S2.E01 ∙ Hello, Ms. Cobel [***]
S2.E02 ∙ Goodbye, Mrs. Selvig [***]
S2.E03 ∙ Who Is Alive? [***1/2]
S2.E04 ∙ Woe's Hollow [****]
S2.E05 ∙ Trojan's Horse [***]
S2.E06 ∙ Attila [***]
S2.E07 ∙ Chikhai Bardo [****]
S2.E08 ∙ Sweet Vitriol [**]
S2.E09 ∙ The After Hours [***]
S2.E10 ∙ Cold Harbor [****]
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REVIEW
A segunda temporada de Severance, lançada pela Apple TV+ em janeiro de 2025, consolida a série como o projeto mais ambicioso e coerente da carreira de seu criador, Dan Erickson, e de seu principal diretor e produtor executivo, Ben Stiller. Para Erickson, a temporada representa a maturação de uma premissa conceitual que já era marcante em sua filmografia anterior, aprofundando a sátira à cultura corporativa e os dilemas existenciais com uma complexidade narrativa que evita as armadilhas comuns a séries do gênero "puzzle-box" (*). Para Stiller, cuja trajetória alterna comédias ácidas e dramas introspectivos, esta temporada é a síntese de seu interesse pela estilização visual e pelo humor absurdo aplicados a uma narrativa de suspense psicológico de alto escalão. A produção chega após uma pausa de quase três anos, um intervalo que, longe de esfriar o interesse, amplificou a expectativa e permitiu um refinamento considerável. Dentro do panorama televisivo de 2025, marcado por uma saturação de conteúdos de franquias e uma demanda por narrativas originais, a temporada se destaca como um trabalho que eleva a discussão sobre a desumanização do trabalho, a fragmentação da identidade e os limites éticos da tecnologia de forma tão pertinente quanto a primeira, refletindo ansiedades contemporâneas sobre autonomia e controle em uma sociedade cada vez mais digitalizada e monitorada.
(*) (Evita armadilhas como: (i) Colocar mitologia antes dos personagens , (ii) Negligenciar resolução emocional , (iii) Tratar o mistério como um fim em si mesmo etc. ... Severance faz como bem fizeram Twin Peaks e The Leftovers antes dela, por exemplo.)
A narrativa da segunda temporada avança diretamente a partir do cliffhanger explosivo da primeira, com os "innies" do departamento de Refinamento de Macrodados tendo experimentado brevemente o mundo exterior graças ao Protocolo de Hora Extra. Agora, Mark Scout (Adam Scott) está obcecado em resgatar Gemma, sua esposa "falecida" que agora vive como a conselheira de bem-estar senhorita Casey (Dichen Lachman) no subsolo da Lumon. Helly R. (Britt Lower) enfrenta a crise de descobrir que sua "outie" é Helena Eagan, a herdeira destinada a comandar a corporação que oprime sua existência interna. Irving (John Turturro) sofre com a lembrança de seu romance com Burt (Christopher Walken), agora aposentado, enquanto Dylan (Zach Cherry) luta para conciliar a devoção à família que descobriu ter com a lealdade aos colegas. A tensão central reside no projeto "Cold Harbor", uma iniciativa obscura da Lumon que requer a participação conjunta de Mark e Gemma e promete revelar os objetivos finais da empresa. A estrutura episódica, que alterna focos em personagens específicos e inclusive apresenta capítulos totalmente dedicados às versões "innie" ou "outie", é utilizada para dissecar os temas principais: a luta pela autonomia pessoal frente a sistemas de controle total, a natureza da consciência e a pergunta sobre se os "innies" possuem alma e direito à autodeterminação. Os conflitos dos personagens são, portanto, duplos: internos, na batalha por uma identidade coerente, e externos, na resistência contra a máquina opressora da Lumon, que agora se mostra ainda mais expansiva e sinistra com a introdução de novos departamentos e figuras de autoridade, como a extremamente jovem e inquietante gerente Miss Huang (Sarah Bock).
Episódios destaques:
Woes Hollow é um fantástico episódio com quebra de formato em que os quatro "innies" regulares fazem uma espécie de retiro a trabalho porém ao ar livre e sozinhos a beira de um lago congelado (!). Nele Irving desmascara Helena Eagan que estava se passando pela sua "innie" desde o início da temporada. Isso vai precipitar a aposentadoria do "innie" de Irving e futuramente o seu reencontro no mundo real com Burt.
No monumental Chikhai Bardo, talvez o melhor episódio da série até aqui, finalmente conhecemos via flashback a trágica história do relacionamento de Mark e Gemma, um grande amor abalado pelas dificuldades em procriar e que termina com a "morte" dela (pelas vis manobras da Lumon)... No presente, Gemma vive num subsolo da companhia como hospedeira de diversos "innies" (todos diferentes da senhorita Casey) em múltiplos bizarros cenários de pesquisa interconectados com o trabalho interno de Mark na empresa (!).
No estupendo Cold Harbor, último da temporada, Mark conclui a sua tarefa enquanto Gemma desmonta um berço sem resposta emocional (**) (o que concorda com os planos da Lumon)... E numa reviravolta tantalizante o Mark "innie" salva Gemma e retorna para a sua Helly (!).
(**) Ecoando o ocaso do relacionamento dos dois... Ligando as duas cenas temos a canção I'll be seeing you... Esta Castanha adorou!
A realização técnica desta temporada é um instrumento fundamental para concretizar sua atmosfera de estranhamento e seus dilemas psicológicos. A direção, dividida entre Ben Stiller, Uta Briesewitz e Samuel Donovan, mantém o ritmo meticuloso e a sensação de claustrofobia onírica, utilizando planos sequência tensos e enquadramentos assimétricos que reforçam a desconexão entre os mundos interno e externo. A fotografia de Jessica Lee Gagné, Suzie Lavelle e David Lanzenberg cria um contraste visual palpável: o interior da Lumon é um labirinto de brancos frios e luzes fluorescentes, enquanto o mundo exterior é retratado com uma paleta de cores outonais e cinzentas, porém não menos opressiva. A montagem, com transições "glitch" e sobreposições sutis, materializa visualmente a fragmentação da memória. As atuações alcançam níveis excepcionais de complexidade. Adam Scott delineia com precisão cirúrgica as nuances entre a vulnerabilidade de Mark "innie" e a dor contida de Mark "outie". Britt Lower executa a difícil tarefa de criar duas personagens antagônicas – a rebelde Helly e a calculista Helena – com convicção e profundidade emocional. Tramell Tillman, como o gerente (da Lumon) Seth Milchick, rouba cenas com uma mistura de charme teatral e ameaça latente. A trilha sonora eletrônica e minimalista de Theodore Shapiro completa o ambiente, pontuando a tensão e a absurdidade com sons mecânicos e temas melancólicos que ecoam a desconexão dos personagens.
Em conclusão, Severance, segunda temporada, sob a batuta criativa de Dan Erickson e Ben Stiller, não apenas cumpre as altas expectativas geradas pela primeira temporada, mas as supera em ambição e profundidade emocional. O veredicto final sobre seus temas é sombrio porém claro: a busca por integridade em um mundo que privilegia a fragmentação é uma batalha árdua, e a humanidade pode ser a última fronteira contra a lógica despersonalizante do capitalismo tecnológico. Para os personagens principais, a temporada termina com avanços custosos e recuos agonizantes, deixando-os – e ao público – num limbo de esperança cautelosa. O impacto desta temporada consolida Severance como uma das séries mais importantes de sua geração, um farol de originalidade e inteligência narrativa que desafia a audiência a refletir sobre a própria natureza do trabalho, da identidade e da liberdade. Sua influência já pode ser sentida no debate cultural e estabelece um padrão elevadíssimo para a televisão de ficção científica e thriller psicológico, assegurando seu lugar no cânone televisivo contemporâneo enquanto aguardamos, com expectativa renovada, o desfecho prometido na terceira temporada.
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