sábado, 3 de janeiro de 2026

THE PITT S1 (2025)

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EPISÓDIOS

S1.E01 ∙ 07:00 A.M. [***]
S1.E02 ∙ 08:00 A.M. [***]
S1.E03 ∙ 09:00 A.M. [***]
S1.E04 ∙ 10:00 A.M. [***] 
S1.E05 ∙ 11:00 A.M. [***] 
S1.E06 ∙ 12:00 P.M. [***] 
S1.E07 ∙ 01:00 P.M. [***] 
S1.E08 ∙ 02:00 P.M. [****] 
S1.E09 ∙ 03:00 P.M. [***1/2] 
S1.E10 ∙ 04:00 P.M. [****] 
S1.E11 ∙ 05:00 P.M. [***1/2] 
S1.E12 ∙ 06:00 P.M. [****]  
S1.E13 ∙ 07:00 P.M. [****]
S1.E14 ∙ 08:00 P.M. [****]
S1.E15 ∙ 09:00 P.M. [****]

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REVIEW

A primeira temporada de The Pitt (da HBO) posiciona-se como um dos empreendimentos mais ambiciosos e aclamados da carreira de seus longevos realizadores principais: R. Scott Gemmill, John Wells e Noah Wyle. Essa radiante reunião do trio que outrora colaborou na série de pronto socorro ER resulta não em uma mera nostalgia, mas em uma atualização radical do gênero médico para os tempos atuais. Para o maiúsculo produtor Wells (*), diretor do episódio piloto aqui, é a consolidação de sua expertise na condução de dramas realistas com grande elenco, enquanto Wyle, atuando e escrevendo um episódio, transcende a persona do intérprete do novato John Carter em ER para entregar uma performance definitiva como um médico tarimbado porém assombrado pelo trauma pandêmico (e claramente sofrendo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático ou TEPT). A opção estrutural — cada episódio cobrindo uma hora real de um plantão de 15 horas — não é um mero artifício, mas a espinha dorsal de uma imersão sem precedentes. Lançada em 2025, a série conecta-se visceralmente com um público global ainda processando as cicatrizes da COVID-19, transformando o fictício Pittsburgh Trauma Medical Center (o titular THE PITT) em um microcosmo da sociedade. Ela captura a exaustão sistêmica, a resiliência profissional e os dilemas éticos de uma era marcada pela precarização da saúde pública (o que inclui a desvalorização dos seus profissionais!) , oferecendo não apenas entretenimento, mas uma reflexão urgente e coletiva. A aclamação foi imediata e retumbante: a temporada conquistou cinco Prêmios Emmy, incluindo o de Melhor Série Dramática, e foi listada pelo American Film Institute (AFI) como um dos dez melhores programas de televisão do ano, consolidando seu inequívoco status popular e crítico desde o seu lançamento.

(*) De: China Beach , ER , The West Wing , The Third Watch , SouthLand , Animal Kingdom , Shameless... A narrativa da primeira temporada é um estudo de caracterização sob pressão máxima. Durante um único e aparentemente interminável plantão (que culmina transformando o PS em um hospital de campanha para tratar uma enxurrada de vítimas de um tiroteio em massa em um festival de música próximo), acompanhamos o experiente (médico chefe do dia) Dr. Michael "Robby" Robinavitch (Noah Wyle) no aniversário da morte de seu mentor na pandemia, um trauma que ecoa em cada decisão. Ao seu redor, uma nova geração de médicos navega os seus próprios abismos: a arrogante interna Dr. Trinity Santos (Isa Briones); a meticulosa Dr. Samira Mohan (Supriya Ganesh); a resiliente mãe solteira Dr. Cassie McKay (Fiona Dourif); a brilhante neurodivergente (e uma particular favorita desta Castanha) Dr. Melissa "Mel" King (Taylor Dearden) etc. A estrutura em tempo real é o motor narrativo perfeito, forçando escolhas éticas irrevogáveis e expondo o caráter de cada um. Casos como o de um idoso com Alzheimer cuja família revoga sua ordem de não reanimar, ou o de um adolescente vítima de overdose de fentanil, servem como veículos para explorar dignidade, vício, luto e falha sistêmica (ambos os casos direto das manchetes de jornais, assim como outros)... A série é muito elogiada por sua autenticidade médica — "o retrato mais realista de um departamento de emergência urbano movimentado", dizem alguns — mas também é criticada por uma abordagem por vezes didática de questões sociais, que alguns espectadores consideram "preguiçosa" ou "panfletária". Este é o conflito central da temporada: a luta humanista contra um sistema à beira do colapso, onde cada vitória é pessoal e cada derrota, coletiva. A profundidade dos conflitos individuais, revelando desde a insegurança de Mohan até o equilíbrio precário de McKay, entrelaça-se com a crise institucional, criando um mosaico complexo onde o pessoal e o profissional são indissociáveis.

(A série atinge força total no episódio 8 e daí não olha mais para trás até o fim da temporada!)

(Ao final do episódio 13, Robby é forçado a declarar morta a namorada de Jake, seu enteado de fato, quebrando finalmente sob o peso acumulado de traumas não processados. Ainda assim, após ser chamado a responsabilidade em meio ao caos por um dos estagiários de medicina novatos (Dennis Whitaker vivido por Gerran Howell) ele realiza o esforço sobre-humano de voltar ao plantão. É ver para crer a atuação de Wiley neste ponto.)

(Quando tudo é dito ao fim da temporada é inescapável a sensação de que a grande arma secreta da atração é o médico chefe do turno noturno do PS Dr. Jack Abbot (Shawn Hatosy), que se torna um favorito instantâneo do público apesar do tempo limitado em tela. Sem oferecer spoilers demais existem duas cenas contracapas com Robby e Abbot sozinhos no telhado do hospital que ressoam muito além do último episódio.)
(É muito sofisticado o tratamento dado a sub trama do vício em remédios do residente sênior Frank Langdon (Parick Ball). Introduzir Santos como alguém tão arrogante e ambiciosa e mesmo literalmente sem noção e fazer justo ela investigar tal questão sobre Langdon deixa a audiência em dúvida até o último momento sobre a veracidade do caso. Transformando o que seria uma trama convencional do gênero com execução tipicamente previsível em algo novo e fresco.)

A contribuição de Johanna Coelho como diretora de fotografia estabelece uma linguagem visual revolucionária para o gênero médico. Colaborando estreitamente com a designer de produção Nina Ruscio, Coelho iluminou um set completamente funcional de trezentos e sessenta graus que permitia aos diretores Amanda Marsalis, John Wells, Damian Marcano, Silver Tree, John Cameron e Quyen Tran filmarem em qualquer direção sem interrupções. A decisão de utilizar principalmente câmeras portáteis ARRI Alexa Mini LF cria uma estética documental imersiva onde a câmera funciona como um membro fantasma da equipe, seguindo personagens através de longos planos-sequência coreografados com precisão milimétrica. Os atores passaram duas semanas em campo de treinamento médico aprendendo suturas, intubação, ultrassonografia e ressuscitação cardiopulmonar, permitindo que executassem procedimentos realistas. Médicos e enfermeiros reais foram contratados como figurantes para adicionar autenticidade, e os operadores de câmera literalmente se vestiam com uniformes médicos caso fossem capturados acidentalmente nas tomadas. A profundidade de campo rasa aprisiona visualmente os espectadores junto aos personagens, vendo apenas o que eles veem, sentindo o espaço claustrofóbico de corredores superlotados e salas de trauma. Durante o tiroteio em massa dos episódios finais, Marsalis adiciona uma terceira câmera para capturar reações em meio ao mar de pacientes críticos, abandonando os planos-sequência fluidos em favor de montagem mais fragmentada que reflete o colapso da ordem. As atuações transcendem o mérito técnico: Wyle entrega camadas de dor mal disfarçada e explosões controladas, Katherine LaNasa transforma Dana Evans (a enfermeira chefe do turno diurno) em âncora emocional indispensável, enquanto o elenco jovem de Briones, Dearden, Howell etc. traz vulnerabilidade fresca ao cansaço institucional. A trilha sonora permanece discreta, permitindo que sons ambientes do pronto-socorro criem tensão orgânica.

Em conclusão, a primeira temporada de The Pitt, criação de Gemmill junto ao Know-How e a experiência de Wells e Wyle, oferece um veredicto implacável sobre a medicina americana contemporânea: o sistema está fundamentalmente quebrado, e os heróis que o sustentam estão se quebrando junto com ele. Robby termina o turno planejando uma licença porque reconhece (finalmente!) que não pode continuar neste ritmo sem destruir a si mesmo, Dana esvazia sua mesa incerta se retornará (tendo sido agredida por um paciente em meio ao caos!) e Langdon enfrenta um futuro profissional nebuloso após ser pego no vício. Mas existe resiliência tenaz nestes profissionais: Santos e Whitaker formam uma amizade improvável como colegas de apartamento, Mel mantém sua rotina de sextas-feiras com a irmã apesar do trauma do dia e a equipe inteira se recusa a abandonar pacientes mesmo quando todo recurso está esgotado. A série argumenta que dedicação individual jamais compensará negligência sistêmica, que o heroísmo médico não deveria ser necessário em uma sociedade funcional, e que ignorar a saúde mental de curadores apenas garante catástrofe coletiva. Wells, Gemmill e Wyle não romantizam o sacrifício; eles o expõem como sintoma de falha política e moral. O impacto foi imenso: a temporada conquistou treze indicações ao Emmy incluindo Melhor Série Dramática, vencendo cinco estatuetas e também foi listada entre os dez melhores programas de televisão de 2025 pelo American Film Institute (AFI). Profissionais de saúde organizaram sessões de exibição em hospitais por todo o país, validando sua precisão dolorosa. A renovação para segunda e terceira temporadas confirmou que esta não é anomalia, mas nova voz permanente exigindo que a televisão e a América confrontem verdades desconfortáveis sobre como tratamos aqueles que nos tratam. The Pitt redefiniu o drama médico contemporâneo com um testemunho urgente de uma crise nacional.

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