sábado, 3 de janeiro de 2026

ADOLESCENCE S1 (2025)

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EPISÓDIOS

01 - EP#1.1 [***1/2]
02 - EP#1.2 [***1/2]
03 - EP#1.3 [****]
04 - EP#1.4 [***1/2]

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REVIEW

Adolescence, a minissérie britânica de 2025 disponível na Netflix, estabelece-se não apenas como um triunfo artístico, mas como um marco cultural urgente. A força criativa por trás da produção é um triunvirato de peso: Stephen Graham, ator veterano que aqui assume o quádruplo papel de criador, roteirista, produtor executivo e protagonista; Jack Thorne, renomado escritor premiado com o BAFTA e o Emmy; e Philip Barantini, diretor que reafirma sua maestria na arte do plano-sequência após o aclamado Boiling Point (2021). Para Graham e Thorne, a série representa a culminação de carreiras dedicadas a retratos sociais densos e humanizados, agora voltadas para uma investigação brutal da masculinidade tóxica na era digital. A novidade radical está na fusão dessa inquietação temática com uma ousadia formal extrema. Para Barantini, a série consolida uma assinatura autoral – o filme-contínuo – e a eleva à escala e complexidade narrativa de uma minissérie, um feito técnico e dramático (talvez!) inédito na televisão. Adolescence se insere no cenário televisivo de 2025 como um antídoto potente à banalização do chamado true crime e dos thrillers procedurais. Enquanto a indústria ainda busca reviravoltas surpreendentes, a série desarma o público no primeiro episódio, trocando o "quem" pelo "porquê". Para sua audiência, oferece um espelho desconfortável sobre a criação de filhos num mundo hiperconectado; para a TV, é uma lição de como a forma pode ser fundida ao conteúdo para gerar empatia visceral; e, para o mundo, funciona como um diagnóstico angustiante e necessário dos efeitos colaterais da vida online na psique adolescente, ecoando casos reais de violência juvenil que inspiraram seus criadores.

A história central é aparentemente simples: Jamie Miller (Owen Cooper), um garoto de 13 anos de uma família comum do norte da Inglaterra, é preso sob a acusação de assassinar uma colega de escola, Katie Leonard. O grande trunfo narrativo, porém, é a abolição do suspense investigativo. O primeiro episódio termina com a exibição do vídeo de CCTV que incrimina Jamie de forma incontestável. A partir daí, Adolescence transforma-se numa profunda investigação psicológica, um mergulho nas raízes de um ato de violência misógina. A estrutura da minissérie, composta por quatro episódios que saltam no tempo, é um estudo de perspectivas e consequências. O episódio inicial foca no choque e na desorientação da família Miller durante a prisão, com o pai Eddie (Stephen Graham) tentando, em vão, proteger o filho de uma verdade que ele mesmo não consegue processar. O segundo episódio segue o detetive Luke Bascombe (Ashley Walters) pela ecologia social tóxica da escola, um labirinto de bullying, códigos de emojis hostis e a descoberta da influência da "manosfera" e de figuras como Andrew Tate sobre Jamie e seus amigos. O conflito central de Jamie, revelado com crueza no terceiro e mais aclamado episódio, é sua profunda insegurança, sua solidão e sua raiva, fermentadas em fóruns online que o levaram a ver a rejeição de Katie como uma humilhação que demandava retribuição violenta. Em uma sessão de avaliação psicológica com Briony Ariston (Erin Doherty), ele alterna entre vulnerabilidade infantil e arrogância misógina, confessando que pensou que Katie estaria "fraca" e mais receptiva após sofrer um vazamento de nudes. O episódio final, passado um ano depois, abandona o tribunal para se fixar no luto silencioso e na culpa dos Miller. O conflito de Eddie, agora, é interno: uma luta contra o autoquestionamento devastador de um pai que percebe não ter conhecido o filho que criou e que se pergunta, no ápice de sua dor, se o amou o suficiente ou se o amou de forma errada. A série identifica seus temas principais de forma cristalina: a radicação online do ódio às mulheres, o fracasso coletivo das instituições (família, escola) em interceptar sinais de angústia, e o abismo de incompreensão entre gerações criadas em realidades sociais radicalmente diferentes.

A realização audiovisual de Adolescence é o pilar que sustenta toda a sua potência dramática e conceitual. A escolha radical de filmar cada episódio em um único plano-sequência contínuo, sem cortes, é muito mais que um mero exercício de virtuosismo técnico. É uma decisão estética que redefine por completo o pacto emocional com o espectador. A câmera, operada com precisão cirúrgica pelo diretor de fotografia Matthew Lewis, torna-se uma testemunha incansável e claustrofóbica. Ela nos nega o alívio de um corte, forçando-nos a vivenciar em tempo real a agonia da família na delegacia, a tensão insuportável do interrogatório entre Jamie e Briony, e o peso esmagador do silêncio na casa vazia dos Miller. Essa técnica, que exigiu um trabalho coreográfico monumental de atores e equipe, com ensaios exaustivos e tomadas que duram a hora inteira do episódio, gera uma imersão e um realismo quase documental. As atuações, por sua vez, precisaram ser calibradas com a precisão de uma performance teatral ao vivo. Owen Cooper, em sua estreia absoluta, oferece uma atuação desarmadora em sua autenticidade, transitando entre a fragilidade de uma criança assustada e a pose dura de um adolescente radicalizado. Stephen Graham, como Eddie, conduz uma masterclass em dor contida, onde cada micro expressão e pausa carregada diz mais que qualquer diálogo. Erin Doherty, como a psicóloga, transmite com nuances mínimas o turbilhão interno entre a postura profissional e o horror humano diante do que ouve. A trilha sonora discreta e o design de som realista amplificam a sensação de estarmos invasivamente presentes naquelas salas. A linguagem visual, portanto, não ornamenta a história: ela é a própria experiência da história, replicando a asfixia, a inescapabilidade e a fluência caótica de um trauma que não pode ser editado ou suavizado.

Em conclusão, a minissérie Adolescence, de Graham, Thorne e Barantini, é um feito televisivo de rara integridade e impacto. O veredicto final que ela oferece sobre seus temas e personagens é sombrio, complexo e deliberadamente inconclusivo. A série não apresenta respostas fáceis nem redime seus personagens; em vez disso, oferece um retrato devastador de como uma constelação de falhas – pessoais, familiares, educacionais e, sobretudo, sociotecnológicas – pode convergir para a tragédia. Jamie Miller é tanto um perpetrador quanto uma vítima de um ecossistema digital venenoso, e seus pais, Eddie e Manda, são retratados menos como culpados e mais como representantes de uma geração perdida, incapaz de decifrar os códigos do novo mundo em que seus filhos crescem. O impacto da série transcende em muito o entretenimento. Para a audiência, funciona como um catalisador para reflexões dolorosas sobre paternidade, responsabilidade e o ambiente digital que permeia a vida jovem. Para a televisão, Adolescence eleva o padrão do drama criminal, provando que a profundidade psicológica e a ousadia formal podem gerar um engajamento massivo – tornou-se a primeira produção de streaming a liderar o ranking de audiência semanal no Reino Unido e foi premiada com múltiplos Emmys, incluindo Melhor Minissérie. Para a cultura em geral, a série cumpre uma função crucial de diagnóstico social, colocando um holofote incômodo e necessário sobre a maneira como ideologias de ódio encontram terreno fértil no isolamento e na insegurança da adolescência contemporânea. É, em suma, uma obra-prima que fere fundo para transformar, um marco do realismo televisivo do século XXI cuja relevância e poder de perturbação devem ecoar ainda por muito tempo.

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