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EPISÓDIOS
S2.E01 ∙ Graceland [***1/2]
S2.E02 ∙ Mayday [**1/2]
S2.E03 ∙ Another Day in Paradise [**1/2]
S2.E04 ∙ A Holy Charge [****]
S2.E05 ∙ The Mailman [***1/2]
S2.E06 ∙ Jane [**]
S2.E07 ∙ The Final CountDown [***1/2]
S2.E08 ∙ Exodus [***1/2]
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REVIEW
A segunda temporada de Paradise representa uma guinada ousada e ambiciosa na carreira de seu criador, Dan Fogelman. Conhecido por seu trabalho em séries dramáticas como This Is Us, Fogelman já havia demonstrado em 2025, com a temporada de estreia da série, uma habilidade peculiar para transitar entre o melodrama familiar e a ficção científica distópica. Se na primeira temporada a grande sacada foi a revelação do mundo pós-apocalíptico em um bunker subterrâneo, nesta segunda temporada de 2026, o criador aposta todas as suas fichas em uma expansão narrativa radical. Ele não apenas leva o protagonista Xavier Collins (Sterling K. Brown) para a superfície, como também introduz uma nova co-protagonista, Annie Clay (Shailene Woodley), dedicando um episódio inteiro a ela antes mesmo de retornar ao enredo estabelecido. Esta ousadia ecoa o espírito de suas obras anteriores, onde reviravoltas emocionais são a força motriz, mas também representa um novo patamar de risco, ao fragmentar a narrativa em frentes bem distintas desde os primeiros momentos. A série, que antes se resumia a um assassinato dentro de uma comunidade fechada, agora abraça plenamente sua essência sci-fi com a introdução de Alex, uma computadora quântica com inteligência artificial avançada que se torna peça-chave nos conflitos de poder e sobrevivência. Esse movimento dialoga com a ansiedade de uma audiência de 2026 cada vez mais familiarizada e preocupada com os dilemas éticos da inteligência artificial e com a fragilidade das estruturas sociais diante de catástrofes climáticas. Ao espelhar a jornada dos que foram deixados para trás na superfície em contraste com os “escolhidos” no subsolo, Paradise reflete o fosso de desigualdade do mundo real, perguntando ao telespectador o que realmente define a humanidade quando as convenções da civilização ruem. A série, renovada para uma terceira e última temporada antes mesmo do fim desta, prova que sua ambição tem respaldo, ainda que o caminho escolhido para o final com o colapso físico do bunker seja por vezes confuso (ainda que narrativamente acertado por finalmente reunir os bilionários e os sobreviventes comuns).
A trama da segunda temporada de Paradise inicia-se onde a anterior terminou, mas não da maneira esperada. Após descobrir que sua esposa, Teri Rogers-Collins (Enuka Okuma), pode estar viva, Xavier abandona a segurança do bunker em busca dela. Seu avião, no entanto, cai, e ele é resgatado/cuidado por Annie Clay (Shailene Woodley), uma ex-estudante de medicina grávida de Link (Thomas Doherty) (*) e que sobreviveu ao apocalipse escondida em Graceland, a mansão de Elvis Presley em Memphis. A temporada dedica anteriormente seu primeiro episódio inteiramente a Annie, mostrando sua luta pela sobrevivência e sua transformação em uma mulher mais forte e determinada (sérias fobias, TOCs e outras questões psiquiátricas a impediram de se formar médica, apesar da sua imensa e óbvia bondade). A narrativa então se divide. De um lado, Xavier e Annie formam uma dupla improvável na superfície devastada, indo para Atlanta, enfrentando não apenas os perigos ambientais, mas também o de grupos de sobreviventes. Infelizmente, a busca por Teri torna-se logo uma odisseia desoladora, culminando na trágica morte de Annie durante o parto em um momento de cortar o coração. Xavier, então, assume a responsabilidade pelo bebê recém-nascido (uma menina), adicionando uma camada de pesar e propósito à sua jornada (eventualmente encontrando a sua esposa e depois de volta ao bunker)... Do outro lado, no interior do bunker Paradise, a situação é igualmente turbulenta. A poderosa Sinatra (Julianne Nicholson), após sobreviver a uma tentativa de assassinato, sai do coma e retoma velhos hábitos auxiliada pela instável agente Jane (que a ajuda a despachar o novo presidente, o vice do anterior). Paralelamente, os fios da sociedade começam a se desfazer. O controle se torna mais opressor, enquanto uma rebelião silenciosa cresce entre os habitantes, explorada por personagens como Jeremy Bradford (Charlie Evans), filho do falecido presidente. O grande motor de conflito interno é a misteriosa "Alex", cujos segredos guardados em outro bunker (!) ameaçam derrubar todo o sistema. A temporada caminha para um clímax onde uma falha catastrófica leva ao colapso iminente do bunker, forçando Sinatra (drasticamente mudada após o seu encontro com o Link) a um ato de sacrifício que parece custar sua própria vida para salvar a todos. Os temas principais são claros: a resiliência diante da perda, a falibilidade das utopias construídas sobre o poder e a redescoberta da esperança nas cinzas do mundo. Enquanto o fim do luto de Sinatra e a postura heroica de Xavier fornecem o lastro emocional e moral da temporada, a narrativa sofre com a inclusão de subtramas menos inspiradas, como as aventuras dos adolescentes dentro do bunker, que soam deslocadas, e a tentativa do personagem do “carteiro” de enganar Xavier (em Atlanta) com uma história absurda sobre Teri que não convence ninguém. Além disso, a personagem Jane (Nicole Brydon Bloom), uma assassina psicopata agora a serviço de Sinatra, transita de forma irregular entre um humor sombrio e ameaçador e um tom de galhofa que quebra a tensão das cenas em que aparece.
(*) Link lidera um grupo de desativadores de usinas nucleares abandonadas que passa por Graceland. Depois descobrimos que ele é o filho falecido (Dylan) de Sinatra e ainda o gênio que criou a primeira versão de Alex. Eventualmente ele ruma para o Bunker com várias milícias com o objetivo de destruir Alex, que ele julga muito perigosa por ser capaz de manipular o tempo. E a temporada mostra diversas vezes que ele está coreto, apesar do propósito AI ainda não estar claro. Alex deixa um enigmático cartão de acesso para Xavier ao fim da temporada.
O sucesso desta segunda temporada deve ser creditado, em grande medida, ao trabalho competente por trás das câmeras. A direção de fotografia, mais uma vez sob a responsabilidade do talentoso profissional Yasu Tanida que já havia assinado a primeira temporada, realiza uma façanha notável ao estabelecer uma linguagem visual distinta para cenários distintos. Por exemplo, o bunker, antes um lugar de falsa segurança e luzes artificiais amenizadoras, agora é filmado com ângulos mais fechados e uma paleta de cores mais fria e opressora, refletindo seu colapso moral. Em contraste, as cenas na superfície, em Graceland e pelas estradas devastadas, adotam uma paleta terrosa e uma fotografia mais granulada e naturalista, que captura a vastidão e o perigo do novo mundo... A montagem, por sua vez, é a grande responsável por costurar as diferentes linhas narrativas e os flashbacks abundantes, uma marca registrada de Fogelman (marca deveras indulgente por falar nisso)... A trilha sonora composta por Siddhartha Khosla é outro ponto alto, com temas melancólicos que sublinham a solidão de Annie e temas de ação pulsantes que dão ritmo às fugas e confrontos (fora os extremamente repaginados covers oitentistas, uma marca da série, que mantém o falecido presidente espectralmente presente para além dos flashbacks)... No quesito atuação, o elenco principal entrega performances sólidas. Sterling K. Brown continua sendo a espinha dorsal da série, transmitindo uma mistura convincente de força física e fragilidade emocional como Xavier. Julianne Nicholson tem a tarefa mais difícil, e a realiza com maestria ao transformar Sinatra de uma pessoa pragmática e fria (com fins extremos justificando meios inumanos) em uma figura trágica e redimível, cujo fim do luto pela perda do filho a humaniza completamente (até o máximo sacrifício!). A maior revelação, no entanto, é Shailene Woodley. Sua Annie é o coração pulsante da primeira metade da temporada, e Woodley consegue fazer com que cada momento da personagem em tela, desde sua lúcida preparação para o parto solitário até seu sacrifício final, seja de uma verdade e urgência avassaladoras. No polo oposto, as atuações das crianças e adolescentes, com algumas exceções, carecem da profundidade necessária para os dramas que lhes são atribuídos, frequentemente soando desleixadas, forçadas ou unidimensionais.
Ao final da segunda temporada de Paradise, a série criada por Dan Fogelman se reafirma como uma das produções mais intrigantes e imperfeitas do ano de 2026 até aqui. O veredicto é o de uma obra que não tem medo de arriscar e que, por isso, colhe tanto triunfos quanto fracassos significativos. A conclusão sobre seus temas é ambivalente: a humanidade é salva pelo amor incondicional, simbolizado pelo sacrifício de Annie e pela persistência de Xavier, mas é também constantemente ameaçada por sua própria arrogância (em múltiplos níveis) e pelo poder desmedido, personificado nos segredos de Alex e na estrutura social falha do bunker... A trajetória redentória de Sinatra, enfim livre do seu luto, e a assunção por Xavier do papel de protetor do bebê de Annie e além, sugerem esperança para o homem, mas apenas através do serviço ao próximo e do enfrentamento da verdade. No entanto, o impacto da temporada é prejudicado por suas já mencionadas inconsistências... A sensação que fica é a de que Fogelman e sua equipe tinham uma visão clara e corajosa para o arco dos personagens centrais e para a introdução de sofisticados elementos de ficção científica, mas perderam o controle das pontas menos relevantes da trama (os elementos de conexão). Apesar disso, a conclusão do colapso do bunker, embora narrativamente confusa, entrega um clímax visualmente espetacular e redefine completamente o universo da série. Para a audiência, Paradise oferece um raro exemplo de televisão de gênero que ousa não se contentar com a repetição, ainda que tropece em sua ambição. Para a televisão como um todo, a série é um lembrete de que o sucesso pós-apocalíptico ainda reside na criação de personagens pelos quais nos importamos, e não apenas nos valores de produção grandiosos. Esta temporada, é um capítulo essencialmente irregular, porém indispensável, que pavimenta o caminho para uma terceira temporada que, agora livre das amarras do bunker, terá a chance de aperfeiçoar a fórmula e explorar um mundo novo, literalmente, sobre os ombros de seus gigantes emocionais.
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