segunda-feira, 9 de março de 2026

QUEENSRYCHE (1983-1994)

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ÁLBUNS

01 (1983) Queensrÿche - EP  [***]
02 (1984) The Warning [***1/2]
03 (1986) Rage for Order  [****]
04 (1988) Operation: Mindcrime [****]
05 (1990) Empire [***1/2]
06 (1994) Promised Land [***1/2]

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PESSOAL

Chris DeGarmo – guitars etc.
Geoff Tate – vocals etc.
Scott Rockenfield – drums etc.
Michael Wilton – guitars etc.
Eddie Jackson – bass etc.

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Uma Jornada Sônica de 1983 a 1994: A Ascensão e Reinado do Queensrÿche

Tudo começou não com um estrondo, mas com um assobio acidental. Em 1982, em um estúdio de Redmond, o vocalista Geoff Tate, ainda apenas um músico convidado, apagou as luzes e acendeu uma vela para entrar no clima da balada The Lady Wore Black. Enquanto a guitarra introdutória soava, ele assobiou junto, sem saber que os microfones estavam gravando. Esse momento de puro acaso, mantido na fita por soar "legal", tornou-se a porta de entrada para o som de uma banda que, vinda do subúrbio de Seattle, redefiniria o heavy metal . Os anos que se seguiram, de 1983 a 1994, testemunharam a metamorfose do Queensrÿche, de uma promissora promessa do underground a uma potência das paradas de sucesso, num percurso repleto de riscos artísticos e triunfos estrondosos.

Antes mesmo de 1983, a base estava sendo cimentada na garagem dos pais do baterista Scott Rockenfield, apelidada de The Dungeon. O que era então a banda The Mob, tocando covers de Judas Priest e Iron Maiden, sonhava em criar algo próprio  . Com a saída de Tate, que não queria viver de covers, o quarteto (Chris DeGarmo, Michael Wilton, Eddie Jackson e Rockenfield) juntou dinheiro de subempregos para gravar uma demo (o que atraiu Tate de volta). O resultado foi um EP independente, lançado em 1982, que trazia a energia crua de Queen of the Reich e a maturidade surpreendente de The Lady Wore Black. A crítica especializada, como a da revista Kerrang!, se rendeu, e o burburinho forçou Geoff Tate a ficar. Em meados de 1983, com Tate agora vocalista em tempo integral e recém-contratados pela EMI, o Queensrÿche estava pronto para conquistar o mundo, num momento em que o rock era dominado pelo glamour de bandas como Mötley Crüe e pelo metal tradicional do Iron Maiden.

O ano de 1984 viu o lançamento do primeiro álbum, The Warning, uma obra que respirava a influência de bandas progressivas como Pink Floyd, mas com a pujança do power metal USA. Produzido por James Guthrie, o disco enfrentou a insatisfação da banda com a mixagem final, imposta pela gravadora . Ainda assim, faixas como a épica Roads to Madness e o hino Take Hold of the Flame projetaram o grupo para turnês ao lado de gigantes da época como Kiss e Iron Maiden  . Se o primeiro álbum foi um alerta, Rage for Order, de 1986, foi uma declaração de intenções. Numa era dominada pelo hair metal, a banda ousou. Sob pressão da gestão para adotar uma imagem mais glamourosa, o resultado foi um choque visual e sonoro: os integrantes surgiram com maquiagem pesada e sobretudos, enquanto a música mergulhava em texturas de teclados, vocais processados e letras sobre inteligência artificial e intrusão governamental  . Canções como Walk in the Shadows e a cover Gonna Get Close to You mostravam uma banda em plena ebulição criativa, pavimentando o terreno para sua obra-prima.

O clímax artístico do período chegou em 1988 com Operation: Mindcrime. Numa época em que o rock pesado era frequentemente associado a letras hedonistas, o Queensrÿche entregou uma ópera-rock complexa e sombria. Inspirado por conversas com separatistas quebequenses e pela decadência do vício em drogas, Geoff Tate concebeu a história de Nikki, um junkie transformado em assassino político pelo enigmático Dr. X  . Álbuns conceituais não eram novidade, mas poucos na história do metal alcançaram tamanha coesão narrativa e musical. A tensão de Revolution Calling, a beleza trágica de Suite Sister Mary e o clímax desesperador de Eyes of a Stranger elevaram a banda a um novo patamar de respeito crítico, influenciando uma geração inteira de bandas de metal progressivo que viriam a seguir, como Dream Theater e Fates Warning, que consolidariam o chamado BIG3 do gênero .

Se Mindcrime foi o auge artístico, Empire, lançado em 1990, foi o ápice comercial. A banda que antes explorava os becos obscuros da psique humana agora ampliava seu alcance para as massas. A balada Silent Lucidity, com seus arranjos orquestrais de Michael Kamen, tornou-se um fenômeno mundial, chegando ao topo das paradas e apresentando o som da banda a um público que pouco sabia sobre as tramas de Mindcrime  . A faixa-título Empire e a vibrante Jet City Woman provaram que o grupo não havia abandonado sua complexidade, mas sim a embalado em produções mais refinadas e acessíveis. O legado do Queensrÿche, até então, era duplo: haviam provado ser possível unir a complexidade do rock progressivo à agressividade do metal, e agora também demonstravam que essa fórmula poderia levar uma banda ao estrelato mundial, influenciando bandas de rock alternativo e até mesmo o mainstream a incorporar elementos mais sofisticados.

Finalmente, em 1994, após quatro anos de estrada e pressão, o grupo lançou Promised Land. Longe dos holofotes do sucesso fácil, o álbum era uma reação visceral ao estrelato, um mergulho introspectivo e deliberadamente anticomercial. Gravado parcialmente nas casas dos músicos, o disco abria com 9:28 a.m., uma colagem de sons criada por Rockenfield que simulava o nascimento, e explorava temas de isolamento e desencanto com faixas como a melancólica Bridge e a angustiante Someone Else? . Se Empire os projetou para o estrelato, Promised Land os mostrou desconfortáveis com ele. Ao final de 1994, o Queensrÿche havia percorrido uma trajetória notável: de um bando de jovens num porão, inspirados por Judas Priest, a inovadores que influenciaram incontáveis bandas, deixando um legado de ousadia que poucos na história do rock puderam reivindicar. Os anos de 1983 a 1994 não foram apenas a primeira fase da banda, mas sim a construção de um império sonoro que ainda hoje ecoa.

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01 (1983) Queensrÿche - EP [***]

Antes de conquistarem estádios, o Queensrÿche era apenas uma demo tape de quatro faixas que se recusava a morrer. Em 1982, em Seattle, os jovens Michael Wilton, Chris DeGarmo, Eddie Jackson e Scott Rockenfield, então conhecidos como The Mob, juntaram recursos para gravar um material próprio. Sem vocalista fixo, chamaram Geoff Tate, que relutantemente topou, desde que pudesse fazê-lo sem que sua banda principal, Myth, soubesse (ou assim ele disse!). O resultado foi uma fita poderosa que, rejeitada por todas as gravadoras, ganhou vida através de uma resenha elogiosa na Kerrang! e do selo independente 206 Records, do dono da loja Easy Street Records  . Lançado originalmente em 1982 e relançado pela EMI em 1983, o EP Queensrÿche chegou ao mundo num momento em que a New Wave of British Heavy Metal, capitaneada por Iron Maiden e Judas Priest, ainda ecoava com força, mas o glam metal americano começava a dar seus primeiros e chamativos passos. O EP, no entanto, soava como um sopro de ar fresco e sério vindo do noroeste americano. As quatro faixas eram um manifesto de juventude e técnica. A faixa de abertura, Queen of the Reich, era um hino de poder, com vocais agudos e guitarras gêmeas que rivalizavam com qualquer coisa vinda da Inglaterra, estabelecendo imediatamente a identidade da banda . Nightrider e Blinded mantinham a pegada agressiva, com mudanças de ritmo que já sugeriam a complexidade vindoura. No entanto, era na faixa de encerramento, The Lady Wore Black, que o futuro da banda realmente se anunciava. Uma balada lenta e sombria, construída sobre um riff de guitarra melancólico e a interpretação dramática de Tate, sua letra (escrita por ele na mesma semana da gravação) e aquele assobio acidental que abria a canção mostravam uma maturidade incomum para músicos na faixa dos vinte anos . O EP Queensrÿche não era apenas um cartão de visitas; era a declaração de que uma nova força estava emergindo, capaz de unir a agressividade do metal à sofisticação e à atmosfera, um prenúncio do que viria a ser chamado de metal progressivo em retrospectiva.

02 (1984) The Warning [***1/2]

Se o EP foi um tiro de largada certeiro, The Warning, lançado em setembro de 1984, foi a corrida de obstáculos que testou a resistência do Queensrÿche. Ansiosos por capitalizar o burburinho, a banda viajou para Londres para gravar com o renomado produtor James Guthrie (Pink Floyd, Judas Priest). A experiência, no entanto, deixou cicatrizes. A banda, empolgada, estourou o orçamento e, como punição, a gravadora EMI entregou as fitas para o engenheiro Val Garay mixar sem qualquer input dos músicos. O resultado, para Geoff Tate e seus companheiros, foi uma "grande decepção", uma mixagem que não refletia a visão do grupo . Apesar da frustração interna, The Warning, lançado em 1984, encontrava o rock em uma encruzilhada: o glam metal de Los Angeles ganhava as rádios com seus hinos festeiros, enquanto bandas como Metallica solidificavam o thrash metal. O Queensrÿche, mais uma vez, ficava em uma posição intermediária. O álbum soava mais pesado e direto que o EP, mas já continha faíscas de experimentação. A faixa de abertura, Warning, é um petardo direto, com um riff cortesia de Michael Wilton que abre o disco com energia. Já Take Hold of the Flame, que se tornaria "O" hino da carreira da banda, especialmente no Japão, é o ponto alto do disco, equilibrando peso e melodia com um refrão épico que sintetizava a ambição do grupo . No entanto, é na longa e complexa Roads to Madness que a insatisfação com a mixagem mais contrasta com a qualidade da composição: a música, com suas múltiplas seções e clima progressivo, já apontava o caminho que a banda queria trilhar, um caminho que seria plenamente realizado nos discos seguintes. A turnê, dividindo palcos com Kiss e Iron Maiden, provou que, mesmo com um som que não os agradava plenamente, o Queensrÿche já tinha estatura para voos mais altos.

03 (1986) Rage for Order [****]

Se The Warning foi um passo em falso na produção, Rage for Order, de 1986, foi um salto ousado em direção ao futuro, mesmo que vestido com as roupas do passado. A pressão da gravadora e da gestão para que a banda adotasse uma imagem mais comercial e alinhada ao glam rock da época resultou nas fotografias promocionais que mostravam os cinco integrantes com maquiagem carregada, cabelos permanentados e sobretudos, um visual que o próprio Tate mais tarde admitiria ter sido um equívoco  . Musicalmente, porém, Rage for Order era tudo, menos comercial. Numa era dominada por riffs simples e refrões grudentos, o Queensrÿche optou pela complexidade. As guitarras de DeGarmo e Wilton agora duelavam com teclados proeminentes, criando camadas de som que remetiam a um futuro distópico. As letras abordavam inteligência artificial, controle governamental e experimentação genética. A produção, a cargo de Neil Kernon, era limpa e repleta de texturas, com uso de reverbs invertidos e outros artifícios de estúdio . A faixa de abertura, Walk in the Shadows, ainda mantinha uma estrutura mais acessível, mas rapidamente o álbum mergulhava em terrenos mais áridos. A cover de Gonna Get Close to You, da cantora Dalbello, era uma escolha bizarra e perfeita, uma canção sobre obsessão doentia que se encaixava como uma luva na temática do disco . Já a faixa de encerramento, I Will Remember, uma balada acústica e emocional, mostrava que, sob as camadas de sintetizadores e experimentos, o coração da banda ainda pulsava forte. Rage for Order foi um tapa de luva de pelica na indústria: mostrou que era possível ser progressivo sem ser chato, e pesado sem ser previsível, consolidando o som que influenciaria toda uma geração do metal. (*) VER BÔNUS AO FINAL DO ARTIGO!

04 (1988) Operation: Mindcrime

Em 1988, o cenário do rock pesado estava fragmentado entre o thrash metal da Bay Area e o glam metal de Los Angeles, com poucas bandas ousando pensar além do próximo riff ou refrão. Foi nesse contexto que o Queensrÿche, isolado em estúdios na Pensilvânia e no Canadá, pariu uma das obras mais ambiciosas da história do gênero. Operation: Mindcrime não era apenas um conjunto de canções; era um organismo vivo. A ideia surgiu na mente de Geoff Tate ao se mudar para Montreal e se envolver, ainda que superficialmente, com as conversas de militantes separatistas quebequenses, combinadas com suas memórias de amigos destruídos pelas drogas  . A história de Nikki, um viciado recrutado por um demagogo conhecido apenas como Dr. X para assassinar líderes políticos, era um mergulho sombrio na paranoia, na manipulação e na redenção falha. A produção de Peter Collins deu à narrativa um brilho cinematográfico, enquanto a banda, em especial o guitarrista Chris DeGarmo, criou uma tapeçaria musical que ia do thrash metal urgente de Revolution Calling à beleza operística de Suite Sister Mary, uma faixa de quase dez minutos que contava com a participação da cantora Pamela Moore como a trágica freira Mary. A jornada de Nikki, desde a lavagem cerebral em Operation: Mindcrime até seu colapso final em Eyes of a Stranger, onde ele não se reconhece mais no espelho, era uma tragédia shakespeariana em vinil. O single I Don't Believe in Love chegou a ser indicado ao Grammy, mas o verdadeiro prêmio foi o reconhecimento imediato da crítica e de um público que viu ali não apenas um disco de metal, mas uma obra de arte que rivalizava com os grandes álbuns conceituais do rock progressivo. Mindcrime não era sobre o que a banda era, mas sobre o que a música poderia ser.

05 (1990) Empire

Dois anos após a obra-prima conceitual, o Queensrÿche emergiu das sombras de Nikki e do Dr. X para a luz ofuscante do estrelato mundial. Empire, lançado em 1990, encontrou a banda num momento de transição, tanto sonora quanto comercial. O thrash metal e o rock alternativo começavam a ganhar força, mas a balada poderosa ainda reinava nas rádios. E foi exatamente com uma balada que o Queensrÿche conquistou o planeta. Silent Lucidity, com seus arranjos orquestrais de Michael Kamen e sua melodia etérea, tornou-se um fenômeno, atingindo o topo das paradas e apresentando a banda a um público que jamais ouvira falar de Mindcrime  . No entanto, reduzir Empire a essa canção seria um erro crasso. O álbum era um equilíbrio refinado entre a complexidade progressiva do passado e uma abordagem mais direta e madura. A faixa-título, Empire, era um comentário social contundente sobre o poder, embalado num riff pesado e vibrante. Jet City Woman, uma homenagem à sua Seattle nativa, combinava melodia contagiante com uma seção rítmica vigorosa, tornando-se um dos maiores clássicos da banda. O produtor Peter Collins, novamente à frente da mesa, poliu as arestas sem perder a alma, criando um som grandioso que preenchia estádios. A turnê subsequente foi monumental, e a banda passou a performar Operation: Mindcrime na íntegra, mostrando aos novos fãs a profundidade de seu catálogo. Empire foi a prova definitiva de que o Queensrÿche podia ser ao mesmo tempo inteligente e acessível, um equilíbrio raro que os elevou ao patamar de headliners mundiais e lhes rendeu um triplo disco de platina .

06 (1994) Promised Land

Após o furacão Empire, que os levou a quatro anos de turnês exaustivas e ao topo das paradas, o Queensrÿche precisava de ar. Em vez de capitalizar em cima da fórmula de sucesso, a banda fez o movimento mais contraintuitivo de sua carreira: recuou. Promised Land, lançado em 1994, é o som de artistas bem-sucedidos confrontando o vazio do estrelato. Gravado parcialmente nas casas dos músicos, num processo que se estendeu por quase dois anos, o álbum respira introspecção e experimentalismo . Era a era do grunge, com o rock alternativo dominando as paradas, e o Queensrÿche, ironicamente vindo de Seattle, respondeu não com barulho, mas com silêncio e angústia. O disco abre com 9:28 a.m., uma colagem de sons ambientes criada por Rockenfield que simula o nascimento e o despertar da consciência, antes de explodir no riff pesado e tortuoso de I Am I, uma declaração de individualidade em meio à pressão . A canção Bridge, escrita por Chris DeGarmo sobre a relação com seu pai falecido durante as gravações, é um dos momentos mais crus e emocionais já registrados pela banda, uma joia acústica de beleza dilacerante . A faixa-título, Promised Land, é uma viagem sombria de oito minutos pelos efeitos colaterais do sucesso, com direito a saxofone tocado por Tate e uma atmosfera densa que termina num bar, com conversas ao fundo. O álbum se encerra com Someone Else?, apenas voz e piano, onde Tate questiona sua própria identidade. Promised Land foi um disco deliberadamente difícil, um tapa na cara dos fãs que esperavam Empire II. Comercialmente, foi um passo atrás, mas artisticamente, foi uma declaração de integridade, mostrando que, para o Queensrÿche, a jornada musical sempre seria mais importante que o destino final.

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BÔNUS DO RAGE FOR ORDER:

Neue Regel: O Manifesto Sônico de um Futuro que Já Chegou

Há músicas que simplesmente ouvimos; há outras que nos transportam para dentro de um mundo. Neue Regel, a sétima faixa do seminal Rage for Order, de 1986, pertence categoricamente ao segundo grupo. Defendê-la como uma das melhores composições do Queensrÿche não é apenas uma questão de gosto pessoal, mas sim o reconhecimento de uma peça que sintetiza, como nenhuma outra, a audácia experimental e a visão futurista que definiram a banda em seu período mais criativo. Num álbum que já era um choque sonoro para a época, Neue Regel surge como o seu coração mecânico e pulsante, uma anomalia genial que ainda hoje soa como uma transmissão de rádio vinda de uma distopia que se concretizou.

A grandeza de Neue Regel reside, primeiramente, na sua arquitetura sonora singular. Enquanto faixas como Walk in the Shadows ainda mantinham uma estrutura de rock mais convencional, Neue Regel mergulha de cabeça na experimentação. A música é construída sobre uma base rítmica que mais parece o funcionamento interno de uma máquina complexa. A percussão de Scott Rockenfield, descrita por críticos como mecânica e comparada ao tique-taque de um relógio industrial, dita um andar frio e preciso. Sobre essa base, camadas de teclados e samples criam uma paisagem sonora industrial, com sons que evocam explosões distantes e alarmes, um trabalho de produção que levou o engenheiro Neil Kernon a utilizar todas as ferramentas disponíveis num estúdio dos anos 80 para criar algo que, em vez de datado, soa tecnicamente avançado até os dias de hoje.

No entanto, é a voz de Geoff Tate que atua como o guia neste labirinto de aço e circuitos. Em Neue Regel, Tate não apenas canta; ele manipula sua própria voz como um instrumento a mais na parafernália digital. Os versos são entregues com um tom quase robótico, processado eletronicamente, que contrasta de forma magistral com o refrão. Quando a música explode no chorus, os efeitos se dissipam e sua voz emerge em camadas harmônicas de uma beleza cristalina, cantando: I can hear the chimes / Ringing for you for me. É um momento de humanidade e conexão que irrompe da frieza mecânica, sugerindo que, mesmo num mundo dominado pela tecnologia, a centelha da união e da emoção persiste. Essa dualidade entre o homem e a máquina, entre o frio e o calor, é o cerne da canção e a razão pela qual ela ressoa com tanta força.

A letra, creditada a DeGarmo e Tate, é um chamado à ação enigmático e poderoso. Neue Regel, do alemão, significa nova regra ou novo regime. A canção não é sobre uma rebelião política no sentido tradicional, mas sobre uma transformação de consciência, um despertar para uma nova ordem. Versos como Reach for a new horizon / Setting sights on a circuit scream e Join us on the stay the road is mine / Poets line in a rhyme of silence convocam o ouvinte a fazer parte de algo maior, uma vanguarda pronta para abandonar o velho mundo. É um hino para os desconectados, para aqueles que enxergam além da superfície. O refrão, com seu apelo coletivo (Come together hold the light / Keep the flame we can’t let this world remain the same), transforma a canção num manifesto, provando que o Queensrÿche conseguia ser incisivo e pesado sem precisar recorrer aos clichês do metal tradicional.

Além disso, Neue Regel funciona como a peça central que valida a tese de que Rage for Order foi um álbum pioneiro, frequentemente citado como uma das pedras fundamentais do que viria a ser o metal progressivo e até mesmo o industrial metal. Enquanto Gonna Get Close to You chamava a atenção por ser uma cover estranha e Screaming in Digital explorava a paranoia da inteligência artificial de forma mais direta, Neue Regel equilibra perfeitamente a agressividade do metal com a atmosfera soturna do rock gótico e a experimentação eletrônica. É a prova de que a banda, naqueles anos, não estava apenas tocando músicas; estava construindo mundos. Defendê-la como uma das melhores da banda é reconhecer que, na curta discografia do Queensrÿche até aquele ponto, nenhuma outra faixa havia ousado tanto e conseguido voar tão alto. Neue Regel não é apenas uma grande canção; é uma declaração de princípios, o som de uma banda que se recusava a seguir as regras antigas e, em vez disso, criava as suas próprias.

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