VILLAGE OF THE DAMNED (1960) [77'] [1.85:1] [★★★]
A carreira do diretor Wolf Rilla, antes de 1960, havia sido marcada por uma produção modesta e dispersa, que transitava entre a comédia leve e o drama de costumes típicos do cinema britânico da década de 1950. Títulos como The Large Rope e The Scamp não sugeriam, para o espectador casual, o nome que se tornaria associado a uma das mais perturbadoras ficções científicas daquele período. Village of the Damned, no entanto, representa uma inflexão radical nessa trajetória, um filme que não apenas subverte as expectativas depositadas em seu realizador, mas também redefine os contornos do gênero ao qual se filia. O que Rilla entrega é uma obra que, ao contrário de seus trabalhos anteriores, pautados por uma certa leveza narrativa, mergulha em um território de apreensão constante, onde o horror não reside em monstros ou sustos fáceis, mas na própria racionalidade humana confrontada com o absolutamente inumano. Essa guinada temática, no entanto, não representa um abandono completo das preocupações que permeavam sua filmografia; ao contrário, Rilla sempre demonstrou um interesse agudo pelas dinâmicas sociais e pelos conflitos geracionais, algo que aqui encontra sua expressão mais contundente e distópica. Ao adaptar o romance The Midwich Cuckoos, de John Wyndham, o cineasta anglo-germânico transpõe para a tela uma alegoria de seu tempo, um período histórico no qual a Guerra Fria instaurava um clima de suspeita generalizada e a ameaça de aniquilação era uma sombra constante... O filme, lançado em 1960, captura com precisão cirúrgica as ansiedades de uma sociedade britânica ainda se recuperando dos traumas da Segunda Guerra Mundial, agora confrontada com um novo tipo de invasão, não de exércitos estrangeiros, mas de uma inteligência alienígena que utiliza os próprios corpos das suas mulheres como incubadoras. A ideia de que o inimigo pode estar dentro de casa, de que a própria prole pode ser a antítese de tudo o que se considera humano, ressoava profundamente em uma nação que via seus valores tradicionais sendo questionados por forças que não compreendia plenamente. Dessa forma, Village of the Damned se insere no contexto de seu lançamento não como uma mera fantasia de evasão, mas como um reflexo distorcido das paranoias da época, um espelho que devolve à plateia uma imagem inquietante de si mesma e de suas instituições, das quais a família é a mais fundamental e a mais abalada pela narrativa. O filme, portanto, é tanto um produto de seu tempo quanto uma obra que o transcende, ao lançar questões sobre a natureza da humanidade que permanecem tão urgentes hoje quanto eram naqueles dias de outono da era nuclear.
A trama de Village of the Damned se inicia com um dos talvez mais memoráveis cold opens da história do cinema, uma sequência que estabelece imediatamente o tom de inquietação que permeará todo o longa (ao assistir ao filme depois de muito tempo é impossível não lembrar de análogos em séries como The X Files por exemplo)... Na pacata vila britânica de Midwich, um dia comum é abruptamente interrompido quando todos os seus habitantes, assim como os animais e qualquer um que adentre seus limites, caem em um estado de inconsciência profunda e inexplicável. O fenômeno, que dura algumas horas com todos acordando depois, é investigado pelas autoridades militares, que estabelecem um cordão de isolamento ao redor da vila, mas não encontram qualquer explicação científica para o ocorrido. Algum tempo depois... As mulheres e adolescentes férteis da vila, então, descobrem que estão todas grávidas, independentemente de seu estado civil ou da ausência de seus maridos ou de qualquer outra coisa, um evento relativo ao dia inicial e que desencadeia uma onda de constrangimentos, fofocas e acusações de infidelidade, antes que a verdadeira natureza do ocorrido comece a se desvelar. O professor Gordon Zellaby (George Sanders), um intelectual lógico e ponderado (morador da vila), é um dos primeiros a suspeitar que as gravidezes são resultado de uma inseminação artificial em massa (de tipo desconhecido pela humanidade!), realizada por uma força extraterrestre durante o período de inconsciência (e com objetivos igualmente desconhecidos!). Poucos meses depois, várias crianças nascem, todas com cabelos loiros e olhos de um brilho estranho, e que demonstram um desenvolvimento físico e intelectual muito acima do humano normal. Conforme crescem, as crianças, lideradas por David Zellaby (Martin Stephens), revelam possuir habilidades telepáticas e uma inteligência coletiva, agindo como uma única mente em vários corpos. Elas são incapazes de sentir emoções humanas como amor ou compaixão, e usam seus poderes para manipular e controlar os adultos ao seu redor, forçando-os a fazer sua vontade ou até mesmo a cometer suicídio. Aos poucos, a vila de Midwich se transforma em um campo de batalha silencioso, onde os adultos, paralisados pelo medo, tentam desesperadamente encontrar uma maneira de se livrar da ameaça que eles próprios geraram (ou não!). O conflito central do filme se estabelece entre a humanidade, representada por Zellaby e pelos outros moradores, e a alteridade absoluta das crianças, que não podem ser compreendidas ou negociadas dentro dos parâmetros da moral humana. Zellaby, em particular, vive um dilema torturante, pois é ao mesmo tempo o pai adotivo de David, o líder das crianças, e o cientista que compreende a extensão do perigo que elas representam. Os temas principais do longa emergem dessa tensão: a natureza da maternidade e da paternidade quando desprovidas de qualquer laço biológico ou afetivo genuíno; o medo do outro, personificado em crianças que são estrangeiras em sua própria terra; e a falência da razão e da ciência diante de um mal que não pode ser mensurado ou combatido com as ferramentas tradicionais. O ponto culminante da narrativa se dá quando as crianças, percebendo a intenção dos adultos de destruí-las, tomam de fato o controle total da vila, forçando Zellaby a uma decisão extrema: usar um ardil mental e sacrificar-se, juntamente com David e as outras crianças, detonando uma bomba escondida na escola onde as crianças viviam já apartadas. Esse ato final, que é tanto um gesto de desespero quanto de amor distorcido, encerra a história de Midwich com uma nota de tragicidade que sublinha a impossibilidade de conciliação entre o humano e o absolutamente outro.
A maestria de Village of the Damned, no entanto, não reside apenas em sua premissa ou em seu desfecho, mas na maneira como Wolf Rilla e sua equipe utilizam a linguagem audiovisual para criar uma atmosfera de apreensão constante e para explorar as complexidades de sua narrativa... A direção de Rilla, que opta por um estilo quase documental, confere à história uma verossimilhança que torna o fantástico ainda mais perturbador. As cenas iniciais, que retratam a vila silenciosa e os corpos caídos de seus habitantes, são filmadas com uma sobriedade que lembra os noticiários da época, ancorando o absurdo do evento em uma realidade concreta e reconhecível... A fotografia em preto e branco, assinada por Geoffrey Faithfull, é um elemento fundamental nessa construção de sentido. As imagens icônicas das crianças, com seus cabelos platinados e olhos que brilham com um lampejo sobrenatural, são realçadas pelo contraste acentuado da película, que as transforma em figuras de uma beleza gélida e ameaçadora. A escolha do preto e branco não é meramente estética ou uma concessão orçamentária; ela é uma decisão narrativa que acentua a dicotomia entre o bem e o mal, o normal e o anormal, o humano e o inumano, ao mesmo tempo que confere ao filme uma qualidade atemporal, como se aquelas imagens fossem gravadas em pedra... A montagem, conduzida por Gordon Hales, é precisa e econômica, privilegiando o suspense em detrimento da ação explícita. Rilla compreende que o verdadeiro terror não está no que se vê, mas no que se sugere, e por isso as cenas de violência são raras e, quando ocorrem, são mais chocantes por sua brevidade e frieza... A atuação do elenco é outro pilar fundamental do filme. George Sanders, conhecido por seus papéis de vilão cínico (com um sotaque bem característico que remete a um certo esnobismo), entrega uma performance contida e comovente como o professor Zellaby, um homem cuja lógica e afeto são postos à prova de maneiras que ele jamais poderia imaginar. Sua interpretação confere ao personagem uma dignidade trágica que é essencial para o desfecho do filme. Barbara Shelley, como Anthea Zellaby, oferece o contraponto emocional, a mãe que tenta, em vão, estabelecer um vínculo com um filho que a vê apenas como um instrumento. No entanto, é Martin Stephens, no papel de David, que rouba a cena. Sua atuação, fria, calculista e assustadoramente madura para uma criança, é o coração pulsante do horror do filme. Stephens transmite, com um olhar e uma entonação monocórdica, a absoluta alteridade de seu personagem, um ser que não compartilha da humanidade daqueles que o cercam, mas que a observa e a manipula com uma inteligência superior e desprovida de empatia... A trilha sonora de Ron Goodwin, por sua vez, é utilizada com parcimônia, mas com grande eficácia. Goodwin (em geral) evita o melodrama, optando por sons dissonantes e temas musicais que sublinham a estranheza da situação, embora em alguns momentos, como na cena em que os moradores se preparam para atacar a escola, a música pareça não alcançar a tensão máxima que a imagem sugere (para dizer o mínimo), criando um descompasso que, no entanto, não compromete a potência global do filme... O uso do som ambiente, dos silêncios e mesmo dos sussurros telepáticos das crianças contribui para uma imersão sensorial que torna a experiência de assistir a Village of the Damned algo próximo de um pesadelo lúcido.
Ao chegar ao seu veredicto, Village of the Damned se revela como uma obra que, sob a direção precisa de Wolf Rilla, não oferece consolo ou respostas fáceis para as questões que levanta. O filme conclui que a razão, a ciência e até mesmo o amor são insuficientes para lidar com aquilo que é fundamentalmente estranho à condição humana. O sacrifício de Zellaby não é um ato de vitória, mas de reconhecimento da derrota; ele não destrói as crianças porque as vence, mas porque compreende que não há outra maneira de detê-las, e que essa é a única forma de amor que lhe resta oferecer a um filho que nunca verdadeiramente foi seu. A narrativa sugere, assim, que a humanidade, em sua essência, pode ser frágil e limitada diante de forças que não pode controlar, e que a própria ideia de progresso e civilização é uma construção tênue, passível de ser desfeita por uma ameaça que vem de dentro. O impacto de Village of the Damned na filmografia de Rilla é imenso, pois o consagrou como um diretor capaz de transcender as limitações de um orçamento modesto para criar uma obra de arte duradoura. O filme se tornou seu legado mais conhecido, ofuscando o restante de sua produção, e também estabelecendo um padrão de sofisticação narrativa e visual para outros filmes do gênero que se seguiram. Seu legado próprio, no entanto, se estende muito além da carreira de seu diretor. Village of the Damned ajudou a consolidar um subgênero que seria explorado exaustivamente nas décadas seguintes: o das crianças assassinas ou sobrenaturais. A imagem dos "loirinhos de olhos brilhantes, que escondem uma inteligência e uma maldade muito além de sua idade", tornou-se um arquétipo do horror moderno, influenciando desde obras como (vejam só!) The Omen, de 1976, até os filmes de terror contemporâneos que exploram a inocência como uma fachada para o mal. Além disso, a abordagem minimalista e psicológica do filme, que privilegia a sugestão e a atmosfera em detrimento do gore e dos efeitos especiais, influenciou toda uma geração de cineastas que buscavam assustar não com o que mostravam, mas com o que deixavam nas entrelinhas. O filme é, portanto, uma peça fundamental na história do cinema de ficção científica e horror, um marco que demonstra como o gênero pode ser um veículo para reflexões profundas sobre a condição humana, a sociedade e o medo do desconhecido.
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O quinto parágrafo desta revisão histórica destina-se a celebrar o papel de Village of the Damned como um elo em uma corrente de legados dentro do cinema de ficção científica, um gênero que, desde suas origens, se alimenta da troca e da reinvenção de ideias... Antes do filme de Wolf Rilla, a ideia de crianças como portadoras de uma ameaça sobrenatural já havia sido explorada em obras como The Bad Seed, de 1956, mas seria no terreno da ficção científica que essa premissa encontraria seu terreno mais fértil. O romance de John Wyndham, The Midwich Cuckoos, publicado em 1957, já trazia em seu título uma metáfora poderosa para o parasitismo alienígena (referindo-se as aves CUCOS que literalmente deixam os seus ovos nos ninhos de aves de outras espécies para serem literalmente criados por elas), e a adaptação cinematográfica de Rilla conseguiu capturar a essência perturbadora dessa metáfora, transformando-a em imagens que se tornariam inesquecíveis. Village of the Damned, por sua vez, influenciou diretamente uma série de produções posteriores, começando por sua própria sequência temática, Children of the Damned, lançada em 1964, que, embora não tenha o mesmo impacto do original, expandiu o universo e as questões levantadas pelo primeiro filme. A influência do filme, no entanto, se estende para além de suas continuações diretas. A ideia de uma invasão alienígena que se dá não através de naves ou exércitos, mas através da reprodução e da substituição da prole humana, ressoou em outras narrativas de ficção científica, como o filme Invasion of the Body Snatchers, de 1956, que, embora anterior, compartilha com Village of the Damned a mesma paranoia em relação à perda da identidade e à infiltração do outro. Décadas mais tarde, o próprio John Carpenter, um cineasta profundamente influenciado pelo cinema de horror e ficção científica das décadas de 1950 e 1960, prestou sua homenagem ao filme original ao dirigir o remake de 1995, que, apesar de suas limitações, demonstra a permanência do fascínio exercido pela premissa de Midwich. Carpenter, que já havia explorado temas semelhantes em filmes como The Thing, de 1982, encontrou em Village of the Damned uma fonte de inspiração para suas próprias reflexões sobre a desconfiança e o isolamento. O legado do filme também pode ser percebido em obras mais recentes, que, embora não façam referência explícita a ele, bebem da mesma fonte de inquietação: a ideia de que o futuro da humanidade pode estar nas mãos de seres que não compartilham de nossa humanidade, e que a própria continuidade da espécie pode ser uma ameaça. O gênero da ficção científica, em sua infinita capacidade de especular sobre o desconhecido, encontrou em Village of the Damned um de seus momentos mais puros, uma história que fala sobre o medo do que não podemos controlar, do que não podemos compreender e, acima de tudo, do que podemos gerar. É essa celebração da diversidade e da capacidade do gênero de se reinventar constantemente que faz de Village of the Damned não apenas um filme importante por si só, mas um elo fundamental na corrente que conecta as visões distópicas do passado às ansiedades do presente... Como uma nota de trivia bem integrada a esse contexto, o fato de o papel de Zellaby ter sido oferecido inicialmente a Ronald Colman, que faleceu antes de poder interpretá-lo, e ter ido parar nas mãos de George Sanders, que acabou se casando com a viúva de Colman, adiciona uma camada de ironia trágica à produção do filme, como se o destino estivesse tecendo, fora das telas, uma narrativa tão intrincada quanto a que se via nelas. Essa pequena história por trás das câmeras é um lembrete de que o cinema, como a ficção científica que tantas vezes retrata, é feito de acasos e coincidências que, por vezes, parecem ter sido escritos por uma mente mais astuta do que a dos próprios roteiristas.
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