quinta-feira, 5 de março de 2026

CHALLENGERS (2024)

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CHALLENGERS (2024) [131'] [1.85:1] [★★★½]

Luca Guadagnino sempre foi um diretor fascinado pela geografia dos corpos e pela topografia do desejo, mas em Challengers ele encontra uma linguagem completamente nova para explorar esses territórios. Diferente da elegia solar de Call Me by Your Name ou da morbidez gótica de Bones and All, este filme mergulha em um erotismo seco, quase agressivo, mediado pela competição esportiva. O diretor italiano demonstra aqui uma versatilidade impressionante ao abandonar a cadência contemplativa que marcou sua fase inicial em obras como Io Sono l‘Amore para abraçar uma estética frenética, influenciada pela cultura digital e pela música eletrônica. No entanto, sua assinatura autoral permanece intacta na maneira como filma os corpos em tensão, na atenção quase fetichista aos detalhes da pele, do suor e dos tecidos, e na construção de um desejo que nunca encontra resolução completa. Lançado em 2024, o filme chega num momento em que as discussões sobre dinâmicas de poder nas relações afetivas atingem seu ápice, propondo uma reflexão incômoda sobre como a ambição profissional e a intimidade podem se contaminar mutuamente. A quadra de tênis torna-se assim uma arena simbólica não apenas para o esporte, mas para as batalhas silenciosas que definem os relacionamentos contemporâneos, onde vencer e ser amado frequentemente se confundem em um mesmo impulso destrutivo.

A trama de Challengers desenrola-se como um complexo jogo de xadrez emocional cujas peças são Tashi Duncan (Zendaya), Art Donaldson (Mike Faist) e Patrick Zweig (Josh O‘Connor), três tenistas cujas vidas entrelaçam-se ao longo de treze anos. Quando conhecemos Tashi ainda adolescente, ela é um prodígio do tênis feminino, dona de um talento tão magnético que hipnotiza os dois melhores amigos, Art e Patrick, durante o US Open. O que começa como uma disputa juvenil pela atenção da jovem evolui para um triângulo amoroso que definirá suas trajetórias profissionais e pessoais. Após uma lesão devastadora que encerra prematuramente sua carreira nas quadras, Tashi transforma sua obsessão pelo esporte em projeto: fará de Art, o mais disciplinado e emocionalmente dependente dos dois, um campeão absoluto. O casamento com Art parece selar seu destino como técnica e estrategista, mas a reaparição de Patrick, agora um tenista decadente que vive de prêmios modestos, reacende dinâmicas adormecidas. O torneio challenger em Nova Rochelle torna-se o palco onde Tashi inscreve Art para recuperar sua confiança abalada, apenas para reencontrar Patrick do outro lado da rede. A narrativa fragmentada revela gradualmente como cada ponto disputado na partida final carrega o peso de traições antigas, desejos não correspondidos e uma competição que sempre foi menos sobre tênis e mais sobre a posse exclusiva da atenção e do afeto de Tashi. Os temas principais emergem dessa estrutura: a indistinção entre amor e dominação, a natureza performática do desejo, e a maneira como o sucesso profissional pode ser tanto afirmação quanto prisão para aqueles que o perseguem.

A realização técnica de Challengers representa um ponto de inflexão na carreira de Guadagnino, demonstrando seu domínio absoluto sobre a linguagem audiovisual em sua dimensão mais sensorial. Sayombhu Mukdeeprom, colaborador frequente do diretor, concebe uma fotografia que transita entre a luz dourada dos flashbacks juvenis e o neon artificial dos momentos presentes, criando uma paleta cromática que distingue temporalidades sem jamais perder coesão. A câmera, longe de ser um mero instrumento de registro, converte-se em participante ativa do jogo: assumindo a perspectiva da bola em sequências antológicas, penetrando o espaço íntimo entre os tenistas durante as trocas de lado, fragmentando rostos em close-ups que revelam cada microexpressão de desejo ou frustração. A montagem de Marco Costa, premiada no Critics‘ Choice Awards, orquestra os saltos temporais com precisão cirúrgica, estabelecendo paralelos visuais entre momentos distintos que revelam padrões de comportamento nos personagens sem recorrer a diálogos explicativos. Mas é a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, vencedora do Globo de Ouro, que verdadeiramente define a textura emocional do filme: suas batidas techno industriais não acompanham simplesmente as cenas, mas parecem emanar dos próprios corpos em movimento, traduzindo em frequência sonora a tensão sexual que nunca encontra vazão física direta. As atuações complementam essa arquitetura audiovisual com performances de entrega física impressionante: Faist comunica a fragilidade de um campeão construído artificialmente, O‘Connor exala o carisma perigoso de quem sempre jogou pelas bordas do próprio talento, enquanto Zendaya sustenta o centro do furacão com uma interpretação que recusa a simpatia fácil, mantendo Tashi simultaneamente manipuladora e vulnerável, vítima e algoz de sua própria ambição.

Ao final desta jornada vertiginosa, Challengers oferece uma conclusão que é tudo menos convencional. Guadagnino recusa-se a resolver as ambiguidades que pacientemente construiu: o match point final, congelado num momento de êxtase compartilhado entre os três personagens, não revela quem venceu a partida porque essa informação tornou-se irrelevante. O que importa é que, naquele instante de suspensão, Tashi, Art e Patrick reencontram a intensidade que sempre definiu seu relacionamento, uma fusão de rivalidade e intimidade que nenhum relacionamento convencional poderia oferecer. O filme sugere, com ironia e compaixão, que para esses personagens o amor verdadeiro sempre foi a competição em si mesma, não o prêmio disputado. Para a filmografia de Guadagnino, Challengers representa a consolidação de um cinema que abraça o excesso como método de investigação da alma contemporânea, utilizando as ferramentas da cultura pop para acessar questões existenciais profundas. O impacto do filme estende-se para além de sua superfície eletrizante, estabelecendo um diálogo com obras como The Social Network e (mesmo) Whiplash na maneira como examina a psicopatologia da excelência e o preço cobrado daqueles que ousam desejar demais. Guadagnino entrega não apenas um dos filmes mais vibrantes de sua carreira, mas um retrato geracional sobre como, num mundo que transformou tudo em competição, até mesmo o amor precisa ser conquistado ponto a ponto.

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