segunda-feira, 18 de março de 2024

THE ZONE OF INTEREST (2023)

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The Zone of Interest (2023)[105'][1.78:1][****]

Jonathan Glazer, cineasta britânico formado no teatro e nos videoclipes, construiu uma filmografia marcada pela parcimônia e pela recusa em se repetir. Desde sua estreia com o explosivo Sexy Beast, passando pelo melancólico e incompreendido Birth, até a experiência sensorial de Under the Skin, Glazer sempre demonstrou fascínio por personagens à deriva, isolados em bolhas emocionais, e por uma estética que privilegia a sugestão em detrimento da explicação . Em A Zona de Interesse, o diretor leva essas obsessões ao paroxismo ao aplicá-las ao contexto histórico mais documentado e traumático do século XX. Se antes a alienação era existencial, aqui ela se torna moral e cotidiana. Diferentemente de seus filmes anteriores, que ainda guardavam estruturas narrativas recognoscíveis, esta obra opera por acúmulo de detalhes banais, por repetição e pela recusa absoluta em mostrar o horror de maneira direta, criando uma experiência que desafia a categorização. O projeto levou dez anos para ser concretizado, período durante o qual Glazer realizou extensa pesquisa nos arquivos do Museu de Auschwitz, buscando reconstituir com precisão a vida doméstica dos perpetradores a partir de testemunhos de sobreviventes e de pessoas que trabalharam na residência dos Höss . Lançado em 2023, num mundo ainda convulsionado por conflitos identitários, crises migratórias e a normalização de discursos de ódio em diversas democracias, o filme ressoa como um aviso incômodo: o mal não habita apenas mentes monstruosas, mas se aninha confortavelmente no coração do lar, da família e da eficiência burocrática. Glazer, ao filmar o comandante de Auschwitz em seu jardim, não está apenas olhando para o passado; está perguntando, com uma câmera fixa e um ouvido atento, o que estamos normalizando hoje enquanto regamos nossas próprias flores, recusando a confortável ideia de que somos diferentes deles .

A trama, livremente inspirada no romance homônimo de Martin Amis, mas ancorada em figuras históricas reais após Glazer perceber que os personagens ficcionais o distanciavam do que verdadeiramente importava, acompanha o cotidiano do comandante Rudolf Höss (Christian Friedel) e sua família na casa dos sonhos que construíram ao lado do muro de Auschwitz . Enquanto Hedwig (Sandra Hüller), sua esposa, cultiva com orgulho um jardim exuberante, recebe amigas para café e veste casacos de pele confiscados das prisioneiras provenientes do "Kanada" — o depósito de bens roubados dos deportados — o espectador é assaltado por uma paisagem sonora aterrorizante que emana de trás do muro: tiros esporádicos, gritos abafados, o rugido constante dos fornos crematórios e o apito dos trens que chegam com novas levas de vítimas . O principal conflito dramático surge quando Höss é promovido e recebe a ordem de se transferir para Oranienburg, deixando a propriedade. Hedwig, que construiu ali o que chama de seu "paraíso", se recusa terminantemente a sair, pressionando o marido a implorar aos superiores para que ela e os filhos possam permanecer . A visita da mãe de Hedwig, que foge durante a noite horrorizada ao testemunhar de perto a realidade do campo, expõe ainda mais a monstruosidade da indiferença familiar. Paralelamente, inseridas em uma cinematografia térmica e noturna que registra calor em vez de luz, vemos uma jovem polonesa (inspirada em Aleksandra Bystroń-Kołodziejczyk, uma resistente real que Glazer conheceu pessoalmente quando ela tinha noventa anos) arriscar a vida todas as noites para deixar maçãs para os prisioneiros nos canteiros de obras... Os temas principais aqui são a burocratização da morte e a desumanização como pilar do bem-estar privado, exemplificados na figura de Rudolf, que aprova a construção de novos crematórios com a mesma frieza com que lê histórias para os filhos antes de dormir e, ao notar restos humanos no rio onde as crianças brincavam, preocupa-se mais em repreender os subordinados pela negligência do que com as vidas ali extinguidas .

A realização técnica de A Zona de Interesse é um exemplo paradigmático de como a forma pode não apenas servir ao conteúdo, mas constituí-lo. Glazer e o diretor de fotografia Łukasz Żal optaram por um estilo visual que o diretor descreveu como uma espécie de "Big Brother na casa nazista": câmeras fixas estrategicamente posicionadas em até dez pontos da residência, operando simultaneamente e sem qualquer equipe visível no set, permitindo que os atores improvisassem e experimentassem sem saber se estavam sendo filmados em close ou plano aberto . A imagem é quase clínica em sua observação da vida doméstica, utilizando apenas iluminação natural ou prática para evitar qualquer estetização de Auschwitz . Mas é na trilha sonora, concebida pelo sound designer Johnnie Burn, que o verdadeiro filme se desenrola. Burn passou um ano compilando um dossiê de seiscentas páginas sobre eventos relevantes em Auschwitz, testemunhos de sobreviventes e um mapa detalhado do campo para recriar com precisão documental a paisagem auditiva, incluindo a distância e os ecos apropriados dos sons de maquinário industrial, fornos crematórios, tiros da época, cachorros e até vozes humanas de dor — estas últimas inspiradas em gravações de protestos parisienses para simular as vítimas francesas que chegavam ao campo . O som é acusmático, ou seja, ouvimos sem ver a fonte, o que obriga nossa mente a completar as imagens do horror, tornando-nos cúmplices involuntários da imaginação do sofrimento alheio. As atuações de Friedel e Hüller são assustadoramente contidas, evitando qualquer maneirismo de vilania; são pessoas reais em sua trivialidade e falta de autoconsciência moral. A montagem de Paul Watts, diante de mais de oitocentas horas de material bruto, justapõe o idílio e o terror com sutileza cruel, enquanto as incursões da música experimental de Mica Levi surgem como choques abstratos que fraturam a superfície lisa do realismo, lembrando-nos que estamos diante de uma anomalia cinematográfica .

Em seu arremate, A Zona de Interesse oferece um dos momentos mais perturbadores do cinema recente ao transportar o espectador, sem aviso, para o Auschwitz museu dos dias de hoje. Vemos funcionários da limpeza varrendo o chão do que antes era uma câmara de gás e limpando vitrines que exibem montanhas de sapatos e malas das vítimas . Este coda final, que ecoa a imagem de Höss descendo as escadas em um vômito seco de angústia momentos antes, sugere que a "banalidade" pode ter dois lados: a rotina do crime e a rotina da memória. Jonathan Glazer, em seu discurso ao receber o Oscar, deixou claro que o filme não é sobre "olhem o que eles fizeram", mas sobre "olhem o que nós fazemos", alertando contra a apropriação do Holocausto para justificar ocupações e conflitos contemporâneos que produzem vítimas inocentes . O veredicto final do filme sobre seus personagens é o mais cruel possível: eles não são monstros trágicos, mas pessoas medíocres cujo maior pesar é terem que abrir mão do jardim, cuja humanidade foi deformada pela recusa em reconhecer a humanidade alheia . Ao fazer isso, Glazer impacta sua própria obra ao expandir seu universo temático para o campo da ética coletiva, mostrando que sua arte, antes vista como formalista e fria, pode ser o veículo mais potente para um humanismo às avessas. A Zona de Interesse não nos oferece catarse, mas um espelho. E o que vemos nele, por mais que tentemos limpar, nunca desaparece completamente, pois como o diretor mesmo afirmou, trata-se de reconhecer nossa semelhança com os perpetradores, não com as vítimas, e resistir à desumanização que ainda nos cerca.

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