sexta-feira, 19 de agosto de 2011

DEATH (1991-1999)

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ÁLBUNS

01 (1991) Death: Human [****]
02 (1993) Death: Individual Thought Patterns [****]
03 (1995) Death: Symbolic [****]
04 (1998) Death: The Sound Of Perseverence [****]
05 (1999) Control Denied: The Fragile Art Of Existence [****]
 
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PESSOAL

Voz: Chuck Schuldiner (01-04) , Tim Aymar (05). 
 
Guitarra: Chuck Schuldiner.
 
Guitarra: Paul Masvidal (01) , Andy LaRocque (02) , Bobby Koelble (03) , Shannon Hamm (04 , 05).
 
Bateria: Sean Reinert (01) , Gene Hoglan (02, 03) , Richard Christy (04, 05).
 
Baixo: Steve DiGiorgio (01, 02, 05) , Kelly Conlon (03) , Scott Clendenin (04).

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ANÁLISE HISTÓRICA (1991-1999)

Era o início dos anos noventa e o death metal, ainda uma criatura jovem e feroz, já mostrava sinais de que poderia ser muito mais do que uma torrente de distorção e sons guturais. Enquanto o thrash metal das grandes bandas de São Francisco e Nova Iorque começava a conquistar estádios, o underground extremo fervilhava na Flórida, na Suécia e em outros cantos do mundo. Em meio a esse caldeirão, um músico de estatura incomparável, Chuck Schuldiner, preparava a transformação mais radical de sua carreira. O ano de 1991 não apenas viu o lançamento de um álbum que redefiniria o gênero, mas também marcou o início de uma década em que Chuck, talvez um dos cinco maiores compositores da história do heavy metal, deixaria um legado que transcenderia tal brutalidade. O período que vai de 1991 a 1999 abrange os trabalhos de suas duas bandas, Death e Control Denied, e testemunha a evolução de um artista que nunca se contentou com a repetição... Para entender o impacto desse momento, é preciso voltar um pouco antes, logo após o lançamento de Spiritual Healing do Death, em 1990. Chuck sentia-se insatisfeito com as limitações do death metal bruto de então que ele mesmo ajudara a criar. Ele queria mais técnica, mais melodia, mais complexidade. Assim, demitiu o guitarrista James Murphy e foi atrás de jovens promessas que ouviam fusion e jazz. Encontrou Paul Masvidal e Sean Reinert, ambos do Cynic, e também chamou o baixista Steve DiGiorgio, um virtuoso do baixo sem trastes. Esse quarteto entraria no estúdio Morrisound, em Tampa, e produziria algo assombroso.

A virada técnica e artística se materializou em Human, de 1991, mas a história dos bastidores daquele álbum revela o perfeccionismo que orbitava a personalidade forte de Chuck. Durante a mixagem, Steve DiGiorgio ficou furioso com o volume baixo de seu instrumento na mesa de som. O produtor Scott Burns insistia em sua visão, até que DiGiorgio, num acesso de ira criativa, tomou o console e ajustou os níveis ele mesmo. O resultado final foi um compromisso tenso, e as fitas mestras originais acabaram perdidas, o que décadas depois levaria a um remix completo. Esse tipo de anedota pontua a atmosfera de busca incessante pela perfeição que rondava Chuck... Enquanto isso, o cenário do rock mundial vivia a ascensão do grunge com Nirvana e Pearl Jam, e o metal se fragmentava. O Pantera dominava com o groove metal, o Metallica lançava o Black Album, atingindo um público mainstream pela primeira vez, enquanto outras bandas grandes sonhavam com o mesmo. No extremo oposto, o death metal técnico ganhava corpo com obras primas como Unquestionable Presence, do Atheist, e Focus, do Cynic (ainda inédito). O Death, porém, estava à frente de todos. Chuck não apenas influenciou essas bandas, mas também foi influenciado por elas e por grupos de prog metal como Watchtower e Queensrÿche (entre tantas outras). A partir de 1991, o Death se tornaria a referência máxima para o que se chamaria de death metal técnico e, mais adiante influenciaria o death metal melódico (de forma indireta e estrutural, vide o álbum HeartWork 1993 do Carcass, por exemplo)... 

Os três bateristas que passaram pela banda nesse período são capítulos à parte. Sean Reinert, com apenas vinte anos em 1991, revolucionou a bateria no metal extremo ao trazer uma abordagem inspirada no jazz fusion de Billy Cobham e Tony Williams (e uma "leveza de toque" completamente inédita no metal). Seus fills criativos e o uso dinâmico dos pratos abriram caminho para uma geração de músicos que queriam tocar death metal com a precisão de um conservatório. Ele influenciou desde bateristas como Thomas Haake (por existir e estruturalmente com as suas contra melodias rítmicas) até o seu próprio sucessor na banda, Gene Hoglan... Hoglan, que entrou em 1993, era conhecido como o Relógio Atômico por sua precisão robótica e sua velocidade estonteante com os pés. Sua passagem pelo Death resultou em dois álbuns monumentais e sua influência ecoa em praticamente todo baterista de metal progressivo/técnico/extremo que veio depois (mais do que lendário no gênero!), de Dirk Verbeuren a Mario Duplantier... Já Richard Christy, o terceiro grande nome, assumiu as baquetas em 1998 e trouxe uma mistura de potência bruta e complexidade rítmica que desafiaria a compreensão até dos músicos mais experientes. Christy, que mais tarde se tornaria uma personalidade do rádio nos Estados Unidos, também deixou sua marca no Control Denied... Paralelamente, o baixo sem trastes de Steve DiGiorgio se tornou uma assinatura sonora. O timbre cantante e os glissandos (slides) característicos do instrumento deram ao Death uma atmosfera progressiva e melancólica que nenhuma outra banda conseguia reproduzir. DiGiorgio é, até hoje, uma das maiores influências para baixistas de metal que buscam romper com o papel meramente rítmico do instrumento.

A jornada de 1991 a 1999 é pontuada por momentos marcantes e por uma sombra que começaria a se alongar no final da década... Em 1993, com Individual Thought Patterns, Chuck trouxe o guitarrista neo clássico Andy LaRocque, do King Diamond, para as guitarras, e a banda soou ainda mais técnica e melódica (menos jazzista e mais metálica do que o álbum anterior). Em 1995, o lançamento de Symbolic foi recebido com hostilidade por parte dos fãs mais radicais, que achavam o som melódico e limpo demais. Gene Hoglan recorda que receberam cartas de ódio perguntando o que haviam feito com a banda favorita deles. A ironia do destino fez com que, anos depois, Symbolic fosse aclamado como um dos maiores álbuns de todos os tempos no gênero... Chuck, porém, já olhava para frente. Desde pelo menos 1993, ele falava em entrevistas sobre o desejo de ter um vocalista poderoso no estilo de Rob Halford ou Ronnie James Dio. Esse sonho começou a se materializar em 1995, quando ele compôs riffs específicos para um projeto paralelo que chamaria de Control Denied. A ideia era fazer um metal melódico e progressivo com vocais limpos, deixando o Death em hiato. A gravadora Roadrunner Records, porém, não via com bons olhos a mudança, e o relacionamento se desgastou. Chuck então assinou com a Nuclear Blast e colocou eventualmente o plano em ação. Reuniu o guitarrista Shannon Hamm, o baterista Richard Christy, o baixista Steve DiGiorgio (de volta) e o vocalista de ofício Tim Aymar. O resultado foi The Fragile Art of Existence, lançado em maio de 1999 (mas notem que o Death ainda lançou, um ano antes, The Sound Of Perseverence, pela NB, outro clássico!)... Na mesma semana do lançamento de 1999, no dia treze de maio, Chuck completava trinta e dois anos e recebia um diagnóstico devastador: um glioma de alto grau, um tumor cerebral maligno e agressivo localizado no tronco cerebral. A notícia caiu como uma bomba na comunidade do metal. Chuck não tinha plano de saúde, e os custos do tratamento, que incluíam radioterapia e cirurgias, eram astronômicos. Imediatamente, uma campanha de arrecadação de fundos foi organizada por fãs e amigos, com shows beneficentes em várias partes do mundo. A doença não o impediu de continuar compondo e até mesmo de planejar um segundo álbum do Control Denied, que infelizmente nunca seria finalizado. Chuck Schuldiner faleceu em treze de dezembro de 2001, deixando um vazio imenso. Sua obra, porém, jamais será esquecida. Ele não foi apenas o Pai do Death Metal – título que ele próprio recusava, preferindo dar crédito nisso ao Possessed – mas sim um compositor de estatura clássica, cuja música transcende rótulos e gerações. O legado que ele deixou entre 1991 e 1999 é a prova viva de que a evolução artística e a integridade criativa podem coexistir com a mais pura violência sonora... Dez anos para mudar o mundo!

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DISCOGRAFIA (1991-1999)

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Death: Human (1991)

O primeiro grande marco desse período é o álbum Human, lançado em outubro de 1991. O mundo do rock vivia um momento de transição. O thrash metal (cada vez mais massageado) atingia seu auge comercial com o Metallica e o Megadeth, enquanto o grunge explodia com Nevermind, do Nirvana, e Ten, do Pearl Jam. No underground, o death metal ainda era visto como uma curiosidade mórbida... Foi nesse cenário que Chuck Schuldiner, insatisfeito com a direção puramente brutal do gênero, decidiu contratar músicos que pensavam como ele. Chuck, Paul Masvidal e Sean Reinert, do Cynic, e Steve DiGiorgio, um baixista que ousava usar um instrumento sem trastes no meio da distorção (!), entraram em estúdio. O resultado foi um álbum que soa como uma declaração de princípios... A faixa de abertura, Flattening of Emotions, já começa com um riff técnico e uma bateria que não se limita a acelerar protocolarmente e sim a criar camadas rítmicas. A letra fala sobre o controle das emoções, um tema introspectivo que contrastava com o horror gore dos primeiros discos. Lack of Comprehension tornou-se um clássico instantâneo, com seu refrão melódico e um belo solo de guitarra que mostrava a influência do rock progressivo. A música Suicide Machine, com sua letra angustiada sobre o vício e a autodestruição, prossegue trazendo uma sensação de catarse. Mas é na faixa instrumental Cosmic Sea que o baixo sem trastes de DiGiorgio brilha de fato, criando atmosferas que lembram o fusion (Return to Forever, talvez?). A produção, ainda que um tanto limitada, conseguiu capturar a energia de uma banda que estava redefinindo os limites do metal extremo. Cada música do Human tem uma identidade própria. Secret Face explora ritmos assimétricos enquanto Together as One é uma explosão de dois minutos de concisão pedagógica. O álbum, que dura pouco mais de meia hora, é denso e direto ao ponto. Chuck dividiu os vocais entre guturais mais rasgados e alguns momentos quase limpos, antecipando o que viria nos anos seguintes. A recepção da crítica foi curiosamente positiva, mas muitos fãs antigos torceram o nariz, sentindo falta da brutalidade crua de Leprosy (por exemplo). O tempo, porém, mostrou que Human era um divisor de águas. Ele influenciou diretamente o surgimento do death metal técnico e abriu as portas para bandas como Atheist, Pestilence e, mais tarde, Opeth e Gojira. O legado de Human está em cada banda que, nos anos seguintes, decidiu que o metal extremo podia ser tão complexo quanto a música clássica ou o jazz. Sean Reinert, com sua atitude de "Dave Weckl tocando Death Metal", foi revolucionário,  tornando-se uma referência para todos que queriam tocar metal extremo com EXTREMA musicalidade nos anos vindouros. E Chuck, mais uma vez, provou que não se curvaria às expectativas de ninguém... Dez anos para mudar o mundo!

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Death: Individual Thought Patterns (1993)

Dois anos depois, em junho de 1993, o Death lançou Individual Thought Patterns. O cenário do rock havia mudado. O grunge estava no auge, mas o metal começava a se ramificar. O Pantera lançara Vulgar Display of Power, e o groove metal e afins dominavam as rádios. No underground, o death metal melódico começava a dar seus primeiros passos na Suécia com bandas como In Flames e At the Gates. Chuck, porém, não estava interessado em seguir modas. Ele reformulou completamente a formação. Paul Masvidal e Sean Reinert saíram para se dedicar ao Cynic, e Chuck trouxe dois monstros sagrados: o guitarrista Andy LaRocque, conhecido por seu trabalho no King Diamond, e o baterista Gene Hoglan, que vinha do Dark Angel e era apelidado de Relógio Atômico por sua precisão cirúrgica. Steve DiGiorgio retornou ao baixo, e sua mixagem foi elevada no estúdio, dando ao som sem trastes um protagonismo inédito... O álbum começa com Overactive Imagination, uma música que alterna passagens ultrarrápidas com momentos de calma enganosa. A letra fala sobre a mente que não para, e a música reflete essa agitação. In Human Form explora a desumanização da sociedade, com riffs que parecem se dobrar sobre si mesmos. Jealousy é um turbilhão de mudanças de andamento e solos de guitarra que duelam entre si. A faixa-título, Individual Thought Patterns, é um hino à liberdade de pensar por si mesmo, e seu refrão melódico ficou gravado na mente de uma geração. Destiny, com sua introdução quase jazzística no baixo, mostra a influência de músicos como Jaco Pastorius. Out of Touch trapaceia com o ouvinte através de compassos ímpares. The Philosopher é talvez a música mais famosa do álbum, com seu riff principal inconfundível e uma letra que critica a arrogância intelectual. Gene Hoglan entrega uma performance estonteante, com fills de bateria que parecem desafiar a gravidade. Andy LaRocque e Chuck trocam solos que combinam velocidade e melodia de uma forma que poucas bandas de death metal conseguiram igualar. A produção, a cargo de Scott Burns e do próprio Chuck, deu ao álbum um som mais limpo e definido que o do Human, permitindo que cada detalhe fosse ouvido. Individual Thought Patterns foi recebido com entusiasmo pela cena underground, mas não alcançou o sucesso comercial que a gravadora esperava. Ainda assim, sua influência foi imensa. O uso do baixo sem trastes se tornou uma marca registrada do death metal técnico, e a abordagem de Hoglan inspirou virtualmente todos os bateristas do gênero. O álbum também mostrou que Chuck não tinha medo de deixar o metal de lado por alguns segundos para explorar harmonias mais suaves. A faixa instrumental Cosmic Sea, do álbum anterior, era um prenúncio; aqui, a faixa The Philosopher tem um solo de baixo que poderia estar em um disco de fusion. Individual Thought Patterns consolidou o Death como a banda mais inovadora do gênero e preparou o terreno para a obra-prima que viria a seguir... Dez anos para mudar o mundo!

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Death: Symbolic (1995)

Março de 1995 trouxe Symbolic, um álbum que, ironicamente, foi odiado por muitos fãs no momento de seu lançamento. Gene Hoglan recorda que as cartas de ódio chegavam aos montes. A acusação era sempre a mesma: o Death havia ficado melódico demais, limpo demais, traindo as raízes do death metal. O contexto musical externo, porém, era outro. O rock dos anos noventa vivia a era do pós-grunge, com bandas como Bush e Candlebox, enquanto o metal alternativo de bandas como Korn e Deftones começava a ganhar força. O metal tradicional parecia em declínio. Chuck, porém, seguiu seu caminho. Ele montou uma nova formação: o guitarrista Bobby Koelble, o baixista Kelly Conlon e o retorno de Gene Hoglan na bateria. A produção ficou a cargo de Jim Morris, que deu ao som uma clareza e uma riqueza de detalhes que nenhum outro álbum do Death havia tido... A faixa de abertura, Symbolic, é um hino melódico que começa com um riff de guitarra limpa antes de explodir em distorção. A letra fala sobre a perda da inocência e a passagem do tempo, um tema que ressoaria profundamente após a morte prematura de Chuck. Zero Tolerance é uma das músicas mais diretas do álbum, com um refrão que gruda na cabeça e um solo de guitarra que mescla técnica e sentimento. Empty Words começa com uma linha de baixo marcante e constrói uma atmosfera sombria antes de desabar em peso. Crystal Mountain é frequentemente citada como uma das melhores músicas de toda a carreira de Chuck. Seu riff principal é instantaneamente reconhecível, e a letra, que critica o fanatismo religioso, é das mais afiadas que ele escreveu. Misanthrope, com seus quase seis minutos, é um estudo sobre a misantropia e o isolamento, com mudanças de andamento que desafiam o ouvinte a acompanhar. Perennial Quest encerra o álbum de forma épica, com uma introdução de guitarra acústica e uma melodia que parece flutuar acima da brutalidade. As outras faixas, como Without Judgment e 1.000 Eyes, mantêm o nível altíssimo, com letras que exploram a alienação e a vigilância social. Cada música do Symbolic tem algo único a oferecer. A produção de Jim Morris destacou cada nuança do baixo, cada virada da bateria de Hoglan e cada harmonização de guitarras. A voz de Chuck, ainda gutural, ganhou um tom mais compreensível e expressivo. A recepção negativa inicial não impediu que o álbum, com o passar dos anos, fosse reavaliado. Hoje, Symbolic é unanimemente considerado um dos maiores álbuns de death metal de todos os tempos, e muitos o colocam no mesmo patamar de obras-primas como Master of Puppets e Reign in Blood. Sua influência se estendeu para além do metal extremo, alcançando bandas de rock progressivo e até de pós-rock. O uso da melodia como ferramenta de expressão, em vez de mero adorno, tornou-se uma lição para músicos de todos os gêneros. Chuck, que nunca se importou com o que os outros pensavam, estava mais uma vez certo... Dez anos para mudar o mundo!

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Death: The Sound of Perseverance (1998)

Após o Symbolic, Chuck decidiu colocar o Death em hiato. Ele queria se dedicar ao Control Denied, seu projeto de metal melódico com vocais limpos. No entanto, a gravadora Roadrunner Records não apoiou a ideia, e a relação se rompeu. Chuck assinou com a Nuclear Blast e começou a trabalhar no que seria o último álbum do Death, The Sound of Perseverance, lançado em agosto de 1998. O mundo do rock, naquele ano, assistia ao auge do nu metal com bandas como Korn, Limp Bizkit e o recém-surgido Slipknot. O metal extremo estava fragmentado, e o death metal tradicional perdia espaço. Chuck, porém, não estava nem aí para as tendências. Ele montou uma formação completamente nova: o guitarrista Shannon Hamm, o baixista Scott Clendenin e o baterista Richard Christy. E decidiu fazer algo que ninguém esperava: mudar completamente sua técnica vocal. Em vez dos guturais graves e rasgados que o consagraram, Chuck passou a usar um agudo rasgado e cheio de vibrato, inspirado em Rob Halford, do Judas Priest... A abertura do álbum, Scavenger of Human Sorrow, já mostra a nova abordagem: a música é técnica e brutal, mas a voz de Chuck soa como um grito de desespero melódico. Bite the Pain, com sua letra autobiográfica sobre a luta contra a doença e a adversidade, é uma das composições mais emocionantes de sua carreira. Spirit Crusher, que se tornaria um clássico póstumo, tem um refrão grudento e um solo de guitarra que é uma verdadeira aula de técnica. A faixa instrumental Voice of the Soul é um dos momentos mais belos de toda a discografia do Death. Sem vocais, apenas guitarras limpas e distorcidas alternando-se em uma melodia de partir o coração, a música mostra que Chuck era muito mais do que um músico de metal extremo – ele era um compositor capaz de transmitir emoções profundas sem uma única palavra. A música A Moment of Clarity, com sua letra sobre a busca pela verdade interior, tem uma estrutura complexa que alterna passagens lentas e rápidas. Flesh and the Power It Holds critica a corrupção e o abuso de poder, com riffs que parecem uma dança mecânica. O álbum termina com um cover de Painkiller, do Judas Priest, uma escolha ousada que demonstra a admiração de Chuck pelo metal tradicional. A versão do Death é mais pesada e técnica que a original, mas mantém a essência melódica e a energia do clássico de 1990. A recepção de The Sound of Perseverance foi mista. Muitos fãs estranharam a nova voz de Chuck, enquanto outros aplaudiram a coragem de inovar. Com o tempo, o álbum ganhou status de cult e hoje é considerado uma obra-prima do metal progressivo. A bateria de Richard Christy é um show à parte, com padrões rítmicos que desafiam a classificação. O baixo de Scott Clendenin, embora não tenha o destaque do baixo sem trastes de DiGiorgio, é sólido e preciso. As guitarras de Shannon Hamm e Chuck criam uma tapeçaria sonora densa e cheia de camadas. The Sound of Perseverance influenciou diretamente o surgimento do death metal progressivo dos anos 2000, com bandas como Opeth, Between the Buried and Me e Necrophagist citando-o como referência. O legado do álbum está em sua coragem de romper com o passado e abraçar o novo, mesmo que isso significasse perder fãs pelo caminho. Chuck Schuldiner nunca foi um artista que buscava agradar; ele buscava a verdade, e esse álbum é a expressão máxima dessa busca. Dez anos para mudar o mundo!

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Control Denied: The Fragile Art of Existence (1999)

O último capítulo da jornada musical de Chuck dentro do período de 1991 a 1999 é The Fragile Art of Existence, do Control Denied, lançado em maio de 1999. O projeto era o sonho antigo de Chuck: fazer um álbum de heavy metal melódico e progressivo com vocais limpos, sem os guturais do death metal. As composições foram escritas em sua maioria durante os anos de 1995 e 1996, muitas delas originalmente pensadas para o Death, mas guardadas para o projeto paralelo. Chuck recrutou o guitarrista Shannon Hamm e o baterista Richard Christy, que já haviam trabalhado com ele no The Sound of Perseverance, e trouxe de volta o baixista Steve DiGiorgio. Para os vocais, ele escolheu Tim Aymar, um cantor de power metal com alcance impressionante e estilo inspirado em Bruce Dickinson e Rob Halford. O álbum abre com Consumed, uma música que já começa com um riff de guitarra melódico e a voz poderosa de Aymar. A letra fala sobre ser consumido pelas próprias paixões e obsessões. A faixa-título, The Fragile Art of Existence, é uma das mais longas e complexas do repertório, com mudanças de andamento e harmonias que lembram o Queensrÿche dos bons tempos. What If...? especula sobre as possibilidades da vida, com um refrão pegajoso e um solo de guitarra que é puro virtuosismo. When the Link Becomes Missing é uma música mais pesada, com riffs que remetem ao death metal técnico, mas com vocais limpos que a transformam em algo único. Expect the Unexpected, como o nome sugere, é cheia de reviravoltas rítmicas e melódicas. Belief é uma balada pesada, com letra sobre a fé e a dúvida. A música mais curta do álbum, Cut Down, é um soco de dois minutos e meio que não perde tempo. Breaking the Broken encerra o álbum com uma energia positiva, letra sobre superação e um refrão que fica na cabeça. A produção, a cargo de Jim Morris, é cristalina, dando destaque para cada nota do baixo sem trastes de DiGiorgio e para a bateria precisa de Christy. A guitarra de Shannon Hamm e Chuck cria harmonias que lembram o Iron Maiden em seus melhores momentos, mas com uma complexidade rítmica típica do death metal. A voz de Tim Aymar é poderosa e versátil, alternando entre tons agudos e médios com facilidade. O lançamento de The Fragile Art of Existence ocorreu na mesma semana em que Chuck recebeu o diagnóstico de seu tumor cerebral. A ironia cruel do destino fez com que o álbum, que representava um novo começo, fosse ofuscado pela doença. A recepção da crítica foi positiva, e muitos consideraram o trabalho um dos melhores do ano no gênero power metal progressivo. No entanto, a falta de uma turnê de divulgação, devido ao tratamento de Chuck, limitou seu alcance. Com a morte de Chuck em 2001, o projeto Control Denied ficou em suspenso. Um segundo álbum, chamado When Machine and Man Collide, ficou incompleto, embora rascunhos e demos tenham circulado entre os fãs. O legado de The Fragile Art of Existence é o de mostrar que Chuck Schuldiner não era apenas um músico de death metal; ele era um compositor de heavy metal em seu sentido mais amplo, capaz de transitar entre a brutalidade e a melodia com igual maestria. O álbum influenciou bandas de power metal progressivo como Symphony X e de metal melódico extremo como Scar Symmetry. Mais do que isso, ele serviu como testamento da versatilidade artística de Chuck, que, mesmo diante da morte iminente, nunca parou de criar. Dez anos para mudar o mundo!

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CHUCK SCHULDINER (1967 - 2001)

Ao final desse período de nove anos, Chuck Schuldiner deixou um legado que poucos músicos em qualquer gênero conseguiram igualar. Ele não foi apenas o Pai do Death Metal – título que ele recusava com humildade – mas sim um dos cinco maiores compositores da história do heavy metal. Sua música transcendeu rótulos e gerações, e sua influência pode ser sentida em bandas que vão do metal extremo ao rock progressivo, passando pelo pós-rock e até pelo jazz fusion. A história da banda Death e do projeto Control Denied entre 1991 e 1999 é a história de um artista que se recusou a se repetir, que desafiou os fãs, as gravadoras e as tendências, e que, mesmo quando a doença o consumia, continuou a compor com a mesma paixão e integridade de sempre. Os três bateristas – Sean Reinert, Gene Hoglan e Richard Christy – tornaram-se lendas por direito próprio, e o uso do baixo sem trastes por Steve DiGiorgio abriu caminhos que ninguém imaginava. Os álbuns Human, Individual Thought Patterns, Symbolic, The Sound of Perseverance e The Fragile Art of Existence são pilares de uma discografia impecável. E a memória de Chuck, que se foi em treze de dezembro de 2001, continua viva em cada riff, em cada letra, em cada nota que ecoa até hoje nos corações dos fãs. Que este artigo sirva como uma reverência merecida a uma figura ímpar, cuja obra é eterna.

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