domingo, 8 de fevereiro de 2026

HAMNET (2025)

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HAMNET (2025) [126'] [1.66:1] [***1/2]

Depois de um desvio pelo universo dos super-heróis com Eternals, Chloé Zhao regressa, com Hamnet, ao território íntimo e humanista que consagrou o seu estilo e lhe valeu o Oscar por Nomadland. Se a mudança de um retrato contemporâneo do desenraísmo americano para um drama histórico na Inglaterra isabelina parece, à primeira vista, uma reviravolta, o filme revela-se, na verdade, uma consolidação profunda dos seus temas autorais mais caros. Zhao transplanta para o século XVI a sua sensibilidade característica para com personagens à margem, indivíduos cujas vidas são moldadas por forças maiores—sejam elas económicas, como em Nomadland, ou sociais e biológicas, como a peste e os rígidos papeis de género na sociedade elisabetana. A natureza, sempre presente e quase personagem em sua filmografia, ganha aqui contornos de misticismo e premonição, servindo de refúgio e linguagem para a protagonista Agnes. O filme, portanto, não é uma negação do seu percurso, mas uma expansão temporal do mesmo olhar empático, demonstrando que a luta pela autonomia individual dentro de estruturas sociais opressoras e a busca por significado perante a perda são temas atemporais. Lançado em meados da década de 2020, Hamnet ressoa profundamente com um mundo ainda a processar traumas coletivos recentes, oferecendo uma meditação solene, mas não sentimental, sobre o luto e a resiliência. Ao centrar a narrativa na figura esquecida da esposa de Shakespeare, o filme também dialoga com os esforços contemporâneos por reavaliar a História, trazendo para a luz as experiências silenciadas das mulheres e questionando o preço do génio artístico para aqueles que permanecem nos bastidores.

Hamnet é, antes de tudo, a história de Agnes (Jessie Buckley), uma mulher de espírito livre, dotada de um conhecimento intuitivo da natureza e da cura, que vive numa comunidade onde tal singularidade é vista com desconfiança. O seu encontro fortuito com o jovem preceptor William Shakespeare (Paul Mescal) desencadeia um romance intenso e proibido, culminando num casamento apressado. A narrativa bifurca-se então para explorar os destinos paralelos do casal: Agnes afunda as suas raízes em Stratford, dedicando-se com ferocidade à criação dos seus três filhos, Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e os gémeos Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe), enquanto William, impelido por uma ambição criativa que a província não pode conter, parte para Londres em busca do teatro. A estrutura do filme utiliza estes dois polos—o lar rural e a efervescente metrópole—para dramatizar o conflito central entre a vocação artística e as obrigações familiares, e entre a expressão pública e o sofrimento privado. A tragédia invade esta frágil estabilidade quando Judith adoece gravemente com a peste. Numa tentativa desesperada de salvar a irmã, Hamnet deita-se ao seu lado, acabando por contrair a doença e sucumbir. A morte do filho torna-se o epicentro do filme, expondo as fissuras no casamento: Agnes é consumida por uma dor física e primária, um luto que a prende à terra onde o filho está enterrado, enquanto William, ausente no momento da morte, enfrenta uma culpa paralisante e uma incapacidade de comunicar a sua angústia, refugiando-se ainda mais no seu trabalho. O tema do luto, manifestado de formas radicalmente diferentes, é explorado na sua complexidade, evitando respostas fáceis. O clímax ocorre quando Agnes, levada a Londres, assiste à primeira encenação da tragédia Hamlet. Ao reconhecer no palco não uma profanação do nome do filho, mas uma homenagem transcendental, uma tentativa de William de conversar com o fantasma do filho e conceder-lhe uma existência eterna através da arte, Agnes experiencia uma catarse. A sua compreensão do propósito da peça transforma a sua dor isolada numa experiência partilhada, oferecendo um vislumbre de consolo e de conexão restaurada com o marido.

A realização de Chloé Zhao serve com mestria essa narrativa emocional, utilizando cada ferramenta audiovisual para criar um tom de realismo místico que é único. A fotografia de Łukasz Żal não embeleza o passado; pelo contrário, mergulha-o numa textura terrosa e orgânica, onde a luz natural—seja o sol a filtrar-se por uma janela de tabuinhas, seja o clarão de velas num interior escuro—desenha os contornos da vida doméstica e do drama íntimo. Os espaços são filmados com uma paciência contemplativa, permitindo que a atmosfera e o peso do tempo se façam sentir. Esta abordagem estende-se à direção de atores, onde Zhao aplica a sua conhecida predileção por naturalidade. Jessie Buckley entrega uma atuação de força vulcânica e vulnerabilidade crua, corporificando a conexão visceral de Agnes com o mundo natural e a sua dor desesperada sem recorrer a clichês. Paul Mescal, por sua vez, constrói um Shakespeare interiorizado e atormentado, cujo conflito entre o amor pela família e a necessidade incontrolável de criar é comunicado mais através de silêncios angustiados e da frustração no ato da escrita do que por grandes discursos. A montagem, assinada pela própria Zhao e por Affonso Gonçalves, flui suavemente entre passado e presente, entre Stratford e Londres, tecendo os fios da memória e do pressentimento de forma a que a revelação final seja sentida antes de ser inteletualmente compreendida. A trilha sonora de Max Richter, ao evitar melodramatismos, envolve a narrativa num manto de melancolia e beleza, com o seu conhecido tema On the Nature of Daylight a surgir no momento culminante com uma resonância profundamente emocional. O design de produção e os figurinos rejeitam o brilho anacrónico de muitos dramas de época, optando por uma autenticidade desgastada que torna o mundo do filme palpável e habitável. Todos estes elementos convergem para o tour de force final dentro do Globe Theatre, onde a linguagem do cinema—os closes no rosto transformado de Agnes, a edição que intercala a peça com as suas memórias—realiza magicamente a tese central do filme: a de que a arte tem o poder de dar forma ao caos da dor e de criar uma ponte onde as palavras comuns falham.

Hamnet, de Chloé Zhao, ergue-se assim como uma obra singular e madura na filmografia da realizadora, representando não um regresso, mas uma sublime culminação dos seus interesses artísticos. O veredicto final que o filme oferece sobre os seus temas é complexo e comovedor: o luto, sugere, é um território solitário e de formas variadas, mas a arte—a narrativa, o teatro—pode servir como um rito de passagem coletivo, um meio de transformar a perda pessoal em algo que conecta e perdura. Para Agnes, a compreensão da peça de William não apaga a dor, mas ressignifica-a, permitindo-lhe ver o amor e a homenagem onde antes só via negligência e apropriação. Para William, a criação artística revela-se tanto uma fuga quanto o único idioma suficientemente vasto para conter a sua culpa e saudade. O filme conclui que o génio criativo e o custo humano estão inextricavelmente ligados, e que a imortalidade da arte pode ser, em última análise, o mais profundo ato de amor e reparação para com os que ficaram para trás. Impactando a obra de Zhao, Hamnet solidifica-a como uma contadora de histórias de escala íntima mas ressonância épica, cuja sensibilidade humanista transcende períodos históricos e geografias. Para além da sua filmografia, o longa afirma-se como uma contribuição poderosa para o cânone dos dramas literários, não por desvendar o "verdadeiro" Shakespeare, mas por usar a sua figura lendária para explorar verdades universais sobre a criação, a perda e a misteriosa alquimia que transforma a vida em arte, garantindo que, de alguma forma, os que partem nunca se vão inteiramente.

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