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SINNERS (2025) [137'] [2.39:1] [★★★½]
Em Sinners, Ryan Coogler realiza um desvio fascinante em sua trajetória, ainda que mantenha vivas as preocupações centrais de seu cinema. Se em Fruitvale Station ele examinava a fragilidade da vida negra diante da violência institucional, e nas franquias Creed e Pantera Negra explorava o peso do legado e a construção de identidades dentro de estruturas opressoras, aqui o diretor migra para o território do horror gótico e do sobrenatural sem jamais abandonar o chão histórico. O longa representa um ponto de virada em sua filmografia justamente por fusionar gêneros populares com uma pesquisa de época meticulosa, resultando em algo que transcende o mero entretenimento. Coogler sempre demonstrou habilidade para extrair dramaticidade de contextos específicos, mas Sinners amplia essa lente ao inserir o fantástico como ferramenta para discutir a apropriação cultural e a resistência negra no sul dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. Lançado em um momento em que o cinema mundial redescobre o potencial político do horror, a obra se alinha com as de Jordan Peele, que utilizam o gênero para escancarar tensões raciais e de gênero, mas avança ao propor uma reflexão sobre a própria natureza da criação artística como território de disputa. Mais do que nunca, Coogler afirma-se como um contador de histórias que recusa fronteiras entre o popular e o erudito, o comercial e o autoral, construindo pontes entre o passado traumático e as ansiedades contemporâneas sobre quem tem direito à narrativa e à memória.
A história de Sinners se desenrola em 1932 no coração do Delta do Mississippi, onde os gêmeos Elijah Smoke Moore e Elias Stack Moore (ambos interpretados por Michael B. Jordan em um tour de force de atuação) retornam à cidade natal depois de anos envolvidos com o crime organizado em Chicago. Carregam consigo não apenas dinheiro sujo, mas o sonho ambicioso de abrir um "juke joint", um estabelecimento clandestino onde a comunidade negra local possa finalmente dançar, beber e ouvir blues sem a vigilância constante dos brancos. Ao lado do primo adolescente Sammie Moore (Miles Caton), um guitarrista prodigioso cuja habilidade parece desafiar qualquer explicação racional, os irmãos enfrentam a desconfiança do pai do rapaz, o pastor Jedidiah (Saul Williams), que enxerga no blues a trilha sonora da perdição espiritual. A comunidade que se forma em torno do bar inclui figuras memoráveis como a cozinheira Annie (Wunmi Mosaku), ex-esposa (ou ainda atual?) de Smoke que pratica rituais herdados dos ancestrais para proteção, o pianista Delta Slim (Delroy Lindo) cujas músicas carregam a memória de gerações, e a jovem (casada e infeliz) cantora Pearline (Jayme Lawson), por quem Sammie desenvolve uma paixão que mistura admiração artística e desejo adolescente. O conflito central, entretanto, irrompe quando o vampiro irlandês Remmick (Jack O'Connell) emerge das sombras acompanhado por sua horda de criaturas pálidas, atraído irresistivelmente pelo poder sobrenatural contido nas composições de Sammie. Inicia-se então um cerco noturno ao juke joint em sua noite inaugural, forçando os sobreviventes a defender não apenas suas vidas físicas, mas sua cultura, sua música e sua memória coletiva. Os vampiros aqui representam figurativamente algo mais sinistro que a simples sede de sangue: desejam sugar a própria alma criativa da comunidade, transformando sua arte em mercadoria vazia, despojada de significado e contexto... Remmick por sua vez (e dentro da trama) procura se reconectar com seu próprio passado e ancestrais através da música, e busca transformar a comunidade local em um exército de mortos-vivos sob seu controle.
A orquestração técnica de Sinners eleva o material a patamares impressionantes, começando pela fotografia de Autumn Durald Arkapaw, rodada em celuloide de 65mm e câmeras IMAX, que confere ao quadro uma textura quase tátil. A sujeira sob as unhas dos personagens, o brilho do suor em suas peles, a poeira que dança nos raios de luz que penetram pelas frestas da madeira, tudo adquire presença física na tela, criando uma imersão sensorial que poucos filmes de gênero alcançam. A paleta cromática é meticulosamente construída para operar em nível psicológico: os personagens negros emergem de fundos terrosos, ocres e acinzentados que evocam resistência e enraizamento, enquanto os vampiros são banhados em azuis gelados e fluorescentes que sugerem desumanização e esterilidade espiritual, com o vermelho surgindo apenas em momentos precisos como prenúncio de violência iminente. A montagem de Michael P. Shawver, colaborador frequente de Coogler, equilibra com precisão cirúrgica os momentos de tensão contida e as explosões de horror visceral, particularmente na sequência antológica em que a música de Sammie invoca, sem que os próprios personagens compreendam plenamente o fenômeno, espectros de músicos negros do passado e do futuro. Por breves instantes, vemos desfilar figuras que remetem a Robert Johnson, Muddy Waters, Jimi Hendrix e até mesmo um DJ contemporâneo com seus toca-discos, numa declaração visual contundente sobre a ancestralidade que atravessa gerações e a natureza cíclica da opressão cultural. A trilha sonora de Ludwig Göransson, outro parceiro habitual do diretor, merece análise à parte: ela transita com naturalidade impressionante do gospel rural ao blues do Delta, da música celta trazida pelos imigrantes irlandeses ao industrial do século XXI, construindo uma tapeçaria sonora que não apenas acompanha, mas frequentemente conduz a experiência emocional do espectador. A direção de Coogler demonstra segurança absoluta ao orquestrar esses elementos, extraindo de Jordan duas performances complementares que acentuam as tensões entre impulsividade e razão, entrega ao destino e luta pela autonomia. Caton, como Sammie, carrega nos ombros frágeis o peso simbólico de toda uma tradição musical, enquanto Lindo e Mosaku oferecem contrapontos de sabedoria ancestral que ancora o fantástico no reconhecível. A cena climática, em que o violão de Sammie é literalmente usado como arma contra Remmick e seus seguidores, sintetiza com elegância brutal a tese central do filme: a arte não é apenas expressão, mas instrumento de resistência e sobrevivência física e espiritual.
Sinners conclui sua trajetória oferecendo um veredicto complexo e deliberadamente ambíguo sobre os temas que mobiliza. O racismo não é apresentado como força puramente externa e violenta, mas também como sedução perigosa que promete imortalidade e reconhecimento em troca da submissão cultural completa. Quando Remmick oferece a liberdade eterna a Sammie, declarando explicitamente "Quero suas histórias, suas canções, sua alma!" ele verbaliza a dinâmica de apropriação que o filme denuncia sem jamais recorrer ao didatismo simplificador. Os personagens principais enfrentam seus conflitos de forma trágica e inescapável: Smoke sacrifica-se heroicamente para proteger o irmão e a comunidade, enquanto Stack, transformado em vampiro contra sua vontade, sobrevive através dos séculos carregando o peso insuportável da culpa e da memória do irmão. No epílogo situado sessenta anos depois, em 1992, encontramos Sammie transformado em um músico idoso e consagrado (interpretado com dignidade pelo lendário guitarrista Buddy Guy), agora capaz de compreender plenamente os eventos sobrenaturais que marcaram sua juventude. Quando Stack e Mary (Hailee Steinfeld), sua companheira de maldição (e também presente na fatídica noite), reaparecem para oferecer-lhe a mesma imortalidade que outrora recusara, Sammie escolhe conscientemente a finitude humana, compreendendo que é precisamente a mortalidade que confere significado e urgência à criação artística. É uma conclusão que reafirma a vida diante da eternidade vazia, a comunidade diante do individualismo predatório, a memória viva diante da apropriação morta. Na filmografia de Ryan Coogler, Sinners representa o passo mais ousado em direção a um cinema de gênero com densidade intelectual e emocional comparável aos grandes clássicos do horror alegórico, provando que é perfeitamente possível conceber blockbusters originais que dialogam profundamente com o passado e o presente sem jamais fazer concessões à complexidade. Mais do que um simples filme de vampiros, a obra revela-se uma meditação profunda sobre o que significa criar, lembrar e resistir quando o mundo ao redor deseja sugar tudo de você, transformando sua dor em entretenimento e sua história em produto. Coogler consolida-se assim como um dos cineastas mais importantes de sua geração, capaz de unir entretenimento de massa e reflexão social com rara felicidade expressiva.
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