segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

ANORA (2024)

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ANORA (2024) [139'] [1.66:1] [****]

Sean Baker construiu uma filmografia inconfundível ao longo das últimas duas décadas, fincando sua câmera nos territórios invisibilizados da América e nos corpos que a moralidade convencional prefere ignorar. De Starlet a The Florida Project, passando pelo marco Tangerine e pelo perturbador Red Rocket, o diretor consolidou um método que mescla naturalismo radical, atores não profissionais e uma empatia que recusa qualquer julgamento fácil sobre suas personagens à margem. Com Anora, Baker não apenas reafirma esses pilares autorais como os leva a um novo patamar de sofisticação narrativa e ambição formal. O que distingue fundamentalmente este filme de seus antecessores é a arquitetura de gêneros que ele mobiliza: se antes o diretor operava num registro mais próximo do neorrealismo e do drama de observação, aqui ele constrói uma estrutura híbrida que transita com surpreendente fluidez entre um conto de fadas contemporâneo, uma comédia pastelão digna dos irmãos Marx e mesmo um thriller urbano (!) de tensão crescente. A virada tonal que ocorre quando os capangas invadem a mansão representa um salto no escuro que poucos realizadores arriscariam, mas que Baker executa com controle absoluto, revelando que sua obra sempre comportou uma veia cômica mais explícita do que se supunha. Ao mesmo tempo, Anora reforça seus vícios autorais mais caros ao centralizar mais uma vez uma trabalhadora sexual cuja agência e desejo são examinados sem paternalismo, inserindo-a num ecossistema onde as engrenagens do capitalismo e da herança de classe determinam brutalmente as possibilidades de afeto e ascensão. O filme chega às telas em 2024 num contexto global de acirramento das desigualdades e de questionamento profundo das promessas meritocráticas, dialogando diretamente com uma geração que testemunha o abismo entre o trabalho incessante e a recompensa material, entre o sonho individual e a estrutura que o inviabiliza.

A narrativa se desenrola a partir do encontro entre duas realidades que a lógica social insiste em manter apartadas. Anora, interpretada por uma Mikey Madison em estado de graça, é uma stripper que atende pelo nome profissional de Ani numa boate de Brighton Beach, o enclave russo do Brooklyn. Sua rotina é feita de cálculo frio: cada dança, cada programa, cada sorriso oferecido aos clientes é uma transação que ela controla com precisão, pois Anora sabe que seu corpo e seu tempo são as únicas mercadorias que possui. A aparente normalidade de seus dias é violentamente desestabilizada quando ela conhece Ivan, vivido com carisma irritante por Mark Eydelshteyn, um jovem russo que ostenta uma fortuna cuja origem ele mal parece compreender. Ivan é filho de um oligarca poderosíssimo, mas age como um adolescente perpétuo que usa o dinheiro dos pais para comprar diversão, afeto e a ilusão de liberdade. O que se segue é a encenação de um conto de fadas às avessas: Ivan contrata Anora por uma semana, leva-a para Las Vegas em jatos particulares, cobre-a de presentes e, num impulso que mistura embriaguez, tédio e desejo genuíno de pertencimento, propõe casamento. Anora aceita, e durante alguns dias habita a mansão da família como se fosse sua senhora, acreditando ter finalmente atravessado o portal que separa os que sobrevivem dos que verdadeiramente vivem. A estrutura do conto de fadas, no entanto, é implacavelmente desmantelada quando a notícia chega aos pais de Ivan na Rússia. Para os oligarcas, o casamento do filho com uma stripper não é um escândalo sentimental, mas um problema de ordem prática que precisa ser eliminado com a máxima urgência. Eles enviam três homens para executar a anulação a qualquer custo: Toros, um armênio interpretado por Karren Karagulian que funciona como tutor e faz-tudo da família, o atrapalhado Garnick, papel de Vache Tovmasyan, e o silencioso Igor, a quem Yura Borisov empresta uma presença magnética e ambígua. O conflito que se instala escancara os temas centrais da obra: a impossibilidade de mobilidade social real num sistema onde as classes são fortificadas como castelos, a ilusão do amor romântico como ferramenta de ascensão e a brutalidade com que o poder econômico se impõe quando suas fronteiras são ameaçadas. Anora não é ingênua, ela conhece as regras do jogo e joga melhor que a maioria, mas sua juventude e o desejo humano elementar de pertencer a algum lugar a levam a apostar tudo numa fantasia que os verdadeiros donos do poder jamais permitiriam que se materializasse.

Baker demonstra um domínio impressionante da linguagem cinematográfica para traduzir em imagens e sons esse choque entre universos inconciliáveis. A fotografia de Drew Daniels, capturada no calor e na textura do 35mm, opera uma metamorfose sutil mas decisiva ao longo da projeção. Nos momentos iniciais, ambientados na boate e nos devaneios românticos ao lado de Ivan, a câmera embala as personagens numa luz vaporosa e saturada, onde os tons neon e os reflexos criam uma atmosfera de hedonismo juvenil e possibilidade infinita. É o visual do sonho americano em sua versão mais sedutora e descartável. Quando a ação se desloca para a mansão e, sobretudo, a partir da invasão dos capangas, a fotografia endurece, os contrastes aumentam e os espaços se tornam claustrofóbicos, refletindo o encurralamento progressivo de Anora. A montagem, assinada pelo próprio diretor, é uma aula de controle rítmico: Baker alterna com precisão cirúrgica entre a verborragia cômica dos capangas discutindo entre si, os momentos de silêncio tenso que antecedem explosões de violência e a coreografia caótica das tentativas de fuga de Anora. A sequência central, que se desenrola por quase quarenta minutos dentro da mansão enquanto os três homens tentam subjugar a protagonista, é um tour de force de direção e atuação. A câmera frequentemente opera em planos sequência que colocam o espectador dentro daquele turbilhão, fazendo com que sintamos na pele o desespero, o cansaço e o absurdo da situação. A abordagem remete ao cinema dos irmãos Safdie, especialmente ao desespero urbano de Good Time, mas Baker injeta uma camada extra de tragicomédia que é inteiramente sua, transformando o que poderia ser apenas uma cena de tensão numa reflexão sobre como até a violência de classe é atravessada pelo ridículo e pela incompetência dos executores. As atuações são o alicerce que sustenta todo o edifício: Madison entrega uma performance física arrasadora, alternando uma fragilidade comovente com uma força animalesca que a faz revidar, morder, chutar e gritar como se sua vida dependesse daquela resistência, porque de fato depende. Borisov constrói um Igor que, com poucas palavras e uma economia de gestos impressionante, humaniza o algoz e prepara o terreno para o desfecho mais pungente do filme. Eydelshteyn, por sua vez, encarna com precisão a imaturidade exasperante do herdeiro que nunca precisou arcar com consequências, desaparecendo covardemente quando a realidade bate à porta. A trilha sonora, que mescla pop contemporâneo com ecos da música dance russa, ancora a narrativa num tempo e espaço específicos, ao mesmo tempo que sublinha a alienação das personagens imersas num mundo de prazeres fabricados.

Ao fim da jornada, Anora se revela uma obra que recusa qualquer consolo fácil ou redenção moralizante, oferecendo em seu lugar um veredicto lúcido e doloroso sobre as estruturas que nos atravessam. O filme de Sean Baker conclui que o conto da gata borralheira, no capitalismo tardio, não passa disso mesmo: um conto, uma fantasia vendida às massas para que continuem sonhando enquanto os verdadeiros jogos de poder permanecem inacessíveis. O que resta a Anora não é o príncipe encantado, que foge ao primeiro sinal de problema, nem a fortuna que por um breve instante pareceu tangível. O que resta é a possibilidade mínima, quase insignificante, de um gesto de afeto genuíno vindo de onde menos se esperava. A cena final, em que Anora se senta no banco de trás do carro ao lado de Igor e, após uma tentativa frustrada de consumar a lógica da transação, simplesmente desaba em seu colo num choro convulsivo enquanto ele a embala em silêncio, é uma das sequências mais comoventes do cinema recente. Não há palavras, não há declarações, apenas a constatação de que, às vezes, a única forma de amor possível num mundo despedaçado é aquela que não pode ser comprada nem vendida, mas simplesmente oferecida. Para a filmografia de Sean Baker, Anora representa a consagração definitiva de seu método e a prova irrefutável de que é possível fazer um cinema ao mesmo tempo popular, vibrante, acessível e implacavelmente crítico com as estruturas do capitalismo contemporâneo. O longa reafirma seu olhar inconfundível sobre os que habitam as margens, os que persistem em sonhar mesmo quando o sonho lhes é negado, e os que encontram na solidão compartilhada a única forma de resistência possível. Ao inserir-se no panorama do cinema independente norte-americano, Anora não apenas engrandece a obra de seu realizador como estabelece um novo patamar para o debate sobre classe, gênero e afeto nas telas.

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