segunda-feira, 21 de setembro de 2026

015. The Damned (1962) [SCIFI]

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THE DAMNED (1962) [95'] [2.35:1] [***]

O cinema de Joseph Losey sempre se definiu pela tensão entre a análise social e a experimentação formal. Poucos diretores norte-americanos exilados na Europa após o macarthismo conseguiram transformar o deslocamento em matéria-prima estética com tanta consciência. Antes de The Damned, Losey havia construído uma filmografia que oscilava entre o noir psicológico de The Prowler (1951) e a alegoria antinuclear de The Boy with Green Hair (1948), sempre com um olhar afiado sobre as engrenagens do poder. Após The Damned, sua carreira entraria em uma fase de consagração com The Servant (1963), Accident (1967) e The Go-Between (1971), obras nas quais a luta de classes e a decadência moral se tornariam ainda mais explícitas... The Damned ocupa um lugar singular nesse percurso. É o filme em que Losey abraça abertamente a ficção científica sem abandonar sua vocação de retratista das patologias sociais. A diferença fundamental em relação aos seus outros trabalhos reside na fusão/transição de gêneros: aqui, o drama de delinquência juvenil se transforma, sem aviso, em uma parábola sobre o terror atômico. Essa estrutura híbrida, que começa como um estudo de caso sobre a violência urbana e termina como uma meditação sobre o sacrifício da infância em nome da sobrevivência da espécie, é o que confere ao filme sua força desconcertante. Losey reforça seu viés autoral na recusa em oferecer respostas fáceis. Nenhuma instituição é poupada: a família, a ciência, o Estado e a própria juventude aparecem como agentes de uma engrenagem que esmaga os mais frágeis... No contexto do lançamento original, em plena crise dos mísseis de Cuba e com a sombra de Hiroshima ainda fresca na memória coletiva, o filme propunha uma reflexão radical sobre o que significa herdar um mundo condenado. A escolha de filmar em preto e branco, com enquadramentos que valorizam a aridez da costa de Dorset, insere o longa em um diálogo direto com a nouvelle vague francesa e antecipa o realismo sujo da new wave inglesa. Ao mesmo tempo, a presença de uma gangue de motociclistas com código próprio, gíria e uma trilha tema que ecoa dentro e fora da diegese estabelece uma ponte inesperada com o universo de A Clockwork Orange, que Stanley Kubrick filmaria quase uma década depois. The Damned não é apenas um filme de ficção científica; é um documento sobre o medo, um retrato da paranóia de uma era e uma das obras mais corajosas de um diretor que nunca se acomodou.

A trama de The Damned se desenrola em camadas que se sobrepõem com precisão cirúrgica. Simon Wells (Macdonald Carey), um executivo de seguros norte-americano recém-divorciado, navega pela costa sul da Inglaterra em um barco de recreio. Em Weymouth, ele conhece Joan (Shirley Anne Field), uma jovem de vinte anos que o atrai para uma armadilha. Ela o conduz a um beco, onde King (Oliver Reed), seu irmão, e sua gangue de motociclistas o espancam brutalmente (e levam o seu dinheiro) . Simon sobrevive, mas em vez de denunciar o crime, aceita a inesperada presença de Joan em seu barco no dia seguinte. A relação entre os dois se desenvolve em alto mar em meio a uma tensão constante: Joan revela que King a mantém sob controle obsessivo (beirando o incestuoso), espancando qualquer homem que se aproxime dela. Enquanto isso, nas cavernas próximas à costa, nove crianças de onze anos vivem em um complexo militar subterrâneo. Elas têm a pele cadavericamente fria ao toque, são monitoradas por câmeras e educadas por televisão em circuito fechado por Bernard (Alexander Knox), um cientista do governo. As crianças desconhecem o mundo exterior e são visitadas regularmente por homens em trajes de proteção contra radiação (as crianças são extremamente radioativas). Simon e Joan, de volta a costa e após um encontro amoroso em uma casa no penhasco (que descobrimos depois ser de Freya), são perseguidos pela gangue de King e acabam descendo até a praia, onde encontram a entrada das cavernas. Lá, descobrem as crianças. Bernard revela eventualmente (com poucos detalhes) que elas nasceram radioativas, filhas de mães expostas a doses letais de radiação. O objetivo do projeto de Bernard e cia. é criar uma geração capaz de sobreviver ao holocausto nuclear que o governo considera inevitável. Freya Neilson (Viveca Lindfors), uma escultora que mantém um relacionamento com Bernard, vive próxima a instalação militar e cujas obras parecem corpos queimados petrificados, tenta interceder pelas crianças (que ele vê agora em fuga junto com Simon, Joan e o próprio King). Bernard, temendo que o segredo seja revelado, tenta conter os intrusos. Freya (horrorizada) se rebela contra o amante e é morta por ele. King (já muito doente) é perseguido por um helicóptero, perde o controle do seu carro e eventualmente morre. Simon e Joan conseguem escapar em um primeiro momento mas morrem de envenenamento radioativo no seu barco que é destruído por um helicóptero em seguida. As crianças, por sua vez, são todas recapturadas e trancadas no bunker. A cena final é de uma crueldade silenciosa: banhistas desfrutam de um dia ensolarado na praia, completamente alheios aos gritos desesperados das crianças aprisionadas sob a terra. Os temas principais do filme se articulam em torno da instrumentalização da infância, da burocratização do horror e da cegueira coletiva diante da catástrofe iminente. Os personagens principais são definidos por seus conflitos: Simon, entre a passividade da terceira idade e a tentativa de agir e fazer valer a pena o tempo que lhe resta; Joan, entre a lealdade doentia ao irmão e o desejo de liberdade em múltiplos sentidos; King, entre a violência como afirmação de poder e a dependência afetiva da irmã; Bernard, entre a frieza científica e a culpa que o consome; e Freya, entre a arte como expressão do medo da humanidade e a impossível cumplicidade com o projeto que tenta (distorcidamente) salvá-la..

A realização audiovisual de The Damned é um dos pontos mais altos da carreira de Losey. A fotografia em preto e branco de Arthur Grant, com seu contraste acentuado entre a luz dura do litoral e a penumbra claustrofóbica das cavernas, cria uma atmosfera que oscila entre o documental e o pesadelo. Os enquadramentos amplos, filmados em 2.35:1, exploram a vastidão do mar e do céu como contraponto à reclusão das crianças. A montagem de Reginald Mills alterna com habilidade entre o ritmo frenético das cenas de perseguição e a lentidão opressiva do cotidiano subterrâneo, sublinhando a dualidade do filme. A direção de Losey é energética e criativa, com poucas regras: ele desloca a câmera com movimentos lentos e angulações enviesadas, criando uma sensação de deslocamento constante. As atuações são irregulares, mas Oliver Reed compõe um King magnético e ameaçador, cuja energia animalesca antecipa o Alex de A Clockwork Orange. Macdonald Carey oferece uma interpretação contida, que traduz o desconforto de um homem comum diante do absurdo. Shirley Anne Field equilibra fragilidade e rebeldia, enquanto Alexander Knox e Viveca Lindfors dão densidade a personagens que poderiam facilmente resvalar para o maniqueísmo. A trilha sonora de James Bernard, com temas dissonantes e uma canção de rock que ecoa dentro e fora da diegese, reforça a sensação de que a juventude está sendo simultaneamente celebrada e condenada. A música tema da gangue, Black Leather Rock, funciona como um hino de uma subcultura que se afirma pela violência, mas que também é vítima de um sistema que a marginaliza. As esculturas de Freya, concebidas pelo artista britânico Elisabeth Frink, são um elemento visual crucial: elas parecem seres vivos queimados pela radiação, transformados em estátuas que adornam uma terra pós-apocalíptica que as crianças herdarão inevitavelmente. Essa integração entre arte, cenografia e narrativa é um exemplo da sofisticação com que Losey tratava os elementos visuais. A linguagem audiovisual, portanto, não é um mero veículo para a história; é parte constitutiva do significado. Cada escolha estilística, do uso das locações reais de Weymouth e Portland Bill à composição dos planos, serve para amplificar a crítica social e existencial que atravessa o filme.

O veredicto final de The Damned é tão sombrio quanto coerente com sua premissa. O filme não oferece redenção. As crianças, criadas para serem as únicas sobreviventes de uma guerra nuclear, permanecem prisioneiras de um sistema que as trata como cobaias. A ciência, representada por Bernard, não é uma força neutra, mas um instrumento de opressão que se disfarça de necessidade estratégica. O Estado, por sua vez, é uma abstração que decide o destino de vidas humanas com a frieza de um cálculo estatístico. Joseph Losey, ao dirigir The Damned, consolida sua posição como um dos grandes críticos das estruturas de poder do século vinte. O impacto do longa em sua obra é profundo: a partir dele, Losey aprofunda sua colaboração com roteiristas como Harold Pinter e explora com ainda mais intensidade os labirintos da psicologia humana e das relações de classe. The Servant, rodado no ano seguinte, é um desdobramento direto das preocupações que The Damned já anunciava: a servidão voluntária, a corrupção moral e a violência como linguagem. O legado do filme, no entanto, vai além da filmografia de seu diretor. Ele antecipa uma linhagem de obras que tratam da infância como campo de batalha, da juventude como ameaça e da tecnologia como instrumento de desumanização. The Damned traz uma fusão entre delinquência juvenil e ficção científica que atinge um grau de coesão e radicalidade raramente igualado/superado. A cena final, com os banhistas indiferentes aos gritos abafados das crianças, é uma das imagens mais perturbadoras do cinema britânico da década de sessenta. Ela condensa o que o filme tem de mais valioso: a capacidade de transformar uma premissa de gênero em uma reflexão amarga sobre a responsabilidade coletiva e a cumplicidade cotidiana. Joseph Losey não oferece consolo; oferece um espelho.

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O quinto parágrafo deste review, como parte da nossa revisão histórica da ficção científica no cinema a partir de 1950, é dedicado a traçar as conexões de legado que The Damned estabelece com outras obras. O filme bebe diretamente de uma tradição que remonta a Village of the Damned (1960), dirigido por Wolf Rilla, no qual crianças loiras e de olhos brilhantes (e de origem alienígena) representam uma ameaça à ordem social estabelecida. No entanto, enquanto o filme de Rilla trabalha com o sobrenatural e o implacável, Losey opta por uma abordagem materialista e política: suas crianças não são alienígenas, mas literalmente filhas do átomo. A influência de The Damned se estende a obras posteriores que exploram a mutação genética como metáfora de exclusão, como os X-Men dos quadrinhos da Marvel, cuja primeira aparição data de 1963, um ano após o lançamento britânico do filme. A ideia de um grupo de crianças com poderes especiais, isoladas da sociedade por serem consideradas perigosas, é um tropo que Losey ajudou a consolidar com seu longa. Além disso, a representação da gangue de motociclistas como uma subcultura com código próprio, linguagem específica e uma trilha sonora diegética influenciou diretamente a construção de mundos como o de A Clockwork Orange, de Anthony Burgess e Stanley Kubrick. A música tema da gangue, Black Leather Rock, é um exemplo de como o cinema pode integrar a música popular à narrativa sem transformá-la em mero acompanhamento. Trivia adicional: a produção de The Damned foi conturbada, com o produtor Anthony Hinds rejeitando o tom cerebral e pessimista de Losey, o que resultou em cortes que reduziram o filme de 95 para 87 minutos na versão britânica. A versão original só seria restaurada décadas depois, em lançamentos domésticos. Esse embate entre artista e indústria é, em si, um eco do próprio tema do filme: a luta entre a visão individual e as exigências de um sistema que prefere a obediência à verdade. The Damned permanece, portanto, como um marco de coragem estética e política, um filme que celebra as possibilidades infinitas do gênero ao mesmo tempo em que denuncia os perigos daqueles que tentam controlá-lo. Sua ressonância atravessa décadas e continua a inspirar cineastas que enxergam na ficção científica não um escape, mas uma ferramenta para examinar o presente com olhos de futuro.


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