduras para fazer as transições entre as cenas , telas divididas , focos divididos etc.)

 The Secret Agent oferece um veredicto tão complexo quanto a história que decide contar. Kleber Mendonça Filho não entrega uma mensagem de redenção fácil, mas sim um lembrete de que as feridas da ditadura são profundas e seus ecos ressoam através das gerações, frequentemente orquestrados por interesses privados que se beneficiaram do regime. Para Marcelo, a luta não é apenas pela sobrevivência física, mas pela preservação de sua identidade e da memória de sua falecida esposa, cuja ausência permeia cada decisão. O filme conclui que, em regimes autoritários, a própria ideia de um refúgio seguro é uma ilusão, e a resistência se dá tanto na fuga quanto no ato de testemunhar, seja através de fitas cassete ou do próprio cinema. Para a filmografia de Mendonça Filho, a obra representa um amadurecimento monumental: é a sua declaração mais direta e ambiciosa sobre o Brasil, um painel histórico que solidifica seu lugar não apenas como cronista das mazelas sociais, mas como um legítimo humanista do cinema mundial contemporâneo. É um cinema que exige atenção, mas recompensa com a rara sensação de estar diante de algo verdadeiramente necessário, uma obra que, como os melhores filmes políticos, se recusa a oferecer respostas fáceis, preferindo habitar as ambiguidades da memória e da luta.

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