segunda-feira, 9 de março de 2026

QUEENSRYCHE (1983-1994)

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ÁLBUNS

01 (1983) Queensrÿche - EP  [***]
02 (1984) The Warning [***1/2]
03 (1986) Rage for Order  [****]
04 (1988) Operation: Mindcrime [****]
05 (1990) Empire [***1/2]
06 (1994) Promised Land [***1/2]

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PESSOAL

Chris DeGarmo – guitarras etc.
Geoff Tate – vocais etc.
Scott Rockenfield – bateria & percussão etc.
Michael Wilton – guitarras etc.
Eddie Jackson – baixos etc.

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Uma Jornada Sônica de 1983 a 1994: A Ascensão e Reinado do Queensrÿche

Tudo começou não com um estrondo, mas com um assobio acidental. Em 1982, em um estúdio de Redmond, o vocalista Geoff Tate, ainda apenas um músico convidado, apagou as luzes e acendeu uma vela para entrar no clima da balada The Lady Wore Black. Enquanto a guitarra introdutória soava, ele assobiou junto, sem saber que os microfones estavam gravando. Esse momento de puro acaso, mantido na fita por soar "legal", tornou-se a porta de entrada para o som de uma banda que, vinda do subúrbio de Seattle, redefiniria o heavy metal . Os anos que se seguiram, de 1983 a 1994, testemunharam a metamorfose do Queensrÿche, de uma promissora promessa do underground a uma potência das paradas de sucesso, num percurso repleto de riscos artísticos e triunfos estrondosos.

Antes mesmo de 1983, a base estava sendo cimentada na garagem dos pais do baterista Scott Rockenfield, apelidada de The Dungeon. O que era então a banda The Mob, tocando covers de Judas Priest e Iron Maiden, sonhava em criar algo próprio  . Com a saída de Tate, que não queria viver de covers, o quarteto (Chris DeGarmo, Michael Wilton, Eddie Jackson e Rockenfield) juntou dinheiro de subempregos para gravar uma demo (o que atraiu Tate de volta). O resultado foi um EP independente, lançado em 1982, que trazia a energia crua de Queen of the Reich e a maturidade surpreendente de The Lady Wore Black. A crítica especializada, como a da revista Kerrang!, se rendeu, e o burburinho forçou Geoff Tate a ficar. Em meados de 1983, com Tate agora vocalista em tempo integral e recém-contratados pela EMI, o Queensrÿche estava pronto para conquistar o mundo, num momento em que o rock era dominado pelo glamour de bandas como Mötley Crüe e pelo metal tradicional do Iron Maiden.

O ano de 1984 viu o lançamento do primeiro álbum, The Warning, uma obra que respirava a influência de bandas progressivas como Pink Floyd, mas com a pujança do power metal USA. Produzido por James Guthrie, o disco enfrentou a insatisfação da banda com a mixagem final, imposta pela gravadora . Ainda assim, faixas como a épica Roads to Madness e o hino Take Hold of the Flame projetaram o grupo para turnês ao lado de gigantes da época como Kiss e Iron Maiden  . Se o primeiro álbum foi um alerta, Rage for Order, de 1986, foi uma declaração de intenções. Numa era dominada pelo hair metal, a banda ousou. Sob pressão da gestão para adotar uma imagem mais glamourosa, o resultado foi um choque visual e sonoro: os integrantes surgiram com maquiagem pesada e sobretudos, enquanto a música mergulhava em texturas de teclados, vocais processados e letras sobre inteligência artificial e intrusão governamental  . Canções como Walk in the Shadows e a cover Gonna Get Close to You mostravam uma banda em plena ebulição criativa, pavimentando o terreno para sua obra-prima.

O clímax artístico do período chegou em 1988 com Operation: Mindcrime. Numa época em que o rock pesado era frequentemente associado a letras hedonistas, o Queensrÿche entregou uma ópera-rock complexa e sombria. Inspirado por conversas com separatistas quebequenses e pela decadência do vício em drogas, Geoff Tate concebeu a história de Nikki, um junkie transformado em assassino político pelo enigmático Dr. X  . Álbuns conceituais não eram novidade, mas poucos na história do metal alcançaram tamanha coesão narrativa e musical. A tensão de Revolution Calling, a beleza trágica de Suite Sister Mary e o clímax desesperador de Eyes of a Stranger elevaram a banda a um novo patamar de respeito crítico, influenciando uma geração inteira de bandas de metal progressivo que viriam a seguir, como Dream Theater e Fates Warning, que consolidariam o chamado BIG3 do gênero .

Se Mindcrime foi o auge artístico, Empire, lançado em 1990, foi o ápice comercial. A banda que antes explorava os becos obscuros da psique humana agora ampliava seu alcance para as massas. A balada Silent Lucidity, com seus arranjos orquestrais de Michael Kamen, tornou-se um fenômeno mundial, chegando ao topo das paradas e apresentando o som da banda a um público que pouco sabia sobre as tramas de Mindcrime  . A faixa-título Empire e a vibrante Jet City Woman provaram que o grupo não havia abandonado sua complexidade, mas sim a embalado em produções mais refinadas e acessíveis. O legado do Queensrÿche, até então, era duplo: haviam provado ser possível unir a complexidade do rock progressivo à agressividade do metal, e agora também demonstravam que essa fórmula poderia levar uma banda ao estrelato mundial, influenciando bandas de rock alternativo e até mesmo o mainstream a incorporar elementos mais sofisticados.

Finalmente, em 1994, após quatro anos de estrada e pressão, o grupo lançou Promised Land. Longe dos holofotes do sucesso fácil, o álbum era uma reação visceral ao estrelato, um mergulho introspectivo e deliberadamente anticomercial. Gravado parcialmente nas casas dos músicos, o disco abria com 9:28 a.m., uma colagem de sons criada por Rockenfield que simulava o nascimento, e explorava temas de isolamento e desencanto com faixas como a melancólica Bridge e a angustiante Someone Else? . Se Empire os projetou para o estrelato, Promised Land os mostrou desconfortáveis com ele. Ao final de 1994, o Queensrÿche havia percorrido uma trajetória notável: de um bando de jovens num porão, inspirados por Judas Priest, a inovadores que influenciaram incontáveis bandas, deixando um legado de ousadia que poucos na história do rock puderam reivindicar. Os anos de 1983 a 1994 não foram apenas a primeira fase da banda, mas sim a construção de um império sonoro que ainda hoje ecoa.

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01 (1983) Queensrÿche - EP [***]

Antes de conquistarem estádios, o Queensrÿche era apenas uma demo tape de quatro faixas que se recusava a morrer. Em 1982, em Seattle, os jovens Michael Wilton, Chris DeGarmo, Eddie Jackson e Scott Rockenfield, então conhecidos como The Mob, juntaram recursos para gravar um material próprio. Sem vocalista fixo, chamaram Geoff Tate, que relutantemente topou, desde que pudesse fazê-lo sem que sua banda principal, Myth, soubesse (ou assim ele disse!). O resultado foi uma fita poderosa que, rejeitada por todas as gravadoras, ganhou vida através de uma resenha elogiosa na Kerrang! e do selo independente 206 Records, do dono da loja Easy Street Records  . Lançado originalmente em 1982 e relançado pela EMI em 1983, o EP Queensrÿche chegou ao mundo num momento em que a New Wave of British Heavy Metal, capitaneada por Iron Maiden e Judas Priest, ainda ecoava com força, mas o glam metal americano começava a dar seus primeiros e chamativos passos. O EP, no entanto, soava como um sopro de ar fresco e sério vindo do noroeste americano. As quatro faixas eram um manifesto de juventude e técnica. A faixa de abertura, Queen of the Reich, era um hino de poder, com vocais agudos e guitarras gêmeas que rivalizavam com qualquer coisa vinda da Inglaterra, estabelecendo imediatamente a identidade da banda . Nightrider e Blinded mantinham a pegada agressiva, com mudanças de ritmo que já sugeriam a complexidade vindoura. No entanto, era na faixa de encerramento, The Lady Wore Black, que o futuro da banda realmente se anunciava. Uma balada lenta e sombria, construída sobre um riff de guitarra melancólico e a interpretação dramática de Tate, sua letra (escrita por ele na mesma semana da gravação) e aquele assobio acidental que abria a canção mostravam uma maturidade incomum para músicos na faixa dos vinte anos . O EP Queensrÿche não era apenas um cartão de visitas; era a declaração de que uma nova força estava emergindo, capaz de unir a agressividade do metal à sofisticação e à atmosfera, um prenúncio do que viria a ser chamado de metal progressivo em retrospectiva.

02 (1984) The Warning [***1/2]

Se o EP foi um tiro de largada certeiro, The Warning, lançado em setembro de 1984, foi a corrida de obstáculos que testou a resistência do Queensrÿche. Ansiosos por capitalizar o burburinho, a banda viajou para Londres para gravar com o renomado produtor James Guthrie (Pink Floyd, Judas Priest). A experiência, no entanto, deixou cicatrizes. A banda, empolgada, estourou o orçamento e, como punição, a gravadora EMI entregou as fitas para o engenheiro Val Garay mixar sem qualquer input dos músicos. O resultado, para Geoff Tate e seus companheiros, foi uma "grande decepção", uma mixagem que não refletia a visão do grupo . Apesar da frustração interna, The Warning, lançado em 1984, encontrava o rock em uma encruzilhada: o glam metal de Los Angeles ganhava as rádios com seus hinos festeiros, enquanto bandas como Metallica solidificavam o thrash metal. O Queensrÿche, mais uma vez, ficava em uma posição intermediária. O álbum soava mais pesado e direto que o EP, mas já continha faíscas de experimentação. A faixa de abertura, Warning, é um petardo direto, com um riff cortesia de Michael Wilton que abre o disco com energia. Já Take Hold of the Flame, que se tornaria "O" hino da carreira da banda, especialmente no Japão, é o ponto alto do disco, equilibrando peso e melodia com um refrão épico que sintetizava a ambição do grupo . No entanto, é na longa e complexa Roads to Madness que a insatisfação com a mixagem mais contrasta com a qualidade da composição: a música, com suas múltiplas seções e clima progressivo, já apontava o caminho que a banda queria trilhar, um caminho que seria plenamente realizado nos discos seguintes. A turnê, dividindo palcos com Kiss e Iron Maiden, provou que, mesmo com um som que não os agradava plenamente, o Queensrÿche já tinha estatura para voos mais altos.

03 (1986) Rage for Order [****]

Se The Warning foi um passo em falso na produção, Rage for Order, de 1986, foi um salto ousado em direção ao futuro, mesmo que vestido com as roupas do passado. A pressão da gravadora e da gestão para que a banda adotasse uma imagem mais comercial e alinhada ao glam rock da época resultou nas fotografias promocionais que mostravam os cinco integrantes com maquiagem carregada, cabelos permanentados e sobretudos, um visual que o próprio Tate mais tarde admitiria ter sido um equívoco  . Musicalmente, porém, Rage for Order era tudo, menos comercial. Numa era dominada por riffs simples e refrões grudentos, o Queensrÿche optou pela complexidade. As guitarras de DeGarmo e Wilton agora duelavam com teclados proeminentes, criando camadas de som que remetiam a um futuro distópico. As letras abordavam inteligência artificial, controle governamental e experimentação genética. A produção, a cargo de Neil Kernon, era limpa e repleta de texturas, com uso de reverbs invertidos e outros artifícios de estúdio . A faixa de abertura, Walk in the Shadows, ainda mantinha uma estrutura mais acessível, mas rapidamente o álbum mergulhava em terrenos mais áridos. A cover de Gonna Get Close to You, da cantora Dalbello, era uma escolha bizarra e perfeita, uma canção sobre obsessão doentia que se encaixava como uma luva na temática do disco . Já a faixa de encerramento, I Will Remember, uma balada acústica e emocional, mostrava que, sob as camadas de sintetizadores e experimentos, o coração da banda ainda pulsava forte. Rage for Order foi um tapa de luva de pelica na indústria: mostrou que era possível ser progressivo sem ser chato, e pesado sem ser previsível, consolidando o som que influenciaria toda uma geração do metal. (*) VER BÔNUS AO FINAL DO ARTIGO!

04 (1988) Operation: Mindcrime [****]

Em 1988, o cenário do rock pesado estava fragmentado entre o thrash metal da Bay Area e o glam metal de Los Angeles, com poucas bandas ousando pensar além do próximo riff ou refrão. Foi nesse contexto que o Queensrÿche, isolado em estúdios na Pensilvânia e no Canadá, pariu uma das obras mais ambiciosas da história do gênero. Operation: Mindcrime não era apenas um conjunto de canções; era um organismo vivo. A ideia surgiu na mente de Geoff Tate ao se mudar para Montreal e se envolver, ainda que superficialmente, com as conversas de militantes separatistas quebequenses, combinadas com suas memórias de amigos destruídos pelas drogas  . A história de Nikki, um viciado recrutado por um demagogo conhecido apenas como Dr. X para assassinar líderes políticos, era um mergulho sombrio na paranoia, na manipulação e na redenção falha. A produção de Peter Collins deu à narrativa um brilho cinematográfico, enquanto a banda, em especial o guitarrista Chris DeGarmo, criou uma tapeçaria musical que ia do (quase) thrash metal urgente de Revolution Calling à beleza operística de Suite Sister Mary, uma faixa de quase dez minutos que contava com a participação da cantora Pamela Moore como a trágica freira Mary. A jornada de Nikki, desde a lavagem cerebral em Operation: Mindcrime até seu colapso final em Eyes of a Stranger, onde ele não se reconhece mais no espelho, era uma tragédia shakespeariana em vinil. O single I Don't Believe in Love chegou a ser indicado ao Grammy, mas o verdadeiro prêmio foi o reconhecimento imediato da crítica e de um público que viu ali não apenas um disco de metal, mas uma obra de arte que DEFINITIVAMENTE rivalizava com os grandes álbuns conceituais do rock progressivo. Mindcrime não era sobre o que a banda era, mas sobre o que a música poderia ser!

05 (1990) Empire [***1/2]

Dois anos após a obra-prima conceitual, o Queensrÿche emergiu das sombras de Nikki e do Dr. X para a luz ofuscante do estrelato mundial. Empire, lançado em 1990, encontrou a banda num momento de transição, tanto sonora quanto comercial. O thrash metal (em uma nova fase já caminhando para o groove metal e afins) e o rock alternativo começavam a ganhar força, mas a balada poderosa ainda reinava nas rádios. E foi exatamente com uma balada que o Queensrÿche conquistou o planeta. (A Floydiana) Silent Lucidity, com seus arranjos orquestrais de Michael Kamen e sua melodia etérea, tornou-se um fenômeno, atingindo o topo das paradas e apresentando a banda a um público que jamais ouvira falar de Mindcrime  . No entanto, reduzir Empire a essa canção seria um erro crasso. O álbum era um equilíbrio refinado entre a complexidade progressiva do passado e uma abordagem mais direta e madura (e mesmo pop). A faixa-título, Empire, era um comentário social contundente sobre o poder, embalado num riff pesado e vibrante. Jet City Woman, uma homenagem à sua Seattle nativa, combinava melodia contagiante com uma seção rítmica vigorosa, tornando-se um dos maiores clássicos da banda. Della Brown, por sua vez, com a sua base sublime remetendo ao Police é outro desconcertante colosso (e fala sobre a população de rua de Seattle). O produtor Peter Collins, novamente à frente da mesa, poliu as arestas sem perder a alma, criando um som grandioso que preenchia estádios. A turnê subsequente foi monumental, e a banda passou a performar Operation: Mindcrime na íntegra, mostrando aos novos fãs a profundidade de seu catálogo. Empire foi a prova definitiva de que o Queensrÿche podia ser ao mesmo tempo inteligente e acessível, um equilíbrio raro que os elevou ao patamar de headliners mundiais e lhes rendeu um triplo disco de platina .

06 (1994) Promised Land [***1/2]

Após o furacão Empire, que os levou a quatro anos de turnês exaustivas e ao topo das paradas, o Queensrÿche precisava de ar. Em vez de capitalizar em cima da fórmula de sucesso, a banda fez o movimento mais contraintuitivo de sua carreira: recuou. Promised Land, lançado em 1994, é o som de artistas bem-sucedidos confrontando o vazio do estrelato. Gravado parcialmente nas casas dos músicos, num processo que se estendeu por quase dois anos, o álbum respira introspecção e experimentalismo . Já estávamos na era do grunge, com o rock alternativo dominando as paradas, e o Queensrÿche, ironicamente vindo de Seattle, respondeu não com barulho, mas com silêncio e angústia. O disco abre com 9:28 a.m., uma colagem de sons ambientes criada por Rockenfield que simula o nascimento e o despertar da consciência, antes de explodir no riff pesado e tortuoso de I Am I, uma declaração de individualidade em meio à pressão . A canção Bridge, escrita por Chris DeGarmo sobre a relação com seu pai falecido durante as gravações, é um dos momentos mais crus e emocionais já registrados pela banda, uma joia acústica de beleza dilacerante . A faixa-título, Promised Land, é uma viagem sombria de oito minutos pelos efeitos colaterais do sucesso, com direito a saxofone tocado por Tate e uma atmosfera densa que termina num bar, com conversas ao fundo. O álbum se encerra com Someone Else?, apenas voz e piano, onde Tate questiona sua própria identidade. Promised Land foi um disco deliberadamente difícil, um tapa na cara dos fãs que esperavam Empire II. Comercialmente, foi um passo atrás, mas artisticamente, foi uma declaração de integridade, mostrando que, para o Queensrÿche, a jornada musical sempre seria mais importante que o destino final.

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BÔNUS DO RAGE FOR ORDER:

Neue Regel: O Manifesto Sônico de um Futuro que Já Chegou

Há músicas que simplesmente ouvimos; há outras que nos transportam para dentro de um mundo. Neue Regel, a sétima faixa do seminal Rage for Order, de 1986, pertence categoricamente ao segundo grupo. Defendê-la como uma das melhores composições do Queensrÿche (talvez a melhor!) não é apenas uma questão de gosto pessoal, mas sim o reconhecimento de uma peça que sintetiza, como nenhuma outra, a audácia experimental e a visão futurista que definiram a banda em seu período mais criativo. Num álbum que já era um choque sonoro para a época, Neue Regel surge como o seu coração mecânico e pulsante, uma anomalia genial que ainda hoje soa como uma transmissão de rádio vinda de uma distopia que se concretizou.

A grandeza de Neue Regel reside, primeiramente, na sua arquitetura sonora singular. Enquanto faixas como Walk in the Shadows ainda mantinham uma estrutura de rock (pesado) mais convencional, Neue Regel mergulha de cabeça na experimentação. A música é construída sobre uma base rítmica que mais parece o funcionamento interno de uma máquina complexa. A percussão de Scott Rockenfield, descrita por críticos como mecânica e comparada ao tique-taque de um relógio industrial, dita um andar frio e preciso. Sobre essa base, camadas de teclados e samples criam uma paisagem sonora consonante, com sons que evocam explosões distantes e alarmes, um trabalho de produção que levou o engenheiro Neil Kernon a utilizar todas as ferramentas disponíveis num estúdio dos anos 80 para criar algo que, em vez de datado, soa tecnicamente avançado até os dias de hoje.

No entanto, é a voz de Geoff Tate que atua como o guia neste labirinto de aço e circuitos. Em Neue Regel, Tate não apenas canta; ele manipula sua própria voz como um instrumento a mais na parafernália digital. Os versos são entregues com um tom quase robótico, processado eletronicamente, que contrasta de forma magistral com o refrão. Quando a música explode no chorus, os efeitos se dissipam e sua voz emerge em camadas harmônicas de uma beleza cristalina, cantando: I can hear the chimes / Ringing for you for me. É um momento de humanidade e conexão que irrompe da frieza mecânica, sugerindo que, mesmo num mundo dominado pela tecnologia, a centelha da união e da emoção persiste. Essa dualidade entre o homem e a máquina, entre o frio e o calor, é o cerne da canção e a razão pela qual ela ressoa com tanta força.

A letra, creditada a DeGarmo e Tate, é um chamado à ação enigmático e poderoso. Neue Regel, do alemão, significa nova regra ou novo regime. A canção não é sobre uma rebelião política no sentido tradicional, mas sobre uma transformação de consciência, um despertar para uma nova ordem. Versos como Reach for a new horizon / Setting sights on a circuit scream e Join us on the stay the road is mine / Poets line in a rhyme of silence convocam o ouvinte a fazer parte de algo maior, uma vanguarda pronta para abandonar o velho mundo. É um hino para os desconectados, para aqueles que enxergam além da superfície. O refrão, com seu apelo coletivo (Come together hold the light / Keep the flame we can’t let this world remain the same), transforma a canção num manifesto, provando que o Queensrÿche conseguia ser incisivo e pesado sem precisar recorrer aos clichês do metal tradicional.

Além disso, Neue Regel funciona como a peça central que valida a tese de que Rage for Order foi um álbum pioneiro, frequentemente citado como uma das pedras fundamentais do que viria a ser o metal progressivo e até mesmo o industrial metal. Enquanto Gonna Get Close to You chamava a atenção por ser uma cover estranha e Screaming in Digital explorava a paranoia da inteligência artificial de forma mais direta, Neue Regel equilibra perfeitamente a agressividade do metal com a atmosfera soturna do rock gótico e a experimentação eletrônica. É a prova de que a banda, naqueles anos, não estava apenas tocando músicas; estava construindo mundos. Defendê-la como uma das melhores da banda é reconhecer que, na curta discografia do Queensrÿche até aquele ponto, nenhuma outra faixa havia ousado tanto e conseguido voar tão alto. Neue Regel não é apenas uma grande canção; é uma declaração de princípios, o som de uma banda que se recusava a seguir as regras antigas e, em vez disso, criava as suas próprias (!).

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sábado, 7 de março de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP09 (2026)

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EPISÓDIOS

S01.E09 ∙ 300th Night [**1/2]

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ACASTANHADAS

SFA apresenta a parte um de um (eficiente porém previsível)  finale duplo que retoma os pecados originais do seu piloto envolvendo: Ake, Caleb Mir, sua mãe Anisha Mir (com o retorno de Tatiana Maslany aqui) e Nus Braka (dominando espectralmente esta semana e por óbvio fisicamente a próxima)  (*).

(*) Pensando nisso, Giamatti aparece pouco na temporada em comparação com o que a campanha promocional dava a entender.

A Athena com todos os cadetes a bordo ruma para Betazed para a cerimônia de transferência do assento presidencial para lá... Caleb descobre anos de mensagens subespaciais não lidas da sua mãe graças a uma sugestão de SAM (que volta igual mas diferente da semana passada). Porque ele não tinha um Agente de IA para lidar com isso só o Grande Pássaro poderia esclarecer... Caleb agora sabe em que planeta barra pesada fora do espaço federado (e sob o domínio do Venari Ral) a sua mãe está.

Simultaneamente Ake e companhia descobrem que Braka e companhia roubaram a infame OMEGA47 (uma versão sintética daquela molécula que destrói subespaço, noção vinda de um episódio esquecível de Voyager) e que eles agora possuem a tecnologia de fazer minas com tal substância (!). 

(Incrível que eles só descobrem o que foi roubado quando Braka detona a primeira mina. Santa Frota Estelar!)

(Incrível ninguém mencionar a estupidez de se criar esse OMEGA47 especialmente na esteira da "Queima"... Detalhe no número "47". Paece deboche!)

Obviamente Caleb (com três colegas cadetes, muitas conveniências e muito humor físico) rouba uma nave auxiliar e vai para tal planeta buscar a mãe... Obviamente Ake, Reno e o Doutor (mais dois colegas cadetes clandestinos) seguem (sozinhos a bordo) com a Athena para o mesmo planeta para buscar todos eles... A Chanceler consegue resgatar todo mundo (após Mir e cia. terem tido algumas escaramuças no solo) (*) mas a Athena é mais uma vez capturada pelo Venari Ral... Os Acadêmicos fogem na sua seção disco e se escondem em uma nebulosa... Finalmente eles descobrem que Braka usou suas novas tecnologias para erguer uma espécie de campo de força minado (!) em torno de todo o território federado (!)... Este é o cliffhanger! ... Os Federados todos dentro da barreira e somente nossos heróis (COM A ANISHA!) do lado de fora! ... Com as bênçãos da Nossa Senhora da Conveniência!

(*) Os reencontros e desencontros dos Mir é funcional na superfície do planeta (deixando o reencontro das duas "mães" de Caleb para o final do episódio na enfermaria da nave meio que para complementar o cliffhanger) ainda que a coincidência de dia do resgate e do ataque pareça excessiva.

O Resgate + Resgate (encadeados) vem da tradição de Star Trek apesar da dose dupla dar um ar muito juvenil aos trabalhos (especialmente com diversas figuras paternas envolvidas) (bastante farofa na jogada!) ... Braka coordenar o seu ataque com a cerimônia em Betazed faz sentido (as naves federadas voltaram todas para o ninho por causa disso!) mas o que ele faz com tal oportunidade não parece ter valor algum em sua risível grandeza e megalomania além de criar um cliffhanger aparentemente impossível de se resolver.

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(*) Os três velhinhos pilotando a Athena sozinhos foi meio deprimente (especialmente devido as interfaces estritamente sensíveis ao toque). Foi o momento "I feel Old!" do episódio.

(O Doutor "apertando botões" também ajuda tal sentimento. Lembrando os centuriões pilotando os respectivos caças na série original de BSG.)

(Quando os cadetes assumem os consoles em meio a breve batalha tudo parece piorar ainda mais.)

(Mas, apesar de tudo isso, o momento mais marcante de todo o episódio ainda é quando Ake deixa o Átrio da Athena, isto é, a própria Academia, para trás.)

(*) Curiosamente os dois cadetes clandestinos encostados a bordo da Athena são: a pior atriz do elenco de SFA e o personagem mais aleatório de toda a franquia.

(*) A Athena ser emboscada três vezes em nove episódios deve ser algum recorde. A Chanceler deveria pedir a sua "Música do Fantástico"... Talvez seja o nome da nave... Recomendamos trocar para Minerva.

(*) Se o Venari Ral tem recursos como estes, como eles foram apresentados em SFA como meia dúzia de piratas? Mais do que isso: Como eles nunca foram mencionados em Discovery? ... Construção de mundo bastante deficiente aqui!

(*) O cliffhanger é absurdamente grande demais (lembrando Discovery em toda a sua infame "glória"!). E tonalmente não conversa com a série como um todo.

(*) Criar distrações para não contar toda a história de uma vez por todas para Anisha acaba ficando artificial no planeta (mesmo pensando em tudo que inevitavelmente virá no próximo segmento).

(*) Poucas dúvidas restam que Anisha é uma GRANDE colaboradora do Venari Ral (e talvez algo mais)... É praticamente certo que ela criou/ajudou/estudou/roubou a tecnologia da barreira usada no episódio e será isso que irá permitir a reversão de tão impossível cliffhanger.

(*) Incrível como não temos ópticos de Betazed. Especialmente se pensarmos na tão mencionada barreira psiônica.

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sexta-feira, 6 de março de 2026

EXISTE OSCAR DE MELHOR FILME SEM DIREÇÃO E MONTAGEM (VERSÃO 2026) ?

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(Imagem meramente ilustrativa e deve ser considerada puro nonsense!)

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A lista a seguir apresenta, em ordem cronológica tendo como referência o ano da cerimónia de entrega do Oscar, todos os filmes que venceram o prémio de Melhor Filme mas que não estavam simultaneamente indicados nas categorias de Melhor Direção e Melhor Montagem. Isto significa que, para se qualificarem, os filmes podem ter falhado a indicação numa destas categorias ou em ambas. A análise considera até a data de 06 de março de 2026, pelo que inclui todos os vencedores da história da Academia até então.

A categoria de Melhor Montagem foi criada apenas na 7.ª cerimónia, em 1935. Para os anos anteriores, a ausência desta categoria é assinalada, mas o critério de não indicação aplica-se apenas às categorias que existiam.

A relação completa e verificada é composta por 15 filmes.

1.  Wings (Asas) - 1929 (1.ª cerimónia) - [GF2416]
    Faltou: Melhor Direção. A categoria de Melhor Montagem ainda não existia.
    Comentário de contexto: Foi o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme, então chamado de Produção Excepcional. Realizado por William A. Wellman, um antigo piloto de combate, o filme era um épico da aviação sobre a Primeira Guerra Mundial e um testemunho do poder do espetáculo no final da era do cinema mudo. A Academia preferiu homenagear o filme pelo seu impacto e escala de produção, ignorando o trabalho do seu diretor na categoria própria.

2.  Grand Hotel (Grande Hotel) - 1932 (5.ª cerimónia) - [GF6762]
    Faltou: Melhor Direção. A categoria de Melhor Montagem ainda não existia.
    Comentário de contexto: É um caso único na história do Oscar, sendo o único filme a vencer Melhor Filme sem receber qualquer outra nomeação (Oh Boy!). O poder de estúdio da MGM e o seu elenco estelar (Greta Garbo, Joan Crawford, John Barrymore) foram suficientes para lhe garantir o prémio máximo, relegando para segundo plano o trabalho do realizador Edmund Goulding.

3.  The Life of Emile Zola (A Vida de Émile Zola) - 1938 (10.ª cerimónia) - [GF13908]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: Um típico filme de prestígio biográfico da Warner Bros., que a Academia da época apreciava particularmente (!?). O seu insuportável carácter teatral e focado em diálogos fez com que o ramo dos montadores o ignorasse, preferindo nesse ano reconhecer filmes de aventura ou ação com uma edição mais visível e dinâmica.

4.  Hamlet - 1949 (21.ª cerimónia) - [GF1794]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: Realizado e protagonizado por Laurence Olivier, foi o primeiro filme britânico a vencer o prémio principal. A adaptação cinematográfica da peça de Shakespeare utilizou planos longos e uma fluidez que escondia os cortes, uma característica que tradicionalmente não atrai a atenção dos votantes da categoria de Montagem, que tendem a preferir uma edição mais perceptível e ritmada.

5.  Marty - 1956 (28.ª cerimónia) - [GF3609]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: Um filme de orçamento reduzido, adaptado de um teleteatro, que se tornou um sucesso crítico e de público. A sua montagem era propositadamente invisível e funcional, servindo as interpretações e o drama intimista, o que o excluiu da corrida numa categoria que, nesse ano, preferiu filmes de maior escala e complexidade técnica.

6.  Tom Jones (As Aventuras de Tom Jones) - 1964 (36.ª cerimónia) - [GF1664]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: Uma comédia britânica irreverente e visualmente inovadora, influenciada pela Nouvelle Vague francesa, com cortes rápidos, quebras da quarta parede e transições aceleradas. Ironicamente, foi o seu estilo arrojado de montagem que o tornou um alvo para o ramo mais conservador dos montadores da Academia, que na época consideraram o trabalho técnico indisciplinado em vez de genial.

7.  A Man for All Seasons (O Homem Que Não Vendeu Sua Alma) - 1967 (39.ª cerimónia) - [GF1216]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: Mais um exemplo de um drama de prestígio, de origem britânica e fortemente teatral, focado em diálogos e atuações. Numa altura em que a categoria de Montagem premiava filmes de grande espetáculo como Grand Prix ou Viagem Fantástica, a edição contida e clássica deste filme passou completamente despercebida.

8.  The Godfather Part II (O Poderoso Chefão Parte II) - 1975 (47.ª cerimónia) -  [GF30]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: Considerado por muitos uma das maiores obras-primas da história do cinema, a sua ausência na categoria de Montagem é vista hoje como um erro histórico do ramo. A explicação reside na preferência dos votantes desse ano por um filme de catástrofe de alta complexidade logística, Inferno na Torre, que acabou por vencer a categoria, em detrimento da complexa e aclamada montagem paralela deste épico de Francis Ford Coppola.

9.  Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) - 1978 (50.ª cerimónia) -  [GF110]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: A comédia inovadora de Woody Allen, que revolucionou o género com o uso de flashbacks, split-screens e quebras narrativas, foi preterida na categoria de Montagem. O ramo dos editores preferiu indicar e premiar George Lucas pela montagem frenética e pelos efeitos visuais de Guerra nas Estrelas, evidenciando o tradicional preconceito da categoria em relação às comédias, mesmo as mais inventivas.

10. Ordinary People (Gente Como a Gente) - 1981 (53.ª cerimónia) -  [GF1286]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: A estreia de Robert Redford como realizador, num drama familiar intimista e claustrofóbico, desbancou o favorito Touro Indomável de Martin Scorsese. Enquanto o filme de Scorsese era um triunfo da montagem moderna (e venceu o Óscar na categoria), Gente Como a Gente triunfou no prémio principal pela força das interpretações e da direção de Redford, com uma montagem ao serviço da emoção que não se destacou aos olhos do ramo.

11. Driving Miss Daisy (Conduzindo Miss Daisy) - 1990 (62.ª cerimónia) - [GF6816]
    Faltou: Melhor Direção.
    Comentário de contexto: A ausência do realizador Bruce Beresford na categoria de Melhor Direção foi um dos grandes choques da temporada e um sinal de alerta que acabou por ser ignorado. A patética vitória do filme, uma visão branda e confortável sobre as relações raciais no sul dos Estados Unidos, é atribuída ao forte apoio do ramo dos atores e ao desejo da velha guarda da Academia por mensagens positivas e inofensivas, preferindo-o a filmes mais agressivos e politicamente carregados como Nascido em 4 de Julho.

12. Argo - 2013 (85.ª cerimónia) -  [GF12333]
    Faltou: Melhor Direção.
    Comentário de contexto: A não nomeação de Ben Affleck para Melhor Diretor, apesar de ele ter vencido todos os prémios importantes da temporada (incluindo o Globo de Ouro e o Prémio do Sindicato dos Diretores), gerou uma enorme onda de simpatia na indústria. A narrativa de campanha transformou-se numa cruzada para recompensar o filme como um ato de reparação pelo esnobismo ao seu realizador (!). Argo acabou por vencer Melhor Filme e Melhor Montagem (aliás, uma das poucas coisas boas do longa!), provando que um filme amplamente apreciado pode triunfar no sistema de voto preferencial.

13. Birdman - 2015 (87.ª cerimónia) - [GF2296]
    Faltou: Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: Um dos casos mais irónicos da lista. O filme de Alejandro G. Iñárritu foi concebido para parecer um único e ininterrupto plano-sequência. A genialidade do trabalho do montador foi exatamente a de esconder todos os cortes. De forma literal, o ramo dos editores não considerou o filme digno de nomeação, interpretando a proeza como sendo de direção e fotografia (!), e não de manipulação na sala de edição.

14. Green Book (Green Book: O Guia) - 2019 (91.ª cerimónia) - [GF18971]
    Faltou: Melhor Direção.
    Comentário de contexto: A não nomeação do realizador Peter Farrelly, conhecido pelo seu passado em comédias pastelão, foi vista como um sinal de que o filme era frágil do ponto de vista autoral. No entanto, a sua mensagem feel-good sobre amizade e superação de barreiras raciais, ainda que vista por muitos como simplista e mesmo ofensiva, conquistou a preferência da Academia no sistema de voto preferencial, derrotando o favorito da crítica, Roma. A vitória foi um INFAME triunfo da narrativa emocional confortável sobre o rigor técnico.

15. CODA (No Ritmo do Coração) - 2022 (94.ª cerimónia) - [GFXXXX = N/A]
    Faltou: Melhor Direção e Melhor Montagem.
    Comentário de contexto: É o caso mais extremo da era moderna (ecoando Grand Hotel), vencendo Melhor Filme com apenas três nomeações no total (Filme, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante). A ausência da realizadora Sian Heder e do montador nas categorias respectivas é um testemunho de que a sua vitória se baseou na emoção pura e na força da sua mensagem de representatividade sobre a comunidade surda. Uma campanha avassaladora da Apple, aliada à comoção do público e dos votantes, permitiu-lhe ultrapassar o favorito Ataque dos Cães... Uma das vitórias mais infames de todos os tempos sob qualquer perspectiva!

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Estudo Estatístico e Porcentual(%):

Considerando a totalidade das 98 cerimónias do Oscar realizadas até 2026:

Total de vencedores de Melhor Filme: 98
Total desses filmes que falharam a indicação em Direção ou Montagem: 15

Percentual geral: Aproximadamente 15,3 por cento de todos os vencedores de Melhor Filme não conseguiram a trinca: Filme, Direção e Montagem.

Se excluirmos as duas primeiras cerimónias, onde a categoria de Montagem ainda não existia, o número total de cerimónias válidas para uma análise conjunta das duas categorias é de 96. Neste universo, 13 filmes falharam a indicação numa das categorias ou em ambas.

Uma análise mais fina por tipo de ausência revela:

Filmes ausentes apenas em Direção: 5 (Driving Miss Daisy, Argo, Green Book, Wings e Grand Hotel contam aqui, com esses dois últimos anteriores à montagem).

Filmes ausentes apenas em Melhor Montagem: 9 (The Life of Emile Zola, Hamlet, Marty, Tom Jones, A Man for All Seasons, The Godfather Part II, Annie Hall, Ordinary People, Birdman).

Filmes ausentes em ambas as categorias na era pós-montagem: Apenas 1, CODA (2022).

O que eles têm de diferente? Uma Análise de Padrões

Estes 15 filmes dividem-se em dois grupos com características distintas, determinadas pelo tipo de nomeação que falharam.

O grupo dos que falharam a indicação de Melhor Diretor é composto por filmes cujo triunfo é frequentemente atribuído a fatores externos à visão autoral. São, via de regra, obras que a Academia vota com o coração, impulsionadas por uma forte campanha, por uma mensagem social reconfortante ou por uma narrativa de bastidor que gera simpatia. A direção é vista como funcional, colocando o filme ao serviço dos atores e da história, sem uma assinatura visual marcante que mereça destaque.

O grupo dos que falharam a indicação de Melhor Montagem é mais heterogéneo e reúne alguns dos filmes mais aclamados de sempre. A ausência nesta categoria é quase sempre uma anomalia estatística ou uma ironia do ofício. Em vários casos, como em Birdman ou Tom Jones, a montagem era tão inovadora ou tão bem disfarçada que não foi reconhecida pelo ramo mais conservador dos montadores. Noutros, como em O Poderoso Chefão Parte II ou Annie Hall, a concorrência em anos de grandes superproduções técnicas ofuscou o trabalho de montagem, resultando num erro histórico DA ACADEMIA que em nada belisca o estatuto lendário destas obras.

Eles são mais frágeis frente ao teste do tempo?

A resposta a esta pergunta depende estritamente do grupo em que o filme se insere.

O grupo dos filmes que falharam a indicação de Melhor Diretor tende a envelhecer pior. Títulos como Grand Hotel, Driving Miss Daisy e Green Book figuram frequentemente em listas de piores ou mais questionáveis vencedores do Oscar. O seu apelo era conjuntural, fortemente ligado ao zeitgeist de uma época específica e às preferências de um grupo de votantes. Uma vez que o contexto social e cultural se altera, a sua fragilidade técnica e narrativa fica mais exposta.

O grupo dos filmes que falharam a indicação de Melhor Montagem é, na sua maioria, composto por obras bem sucedidas frente ao teste do tempo. Tipicamente são filmes que continuam a ser estudados e celebrados dentro da sétima arte. A ausência da nomeação para montagem é hoje vista como um lapso da Academia, e não como um demérito da obra em si. Estes filmes sobrevivem e prosperam na história do cinema independentemente das escolhas do ramo dos montadores num determinado ano.

Eles são, via de regra, Oscar Bait?

Novamente, a resposta divide-se pelos dois grupos identificados.

Os filmes que falharam a indicação de Melhor Diretor, como Driving Miss Daisy, Green Book e CODA, são frequentemente apontados como exemplos clássicos de Oscar Bait ou isca de Oscar. São produções desenhadas, propositadamente ou não, para agradar aos votantes: abordam temas sociais de forma acessível e não ameaçadora, têm um forte apelo emocional, e apresentam mensagens positivas de superação ou reconciliação. A sua existência parece moldada para conquistar o coração da Academia, mesmo que à custa de algum risco artístico.

Já o grupo dos que falharam a indicação de Melhor Montagem não se enquadra nesta definição. Seria um contrassenso classificar O Poderoso Chefão Parte II, Annie Hall ou mesmo Birdman como isca de Oscar. São filmes ousados, autorais, que em muitos casos desafiaram convenções e arriscaram novas linguagens. A sua vitória não foi o resultado de uma fórmula calculada para agradar, mas sim o reconhecimento, ainda que imperfeito e com lapsos, de obras de qualidade.

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quinta-feira, 5 de março de 2026

CHALLENGERS (2024)

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CHALLENGERS (2024) [131'] [1.85:1] [★★★½]

Luca Guadagnino sempre foi um diretor fascinado pela geografia dos corpos e pela topografia do desejo, mas em Challengers ele encontra uma linguagem completamente nova para explorar esses territórios. Diferente da elegia solar de Call Me by Your Name ou da morbidez gótica de Bones and All, este filme mergulha em um erotismo seco, quase agressivo, mediado pela competição esportiva. O diretor italiano demonstra aqui uma versatilidade impressionante ao abandonar a cadência contemplativa que marcou sua fase inicial em obras como Io Sono l‘Amore para abraçar uma estética frenética, influenciada pela cultura digital e pela música eletrônica. No entanto, sua assinatura autoral permanece intacta na maneira como filma os corpos em tensão, na atenção quase fetichista aos detalhes da pele, do suor e dos tecidos, e na construção de um desejo que nunca encontra resolução completa. Lançado em 2024, o filme chega num momento em que as discussões sobre dinâmicas de poder nas relações afetivas atingem seu ápice, propondo uma reflexão incômoda sobre como a ambição profissional e a intimidade podem se contaminar mutuamente. A quadra de tênis torna-se assim uma arena simbólica não apenas para o esporte, mas para as batalhas silenciosas que definem os relacionamentos contemporâneos, onde vencer e ser amado frequentemente se confundem em um mesmo impulso destrutivo.

A trama de Challengers desenrola-se como um complexo jogo de xadrez emocional cujas peças são Tashi Duncan (Zendaya), Art Donaldson (Mike Faist) e Patrick Zweig (Josh O‘Connor), três tenistas cujas vidas entrelaçam-se ao longo de treze anos. Quando conhecemos Tashi ainda adolescente, ela é um prodígio do tênis feminino, dona de um talento tão magnético que hipnotiza os dois melhores amigos, Art e Patrick, durante o US Open. O que começa como uma disputa juvenil pela atenção da jovem evolui para um triângulo amoroso que definirá suas trajetórias profissionais e pessoais. Após uma lesão devastadora que encerra prematuramente sua carreira nas quadras, Tashi transforma sua obsessão pelo esporte em projeto: fará de Art, o mais disciplinado e emocionalmente dependente dos dois, um campeão absoluto. O casamento com Art parece selar seu destino como técnica e estrategista, mas a reaparição de Patrick, agora um tenista decadente que vive de prêmios modestos, reacende dinâmicas adormecidas. O torneio challenger em Nova Rochelle torna-se o palco onde Tashi inscreve Art para recuperar sua confiança abalada, apenas para reencontrar Patrick do outro lado da rede. A narrativa fragmentada revela gradualmente como cada ponto disputado na partida final carrega o peso de traições antigas, desejos não correspondidos e uma competição que sempre foi menos sobre tênis e mais sobre a posse exclusiva da atenção e do afeto de Tashi. Os temas principais emergem dessa estrutura: a indistinção entre amor e dominação, a natureza performática do desejo, e a maneira como o sucesso profissional pode ser tanto afirmação quanto prisão para aqueles que o perseguem.

A realização técnica de Challengers representa um ponto de inflexão na carreira de Guadagnino, demonstrando seu domínio absoluto sobre a linguagem audiovisual em sua dimensão mais sensorial. Sayombhu Mukdeeprom, colaborador frequente do diretor, concebe uma fotografia que transita entre a luz dourada dos flashbacks juvenis e o neon artificial dos momentos presentes, criando uma paleta cromática que distingue temporalidades sem jamais perder coesão. A câmera, longe de ser um mero instrumento de registro, converte-se em participante ativa do jogo: assumindo a perspectiva da bola em sequências antológicas, penetrando o espaço íntimo entre os tenistas durante as trocas de lado, fragmentando rostos em close-ups que revelam cada microexpressão de desejo ou frustração. A montagem de Marco Costa, premiada no Critics‘ Choice Awards, orquestra os saltos temporais com precisão cirúrgica, estabelecendo paralelos visuais entre momentos distintos que revelam padrões de comportamento nos personagens sem recorrer a diálogos explicativos. Mas é a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, vencedora do Globo de Ouro, que verdadeiramente define a textura emocional do filme: suas batidas techno industriais não acompanham simplesmente as cenas, mas parecem emanar dos próprios corpos em movimento, traduzindo em frequência sonora a tensão sexual que nunca encontra vazão física direta. As atuações complementam essa arquitetura audiovisual com performances de entrega física impressionante: Faist comunica a fragilidade de um campeão construído artificialmente, O‘Connor exala o carisma perigoso de quem sempre jogou pelas bordas do próprio talento, enquanto Zendaya sustenta o centro do furacão com uma interpretação que recusa a simpatia fácil, mantendo Tashi simultaneamente manipuladora e vulnerável, vítima e algoz de sua própria ambição.

Ao final desta jornada vertiginosa, Challengers oferece uma conclusão que é tudo menos convencional. Guadagnino recusa-se a resolver as ambiguidades que pacientemente construiu: o match point final, congelado num momento de êxtase compartilhado entre os três personagens, não revela quem venceu a partida porque essa informação tornou-se irrelevante. O que importa é que, naquele instante de suspensão, Tashi, Art e Patrick reencontram a intensidade que sempre definiu seu relacionamento, uma fusão de rivalidade e intimidade que nenhum relacionamento convencional poderia oferecer. O filme sugere, com ironia e compaixão, que para esses personagens o amor verdadeiro sempre foi a competição em si mesma, não o prêmio disputado. Para a filmografia de Guadagnino, Challengers representa a consolidação de um cinema que abraça o excesso como método de investigação da alma contemporânea, utilizando as ferramentas da cultura pop para acessar questões existenciais profundas. O impacto do filme estende-se para além de sua superfície eletrizante, estabelecendo um diálogo com obras como The Social Network e (mesmo) Whiplash na maneira como examina a psicopatologia da excelência e o preço cobrado daqueles que ousam desejar demais. Guadagnino entrega não apenas um dos filmes mais vibrantes de sua carreira, mas um retrato geracional sobre como, num mundo que transformou tudo em competição, até mesmo o amor precisa ser conquistado ponto a ponto.

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domingo, 1 de março de 2026

WEAPONS (2025)

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WEAPONS (2025) [128'] [2.39:1] [★★★½]

Zach Cregger emergiu como uma força a ser reconhecida no gênero de terror após o sucesso inesperado de Barbarian em 2022, um filme que meio que ampliou as possibilidades narrativas do horror moderno ao subverter expectativas de forma tanto inteligente quanto visceral. Com Weapons, seu segundo longa-metragem como diretor solo, Cregger não apenas evita a temida síndrome do segundo filme, mas expande dramaticamente seu escopo ambicioso, trocando o microcosmo claustrofóbico de uma casa em Detroit por uma tela muito mais ampla e complexa: uma comunidade suburbana na Pensilvânia cujas vidas se entrelaçam em torno de um mistério sobrenatural envolvendo o desaparecimento de várias crianças. Se em Barbarian o diretor explorava os horrores ocultos nas estruturas sociais e na falência moral disfarçada de gentileza hipócrita, aqui ele volta sua lente para questões mais profundamente enraizadas no inconsciente coletivo americano, descrevendo abertamente a obra como uma tentativa de externalizar seus próprios demônios e ansiedades pessoais em entrevistas que antecederam o lançamento. O resultado é uma experiência cinematográfica que recusa terminantemente se enquadrar em categorias simplistas, equilibrando com maestria quase alquímica o humor mais negro possível e o horror mais visceral, ecoando deliberadamente (nas palavras do diretor) a estrutura episódica e a melancolia avassaladora de Magnolia, de Paul Thomas Anderson, uma influência que Cregger nunca fez questão de esconder e que confere ao longa a ambição audaciosa de funcionar como uma verdadeira epopeia de terror sobre o declínio das conexões humanas. Lançado em meados de 2025, num período histórico em que o tecido social estadunidense exibia fraturas particularmente expostas e dolorosas, Weapons chega como um sintoma e ao mesmo tempo uma análise lúcida dessa fragilidade, canalizando a ansiedade coletiva não para um discurso panfletário ou moralista, mas para uma alegoria perturbadora sobre o colapso das estruturas de apoio comunitário e a histeria coletiva que emerge naturalmente da incompreensão diante do luto e do medo do desconhecido, temas que ressoam com uma atualidade quase assustadora num país cada vez mais polarizado e desconfiado de suas próprias instituições.

A narrativa de Weapons se desdobra como um intrincado mosaico emocional que desafia deliberadamente qualquer tentativa de compreensão linear, estruturando-se em seis capítulos distintos dedicados a diferentes personagens cujas trajetórias aparentemente desconexas gradualmente se revelam fios de uma mesma tapeçaria macabra em torno do desaparecimento de dezessete crianças da pequena comunidade. O incidente detonador é, por si só, uma imagem de poderosa e inquietante estranheza que permanece gravada na memória do espectador: na mesma noite, exatamente às 2h17 da madrugada, todas as crianças da turma da professora Justine Gandy (Julia Garner) despertam simultaneamente de seus sonos, abandonam suas casas sem qualquer hesitação e correm em direção à escuridão com os braços estendidos à frente, como se respondessem a um chamado hipnótico e inescapável vindo de nenhum lugar e de todos os lugares ao mesmo tempo. Apenas um aluno, o sensível e observador Alex (Cary Christopher), permanece imune ao chamado, testemunhando o êxodo noturno dos colegas e tornando-se imediatamente uma peça central num mistério que rapidamente transcende os limites de qualquer investigação policial convencional ou explicação racional minimamente satisfatória. A comunidade, tomada por uma histeria crescente que se alimenta do medo e da falta de respostas, elege Justine como bode expiatório perfeito, grafando a palavra witch no seu carro num eco moderno e cruel da Letra Escarlate de Hawthorne, revelando como o preconceito e a necessidade de encontrar um culpado facilmente superam qualquer compromisso com a verdade ou a justiça. O luto mais profundo e a fúria mais cega encontram sua personificação em Archer (Josh Brolin), um pai de família simples cuja obsessão em encontrar o filho desaparecido o consome por completo, colocando-o em rota de colisão inevitável com todos que cruzam seu caminho, especialmente com aqueles que tentam oferecer explicações que não envolvam monstros sobrenaturais. A teia narrativa se expande para incluir um policial atormentado por seus próprios demônios (Alden Ehrenreich) que mantém um caso secreto e complicado com Justine, um jovem viciado em drogas (Austin Abrams) cujos pequenos crimes o conduzem a uma descoberta absolutamente aterrorizante nos arredores da cidade, e o diretor da escola (Benedict Wong) que luta desesperadamente para manter a compostura institucional diante do absolutamente insólito. O tema central que emerge dessa estrutura fragmentada é, portanto, a fragmentação ela mesma: a desintegração progressiva da racionalidade coletiva diante do trauma incompreensível e a monstruosidade parasitária que se alimenta justamente dessa desestruturação emocional e social, utilizando os próprios corpos das crianças como verdadeiras armas biológicas, mísseis teleguiados de uma inocência brutalmente corrompida por forças que escapam a qualquer compreensão humana tradicional.

Para dar vida a esta estrutura narrativa tão ambiciosa quanto arriscada, Cregger conta com um domínio técnico impressionante que revela um amadurecimento expressivo em relação a Barbarian, além de um elenco absolutamente sintonizado com as demandas emocionais e físicas de seus respectivos papéis. A fotografia assinada por Larkin Seiple, amplamente reconhecido por seu trabalho visualmente inventivo e vibrante em Everything Everywhere All at Once, assume aqui uma abordagem mais contida e proposital, frequentemente posicionando a câmera no centro exato da ação para mergulhar o espectador no caos imediato das situações, mas também demonstrando sabedoria ao recuar estrategicamente para observar a devastação silenciosa que se abate sobre os personagens em seus momentos de solidão mais absoluta. A montagem, meticulosamente orquestrada por Joe Murphy, constitui a verdadeira espinha dorsal do filme, costurando as seis perspectivas narrativas com uma precisão quase cirúrgica que lembra (curiosamente) o cinema de Robert Altman (uma das influências iniciais de Paul Thomas Anderson por falar nisso), criando cliffhangers que impulsionam a narrativa sem nunca soar manipulativos ou gratuitos, antes funcionando como ganchos emocionais que aprofundam nosso envolvimento com cada história individual. As atuações merecem destaque especial pela uniformidade do excelente nível apresentado, começando por Julia Garner que transmite uma vulnerabilidade endurecida pela experiência que transforma Justine em muito mais do que uma simples vítima indefinida das circunstâncias, conferindo-lhe agência e complexidade mesmo nos momentos de maior desamparo. Josh Brolin, por sua vez, canaliza uma fúria primal que é ao mesmo tempo assustadora em sua intensidade e profundamente comovente em sua humanidade dilacerada, criando um personagem cujas ações moralmente questionáveis nunca nos permitem esquecer a dor que as motiva. O grande destaque do conjunto, no entanto, recai sobre Amy Madigan na pele de Gladys, a tia enigmática de Alex (e a vilã aqui) cuja presença em cena eletriza cada frame que ocupa. Sua performance constitui uma mistura grotesca e fascinante de humor negro dos mais ácidos e puro terror expressionista, uma figura cadavérica que parece ter escapado diretamente de um filme alemão dos anos 1920 para assombrar os subúrbios americanos contemporâneos, evocando ao mesmo tempo as vilãs exageradas do cinema de repertório e uma humanidade residual que torna sua monstruosidade ainda mais perturbadora. A trilha sonora e o design de som são utilizados com parcimônia exemplar, amplificando o silêncio até que ele se torne quase insuportável e transformando ruídos cotidianos em presságios de horror iminente, preparando o terreno para que a tensão acumulada ao longo de mais de duas horas exploda num terceiro ato catártico e deliberadamente exagerado que troca o suspense psicológico por um banho de sangue quase operístico em sua coreografia e impacto visual.

Ao final desta jornada ambiciosa e deliberadamente caótica pelas profundezas do medo americano contemporâneo, Weapons se firma como uma obra que, embora não atinja a perfeição formal ou narrativa, consolida definitivamente Zach Cregger como uma das vozes mais originais, ousadas e necessárias do terror produzido na última década. O filme oferece um veredicto sombrio e desolador sobre seus personagens e, por extensão, sobre a sociedade que os moldou: num mundo onde as instituições falham rotineiramente em sua função protetora e a comunicação genuína se rompe sob o peso do medo e da desconfiança, o luto não elaborado e a paranoia generalizada criam o terreno fértil perfeito para que um mal ancestral e parasitário prospere sem encontrar resistência organizada. A resolução apresentada, que envolve uma mistura deliberadamente ambígua de bruxaria ancestral e vingança corporal visceral, pode frustrar legitimamente aqueles espectadores que buscavam um mistério lógico e perfeitamente amarrado nos moldes do cinema policial tradicional, mas revela-se perfeitamente coerente com a proposta assumida desde o primeiro frame de funcionar como um conto de fadas macabro sobre o colapso irreversível do sonho americano e das estruturas que supostamente deveriam sustentá-lo. Se Barbarian representava um olhar atento e crítico para o mundo exterior e suas hipocrisias, Weapons constitui um mergulho corajoso nas profundezas do inconsciente coletivo e individual, um filme que em sua conclusão perturbadoramente ambígua sugere que a única maneira verdadeiramente eficaz de derrotar o monstro que ameaça devorar nossas crianças é a criança interior que ainda habita em cada um de nós aprender a devorá-lo de volta, num ciclo de violência e regeneração que não oferece respostas fáceis nem consolos baratos. Este é um passo significativo e impressionante na filmografia ainda em construção de Cregger, não apenas por confirmar de maneira inequívoca que seu sucesso inicial não foi produto do acaso ou de uma conjunção favorável de circunstâncias, mas por demonstrar uma confiança narrativa e uma ambição temática que poucos diretores de seu escalão etário possuem, criando uma experiência cinematográfica que é ao mesmo tempo profundamente perturbadora, surpreendentemente divertida em seus momentos de humor negro e estranhamente edificante em sua recusa em abandonar a esperança mesmo nas circunstâncias mais desesperadoras.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP08 (2026)

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EPISÓDIOS

S01.E08 ∙ The Life of The Stars [*]

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ACASTANHADAS

SFA novamente se aproxima do limiar de 70 minutos (e de literalmente apresentar um longa-metragem como episódio da semana) e o faz mais uma vez pela falta de concisão da sua escrita (e não por ter algo de fato massivo a dizer).

Este episódio torna ainda mais esquecível o episódio anterior (especialmente no quesito: "lidar com as consequências")... Dois episódios poupadores de dinheiro ao extremo em sequência indicam que teremos uma rica despedida para Giamatti no final da temporada?

Os cadetes ainda andam com a moral muito baixa, sem conseguir trabalhar em equipe e a Chanceler decide então colocar Tilly para dar aula de teatro para eles (!). SAM escolhe a peça teatral para estudo "Our Town" e logo colapsa, retornando em seguida ao seu mundo natal (acompanhada pela chanceler e o doutor com um prognóstico terminal). Mas SAM "deixa" a personagem da protagonista Emily Webb para Tarima que retorna a terra ainda claramente afetada pelos eventos do episódio seis e agora como cadete da própria SFA.

Problemas:

(i) Não existe mistério no curso de Tilly (o que é informado anteriormente em tela): É obviamente (mesmo para os cadetes) um Cavalo de Tróia, uma intervenção, uma terapia em grupo. Em particular, a sua abertura de curso é mal escrita e mal atuada (parecendo uma substituta de quinta categoria). A estrutura da aula não se adapta bem ao áudio visual sendo muito cansativa com a audiência antecipando sua conclusão por muito. 

(ii) Por outro lado, não conhecer a peça não traz problemas. É o tipo de obra cuja influencia é reconhecida de uma forma ou de outra dentro da cultura universal. Em particular já inspirou anteriormente em Star Trek e com resultados infinitamente superiores aos desta semana.

(iii) A personagem de Tarima não é particularmente gostável (aristocracia progressiva não deixa de ser aristocracia) e ela está posta numa situação muito difícil porém ainda assim é alvo de algum simpatia apesar do temor pelo ocorrido. Nada disso é bem navegado por Steiner, que mostra dificuldades para o papel... O texto também não ajuda com ela lembrando dos "bons tempos nunca vistos em tela" da Academia de Guerra e atacando fortemente com o clichê de soap opera da "perturbada, sedutora, bêbada" para cima de Mir... Entretanto o episódio não investe no óbvio fato de que ela estar ali já é uma manifestação de resiliência (ela não precisa de nada daquilo e o sinal luminoso do seu inibidor é uma humilhação grotesca e permanente). 

Por outro lado, em Kasq...

SAM jaz "morta"... Aqui que a sopa do melodrama engrossa... O doutor diz que sempre se proibiu de amar novamente após a morte da sua filha holográfica Belle (do episódio Real Life da terceira temporada de Voyager) e que por isso ele sempre foi tão ríspido e frio com SAM (mas SAM sempre pediu uma mentoria e não uma adoção, o que já soa esquisito para a presente história). E o doutor teve (e procurou ter) outros relacionamentos posteriores em Voyager (o que soa ainda mais esquisito em retrospecto)... Por outro lado, o doutor e outros hologramas não tiveram infância/adolescência e conseguiram sobreviver. Qual a diferença aqui? (Fora o infinitamente conveniente diferencial temporal de Kasq!)... SAM é recriada do zero com dois conjuntos de memórias (os seus dias na SFA até aqui mais os 17 anos com o doutor em Kasq). Na prática o doutor se torna o pai de SAM 2.0. O que isso mudará na prática da série?

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(*) O episódio parece explicar o emissor portátil de SAM...

(*) E sim. Os Klingons da Era Kurtzman tem dois pênis e quatro testículos. Pura poesia!

(*) A Era Kurtzman também ensina que deveria haver uma regra que regulasse a criação de parentes de personagens legados.

(*) Com mais temporadas de SFA poucas dúvidas restam de que a herança holográfica de Lewis Zimmerman será tão bagunçada quanto a herança positrônica de Soong.

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

SINNERS (2025)

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SINNERS (2025) [137'] [2.39:1] [★★★½]

Em Sinners, Ryan Coogler realiza um desvio fascinante em sua trajetória, ainda que mantenha vivas as preocupações centrais de seu cinema. Se em Fruitvale Station ele examinava a fragilidade da vida negra diante da violência institucional, e nas franquias Creed e Pantera Negra explorava o peso do legado e a construção de identidades dentro de estruturas opressoras, aqui o diretor migra para o território do horror gótico e do sobrenatural sem jamais abandonar o chão histórico. O longa representa um ponto de virada em sua filmografia justamente por fusionar gêneros populares com uma pesquisa de época meticulosa, resultando em algo que transcende o mero entretenimento. Coogler sempre demonstrou habilidade para extrair dramaticidade de contextos específicos, mas Sinners amplia essa lente ao inserir o fantástico como ferramenta para discutir a apropriação cultural e a resistência negra no sul dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. Lançado em um momento em que o cinema mundial redescobre o potencial político do horror, a obra se alinha com as de Jordan Peele, que utilizam o gênero para escancarar tensões raciais e de gênero, mas avança ao propor uma reflexão sobre a própria natureza da criação artística como território de disputa. Mais do que nunca, Coogler afirma-se como um contador de histórias que recusa fronteiras entre o popular e o erudito, o comercial e o autoral, construindo pontes entre o passado traumático e as ansiedades contemporâneas sobre quem tem direito à narrativa e à memória.

A história de Sinners se desenrola em 1932 no coração do Delta do Mississippi, onde os gêmeos Elijah Smoke Moore e Elias Stack Moore (ambos interpretados por Michael B. Jordan em um tour de force de atuação) retornam à cidade natal depois de anos envolvidos com o crime organizado em Chicago. Carregam consigo não apenas dinheiro sujo, mas o sonho ambicioso de abrir um "juke joint", um estabelecimento clandestino onde a comunidade negra local possa finalmente dançar, beber e ouvir blues sem a vigilância constante dos brancos. Ao lado do primo adolescente Sammie Moore (Miles Caton), um guitarrista prodigioso cuja habilidade parece desafiar qualquer explicação racional, os irmãos enfrentam a desconfiança do pai do rapaz, o pastor Jedidiah (Saul Williams), que enxerga no blues a trilha sonora da perdição espiritual. A comunidade que se forma em torno do bar inclui figuras memoráveis como a cozinheira Annie (Wunmi Mosaku), ex-esposa (ou ainda atual?) de Smoke que pratica rituais herdados dos ancestrais para proteção, o pianista Delta Slim (Delroy Lindo) cujas músicas carregam a memória de gerações, e a jovem (casada e infeliz) cantora Pearline (Jayme Lawson), por quem Sammie desenvolve uma paixão que mistura admiração artística e desejo adolescente. O conflito central, entretanto, irrompe quando o vampiro irlandês Remmick (Jack O'Connell) emerge das sombras acompanhado por sua horda de criaturas pálidas, atraído irresistivelmente pelo poder sobrenatural contido nas composições de Sammie. Inicia-se então um cerco noturno ao juke joint em sua noite inaugural, forçando os sobreviventes a defender não apenas suas vidas físicas, mas sua cultura, sua música e sua memória coletiva. Os vampiros aqui representam figurativamente algo mais sinistro que a simples sede de sangue: desejam sugar a própria alma criativa da comunidade, transformando sua arte em mercadoria vazia, despojada de significado e contexto... Remmick por sua vez (e dentro da trama) procura se reconectar com seu próprio passado e ancestrais através da música, e busca transformar a comunidade local em um exército de mortos-vivos sob seu controle.

A orquestração técnica de Sinners eleva o material a patamares impressionantes, começando pela fotografia de Autumn Durald Arkapaw, rodada em celuloide de 65mm e câmeras IMAX, que confere ao quadro uma textura quase tátil. A sujeira sob as unhas dos personagens, o brilho do suor em suas peles, a poeira que dança nos raios de luz que penetram pelas frestas da madeira, tudo adquire presença física na tela, criando uma imersão sensorial que poucos filmes de gênero alcançam. A paleta cromática é meticulosamente construída para operar em nível psicológico: os personagens negros emergem de fundos terrosos, ocres e acinzentados que evocam resistência e enraizamento, enquanto os vampiros são banhados em azuis gelados e fluorescentes que sugerem desumanização e esterilidade espiritual, com o vermelho surgindo apenas em momentos precisos como prenúncio de violência iminente. A montagem de Michael P. Shawver, colaborador frequente de Coogler, equilibra com precisão cirúrgica os momentos de tensão contida e as explosões de horror visceral, particularmente na sequência antológica em que a música de Sammie invoca, sem que os próprios personagens compreendam plenamente o fenômeno, espectros de músicos negros do passado e do futuro. Por breves instantes, vemos desfilar figuras que remetem a Robert Johnson, Muddy Waters, Jimi Hendrix e até mesmo um DJ contemporâneo com seus toca-discos, numa declaração visual contundente sobre a ancestralidade que atravessa gerações e a natureza cíclica da opressão cultural. A trilha sonora de Ludwig Göransson, outro parceiro habitual do diretor, merece análise à parte: ela transita com naturalidade impressionante do gospel rural ao blues do Delta, da música celta trazida pelos imigrantes irlandeses ao industrial do século XXI, construindo uma tapeçaria sonora que não apenas acompanha, mas frequentemente conduz a experiência emocional do espectador. A direção de Coogler demonstra segurança absoluta ao orquestrar esses elementos, extraindo de Jordan duas performances complementares que acentuam as tensões entre impulsividade e razão, entrega ao destino e luta pela autonomia. Caton, como Sammie, carrega nos ombros frágeis o peso simbólico de toda uma tradição musical, enquanto Lindo e Mosaku oferecem contrapontos de sabedoria ancestral que ancora o fantástico no reconhecível. A cena climática, em que o violão de Sammie é literalmente usado como arma contra Remmick e seus seguidores, sintetiza com elegância brutal a tese central do filme: a arte não é apenas expressão, mas instrumento de resistência e sobrevivência física e espiritual.

Sinners conclui sua trajetória oferecendo um veredicto complexo e deliberadamente ambíguo sobre os temas que mobiliza. O racismo não é apresentado como força puramente externa e violenta, mas também como sedução perigosa que promete imortalidade e reconhecimento em troca da submissão cultural completa. Quando Remmick oferece a liberdade eterna a Sammie, declarando explicitamente "Quero suas histórias, suas canções, sua alma!" ele verbaliza a dinâmica de apropriação que o filme denuncia sem jamais recorrer ao didatismo simplificador. Os personagens principais enfrentam seus conflitos de forma trágica e inescapável: Smoke sacrifica-se heroicamente para proteger o irmão e a comunidade, enquanto Stack, transformado em vampiro contra sua vontade, sobrevive através dos séculos carregando o peso insuportável da culpa e da memória do irmão. No epílogo situado sessenta anos depois, em 1992, encontramos Sammie transformado em um músico idoso e consagrado (interpretado com dignidade pelo lendário guitarrista Buddy Guy), agora capaz de compreender plenamente os eventos sobrenaturais que marcaram sua juventude. Quando Stack e Mary (Hailee Steinfeld), sua companheira de maldição (e também presente na fatídica noite), reaparecem para oferecer-lhe a mesma imortalidade que outrora recusara, Sammie escolhe conscientemente a finitude humana, compreendendo que é precisamente a mortalidade que confere significado e urgência à criação artística. É uma conclusão que reafirma a vida diante da eternidade vazia, a comunidade diante do individualismo predatório, a memória viva diante da apropriação morta. Na filmografia de Ryan Coogler, Sinners representa o passo mais ousado em direção a um cinema de gênero com densidade intelectual e emocional comparável aos grandes clássicos do horror alegórico, provando que é perfeitamente possível conceber blockbusters originais que dialogam profundamente com o passado e o presente sem jamais fazer concessões à complexidade. Mais do que um simples filme de vampiros, a obra revela-se uma meditação profunda sobre o que significa criar, lembrar e resistir quando o mundo ao redor deseja sugar tudo de você, transformando sua dor em entretenimento e sua história em produto. Coogler consolida-se assim como um dos cineastas mais importantes de sua geração, capaz de unir entretenimento de massa e reflexão social com rara felicidade expressiva.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

THE SECRET AGENT (2025)

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THE SECRET AGENT (2025) [161'] [1.85:1] [★★★½]

 Ao longo de sua carreira, Kleber Mendonça Filho consolidou uma filmografia que dissecava o Brasil por meio de suas dinâmicas de classe e violência latente, de O Som ao Redor à alegoria explosiva de Bacurau. Com The Secret Agent, o diretor pernambucano realiza um movimento duplo: aprofunda seu olhar autoral sobre o passado traumático do país, mas o faz através de uma lente formal inédita em sua obra. Se Aquarius e Bacurau lidavam com o contemporâneo ou um futuro distópico, aqui ele se volta para 1977, o coração da ditadura militar, para criar um thriller político de fôlego. O filme difere de seus trabalhos anteriores pela ambição de costurar uma tapeçaria histórica mais ampla, utilizando o gênero de espionagem e o clima de paranoia como veículos para explorar a resistência. No entanto, reforça suas obsessões fundamentais: a arquitetura como expressão de poder, a memória como ato de resistência e a comunidade como último baluarte contra a barbárie. Lançado em um momento de revisão histórica global, o filme ressoa com as ansiedades contemporâneas sobre autoritarismo e a fragilidade das liberdades conquistadas, dialogando diretamente com os fantasmas que ainda assombram a democracia brasileira.

 A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário e especialista em tecnologia que vive sob identidade falsa após ter sua vida ameaçada pelo regime. Durante o feriado de carnaval no Recife, ele busca se reconectar com o filho pequeno, Fernando (Enzo Nunes), e obter passaportes falsos com a ajuda de Elza (Maria Fernanda Cândido) para fugir do país. Através de flashbacks, revela-se que sua perseguição começou após um conflito com Ghirotti (Luciano Chirolli), um poderoso empresário que cortou o financiamento de sua pesquisa na universidade e agora envia dois assassinos de aluguel, Bobbi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Villela), para silenciá-lo definitivamente. O que parece uma narrativa linear de fuga se expande em diversas ramificações: encontros com uma comunidade de refugiados políticos, sobreviventes do Holocausto como o enigmático Hans (Udo Kier), cuja presença adiciona uma camada histórica sobre a perseguição e o exílio, e até mesmo uma digressão sobre uma perna encontrada no estômago de um tubarão, que funciona como uma metáfora brutal da violência que devora corpos e memórias. Essas histórias aparentemente secundárias convergem para um mosaico que expõe a violência de Estado e a teia de cumplicidades entre setores privados e o regime que sustentavam a opressão. A estrutura fragmentada, que culmina num epílogo ambientado décadas depois com uma jovem pesquisadora (Laura Lufesi) investigando o passado por meio de fitas cassete, sublinha os temas principais: a dificuldade da fuga, a corrupção institucionalizada e a necessidade imperiosa de revisitar a história para compreender o presente, num gesto que ecoa a própria função do cinema como arquivo e testemunho.

 É na linguagem audiovisual que a trama ganha sua textura mais rica. A fotografia de Evgenia Alexandrova, filmada em Panavision, imerge o espectador no calor e na decadência do Recife dos anos 1970, utilizando uma paleta de cores que remete aos filmes de gênero da época, criando uma tensão palpável entre a euforia do carnaval e a brutalidade iminente. A montagem, assinada por Matheus Farias e o próprio diretor, que salta entre passado e presente com uma liberdade que alguns críticos chamaram de errática, na verdade serve a um propósito claro: espelhar o estado de alerta e a desorientação de um homem acuado, cuja memória fragmentada é tudo o que lhe resta. Wagner Moura entrega uma atuação magnética e contida, canalizando a paranoia e a dor de um pai que é ao mesmo tempo vítima e peça em um jogo maior que ele não controla completamente, enquanto Maria Fernanda Cândido oferece um contraponto de solidez e mistério. O diretor, ex-crítico de cinema, infunde a obra com referências que vão dos thrillers políticos de Alan J. Pakula, como The Parallax View, ao horror corporal de David Cronenberg, mas as amalgama em uma voz própria, onde a trilha sonora de Tomaz Alves Souza e Mateus Alves jamais sublinha o óbvio, preferindo criar um ruído de fundo incômodo, como a lembrança de um trauma que se recusa a cicatrizar. A direção de arte de Juliano Dornelles recria com precisão a estética dos anos 1970, dos móveis de madeira aos cartazes de cinema, ancorando a narrativa em um realismo que torna a violência ainda mais impactante.

(O longa procura emular os filmes produzidos na época em que se passa a história, utilizando: o uso livre do zoom , varreduras para fazer as transições entre as cenas , tela dividida , foco dividido etc.)

 The Secret Agent oferece um veredicto tão complexo quanto a história que decide contar. Kleber Mendonça Filho não entrega uma mensagem de redenção fácil, mas sim um lembrete de que as feridas da ditadura são profundas e seus ecos ressoam através das gerações, frequentemente orquestrados por interesses privados que se beneficiaram do regime. Para Marcelo, a luta não é apenas pela sobrevivência física, mas pela preservação de sua identidade e da memória de sua falecida esposa, cuja ausência permeia cada decisão. O filme conclui que, em regimes autoritários, a própria ideia de um refúgio seguro é uma ilusão, e a resistência se dá tanto na fuga quanto no ato de testemunhar, seja através de fitas cassete ou do próprio cinema. Para a filmografia de Mendonça Filho, a obra representa um amadurecimento monumental: é a sua declaração mais direta e ambiciosa sobre o Brasil, um painel histórico que solidifica seu lugar não apenas como cronista das mazelas sociais, mas como um legítimo humanista do cinema mundial contemporâneo. É um cinema que exige atenção, mas recompensa com a rara sensação de estar diante de algo verdadeiramente necessário, uma obra que, como os melhores filmes políticos, se recusa a oferecer respostas fáceis, preferindo habitar as ambiguidades da memória e da luta.

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