quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

NOSFERATU (2024)

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NOSFERATU (2024) [132'] [1,66:1] [***1/2]

Robert Eggers consolidou-se na última década como um dos cineastas mais meticulosos de sua geração, construindo uma filmografia que parece esculpida em pedra-pomes: densa, áspera e repleta de fósseis de eras passadas. Seu quarto longa-metragem, uma releitura do clássico expressionista Nosferatu, chega em 2024 não apenas como um exercício de estilo, mas como um teste decisivo para os limites de seu próprio rigor autoral. Diferentemente da clausura familiar em The Witch, do pesadelo cíclico e claustrofóbico de The Lighthouse ou da fúria viking expansiva de The Northman, Eggers aqui opta por uma abordagem mais solene e contida, operando dentro de uma estrutura narrativa que ele não subverte, mas sim reverencia com a devoção de um restaurador de tapeçarias antigas. O que torna este trabalho distinto em sua filmografia é justamente essa entrega a um material pré-existente: enquanto seus filmes originais partiam de arquétipos para construir universos particulares, Nosferatu parte de um universo consagrado para explorar suas próprias obsessões recorrentes. O diretor reforça seus viéses autorais mais profundos ao transformar cada plano em uma pintura vivente do romantismo alemão, ao ressuscitar um inglês arcaico nos diálogos e ao tratar o sobrenatural não como fantasia, mas como extensão lógica de um mundo regido por superstições e pulsões reprimidas. Lançado em um contexto cultural saturado de revisões do gótico, o filme se insere no momento presente como um antídoto à aceleração contemporânea: sua lentidão processional, seus silêncios pesados e sua devoção ao artifício cinematográfico convidam o espectador a habitar o passado em vez de apenas observá-lo, sugerindo que os medos da Europa do século XIX — peste, desejo inconfesso, colapso da razão — nunca foram tão atuais.

A trama desenrola-se com a precisão de um mecanismo de relojoaria envenenada. Thomas Hutter (Nicholas Hoult), um jovem escrivão da pacata Wisburg, recebe a incumbência de viajar até os confins dos Cárpatos para fechar a venda de uma propriedade com o enigmático Conde Orlok (Bill Skarsgård). Antes de partir, despede-se de sua esposa Ellen (Lily-Rose Depp), uma mulher atormentada por visões e acessos de melancolia que a medicina local insiste em diagnosticar como histeria. O que Thomas ignora é que Ellen já mantém uma conexão com a criatura da cordilheira: Orlok a visita em sonhos desde a infância, alimentando-se de sua solidão e moldando seus desejos mais secretos. A jornada de Thomas então é uma descida aos infernos da geografia física e psicológica: quanto mais avança, mais o mundo conhecido se dissolve em superstição e medo. No castelo em ruínas, Orlok revela-se não um nobre excêntrico, mas uma entidade ancestral que, ao ver o retrato de Ellen, reconhece sua noiva espectral e decide reclamá-la. Libertando Thomas após um encontro noturno aterrador, Orlok embarca em uma nau infestada de ratos rumo a Wisburg, carregando consigo a peste negra. A segunda metade do filme transcorre como uma dança macabra na cidade sitiada pela doença e pelo pânico. Enquanto Friedrich Harding (Aaron Taylor-Johnson), o amigo racionalista burguês de Thomas, insiste em explicações científicas até ver sua própria família consumida pela "praga", Ellen oscila entre a devoção ao marido fragilizado e a atração fatal pelo vampiro que a conhece mais intimamente que qualquer ser humano. O Professor Von Franz (Willem Dafoe), um estudioso excêntrico rejeitado pela academia, emerge como a única voz capaz de compreender a natureza sobrenatural da ameaça, guiando Ellen para o entendimento de que sua conexão com Orlok não é apenas uma maldição, mas a chave para destruí-lo. Os temas principais do longa emergem dessa estrutura com clareza assombrosa: a repressão sexual como força geradora de monstros, a fragilidade das instituições racionais diante do inexplicável, e a tese perturbadora de que a verdadeira aniquilação não vem de fora, mas da aceitação dos próprios abismos interiores. Ellen (Depp) carrega o conflito mais pungente: seu corpo é campo de batalha entre a santidade exigida pela sociedade e o desejo demonizado que a constitui. Thomas (Hoult) personifica o homem racional que testemunha o colapso de todas as suas certezas, reduzido à impotência enquanto sua esposa é possuída por forças que ele não pode nomear.

A materialização desses temas na tela deve-se a um domínio absoluto da linguagem audiovisual, ainda que esse domínio por vezes se converta em camisa de força. A fotografia de Jarin Blaschke, parceiro habitual de Eggers, atinge aqui um nível de depuração expressionista que desafia classificações: trabalhando com uma paleta que transita do azul noturno enregelante ao sépia dos interiores iluminados por velas, a câmera converte cada sombra em personagem ativo da narrativa. Blaschke e Eggers utilizam predominantemente luz natural e locações reais, conferindo aos Cárpatos uma presença tátil que nenhum cenário construído poderia reproduzir; as montanhas não são pano de fundo, mas entidades que engolem Thomas com a mesma fome com que Orlok devora Ellen. A direção de Eggers, contudo, revela uma dualidade intrigante: seu rigor composicional atinge momentos de beleza sobre-humana — o plano do navio fantasma adentrando o porto coberto de névoa, a silhueta de Orlok recortada contra a janela do castelo — mas esse mesmo rigor impõe uma distância emocional que dificulta a identificação imediata com os personagens. Eggers enquadra seus atores com a precisão de um pintor oitocentista, sacrificando por vezes a espontaneidade em favor da pureza estética. As atuações seguem essa linha de tensão entre forma e conteúdo. Lily-Rose Depp entrega uma performance física impressionante, contorcendo-se em espasmos que borram a fronteira entre possessão demoníaca e êxtase sexual, mas seu personagem parece carecer de camadas interiores que transcendam o sofrimento; Ellen é mais um campo de forças do que uma mulher de carne e osso. Bill Skarsgård, soterrado sob próteses que o aproximam mais de um cadáver putrefato do que de um aristocrata sedutor, opta por uma interpretação vocal gutural que ancora a criatura no folclore romeno, mas dilui o componente erótico que torna a figura do vampiro verdadeiramente perturbadora. Nicholas Hoult transita com eficiência entre a inocência inicial e o horror posterior, embora seu arco seja essencialmente reativo. Willem Dafoe, como sempre, injeta vitalidade onde o filme tende à solenidade excessiva, com seu Von Franz meio que canalizando a energia caótica do Prof. Abronsius de O Gabinete do Dr. Caligari. A montagem, assinada por Louise Ford, apresenta um problema estrutural significativo: a transição abrupta da jornada de Thomas nos Cárpatos para a rotina em Wisburg quebra o ímpeto narrativo construído, criando um segundo ato que se arrasta em uma espera um tanto mecânica pelo desfecho. A trilha sonora de Robin Carolan, que mescla drones industriais a coros lamentosos, preenche esses vazios com uma angústia constante, lembrando o espectador de que, mesmo quando a ação estagna, a morte avança inexorável sobre a cidade.

No arremate de sua visão, Robert Eggers conduz Nosferatu para um desfecho que é ao mesmo tempo belo e desesperançado, reafirmando sua tese sobre a indissociabilidade entre amor e morte, desejo e aniquilação. O ato final confina Ellen e Orlok em um quarto enquanto a cidade aguarda, imóvel, o desenlace; é uma peça de câmara de altíssima tensão, onde o diálogo cede lugar a uma coreografia de corpos que se buscam e se repelem na penumbra. Ao sacrificar-se para reter o vampiro até o amanhecer, Ellen não é apenas uma vítima expiatória, mas uma agente que compreende algo que os homens racionais à sua volta jamais compreenderão: sua conexão com o monstro é o único laço verdadeiramente íntimo que possui em um mundo de hipocrisias e conveniências. O veredicto que o filme oferece sobre seus temas e personagens é sombrio e paradoxal: a salvação coletiva só é possível através da rendição individual ao pecado e à morte, e a pureza feminina tão valorizada pela sociedade vitoriana só se realiza plenamente quando abraça sua própria corrupção. No que tange à obra de Eggers, Nosferatu impacta como uma obra de síntese, onde a erudição formal que sempre caracterizou seu cinema encontra um material tão cristalizado que resiste a transformações radicais. Eggers não reinventa a narrativa vampírica; ele a esculpe em madeira com a perícia de um artesão medieval, criando um objeto de beleza incontestável, mas que não se move com a liberdade de suas fontes. É um filme sobre o peso da tradição, e ele próprio sucumbe, com elegância e dignidade, a esse peso.

BÔNUS: Uma chave interpretativa particularmente inquietante emerge quando se examina a dinâmica entre Ellen e Orlok sob a ótica do incesto, revelando camadas que a superfície narrativa apenas sugere. Ellen é apresentada desde as primeiras cenas como uma figura marcada por uma melancolia que antecede qualquer contato com o vampiro; suas preces infantis, conforme revelado em diálogos, já eram respondidas por uma presença sombria que ela não sabia nomear. Nessa perspectiva, Orlok funciona não como um amante gótico tradicional, mas como a manifestação física de uma figura patriarcal abusiva que retorna para cobrar uma dívida afetiva contraída na infância. A maneira como ele a possui à distância, invadindo seus sonhos e controlando suas funções corporais sem consentimento, ecoa dinâmicas de poder familiares onde a fronteira entre proteção e dominação é sistematicamente violada. O fato de Thomas, o marido legalmente constituído, ser completamente impotente para interromper essa conexão — sendo repetidamente humilhado, afastado e reduzido à condição de espectador — reforça a geometria de um triângulo edipiano macabro, onde o lugar do pai é ocupado por um monstro que exige a exclusividade do afeto da filha. A cena em que Orlok, já em Wisburg, suga o sangue de Ellen enquanto ela adormece ao lado de Thomas adquire ressonâncias particularmente perturbadoras: é a consumação de um ato incestuoso realizado sob o mesmo teto que abriga o marido, numa violação que é ao mesmo tempo física e simbólica. O desfecho, onde Ellen precisa deitar-se voluntariamente com o monstro para salvar a comunidade, adquire assim uma dimensão trágica adicional: a única maneira de quebrar o ciclo de abuso é abraçar o tabu e imolar-se junto com ele, numa união que a sociedade jamais poderia sancionar, mas que paradoxalmente representa a única intimidade genuína que a personagem experimenta ao longo de toda a narrativa. O sacrifício final deixa de ser apenas um ato de heroísmo para tornar-se também um reconhecimento perturbador de que, no fundo do abismo, a figura do agressor e a figura do amante se confundem em uma mesma sombra alongada contra a parede.

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