----------
----------
EPISÓDIOS
01 - Common People [***]
02 - Bete Noire [**]
03 - Hotel Reverie [**]
04 - Plaything [*]
05 - Eulogy [***1/2]
06 - USS Callister: Into Infinity [***]
----------
REVIEW
A sétima temporada de Black Mirror, lançada em abril de 2025, marca um retorno deliberado e bem-sucedido às raízes ficcionais da série criada por Charlie Brooker, após uma recepção mais morna à sua antecessora. Sob a batuta criativa de Brooker e com a direção de talentos como Ally Pankiw e Toby Haynes, esta leva de episódios navega pelas ansiedades contemporâneas com uma lente que, embora ainda crítica, permite nuances de esperança e reflexão emocional mais profundas. Em um momento em que discussões sobre inteligência artificial, luto digital e a monetização da existência já permeiam o discurso público, a série opta por explorar o lado humano por trás dessas tecnologias, focando menos no choque distópico e mais nas complexidades morais e afetivas de um futuro tangível. Esta temporada se consolida não pelo puro escapismo tecnológico, mas por seu poder de usar a ficção científica para falar de temas universais e atemporais, como amor, arrependimento e o custo da sobrevivência, oferecendo uma coletânea em que a inventividade narrativa e a força das atuações frequentemente superam as expectativas. Os episódios que se seguem, portanto, variam entre contundentes críticas sociais e meditações poéticas, pintando um panorama diversificado e matizado do estado atual da série.
Common People inaugura a temporada com uma das premissas mais visceralmente relacionáveis da série. A trama acompanha Mike (Chris O'Dowd) e Amanda (Rashida Jones), um casal comum confrontado com um tumor cerebral incurável da esposa. A salvação surge na forma da empresa Rivermind, que oferece uma cirurgia experimental com um custo oculto: um serviço de assinatura para manter o backup da consciência de Amanda ativo na nuvem. O episódio desenvolve-se como uma alegoria sombria e incrivelmente atual sobre a financeirização da vida e a armadilha dos modelos de negócios por subscrição, transformando um ato de amor desesperado em uma espiral de dívida e concessões morais. A narrativa é eficaz ao misturar o cotidiano banal com um horror progressivo e silencioso, evitando twists espetaculares para focar na angústia econômica e emocional de seu protagonista. Embora sua mensagem seja direta e talvez menos surpreendente para os fãs da série, a força das atuações de O'Dowd e Jones, somada à premissa cruelmente plausível, garante a este capítulo um impacto duradouro e uma qualidade que remete aos clássicos da era Netflix da série.
Bete Noire apresenta Maria (Siena Kelly), uma desenvolvedora de alimentos que vê sua realidade desmoronar quando Verity (Rosy McEwen), uma antiga colega de escola, é contratada como sua assistente. O que começa como uma desconfiança pessoal rapidamente se transforma em um pesadelo de gaslighting, onde detalhes do passado e do presente parecem se alterar, isolando Maria e fazendo-a duvidar de sua sanidade. O episódio aborda de forma inteligente conceitos como o Efeito Mandela, criando uma atmosfera de paranoia crescente e investigação pessoal. No entanto, a construção meticulosa da tensão é comprometida por uma resolução que muitos críticos consideraram abrupta e pouco satisfatória. A trama, que poderia ter explorado com mais profundidade as motivações e a tecnologia por trás das manipulações, opta por um desfecho rápido, deixando uma sensação de ideia promissora não totalmente realizada. Apesar disso, as atuações convincentes de Kelly e McEwen sustentam o interesse, oferecendo um estudo de personagem envolvente (ainda que ultimamente oco) sobre obsessão e perseguição em um ambiente corporativo asséptico.
Hotel Reverie destaca-se como um dos capítulos mais ambiciosos da temporada. A atriz Brandy Friday (Issa Rae) é contratada para estrelar um remake de um filme clássico, sendo inserida através de uma tecnologia inovadora em uma simulação que recria com perfeição o universo em preto e branco da obra original. Lá, ela contracena com Dorothy (Emma Corrin), uma recriação em inteligência artificial da estrela falecida do filme. Mais do que uma simples crítica à IA em Hollywood, o episódio é uma reflexão sobre legado, autenticidade e a natureza da conexão humana. A relação que se desenvolve entre Brandy e Dorothy vai além do código que a criou, tentando evocar a mesma emoção sincera de San Junipero, mas em um contexto metalinguístico distinto. A direção procura capturar a estética dos filmes de época com carinho, e as performances de Rae e Corrin são muito boas, com Corrin em particular entregando uma atuação que captura a melancolia de uma entidade presa entre a memória e a consciência. Infelizmente o episódio sofre com a sua duração extensa, diluindo o que poderia ser um clássico da série.
Plaything é amplamente considerado o ponto mais baixo da temporada, um episódio que tenta expandir o universo de Bandersnatch sem capturar seu espírito inventivo. A história é contada em flashbacks a partir do interrogatório de Cameron Walker (Peter Capaldi), preso sob a acusação de assassinato. Ele narra seu envolvimento, décadas antes, com um jogo chamado Thronglets, dado a ele por Colin Ritman (Will Poulter), um personagem que retorna da obra interativa. A premissa envolve criaturas digitais fofas com um potencial sinistro, mas a execução se perde em uma narrativa desconexa que falha em construir uma atmosfera coerente ou um verdadeiro senso de perigo. A estrutura de interrogatório intercalada com flashbacks acaba por ser cansativa e pouco envolvente, enterrando a talentosa atuação de Capaldi em uma trama que muitos consideraram esquecível e o capítulo mais dispensável da leva. Embora apresente ideias interessantes sobre vício em jogos e a porosidade entre real e virtual, sua conclusão não consegue entregar o impacto perturbador característico da série em seu melhor.
Eulogy eleva-se não apenas como o melhor episódio da temporada, mas como uma das peças mais comoventes e humanas recentemente produzidas por Black Mirror. A trama simples acompanha Phillip (Paul Giamatti), um homem que, ao saber da morte de uma ex-namorada, utiliza um sistema tecnológico chamado Eulogy para revisitar suas memórias compartilhadas e preparar um discurso para o funeral. Guiado por uma assistente (Patsy Ferran), ele mergulha em fotografias que ganham vida, confrontando versões idealizadas do passado e os arrependimentos que carrega. A grandiosidade do episódio reside em sua quietude e na performance magistral de Giamatti, que transmite uma vida inteira de emoção reprimida, vulnerabilidade e autocrítica com um olhar ou uma pausa. Diferente da maioria dos capítulos da série, não há vilões tecnológicos ou twists catastróficos, apenas um exame profundo e dolorosamente honesto sobre memória, perdão e as histórias que contamos a nós mesmos. É uma obra minimalista que funciona perfeitamente como um curta-metragem autônomo, demonstrando que o verdadeiro horror e a verdadeira beleza podem residir nas complexidades ordinárias do coração humano.
USS Callister: Into Infinity encerra a temporada com a tão aguardada sequência do aclamado episódio da quarta temporada. A narrativa retoma a tripulação de clones, liderada pela capitã Nanette Cole (Cristin Milioti), agora navegando livremente, mas ilegalmente, pelo vasto universo do jogo Infinity, onde são caçados por outros jogadores e pela própria empresa que os considera uma anomalia. O episódio é um empreendimento visualmente impressionante e repleto de ação, expandindo o mundo com criatividade e um humor mais leve e auto irônico. No entanto, a sombra do original, mais compacto e tematicamente afiado sobre misoginia e poder, paira sobre esta continuação. Enquanto o primeiro era uma crítica incisiva, Into Infinity funciona mais como uma aventura espacial divertida, com um enredo repleto de reviravoltas que, para alguns, tenta abraçar muitas ideias sem aprofundá-las o suficiente. Ainda assim, é um prazer revisitar os personagens, com Milioti mais uma vez destacando-se como uma heroína carismática e resiliente, e o episódio serve como um final satisfatório e energético para a jornada desta temporada.
----------

Nenhum comentário:
Postar um comentário