sexta-feira, 10 de abril de 2026

THE BOYS S5 (2026)

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EPISÓDIOS

01  Fifteen Inches of Sheer Dynamite [***]
02 Teenage Kix [***]
03 Every One of You Son of Bitches [***]
04 King Of Hell [**]
05 One Shots [**]
06 Though The Heavens Fall [***1/2]
07 The Frenchman, the Female, and the Man Called Mother's Milk [*]

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REVIEWS (MINIS E COMPLETOS)

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5X01 e 5X02: A dobradinha de estreia da quinta e última temporada de The Boys, que reúne os episódios Fifteen Inches of Sheer Dynamite e Teenage Kix, entrega um coquetel molotov de brutalidade gráfica, sátira política cortante (já virtualmente sem filtros) e desolação emocional que, embora carregue o peso inevitável da repetição estrutural e uma (mais do que) ligeira fadiga típica de ciclos derradeiros, compensa com sobras ao elevar exponencialmente as apostas por meio de baixas dilacerantes e uma sensação onipresente de que ninguém emergirá incólume do confronto terminal contra a tirania divinizada de um Homelander mais instável, paranoico e letal do que em qualquer ponto anterior da série... A narrativa retoma os acontecimentos doze meses após o caos do finale passado, arremessando o espectador de imediato para dentro de uma distopia americana (à imagem de Homelander) onde os integrantes remanescentes da equipe titular — Hughie Campbell, Mother's Milk e Frenchie — definham nos recém-instituídos "Freedom Camps" ("Campos de Liberdade") da Vought, enquanto um Billy Butcher devastado pela progressão do seu Tumor cerebral e consumido por um ódio que o metamorfoseia na versão mais perigosa e moralmente cinzenta de si mesmo, orquestra uma evasão frenética ao lado de Starlight (Annie January), cuja cruzada pessoal gira em torno de expor a farsa midiática (por exemplo) do sequestro do Voo 37 (além do excruciante e permanente sacrifício psicológico de ser a face pública da oposição a Homelander), e de uma Kimiko que, finalmente vocalizando (!) seus traumas em um discurso dilacerante, completa o núcleo de resistência externa. O primeiro episódio atinge seu clímax catártico em uma das sequências de ação mais tensas e de maior custo dramático da série, pontuada pelo sacrifício redentor de A-Train (que garante a fuga do trio!), cuja morte às mãos de um Homelander publicamente humilhado e psicologicamente fragmentado — que gargalha enquanto o rotula de "loser" em seu estertor final — não apenas confere à trama um luto genuíno e um senso de urgência renovado, mas redefine os contornos da vilania ao escancarar a fragilidade narcísica do antagonista... Já Teenage Kix, longe de ser um mero epílogo, opera como um contraponto mais cadenciado porém igualmente perturbador, focando na logística macabra da resistência refugiada em uma escola abandonada; é aqui que testemunhamos a aplicação inconclusiva e eticamente tortuosa do vírus letal desenvolvido para o genocídio dos Supers sobre a cobaia de pele pétrea conhecida como Rock Hard, experimento que expõe fissuras talvez irreconciliáveis entre um Hughie apegado aos resquícios de sua humanidade e uma Starlight aqui disposta a sacrificar milhares para salvar bilhões (ela inclusa!), ao mesmo tempo em que a narrativa introduz a influência nefasta do pastor-super Oh-Father (Daveed Diggs) na manipulação teocrática das massas e culmina na ressurreição imprevista (via Homelander!) de Soldier Boy (Jensen Ackles), que, após ser aparentemente neutralizado pelo patógeno, recobra os sentidos ao fim do episódio (!) para injetar uma variável de caos imprevisível e tensões edipianas no tabuleiro. O retorno do pai biológico de Homelander, mais ranzinza e anacrônico do que nunca, não só complexifica a dinâmica de poder como estabelece uma disputa de egos que promete implodir os Seven por dentro, enquanto Butcher, confrontado com a ineficácia parcial de sua arma biológica, mergulha ainda mais fundo no abismo da vingança niilista. A dupla de estreia, portanto, pavimenta com sangue, tripas e dilemas morais intransponíveis o terreno para um acerto de contas final onde o choque entre a desumanização fascista de Vought e a chama agonizante da esperança — talvez agora representada exclusivamente pela obstinação de Hughie em não se tornar um monstro — pavimenta a estrada para um banho de sangue cada vez mais gráfico e um legado de devastação absoluta.

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5X03: O terceiro capítulo da quinta temporada de The Boys, intitulado Every One of You Sons of Bitches, aprofunda a ferida do trauma intergeracional com uma brutalidade que recusa qualquer alívio. A trama acelera a corrida pelo V1, a versão original do Composto V (que pode tornar Homelander imune ao vírus e mesmo "imortal" como Soldier Boy), ao mesmo tempo que reposiciona Stan Edgar nos bastidores e exibe a integração de Soldier Boy aos Sete em meio a um espetáculo de propaganda grotesca. Contudo, o cerne dramático reside no embate entre Ryan e Homelander, uma sequência de espancamento paterno filmada como tortura íntima, onde a força descomunal do filho apenas sublinha a vulnerabilidade emocional de quem jamais foi verdadeiramente acolhido... Em paralelo, Hughie enfrenta o peso da culpa ao ser confrontado por Maverick, filho de Translucent, um jovem invisível que desconhece o papel do rapaz no assassinato do pai e que acaba tragicamente ceifado por engano durante uma refrega com Cindy, uma agente telecinética a serviço de Homelander. Enquanto isso, Zoe, órfã de Victoria Neuman, foge do bunker invadido de Edgar (que é sequestrado na confusão pelo The Deep) e (aparentemente) rompe o ciclo de vingança ao encontrar seu verdadeiro pai, o cientista Sameer Shah, no laboratório do vírus dos The Boys, optando pela reconstrução de um futuro, longe dali, em vez da perpetuação do ódio  (mas não sem antes, revoltados com tanta mentira, destruírem basicamente tudo no laboratório!)... Nesse cenário de escombros morais, Starlight decide se distanciar do grupo ao perceber que sua presença e os alvos que carrega expõem Hughie a um risco letal iminente (Ele apenas por um absoluto milagre não morreu no lugar de Maverick!), uma escolha que fragmenta ainda mais a resistência e sublinha a solidão de quem luta num mundo onde os laços afetivos se tornaram sinônimo de vulnerabilidade.

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5X04:  A meio da quinta e última temporada de The Boys, o quarto episódio, intitulado King Of Hell e exibido em 22 de abril de 2026, representa um ponto de inflexão negativa na trajetória final da série, ao confundir desaceleração narrativa com estagnação pura e simples. O capítulo, situado logo após a brutal agressão de Homelander (Antony Starr) ao próprio filho Ryan (Cameron Crovetti), desperdiça a urgência do momento ao enviar Billy Butcher (Karl Urban) e sua equipe, bem como Homelander e Soldier Boy (Jensen Ackles), em uma expedição estéril às ruínas do laboratório Fort Harmony em busca do soro V1 original. A premissa, que poderia render um tenso jogo de gato e rato, rapidamente se revela um artifício para isolar os personagens e submetê-los a um conflito interno forçado por meio dos esporos alucinógenos de Quinn (Kris Hagen), uma criatura monstruosa que habita (faz décadas) as entranhas do complexo. A maior fragilidade do roteiro reside justamente na implausibilidade que cerca toda a operação: é simplesmente inverossímil que Homelander e Soldier Boy, com seus sentidos sobre-humanos, não percebam a presença ruidosa dos rapazes nos mesmos corredores, assim como desafia qualquer lógica a passividade de Butcher e seus homens quando ambos os Supers se encontram fragilizados, com Homelander inclusive temporariamente preso em uma câmara de radiação de urânio (!?)  por seu próprio pai, sem que ninguém minimamente tente neutralizá-los em definitivo. A gota d'água para a suspensão de descrença é Butcher receber de bandeja, justamente ao testemunhar o sofrimento de Homelander na câmara, a informação crucial de que a radiação pode ser a chave para derrotar os Supers, uma descoberta que estranhamente nenhum estrategista, cientista ou membro da resistência havia considerado em todos esses anos, funcionando apenas como uma conveniência preguiçosa para pavimentar estruturalmente o caminho do final da temporada... O desenvolvimento do episódio se ancora em um clichê exaurido: uma entidade externa que suprime o julgamento racional e inflama artificialmente as rusgas do grupo. Os esporos de Quinn envenenam o ambiente e transformam companheiros em adversários homicidas, fazendo com que Hughie Campbell (Jack Quaid), Kimiko Miyashiro (Karen Fukuhara) e Marvin T. Milk (Laz Alonso) quase se matem em confrontos verbais e físicos que reciclam tensões já narrativamente desgastadas. O problema é agravado pela atuação absurda de Frenchie (Tomer Capone), que, mesmo sendo o primeiro a identificar a contaminação e a alertar a todos, passa o episódio inteiro repetindo a descoberta em voz alta sem que ninguém o escute de fato, em uma insistência didática que atenta contra a inteligência do público e sublinha o caráter artificial do drama. A tentativa de aprofundar a mitologia da série ao conectar Quinn diretamente ao passado de Soldier Boy como um sujeito de testes abandonado e mutante não apenas falha em gerar empatia, como estilhaça a credibilidade narrativa, porque fica evidente que toda a sequência funciona primordialmente como um trampolim promocional para o vindouro derivado Vought Rising, um desvio de foco que dilui a urgência do arco final e insulta a paciência do espectador. A trama paralela, que acompanha Annie January (Erin Moriarty) em visita ao pai biológico Rick (Tim Daly), é ainda mais decepcionante, beirando o amadorismo em sua execução. Annie descobre que Rick reconstruiu a vida com uma nova esposa, Kathy, e um filho adolescente hostil chamado Mason, e o que deveria ser um momento de desenvolvimento emocional para a heroína se resume a um melodrama previsível e funcional, cuja real única função parece ser a de manter a personagem geograficamente distante do Fort Harmony e, portanto, incapaz de usar seus poderes para apaziguar o conflito interno da equipe, em uma manobra de conveniência que escancara o planejamento precário da temporada. O desaparecimento súbito de Ryan, ainda severamente machucado, do radar de todos os personagens corrobora essa impressão de desleixo e de manipulação grosseira do enredo.... O único lampejo de qualidade emana (curiosamente!) da trama que se desenrola nos corredores da Vought, onde os vassalos e potenciais futuros traidores de Homelander tentam lidar com a mais recente e megalomaníaca exigência de seu líder: ser literalmente vendido como uma divindade para o grande público. O balé cínico entre Firecracker (Valorie Curry), a vice-presidente Ashley Barrett (Colby Minifie) e o sinistro Oh Father, arquitetando uma campanha de propaganda religiosa e midiática para transformar o psicopata supremacista em um messias, preserva a essência da sátira política corrosiva que sempre distinguiu a série, ainda que a transparência excessiva das metáforas comece a pesar contra a sofisticação dramática. As discussões sobre narrativa heroica, a falência iminente da igreja Samaritan’s Embrace e os esforços para reescrever a imagem pública de Homelander rendem momentos pontualmente inspirados, mas são ofuscados pelo marasmo geral do episódio. Em termos de produção, o episódio é correto, com a fotografia opressiva de Fort Harmony criando uma atmosfera inicial de suspense que o roteiro logo se encarrega de dissipar, enquanto a montagem oscila entre o frenesi dos confrontos induzidos e a morosidade dos segmentos com Annie. A trilha sonora, outrora elemento marcante da série, aqui se limita a sublinhar óbvio, e a direção de arte, embora caprichada na construção do monstro vegetal Quinn, não consegue disfarçar a sensação de que o capítulo é um preenchimento disfarçado de episódio de transição... O impacto de King Of Hell sobre a reta final da temporada é preocupante. Ao desperdiçar mais da metade de sua minutagem em uma caçada infrutífera, um conflito postiço e um desvio familiar que pouco acrescenta, a série perde um tempo narrativo precioso de sua temporada de despedida. A revelação sobre a vulnerabilidade dos Supers à radiação, lançada de forma tão fortuita, sugere que o desfecho apostará em uma solução simplista para um antagonista construído por cinco anos como uma ameaça quase invencível, o que não é um bom presságio para a qualidade da conclusão. A insistência do roteiro em manter todos os personagens vivos e essencialmente no mesmo ponto de partida após uma hora de duração amplifica a sensação de que a série, em seu momento mais crucial, prefere patinar a avançar, deixando para os quatro episódios restantes a hercúlea tarefa de amarrar todas as pontas com a coesão e a potência que King Of Hell tão flagrantemente abdicou. O episódio deixa a temporada em uma posição perigosamente frágil, com sua reputação dependendo de uma recuperação dramática e urgente de foco e coragem narrativa nas semanas seguintes.

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5X05: Em sua quinta e última temporada, a série The Boys atinge seu ponto médio com One‑Shots, episódio que (ao seu modo) abandona a narrativa linear para se articular em cinco vinhetas interligadas, retratando um mesmo dia sob a ótica de personagens periféricos. A estrutura de múltiplas perspectivas se mostra, na melhor das hipóteses, como um formalismo enganoso: promete um mergulho íntimo (coesivo e climático!), mas entrega um desenvolvimento errático e mal resolvido... Firecracker (Valorie Curry) protagoniza o segmento mais expressivo ao reencontrar seu antigo pastor (W. Earl Brown) [Que enxerga claramente o nada divino Homelander!] e, pressionada pela (recém formada!) Democratic Church of America (que grotescamente reúne igreja, estado e o messias Homelander), difamá-lo ao vivo. A oscilação entre fé residual e submissão a Homelander (Antony Starr) é interpretada por Curry com desespero genuíno, até que a própria hesitação da personagem a condena ― Homelander esmaga seu crânio contra uma estátua de águia, eliminando-a de forma brutal e definitiva... Black Noir (Nathan Mitchell) debate-se com sua identidade enquanto transita entre os Sete e um grupo teatral com algum potencial, mas a subtrama é sabotada pela interferência grotesca de Deep (Chace Crawford), que trucida o (velho conhecido!) diretor Adam Bourke (P.J. Byrne) para reaver o controle sobre o seu companheiro de podcast (Será que eles vão acabar se matando?)... A caminhada canina de Terror, adicionada como alívio cômico, pouco acrescenta além de algum vislumbre da psique do seu dono Butcher (Karl Urban)... O plano de Sister Sage (Susan Heyward), revelado a Ashley (Colby Minifie), expõe a sua artimanha central: a inteligência mais aguda do planeta anseia tão somente por paz e sossego para ler livros, pretendendo assistir à guerra entre humanos e supers do conforto de um bunker particular ― anticlímax que reduz a vilã a uma piada pouco contundente... A caçada ao soro V1 leva Homelander e Soldier Boy (Jensen Ackles) finalmente à mansão de Mister Marathon (Jared Padalecki) em Los Angeles, onde Malchemical (Misha Collins) tenta, sem sucesso, após envenenar Homelander (que fica mais uma vez vulnerável em cena!), cooptar Soldier Boy. A sequência descamba então para ainda mais um absurdo banho de sangue com participações especiais de roteiristas e atores vivendo eles mesmos (ou quase!), num festival de violência que pouco diverte (sendo muito repetitivo em suas ações) e que não disfarça a estagnação da trama principal... Valores de produção seguem algo elevados, com fotografia sombria e efeitos práticos até inventivos, porém a direção de Phil Sgriccia não consegue conferir unidade ao mosaico das cinco esquetes... One‑Shots funciona como uma pausa reflexiva que, ao ceifar peças secundárias e insinuar o hedonismo apocalíptico de Sage, anuncia o desmoronamento iminente; contudo, sua hesitação em avançar a mitologia central deixa a temporada à beira do desfecho sem o impulso necessário, sugerindo que os episódios restantes precisarão compensar a inércia aqui acumulada.

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5X06: O sexto episódio da quinta e última temporada de The Boys, intitulado Though the Heavens Fall, representa o ponto de inflexão mais contundente da sua reta final, abandonando de vez as hesitações que diluíam o ritmo dos capítulos anteriores para concentrar, em pouco mais de sessenta minutos, todas as linhas de força que conduzirão ao desfecho da série. A caçada ao último frasco do composto V1, elixir original da imortalidade aqui, deixa de ser um artifício protelatório e se converte no catalisador de uma reflexão coletiva sobre a finitude, o peso das escolhas irreversíveis e o valor que a vida só adquire diante da certeza do seu fim. A estrutura do episódio entrelaça quatro frentes narrativas com precisão cirúrgica, e cada uma delas contribui para cimentar o solo temático sobre o qual os dois capítulos finais serão erguidos: a missão de Billy Butcher (Karl Urban) e sua equipe para localizar o V1 ; a ruptura definitiva entre Sister Sage (Susan Heyward) e Homelander (Antony Starr) [Com ela finalmente se aliando aos The Boys!] ; a infiltração de Hughie Campbell (Jack Quaid) e Annie January (Erin Moriarty) na máquina de propaganda do regime ; e o já antecipado acerto de contas entre The Deep (Chace Crawford) e Black Noir (Nathan Mitchell), que culmina em mais uma baixa entre os Sete... A trama se abre com Mother's Milk (Laz Alonso) procurando The Legend (Paul Reiser), antigo magnata da Vought reduzido a atendente de cinema sob o pseudônimo Chet Vanderbilt. The Legend reluta, mas acaba apontando o caminho para Bombsight (Mason Dye), um supersoldado da década de 1950 (como Soldier Boy) que desapareceu levando consigo a última dose de V1. O único vínculo afetivo capaz de atraí-lo parece ser Golden Geisha (Naoko Mori), sua antiga companheira, hoje internada em Vought Villages, um asilo onde antigos ícones da empresa definham entre a decrepitude e o esquecimento. A sequência da invasão ao retiro, embora pontuada pelo humor grotesco característico da série — com superseres idosos de nomes como Hot Flash e poderes tão ridículos quanto testículos descomunais usados como armas —, carrega um subtexto melancólico que Kimiko (Karen Fukuhara) capta de imediato: ela hesita diante da violência contra aqueles corpos frágeis e confessa a Frenchie (Tomer Capone) que não deseja a imortalidade do V1, temendo tornar-se uma vampira emocional que sobreviverá a todos que ama (E assim também pensa Annie como descobrimos!). É a primeira vez na temporada que Butcher, sem abdicar de sua brutalidade, permite que a operação se conclua sem derramamento de sangue, um raro gesto de contenção que revela o quanto o personagem de Urban também está sendo atravessado pelas questões que o episódio levanta... Paralelamente, Sister Sage executa sua ruptura com Homelander ao descobrir que ele a mantinha sob vigilância e ordenara à análise criminal que rastreasse Bombsight sem seu conhecimento. A mulher mais inteligente do planeta recorre então a Ashley (Colbie Minifie), cujo tumor psíquico lhe confere a capacidade de ler mentes alheias. Sage usa eventualmente essa habilidade para conduzir e expor Soldier Boy (Jensen Ackles) a imagens íntimas de Stormfront (Aya Cash) já desfigurada com Homelander, apostando que o ciúme e a repulsa levariam o pai a destruir o filho ou, no mínimo, a negar-lhe o V1. A sua aposta, no entanto, ignora a complexa dimensão afetiva que Soldier Boy nutria por Clara Vought, a própria Stormfront, sentimento que o spin-off Vought Rising se encarregará de explorar em detalhe (temos certeza!). Quando Homelander afirma ter amado Stormfront e que sua perda o marcou profundamente, Soldier Boy encontra nessa dor compartilhada uma inesperada ponte de empatia. A previsibilidade que Sage atribuía aos seres humanos volta-se contra ela: o comportamento errático de Soldier Boy escapa a qualquer cálculo racional. Enquanto isso, Hughie e Annie infiltram-se na Democratic Church of America para instalar o difusor do vírus letal no altar onde Homelander pregará em breve, mas é a pausa que fazem antes da missão — deitados sobre o capô de um carro, rindo de formas obscenas nas nuvens — que restaura a ternura do casal e relembra ao espectador que a esperança de Hughie se nutre de uma lição transmitida por seu pai morto: a de que vale a pena acreditar em finais felizes, mesmo quando tudo conspira contra eles. O contraste entre o cinismo operacional de Mother's Milk, que The Legend (e depois Sage) força a encarar seu papel de arquiteto de um genocídio, e o otimismo quase infantil de Hughie constitui uma das tensões morais mais bem calibradas do episódio... No flanco mais sombrio, The Deep enfim assassina Black Noir a facadas no estúdio do podcast que compartilhavam, vingando a sabotagem que Noir perpetrara contra um oleoduto submarino como retaliação pela morte de Adam Bourke (P.J. Byrne). Trata-se do segundo membro dos Sete a cair em dois episódios, e a rapidez com que essas execuções se sucedem evidencia a implosão acelerada do império de Homelander, corroído por dentro antes mesmo que o vírus possa agir. O confronto culminante ocorre quando Soldier Boy finalmente encontra Bombsight e, após uma luta inicial, propõe um acordo: retirar-lhe os poderes em troca do frasco de V1. Bombsight aceita porque Golden Geisha recusara a imortalidade que ele lhe oferecia, preferindo envelhecer ao lado do amado a perpetuar-se artificialmente. A frase que ela pronuncia — de que o verão só é belo porque o inverno se aproxima — encapsula a tese central do episódio e reverbera nas conversas paralelas de Kimiko com Frenchie e de Annie com Hughie. Soldier Boy compreende a renúncia de Bombsight porque também amou alguém que acreditava na transcendência pelo poder, e é essa compreensão que o leva, no minuto final, a entregar o V1 a Homelander. A cena em que este perfura o próprio braço com um raio laser e injeta o composto, gemendo enquanto dispara (sem controle) sua visão de calor contra o céu noturno, é filmada com uma solenidade quase litúrgica, coroando-o como ápice do projeto Vought e tornando-o imune ao vírus que a resistência vinha preparando. Pouco antes, The Legend, encarando Homelander sem qualquer vestígio de temor, dissera sentir pena dele e profetizara sua ruína existencial, e o fato de Homelander tê-lo poupado indica que a semente da dúvida foi plantada em sua psique instável... Though the Heavens Fall reposiciona completamente o tabuleiro da temporada ao conceder a Homelander a imortalidade que ele perseguia e, simultaneamente, ao semear as rachaduras emocionais que poderão derrubá-lo. A inclusão da mitologia de Vought Rising deixa de ser uma distração porque se aninha organicamente na trama: o amor entre Soldier Boy e Stormfront, que o episódio apenas insinua os detalhes, funciona como a chave que explica a virada de lealdade e promete ser esmiuçado na série derivada. Com o vírus neutralizado e a aliança entre pai e filho solidificada sobre as cinzas de um afeto genuinamente nazista (!), a temporada ingressa em um território de desesperança radical, no qual a única saída viável para os protagonistas parece residir no sacrifício. Os dois capítulos restantes herdam, portanto, um antagonista virtualmente indestrutível e um grupo de heróis dilacerados que acabaram de compreender que a mortalidade não é uma maldição a ser curada, mas a condição que confere sentido a cada gesto de amor e de coragem.

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5X07: O ocaso de uma série outrora vigorosa costuma ser anunciado por episódios que, em vez de convergirem para um clímax catártico, expõem as fissuras de sua própria arquitetura narrativa. The Frenchman, the Female, and the Man Called Mother's Milk, penúltimo capítulo da quinta e última temporada de The Boys, é um desses arautos de colapso. O segmento carrega consigo o peso de preparar o terreno para o desfecho de uma trama que já atravessou vinte anos nos quadrinhos e sete anos de adaptação televisiva. Contudo, em vez de acender o estopim para uma conclusão memorável, o episódio se arrasta em uma letargia criativa que trai tanto a urgência de seu próprio universo ficcional quanto a inteligência de seu público. A trama se localiza após a aquisição do composto V1 por Homelander (Antony Starr), evento que o tornou imortal e imune ao vírus criado por Billy Butcher (Karl Urban). Diante desse cenário, o grupo de protagonistas se vê encurralado, e o episódio promete uma guinada desesperada: replicar os experimentos soviéticos que concederam a Soldier Boy (Jensen Ackles) a capacidade nuclear de anular poderes V alheios, agora tendo Kimiko (Karen Fukuhara) como cobaia. Entretanto, a execução dessa premissa é tão frágil e apressada que a sensação predominante não é de suspense, mas de uma (paradoxalmente) longa e sonolenta espera pelo inevitável (!). A espinha dorsal da derrocada já estava calcificada há tempos, mas aqui se torna inequívoca: a construção de mundo de The Boys ruiu sob o peso de suas próprias conveniências, e este capítulo funciona como um microcosmo de todos os seus defeitos acumulados. É como se a série, outrora hábil em equilibrar sátira política, violência visceral e drama humano, tivesse finalmente sucumbido à exaustão criativa, entregando um episódio que mais parece um esboço apressado do que de fato o penúltimo ato de uma narrativa que prometia ser grandiosa.

O desenvolvimento do episódio é uma colcha de retalhos onde as linhas narrativas se atropelam sem nunca encontrarem um ritmo orgânico... Homelander, agora entronizado como senhor absoluto dos Estados Unidos, assassina o Presidente Calhoun (David Andrews) com uma indiferença que já não causa choque, apenas fadiga. Suas exigências despóticas, que incluem a dissolução do Congresso e a imposição da amamentação obrigatória (!), são apresentadas com a sutileza de uma bigorna, reiterando uma sátira política que perdeu a capacidade de morder e passou a apenas babar obviedades. A violência, que antes possuía um propósito temático, agora se esvai em gestos gratuitos que não acrescentam camada alguma à narrativa... Numa cena chave, de um filme dentro do episódio, Jesus entrega a sua "coroa de espinhos" para Homelander (!) mostrando, aparentemente, que Kripke, sem mais o que oferecer, simplesmente abraçou o absoluto nonsense... Enquanto isso, o núcleo dos rapazes em campo se divide em duas frentes igualmente frustrantes: (I) Mother's Milk (Laz Alonso) e Starlight (Erin Moriarty) investigam o estúdio da Vought (enquanto Butcher e Hughie são capturados na vizinhança por Sinapses), mas (antes de tudo) a presença de Starlight ali já destrói a verossimilhança (nos tirando ainda mais do já rebaixado episódio): a foragida e rosto de uma resistência nacional, não provoca qualquer comoção imediata nas ruas ou nos ambientes que frequenta, ignorando de forma absurda o fato de que seu rosto deveria ser reconhecido em qualquer lugar do país (que dirá no ninho inimigo!). A série, que já havia falhado em mostrar a guerra civil que as ações de Homelander inevitavelmente deflagrariam, opta por confinar o caos social a menções fora de cena, exibindo a convulsão da América apenas quando a conveniência do roteiro o exige, e nunca como uma realidade viva e pulsante que afeta cada cidadão. A sensação que perdura é a de um universo ficcional que perdeu a credibilidade, onde as consequências são seletivamente aplicadas e a lógica interna é sacrificada em nome de atalhos narrativos cada vez mais preguiçosos.

O cerne do episódio deveria ser o sacrifício de Frenchie (Tomer Capone), mas até mesmo a morte de um membro original do grupo é sabotada pela memória de inconsistências passadas... A tentativa de transformar Kimiko em uma arma radioativa é orquestrada com a ajuda relutante de Sister Sage (Susan Heyward), cujo erro colossal no episódio anterior a abate gravemente. Ela fica inicialmente em estado de torpor se auto lobotomizando, algo que o episódio trata indulgentemente em princípio e depois resolve com um apelo a "força do amor ou algo assim" (deixando os espectadores atônitos)... Quando Homelander enfim descobre a localização do esconderijo em que estão apenas os três, Frenchie se oferece como distração, escondendo Kimiko e Sage em um armário forrado de zinco. O gesto heroico, no entanto, é minado pela lembrança do quarto episódio desta mesma temporada, onde o vilão foi incapaz de detectar localmente os rapazes brigando ruidosamente dentro de uma instalação. Ora, se sua audição sobre-humana não o alertou naquele momento, por que agora seria diferente? A morte de Frenchie, que nos quadrinhos ocorre pelas mãos do próprio Butcher, aqui se dissolve em um melodrama pouco conectado tematicamente com a história no seu todo ... E o que dizer da utilização de Soldier Boy, cuja participação na temporada largamente se resume a pavimentar o caminho para o vindouro spin-off Vought Rising, dando munição aos fãs que enxergam em sua presença um mero artifício promocional. Em vez de integrar o personagem à trama principal de maneira significativa, a série o exibe como uma peça publicitária, um lembrete constante de que o universo de The Boys agora serve mais como plataforma para outros produtos do que como uma história autônoma (algo MUITO ruim para uma última temporada!)... As piadas envolvendo os vilões felino e canino, bem como a história pregressa do apelido de Mother's Milk, soam como preenchimentos inconsequentes, desprovidos da acidez que outrora definiu a série... (II) A cena com Synapses (Steven Ogg) teria até sido interessante se Hughie estivesse mesmo destinado a matar Butcher, mas a trajetória atual torna esse confronto psíquico inócuo. A interação, que poderia explorar dilemas morais profundos, reduz-se a um desfile de possibilidades desperdiçadas, um lembrete amargo de que a série já não tem a ousadia narrativa de seus primeiros anos (E como Hughie e Butcher sobreviveram a situação?)... Tudo converge para a sensação de um episódio pífio, onde até os momentos de maior potencial dramático são diluídos por uma escrita que já não confia em sua própria mitologia.

O impacto deste episódio sobre a temporada e sobre o legado da série é devastador, pois confirma que The Boys sucumbiu à mesma armadilha que tantas outras narrativas seriadas: a incapacidade de sustentar suas premissas até as últimas consequências. A guerra civil que deveria ter sido o tecido conjuntivo desta reta final permanece uma abstração, mencionada em diálogos, mas jamais sentida na pele dos personagens ou na atmosfera das ruas. Homelander tornou-se imortal e déspota absoluto, mas o mundo ao seu redor continua estranhamente funcional, como se a ditadura de um super-humano psicótico pudesse coexistir com a normalidade burocrática... 

Pontualmente e muito fala sobre o todo: A captura de Butcher não desculpa a permanência de Starlight em liberdade, especialmente quando o regime dispõe de uma legião de telepatas que poderiam rastreá-la facilmente no local (e mesmo além)... 

A maior decepção: A morte de Frenchie, que poderia ter sido o golpe emocional definitivo, torna-se apenas mais um item desconexo em uma lista de oportunidades perdidas... 

O penúltimo capítulo, que deveria funcionar como o catalisador de todas as tensões acumuladas, atua na verdade como um espelho das fragilidades que a produção foi colecionando ao longo dos anos: a dependência de choques fáceis, a diluição de sua sátira política, a transformação de personagens complexos em caricaturas e a submissão da narrativa a interesses mercadológicos. Resta ao último episódio a tarefa hercúlea de resgatar uma temporada que já chegou ao seu ocaso com a força de um suspiro, e não de um trovão. Se a série encontrará forças para encerrar sua trajetória com dignidade ou se afundará de vez na irrelevância é uma pergunta que este episódio, infelizmente, não consegue responder — e talvez a própria produção já não saiba mais como fazê-lo... 

O que esperar: O que se desenha para o final da série é um desfecho que, ao que tudo indica, evitará a catarse sombria dos quadrinhos em favor de uma redenção mais morna e mais palatável.

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