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(Imagem meramente ilustrativa e deve ser considerada puro nonsense!)
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A lista a seguir apresenta, em ordem cronológica tendo como referência o ano da cerimónia de entrega do Oscar, todos os filmes que venceram o prémio de Melhor Filme mas que não estavam simultaneamente indicados nas categorias de Melhor Direção e Melhor Montagem. Isto significa que, para se qualificarem, os filmes podem ter falhado a indicação numa destas categorias ou em ambas. A análise considera até a data de 06 de março de 2026, pelo que inclui todos os vencedores da história da Academia até então.
A categoria de Melhor Montagem foi criada apenas na 7.ª cerimónia, em 1935. Para os anos anteriores, a ausência desta categoria é assinalada, mas o critério de não indicação aplica-se apenas às categorias que existiam.
A relação completa e verificada é composta por 15 filmes.
1. Wings (Asas) - 1929 (1.ª cerimónia) - [GF2416]
Faltou: Melhor Direção. A categoria de Melhor Montagem ainda não existia.
Comentário de contexto: Foi o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme, então chamado de Produção Excepcional. Realizado por William A. Wellman, um antigo piloto de combate, o filme era um épico da aviação sobre a Primeira Guerra Mundial e um testemunho do poder do espetáculo no final da era do cinema mudo. A Academia preferiu homenagear o filme pelo seu impacto e escala de produção, ignorando o trabalho do seu diretor na categoria própria.
2. Grand Hotel (Grande Hotel) - 1932 (5.ª cerimónia) - [GF6762]
Faltou: Melhor Direção. A categoria de Melhor Montagem ainda não existia.
Comentário de contexto: É um caso único na história do Oscar, sendo o único filme a vencer Melhor Filme sem receber qualquer outra nomeação (Oh Boy!). O poder de estúdio da MGM e o seu elenco estelar (Greta Garbo, Joan Crawford, John Barrymore) foram suficientes para lhe garantir o prémio máximo, relegando para segundo plano o trabalho do realizador Edmund Goulding.
3. The Life of Emile Zola (A Vida de Émile Zola) - 1938 (10.ª cerimónia) - [GF13908]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: Um típico filme de prestígio biográfico da Warner Bros., que a Academia da época apreciava particularmente (!?). O seu insuportável carácter teatral e focado em diálogos fez com que o ramo dos montadores o ignorasse, preferindo nesse ano reconhecer filmes de aventura ou ação com uma edição mais visível e dinâmica.
4. Hamlet - 1949 (21.ª cerimónia) - [GF1794]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: Realizado e protagonizado por Laurence Olivier, foi o primeiro filme britânico a vencer o prémio principal. A adaptação cinematográfica da peça de Shakespeare utilizou planos longos e uma fluidez que escondia os cortes, uma característica que tradicionalmente não atrai a atenção dos votantes da categoria de Montagem, que tendem a preferir uma edição mais perceptível e ritmada.
5. Marty - 1956 (28.ª cerimónia) - [GF3609]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: Um filme de orçamento reduzido, adaptado de um teleteatro, que se tornou um sucesso crítico e de público. A sua montagem era propositadamente invisível e funcional, servindo as interpretações e o drama intimista, o que o excluiu da corrida numa categoria que, nesse ano, preferiu filmes de maior escala e complexidade técnica.
6. Tom Jones (As Aventuras de Tom Jones) - 1964 (36.ª cerimónia) - [GF1664]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: Uma comédia britânica irreverente e visualmente inovadora, influenciada pela Nouvelle Vague francesa, com cortes rápidos, quebras da quarta parede e transições aceleradas. Ironicamente, foi o seu estilo arrojado de montagem que o tornou um alvo para o ramo mais conservador dos montadores da Academia, que na época consideraram o trabalho técnico indisciplinado em vez de genial.
7. A Man for All Seasons (O Homem Que Não Vendeu Sua Alma) - 1967 (39.ª cerimónia) - [GF1216]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: Mais um exemplo de um drama de prestígio, de origem britânica e fortemente teatral, focado em diálogos e atuações. Numa altura em que a categoria de Montagem premiava filmes de grande espetáculo como Grand Prix ou Viagem Fantástica, a edição contida e clássica deste filme passou completamente despercebida.
8. The Godfather Part II (O Poderoso Chefão Parte II) - 1975 (47.ª cerimónia) - [GF30]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: Considerado por muitos uma das maiores obras-primas da história do cinema, a sua ausência na categoria de Montagem é vista hoje como um erro histórico do ramo. A explicação reside na preferência dos votantes desse ano por um filme de catástrofe de alta complexidade logística, Inferno na Torre, que acabou por vencer a categoria, em detrimento da complexa e aclamada montagem paralela deste épico de Francis Ford Coppola.
9. Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) - 1978 (50.ª cerimónia) - [GF110]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: A comédia inovadora de Woody Allen, que revolucionou o género com o uso de flashbacks, split-screens e quebras narrativas, foi preterida na categoria de Montagem. O ramo dos editores preferiu indicar e premiar George Lucas pela montagem frenética e pelos efeitos visuais de Guerra nas Estrelas, evidenciando o tradicional preconceito da categoria em relação às comédias, mesmo as mais inventivas.
10. Ordinary People (Gente Como a Gente) - 1981 (53.ª cerimónia) - [GF1286]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: A estreia de Robert Redford como realizador, num drama familiar intimista e claustrofóbico, desbancou o favorito Touro Indomável de Martin Scorsese. Enquanto o filme de Scorsese era um triunfo da montagem moderna (e venceu o Óscar na categoria), Gente Como a Gente triunfou no prémio principal pela força das interpretações e da direção de Redford, com uma montagem ao serviço da emoção que não se destacou aos olhos do ramo.
11. Driving Miss Daisy (Conduzindo Miss Daisy) - 1990 (62.ª cerimónia) - [GF6816]
Faltou: Melhor Direção.
Comentário de contexto: A ausência do realizador Bruce Beresford na categoria de Melhor Direção foi um dos grandes choques da temporada e um sinal de alerta que acabou por ser ignorado. A patética vitória do filme, uma visão branda e confortável sobre as relações raciais no sul dos Estados Unidos, é atribuída ao forte apoio do ramo dos atores e ao desejo da velha guarda da Academia por mensagens positivas e inofensivas, preferindo-o a filmes mais agressivos e politicamente carregados como Nascido em 4 de Julho.
12. Argo - 2013 (85.ª cerimónia) - [GF12333]
Faltou: Melhor Direção.
Comentário de contexto: A não nomeação de Ben Affleck para Melhor Diretor, apesar de ele ter vencido todos os prémios importantes da temporada (incluindo o Globo de Ouro e o Prémio do Sindicato dos Diretores), gerou uma enorme onda de simpatia na indústria. A narrativa de campanha transformou-se numa cruzada para recompensar o filme como um ato de reparação pelo esnobismo ao seu realizador (!). Argo acabou por vencer Melhor Filme e Melhor Montagem (aliás, uma das poucas coisas boas do longa!), provando que um filme amplamente apreciado pode triunfar no sistema de voto preferencial.
13. Birdman - 2015 (87.ª cerimónia) - [GF2296]
Faltou: Melhor Montagem.
Comentário de contexto: Um dos casos mais irónicos da lista. O filme de Alejandro G. Iñárritu foi concebido para parecer um único e ininterrupto plano-sequência. A genialidade do trabalho do montador foi exatamente a de esconder todos os cortes. De forma literal, o ramo dos editores não considerou o filme digno de nomeação, interpretando a proeza como sendo de direção e fotografia (!), e não de manipulação na sala de edição.
14. Green Book (Green Book: O Guia) - 2019 (91.ª cerimónia) - [GF18971]
Faltou: Melhor Direção.
Comentário de contexto: A não nomeação do realizador Peter Farrelly, conhecido pelo seu passado em comédias pastelão, foi vista como um sinal de que o filme era frágil do ponto de vista autoral. No entanto, a sua mensagem feel-good sobre amizade e superação de barreiras raciais, ainda que vista por muitos como simplista e mesmo ofensiva, conquistou a preferência da Academia no sistema de voto preferencial, derrotando o favorito da crítica, Roma. A vitória foi um INFAME triunfo da narrativa emocional confortável sobre o rigor técnico.
15. CODA (No Ritmo do Coração) - 2022 (94.ª cerimónia) - [GFXXXX = N/A]
Faltou: Melhor Direção e Melhor Montagem.
Comentário de contexto: É o caso mais extremo da era moderna (ecoando Grand Hotel), vencendo Melhor Filme com apenas três nomeações no total (Filme, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante). A ausência da realizadora Sian Heder e do montador nas categorias respectivas é um testemunho de que a sua vitória se baseou na emoção pura e na força da sua mensagem de representatividade sobre a comunidade surda. Uma campanha avassaladora da Apple, aliada à comoção do público e dos votantes, permitiu-lhe ultrapassar o favorito Ataque dos Cães... Uma das vitórias mais infames de todos os tempos sob qualquer perspectiva!
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Estudo Estatístico e Porcentual(%):
Considerando a totalidade das 98 cerimónias do Oscar realizadas até 2026:
Total de vencedores de Melhor Filme: 98
Total desses filmes que falharam a indicação em Direção ou Montagem: 15
Percentual geral: Aproximadamente 15,3 por cento de todos os vencedores de Melhor Filme não conseguiram a trinca: Filme, Direção e Montagem.
Se excluirmos as duas primeiras cerimónias, onde a categoria de Montagem ainda não existia, o número total de cerimónias válidas para uma análise conjunta das duas categorias é de 96. Neste universo, 13 filmes falharam a indicação numa das categorias ou em ambas.
Uma análise mais fina por tipo de ausência revela:
Filmes ausentes apenas em Direção: 5 (Driving Miss Daisy, Argo, Green Book, Wings e Grand Hotel contam aqui, com esses dois últimos anteriores à montagem).
Filmes ausentes apenas em Melhor Montagem: 9 (The Life of Emile Zola, Hamlet, Marty, Tom Jones, A Man for All Seasons, The Godfather Part II, Annie Hall, Ordinary People, Birdman).
Filmes ausentes em ambas as categorias na era pós-montagem: Apenas 1, CODA (2022).
O que eles têm de diferente? Uma Análise de Padrões
Estes 15 filmes dividem-se em dois grupos com características distintas, determinadas pelo tipo de nomeação que falharam.
O grupo dos que falharam a indicação de Melhor Diretor é composto por filmes cujo triunfo é frequentemente atribuído a fatores externos à visão autoral. São, via de regra, obras que a Academia vota com o coração, impulsionadas por uma forte campanha, por uma mensagem social reconfortante ou por uma narrativa de bastidor que gera simpatia. A direção é vista como funcional, colocando o filme ao serviço dos atores e da história, sem uma assinatura visual marcante que mereça destaque.
O grupo dos que falharam a indicação de Melhor Montagem é mais heterogéneo e reúne alguns dos filmes mais aclamados de sempre. A ausência nesta categoria é quase sempre uma anomalia estatística ou uma ironia do ofício. Em vários casos, como em Birdman ou Tom Jones, a montagem era tão inovadora ou tão bem disfarçada que não foi reconhecida pelo ramo mais conservador dos montadores. Noutros, como em O Poderoso Chefão Parte II ou Annie Hall, a concorrência em anos de grandes superproduções técnicas ofuscou o trabalho de montagem, resultando num erro histórico DA ACADEMIA que em nada belisca o estatuto lendário destas obras.
Eles são mais frágeis frente ao teste do tempo?
A resposta a esta pergunta depende estritamente do grupo em que o filme se insere.
O grupo dos filmes que falharam a indicação de Melhor Diretor tende a envelhecer pior. Títulos como Grand Hotel, Driving Miss Daisy e Green Book figuram frequentemente em listas de piores ou mais questionáveis vencedores do Oscar. O seu apelo era conjuntural, fortemente ligado ao zeitgeist de uma época específica e às preferências de um grupo de votantes. Uma vez que o contexto social e cultural se altera, a sua fragilidade técnica e narrativa fica mais exposta.
O grupo dos filmes que falharam a indicação de Melhor Montagem é, na sua maioria, composto por obras bem sucedidas frente ao teste do tempo. Tipicamente são filmes que continuam a ser estudados e celebrados dentro da sétima arte. A ausência da nomeação para montagem é hoje vista como um lapso da Academia, e não como um demérito da obra em si. Estes filmes sobrevivem e prosperam na história do cinema independentemente das escolhas do ramo dos montadores num determinado ano.
Eles são, via de regra, Oscar Bait?
Novamente, a resposta divide-se pelos dois grupos identificados.
Os filmes que falharam a indicação de Melhor Diretor, como Driving Miss Daisy, Green Book e CODA, são frequentemente apontados como exemplos clássicos de Oscar Bait ou isca de Oscar. São produções desenhadas, propositadamente ou não, para agradar aos votantes: abordam temas sociais de forma acessível e não ameaçadora, têm um forte apelo emocional, e apresentam mensagens positivas de superação ou reconciliação. A sua existência parece moldada para conquistar o coração da Academia, mesmo que à custa de algum risco artístico.
Já o grupo dos que falharam a indicação de Melhor Montagem não se enquadra nesta definição. Seria um contrassenso classificar O Poderoso Chefão Parte II, Annie Hall ou mesmo Birdman como isca de Oscar. São filmes ousados, autorais, que em muitos casos desafiaram convenções e arriscaram novas linguagens. A sua vitória não foi o resultado de uma fórmula calculada para agradar, mas sim o reconhecimento, ainda que imperfeito e com lapsos, de obras de qualidade.
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