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LA JETÉE (1962) [28'] [1.37:1] [★★★★]
Pisar no solo de La Jetée é como pisar no de Marienbad, um terreno sagrado para o cinema, para o cinema de ficção científica em particular. É um portal que se abre não para o futuro ou para o passado, mas para a própria alma do médium, para a sua capacidade de capturar não o movimento, mas a sua ausência, e não a vida, mas a sua memória... Chris Marker, o diretor e roteirista desta obra-prima de 1962, foi sempre um cineasta do esgarçamento, um poeta visual que transitou entre o documentário e a ficção, entre a crônica política e a meditação filosófica. Em filmes como a instigante Carta da Sibéria, ele já brincava com a manipulação das imagens e a subjetividade do olhar. No entanto, La Jetée, classificado por seus créditos como um “photo-roman”, representa um ponto de inflexão radical em sua obra, uma experiência limite que reduz o cinema à sua essência fotográfica discreta. Seus outros trabalhos, como o documentário sobre a greve dos marinheiros em Descrição de um Combate ou o ensaio político O Fundo do Ar Está Vermelho, sempre buscaram um diálogo com o mundo, com a história em movimento. La Jetée, por outro lado, é uma viagem para dentro, uma exploração da psique e da memória que se utiliza da ciência ficcional como um laboratório existencial. Ele reforça o viés autoral de Marker em sua paixão pela imagem fixa, pela fotografia como testemunha do tempo, e em sua constante desconfiança em relação à narrativa linear e à verdade documental, uma vez que a memória, tema central do filme, é sempre uma reconstrução, uma ficção pessoal... Lançado em plena Guerra Fria, um período paranoico de destruição mútua assegurada e de ansiedade nuclear, La Jetée dialoga profundamente com o espírito de sua época. O mundo pós-apocalíptico que retrata, com Paris em ruínas e sobreviventes vivendo nos subterrâneos do Palais de Chaillot, é um reflexo direto do medo onipresente de uma hecatombe atômica. As imagens de cidades devastadas que o filme utiliza, muitas vezes provenientes da Segunda Guerra Mundial, como Dresden ou Hiroshima, servem como um lembrete brutal de que o horror não é uma fantasia futurista, mas uma realidade histórica recente. Ao mesmo tempo, a narrativa de uma viagem no tempo para “convocar o passado e o futuro em socorro do presente” manifesta o desejo humano de escapar de uma realidade opressiva e apocalíptica, uma fuga que, no entanto, o filme mostra ser uma ilusão perigosa, pois o passado, assim como o futuro, está irremediavelmente ligado à nossa própria destruição.
A trama de La Jetée é um paradoxo temporal lapidado em sua forma mais pura, um estável e inescapável loop temporal que define a tragédia de seu protagonista... Após a Terceira Guerra Mundial, Paris jaz em ruínas e a humanidade sobrevive em túneis subterrâneos. Cientistas, em uma tentativa desesperada de salvar o presente, conduzem experimentos de viagem no tempo, buscando indivíduos cuja mente possa resistir ao choque da jornada. Eles encontram no protagonista, um prisioneiro interpretado por Davos Hanich, um sujeito ideal: sua âncora no tempo é uma obsessão, uma imagem vívida de sua infância pré-guerra no píer de observação do aeroporto de Orly, a tal "la jetée” que dá nome ao filme. Nessa memória, ele vê o rosto de uma mulher (Hélène Châtelain) e, em seguida, um homem morrer. Os cientistas conseguem enviá-lo para o passado, e ele encontra a mulher de sua visão. Ele se torna, como narra a voz em off, “o fantasma” dela, um visitante de um futuro que ela não pode compreender. Uma relação terna e melancólica se desenvolve entre eles, uma história de amor que parece existir fora do tempo, em um idílio fragmentado por fotos estáticas, que inclui passeios pelo Jardin des Plantes e pelo museu de história natural. Após múltiplas viagens bem-sucedidas ao passado, os experimentadores o enviam para o futuro distante. Lá, ele encontra uma civilização avançada que lhe fornece uma fonte de energia para restaurar a sociedade destruída. De volta ao presente, ele cumpre sua missão, mas descobre que seu propósito foi cumprido; os cientistas, seus algozes, planejam executá-lo. No entanto, os homens do futuro, que o observam, oferecem-lhe uma fuga permanente para o seu tempo. Diante dessa escolha, o protagonista, movido pelo amor e pela obsessão que o definem, recusa o refúgio no futuro e implora para ser enviado de volta ao passado, para a época da mulher amada. O pedido é atendido, e ele é transportado de volta ao píer de Orly. É então que a peça final do quebra-cabeça se encaixa. Ele vê a mulher e corre em sua direção, mas é interceptado por um dos agentes do seu presente, que o mata. A cena que ele testemunhou quando criança, o homem que morreu, era ele mesmo. O loop se fecha. A história, em sua estrutura, serve para explorar temas centrais como a natureza do tempo, o poder da memória, a primazia do amor e a inescapabilidade do destino. O protagonista está condenado pela ciência e por sua própria obsessão. Seu conflito central não é contra um vilão, mas contra a própria natureza de sua existência: ele é um prisioneiro do tempo e de sua memória. Sua jornada não é para salvar o mundo, mas para tentar, em vão, reencontrar um momento de felicidade que talvez nunca tenha existido. A personagem da mulher, por sua vez, é o objeto da memória, mas também sua vítima, pois existe apenas na projeção de um homem que a ama como a uma imagem, um fantasma de um futuro que é sua sentença de morte.
A genialidade de La Jetée, contudo, não reside apenas em sua trama, mas na forma como ela é contada, e é aí que a linguagem audiovisual se torna a própria mensagem... A opção de Marker por construir o filme quase inteiramente com fotografias estáticas em preto e branco é um ato de pura poesia cinematográfica. Ao interromper o fluxo do movimento, ele nos força a contemplar cada imagem como um átomo do tempo, um instante congelado que a memória ou a fotografia podem preservar. A montagem, realizada por Jean Ravel, com seus cortes secos e fade-outs, cria um ritmo hipnótico que mimetiza o funcionamento da própria lembrança: fragmentada, elíptica e carregada de significado. As atuações, transformadas em poses fotográficas, adquirem uma intensidade quase escultural. O olhar de Hélène Châtelain, em especial, torna-se um abismo de afeto e assombro, enquanto a postura de Davos Hanich carrega o peso de uma melancolia existencial. A fotografia, de autoria do próprio Marker e de Jean Chiabaut, é de uma beleza estonteante, utilizando a luz e a sombra para criar um universo que é ao mesmo tempo familiar e onírico. A trilha sonora de Trevor Duncan é outro componente fundamental, com seu tema principal, uma melodia de cordas ao mesmo tempo doce e angustiante, que sublinha a natureza romântica e trágica da história. O design de som, com os sussurros e ruídos ambientes, completa a imersão em um mundo onde a realidade é tênue. A famosa sequência do museu de história natural é um dos pontos altos do filme. Ao passearem entre animais empalhados e estátuas, o homem e a mulher parecem eles próprios relíquias de um tempo morto, espécimes preservados pela memória de um mundo que não existe mais. É um momento de profunda reflexão sobre a extinção e a permanência, onde o destino da raça humana se confunde com o dos animais empoeirados nas vitrines. Há ainda o momento em que o filme, que é todo feito de imagens fixas, subitamente ganha movimento: a mulher acorda e pisca os olhos. Este breve instante de filme, o único do longa, é eletrizante. Ele não serve para celebrar o cinema, mas para lembrar que a exceção só existe porque a regra é a imobilidade da memória, e que a vida, naquele breve piscar de olhos, é uma interrupção na morte. Marker insere, também, uma referência direta ao cinema clássico, evocando o filme Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock. Em uma cena, o casal contempla um tronco de árvore seccionado, e o protagonista aponta para um ponto fora dos anéis de crescimento, dizendo “eu venho daqui”. É uma clara alusão à cena em que a personagem de Kim Novak, em Um Corpo Que Cai, aponta para dois pontos nos anéis de uma sequoia e diz “aqui eu nasci... e aqui eu morri”. Esta citação não é mera homenagem; ela insere La Jetée em uma linhagem de filmes que exploram a obsessão, a memória e a impossibilidade de escapar do passado, ao mesmo tempo em que subverte a referência, trocando a morte pela origem, mas ironicamente, condenando seu herói ao mesmo destino trágico. É o input do próprio cinema em sua mais pura essência.
La Jetée, portanto, não é apenas um filme sobre uma viagem no tempo; é uma profunda e melancólica reflexão sobre a própria condição humana... O veredito que o longa oferece sobre seus temas e personagens é tão desolador quanto belo: somos prisioneiros de nossas memórias e de um destino que muitas vezes já está escrito antes mesmo de o compreendermos. O protagonista, o Prisioneiro condenado e morto por seus carcereiros muito antes de ali ser aprisionado, não encontra redenção, apenas o fechamento de um círculo que ele mesmo, sem saber, ajudou a traçar. O Fantasma que aparecia para aquela mulher em aleatórios e curtíssimos momentos era, de fato, mais real para ela do que para ele, pois sua presença era um prenúncio de sua própria morte, uma saudade que ele carregava como uma promessa de amor. A escolha de voltar para casa, para o passado, é apresentada não como uma vitória, mas como a única escolha possível para alguém cuja essência está enraizada em um único instante. O filme de Chris Marker impacta profundamente sua obra ao condensar todas as suas preocupações temáticas e estilísticas em um trabalho de uma pureza formal inigualável, provando que o cinema de ficção científica pode ser o veículo para as mais altas reflexões poéticas e filosóficas. Seu legado é imenso e incontestável. Ele não apenas redefiniu o que um filme de ficção científica poderia ser, mas também desafiou a própria definição de cinema, provando que o movimento não é essencial para a narrativa cinematográfica. O filme se tornou uma referência obrigatória para qualquer estudo sobre a relação entre cinema, tempo e memória, e sua influência se estende a obras que vão desde o cinema experimental até o blockbuster de Hollywood, como evidenciado pela adaptação livre que Terry Gilliam faria décadas depois.
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O legado de La Jetée, no entanto, não é uma linha reta, mas um rizoma que se espalha por diferentes mídias e gerações, conectando o passado do cinema ao seu futuro. A principal e mais conhecida obra que influenciou diretamente foi o filme 12 Macacos, de Terry Gilliam, lançado em 1995. Gilliam expandiu o conceito de Marker para um longa-metragem de alto orçamento, transformando a história introspectiva e silenciosa em um thriller de ação frenético, mas mantendo a estrutura central do loop temporal e a imagem obsessiva de um aeroporto como gatilho da memória. A influência, contudo, é ainda mais vasta. O próprio Marker, antes de La Jetée, já havia sido influenciado por Hitchcock e, em particular, por Um Corpo Que Cai, criando um diálogo que atravessa o cinema. A estética do filme, feita de imagens fixas e narração, influenciou inúmeros videoclipes, filmes experimentais e ensaios visuais, demonstrando que a economia de meios pode gerar uma riqueza expressiva incomparável. A série de televisão 12 Macacos, de 2015, também bebe diretamente dessa fonte, e o próprio Chris Marker revisitaria temas semelhantes em seu monumental documentário Sans Soleil, onde a memória e a imagem são novamente colocadas em questão. A cena do tronco da árvore, um tributo a Hitchcock, tornou-se um ícone da intertextualidade cinematográfica, um pequeno gesto de um cineasta para outro que revela como as imagens viajam no tempo e no espaço, assim como os personagens de La Jetée. Esta passagem de bastão entre legados – de Hitchcock para Marker, de Marker para Gilliam – é uma celebração do gênero de ficção científica (valeu Hitch!) em suas infinitas possibilidades. La Jetée demonstra que a ficção científica não precisa de efeitos especiais extravagantes ou de mundos alienígenas para ser poderosa; basta um punhado de fotografias, uma história de amor e uma profunda compreensão da alma humana para criar um dos universos mais duradouros e comoventes do cinema. É um registro nobre que conecta a obsessão hitchcockiana com a grandiosidade de Gilliam, provando que o gênero é, acima de tudo, um veículo para a poesia, a filosofia e a mais crua emoção, onde a viagem no tempo é apenas uma desculpa para falarmos de nós mesmos, de nossas memórias e de nosso medo do fim.
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