segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

CONCLAVE (2024)

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CONCLAVE (2024) [120'] [2.39:1] [★★★]

Conclave surge num panorama cinematográfico de 2024 marcado por profundas interrogações sobre o destino das instituições tradicionais, estabelecendo-se como um thriller de câmara que revisita os mecanismos do poder eclesiástico através de uma lente decididamente contemporânea. Edward Berger, diretor alemão que ascendeu ao estrelato internacional com a visceralidade de sua versão para o clássico All Quiet on the Western Front, empreende aqui um movimento aparentemente contraditório, mas profundamente revelador de suas inquietações autorais: se na trincheira da Primeira Guerra ele dissecava os estertores da máquina bélica e seu efeito desumanizador, nos corredores vaticanos de Conclave ele mantém o mesmo impulso analítico, mas transferindo o campo de batalha para o território da alma e da consciência individual. A obra diferencia-se de seus trabalhos precedentes justamente por operar na chave da contenção expressiva, onde os conflitos se travam em silêncios e olhares furtivos, numa mudança de registro que paradoxalmente reforça sua assinatura autoral mais característica: a precisão quase cirúrgica para dissecar sistemas de poder em franco processo de erosão interna. O diretor demonstra ainda uma versatilidade notável ao transitar do épico bélico para o drama intimista sem perder de vista sua obsessão fundamental, qual seja, a fragilidade das estruturas humanas quando confrontadas com suas próprias contradições. Lançado num contexto global de questionamento das lideranças tradicionais e de ascensão de discursos extremistas em diversas democracias ocidentais, o longa encontra ressonância imediata nas discussões contemporâneas sobre os limites entre fé e política, tradição e necessidade imperiosa de renovação, construindo pontes sutis mas identificáveis entre o microcosmo vaticano e as tensões que atravessam as sociedades seculares contemporâneas.

A trama desenrola-se nos dias imediatamente subsequentes à morte do Papa, quando o recluso e atormentado Cardeal Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes com uma contenção que beira o ascetismo, é incumbido da tarefa hercúlea de supervisionar o conclave que escolherá o novo líder da Igreja Católica Apostólica Romana. O que se segue é um mergulho progressivo nos bastidores desse processo milenar, onde a espiritualidade apregoada dá lugar a um jogo de poder tão complexo e multifacetado quanto qualquer disputa política nos parlamentos seculares, revelando que a púrpura cardinalícia não torna seus portadores imunes às paixões mais terrenas. Lawrence, que carrega o peso de uma fé vacilante e de dúvidas existenciais jamais inteiramente resolvidas, logo descobre que está mediando não apenas almas teoricamente voltadas para o transcendente, mas ambições desmedidas e projetos de poder perfeitamente delineados: de um lado, o progressista Cardeal Bellini, a quem Stanley Tucci confere uma sofisticação cansada e uma relutância que esconde feridas antigas; de outro, o conservador radical Tedesco, encarnado por Sergio Castellitto com uma intensidade que oscila entre o fanatismo e a sinceridade desconcertante; além do nigeriano Adeyemi, vivido por Lucian Msamati, e do canadense Tremblay, interpretado por John Lithgow com a maleabilidade típica de quem transita entre facções com desenvoltura. A chegada do enigmático Cardeal Benitez, figura interpretada por Carlos Diehz com uma serenidade que progressivamente se revela enganadora, introduz uma variável inesperada no tabuleiro: nomeado in pectore pelo Papa falecido e vindo diretamente de uma zona de conflito no Afeganistão, Benitez carrega consigo a experiência do sofrimento real, aquela que os outros cardeais apenas teorizam em seus discursos. Conforme as votações se sucedem na Capela Sistina, num ritual repetitivo que a montagem transforma em progressivo crescendo de tensão, escândalos emergem como bombas de efeito moral cuidadosamente cronometradas: descobre-se que Tremblay foi demitido por corrupção antes mesmo da morte do Pontífice, enquanto Adeyemi é desmascarado por um relacionamento passado com uma irmã, do qual resultou um filho mantido em segredo por décadas. A tese central do filme vai se revelando nessa progressiva desconstrução da fachada de santidade, expondo a fragilidade essencialmente humana por trás das vestes sagradas e dos títulos pomposos, culminando na noite anterior à eleição decisiva, quando um atentado terrorista em Roma força os cardeais a posicionarem-se publicamente, abandonando a retórica abstrata para confrontar a dor concreta. É nesse caldeirão de tensões acumuladas que Benitez emerge como figura de conciliação improvável, sendo eleito Papa sob o nome de Inocêncio, numa reviravolta que parece satisfazer os anseios por renovação. No entanto, a verdadeira revelação, aquela que redefine retroativamente todo o percurso narrativo, ocorre em particular: confrontado por Lawrence sobre consultas médicas nunca realizadas e documentos que contradizem sua biografia oficial, o novo pontífice confessa sua condição intersexo, afirmando-se como criatura de Deus em sua totalidade paradoxal, e nesse gesto de transparência radical devolve ao atormentado Lawrence a centelha de fé que ele julgava irremediavelmente perdida nos labirintos da dúvida e da desilusão institucional.

A realização técnica de Conclave constitui um verdadeiro estudo de caso sobre como a linguagem audiovisual pode amplificar tensões dramáticas sem jamais recorrer ao espetáculo gratuito ou à pirotecnia vazia, operando antes por acumulação sutil e contaminação progressiva dos elementos formais. Berger, em parceria com o diretor de fotografia Stéphane Fontaine, constrói uma estética rigorosamente baseada no enquadramento simétrico e na iluminação que evoca deliberadamente a pintura sacra do Renascimento, com seus claros-escuros dramáticos e sua solenidade compositiva, mas subverte constantemente essa solenidade com uma montagem que introduz ruídos visuais e cortes secos nos momentos de maior agonia psicológica dos personagens, criando um desconforto que se transmite ao espectador quase por contágio epidérmico. A câmera frequentemente isola Lawrence em meio à multidão de cardeais, utilizando a profundidade de campo para acentuar seu isolamento existencial mesmo quando fisicamente rodeado por dezenas de figurantes, num recurso que remete à tradição do expressionismo mas atualizada por uma sensibilidade contemporânea. A trilha sonora composta por Volker Bertelmann, o mesmo parceiro de Berger em All Quiet on the Western Front, merece análise detida: ao mesclar elementos sacros tradicionais com dissonâncias eletrônicas e texturas sonoras industriais, ela cria uma atmosfera de permanente desconforto que traduz com precisão a agonia interna dos personagens, funcionando como contraponto irônico à beleza plástica das imagens e lembrando-nos constantemente que sob a superfície harmoniosa fervilham contradições insolúveis. As atuações constituem o pilar mestre sobre o qual se sustenta todo o edifício narrativo, com Ralph Fiennes entregando um Lawrence de contenção exemplar, cujos conflitos interiores são comunicados por microexpressões faciais e silêncios mais eloquentes que qualquer discurso, numa performance que exige do espectador atenção redobrada aos detalhes mínimos. Stanley Tucci traz para Bellini a sofisticação cansada de quem já testemunhou inúmeras disputas e perdeu a ilusão de que a verdade triunfa por seus próprios méritos, enquanto Isabella Rossellini, mesmo em cenas quantitativamente limitadas como a Irmã Agnes, rouba a atenção sempre que surge em quadro ao personificar a observação silenciosa dos bastidores do poder, aquela que tudo vê mas nada pode interferir abertamente. Carlos Diehz, como Benitez, carrega o peso da revelação final com uma serenidade que beira o transcendente, construindo seu personagem de modo que a surpresa final pareça, em retrospecto, perfeitamente orgânica e inevitável, enquanto Sergio Castellitto oferece o contraponto explosivo como o tradicionalista Tedesco, equilibrando-se na corda bamba entre o vilão caricato e o porta-voz sincero de uma visão de mundo em extinção. A direção de arte merece igualmente encômios pela recriação obsessivamente detalhada dos espaços vaticanos, transformando a Capela Sistina não em mero cenário pitoresco, mas em personagem silencioso que testemunha séculos de história e parece observar, impassível, a pequenez dos dramas humanos que se desenrolam sob seus afrescos imortais, estabelecendo um contraste poderoso entre a permanência da arte e a transitoriedade das ambições individuais.

Ao final da jornada, Conclave oferece um veredicto menos contundente sobre a Igreja enquanto instituição divina do que sobre a Igreja enquanto construção essencialmente humana, falível em sua própria natureza e contraditória em sua própria constituição, propondo uma reflexão que transcende o âmbito eclesiástico para interrogar qualquer sistema de poder baseado na pretensão de infalibilidade. O diretor Edward Berger conduz sua narrativa para uma conclusão deliberadamente ambígua, que desafia o espectador a reconsiderar significados estabelecidos de pureza doutrinária e vocação religiosa, recusando o conforto de resoluções fáceis. Se o filme parece, em determinados momentos de seu percurso, caminhar para uma crítica previsível da hipocrisia eclesiástica e dos escândalos que pontuaram a história recente da instituição, a revelação final do Cardeal Benite(*) redireciona drasticamente o foco para uma reflexão teologicamente mais sofisticada: a verdadeira crise da fé contemporânea não reside primariamente nos escândalos financeiros ou na corrupção moral, mas na recusa obstinada em aceitar a diversidade intrínseca da criação como manifestação legítima do divino, na incapacidade de reconhecer que o sagrado pode habitar formas que escapam às categorias estabelecidas. A decisão final de Lawrence de proteger o segredo do novo papa e, nesse ato de cumplicidade, retomar seu próprio caminho espiritual interrompido, representa a tese central da obra: a fé que sobrevive à dúvida e resiste ao escândalo é qualitativamente mais autêntica que a certeza inabalável mas acrítica, assim como a instituição capaz de abraçar sua própria complexidade mostra-se mais resiliente que aquela que insiste em dogmas incompatíveis com a experiência vivida. Na filmografia de Berger, Conclave consolida sua reputação como diretor capaz de transitar entre gêneros e escalas de produção mantendo uma assinatura autoral focada na dissecação minuciosa de protagonistas posicionados à beira do abismo existencial, confrontados com escolhas que transcendem o âmbito pessoal para adquirir dimensão simbólica. Embora não alcance o impacto visceral e sensorial de seu antecessor imediato, o filme afirma-se como um thriller intelectual de sofisticada arquitetura, utilizando os corredores labirínticos do Vaticano como metáfora espacial para os labirintos da alma humana em sua eterna busca por sentido, num momento histórico em que as antigas certezas desmoronam e a própria noção de verdade se fragmenta em narrativas concorrentes.

(*) Continuamos ambivalentes com relação a sequencia final. Parece uma passo desnecessariamente além do restante tanto tematicamente quanto na construção mecânica de mistérios a serem resolvidos... Entendemos essa decisão (ambos os lados dela) por parte dos realizadores mas divergimos deles mesmo quanto a sua existência.

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