quarta-feira, 13 de junho de 2007

THE GODFATHER (1972)

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THE GODFATHER I (1972)[175'][1.85:1][****]

The Godfather é o mais influente filme sobre crime organizado (especialmente sobre a Máfia - nome nunca usado no roteiro) de todos os tempos. Poucos filmes criaram elementos tão reconhecíveis na cultura popular e foram tão citados, imitados, copiados e parodiados desde então, quanto este. Sua influência vai desde pérolas de diálogo (como "eu vou fazer um proposta que ele não poderá recusar") até os traços físicos dos atores coadjuvantes (tipos de corpos e de faces). Mesmo pessoas que nunca viram tal filme, conseguem identificar claramente múltiplos elementos originários dele. Ele é TÃO influente assim.

Deixando a sua história completamente contida no universo da Máfia e nos fazendo julgar todos os personagens nos termos de tal universo, The Godfather produz um convite à experiência cinematográfica e possibilita a abstração de ideias tão necessária a um grande épico (enfim servindo como uma parábola sobre o sonho americano sob o ponto de vista da experiência imigratória e da corrupção institucional, borrando a linha divisória entre o "legal" e o "ilegal")... Transcendendo qualquer estereótipo de melodrama sobre imigrantes Italianos, o filme se baseia fortemente em temas atemporais como vingança, lealdade, responsabilidade para com a família, necessidade de autoafirmação, legado paterno, corrupção pelo poder etc. Sendo uma tragédia épica de proporções quase Shakesperianas. Para completar tal quadro, cada aspecto da produção do filme é (essencialmente) perfeito, nunca deixando fugir o encanto do espectador.

A história é bem conhecida. Don Vito Corleone (Marlon Brando) é um dos chefes da Máfia de New York e New Jersey. Ele tem cinco filhos: Sonny (James Caan) (brigão e mulherengo), Tom Hagen (Robert Duvall) (filho adotivo, advogado e conselheiro da Família), Fredo (John Cazale) (simplório e fraco, mas no fundo com bom coração), Connie (Talia Shire) (única filha, cujo casamento, com o Carlo de Gianni Russo, abre o filme) e Mike (Al Pacino) (o caçula, um veterano de guerra que tenta viver a parte dos negócios da família e o de fato protagonista de toda a saga). Vito também possui dois sócios de longa data: Clemenza (Richard S. Castellano) e Tessio (Abe Vigoda). Após a Segunda Guerra (1945), as outras Famílias da Máfia querem abraçar o tráfico de drogas na região. Quando Don Vito se mostra contrário à ideia, ele sofre um atentado. Quando a vida de seu pai jaz por um fio numa cama de hospital, Mike decide recorrer a todos os meios necessários para proteger a sua família. Esta é a história das trágicas consequências de tal decisão.

The Godfather também é famoso por momentos de grande violência. De fato, existem inúmeros momentos extremos neste sentido, os quais são produzidos e inseridos com precisão cirúrgica ao longo do filme (sempre servindo a história e sempre indo direto ao ponto): a cabeça do cavalo de Woltz (John Marley) em sua cama, a morte de Luca Brasi (Lenny Montana), o atentado a vida de Don Vito, a morte de Paulie (John Martino), Mike matando McCluskey (Sterling Hayden) (um capitão de polícia corrupto) e Sollozzo (Al Lettieri) (um Turco, traficante Internacional de drogas - responsável pelo atentado a vida de Don Vito) no restaurante, Sonny espancando Carlo, a violência doméstica de Connie e Carlo, o fuzilamento de Sonny, a morte de Appolonia (a jovem esposa italiana de Michael vivida por Simonetta Stefanelli), toda a famosa sequência do batismo (uma obra-prima do Cinema por si só - em que Michael torna-se o "padrinho" em mais de um sentido, se vingando definitivamente dos demais "chefões") e finalmente a morte de Carlo. Todos são intensos e breves e todos traduzem um assustador balanço entre ação e reação que serve para guiar a história.

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O filme (como já dito) é sobre Michael Corleone, personagem que atravessa o caminho de um herói de guerra e caçula da família (namorando para casar a senhorita Kay Adams de Diane Keaton) que o pai queria poupar da vida de crime, até tomar o lugar do pai, como o novo Don Corleone ao final do filme (aliás uma criatura muito mais brutal do que o pai jamais foi). Assim como de seu personagem, o filme é (em grande parte) de Al Pacino, com uma atuação incrivelmente densa e contida (fãs do ator de anos mais recentes, em que ele costumeiramente "espana cenário para todo lado", tem uma grande dificuldade de reconhecer tal estilo contido com o do ator e mesmo reconhecer o físico de Pacino neste filme) (enfatizamos: atuação e personagem dentre os melhores de todos os tempos). O momento da virada do personagem é na célebre sequência do hospital em que Mike percebe que se ele não fizer algo e rápido, o seu pai (em coma após o atentado contra a sua vida) vai ser morto. Ele diz então ao velho desacordado: "estou com o senhor agora". Seguindo um caminho sem retorno. Na cena da escadaria, em que fingem ser seguranças de Don Vito para enganar os assassinos enviados para dar cabo do velho, Enzo treme como um louco, enquanto Mike calmamente acende o cigarro do padeiro.

Depois Mike tem o maxilar quebrado por McCluskey, sugerindo sutilmente (aproximando-o fisicamente do seu pai!) que ele seria o novo "Don" e mata esse capitão de polícia, algo que nunca havia sido feito antes, mesmo apontando uma inteligente manobra de controle de danos usando a imprensa (o "show com os olhos" de Pacino na cena do restaurante, antes de cometer o mencionado duplo homicídio é indescritível - É ver pra crer!). Refugiado na Sicília, casa com Appolonia (a ama perdidamente, mas não deixa de amar e pensar em Kay o tempo todo) e tenta fazer o melhor da situação. Mas a morte de seu irmão mais velho Sonny e da sua esposa (a figura mais inocente do filme) tinham que ter uma resposta. Ele não poderia deixar a sua família/família desmoronar (e ele acaba se casando com Kay no seu retorno a América).

O curioso é como os elementos de sua vingança se apresentam. O fato de Fredo ter sido maltratado por Moe Greene (Alex Rocco) (elemento que é vendido mais por subtexto do que por qualquer outra coisa) em Vegas aponta para o fim de Moe. Eis que temos a cena CRUCIAL PARA TODA A SAGA em que Mike diz a Fredo para que ele "nunca fique contra os interesses da família (qual?) de novo", a face impenetrável de Michael (já reconstruída) é um monumento de poder e completamente opaca com relação aos seus planos e pensamentos (como um "Don" deve ser). Barzini (Richard Conte) é revelado finalmente como o grande vilão (de uma forma com bastante estilo e via subtexto) e tem o seu destino, juntamente com os demais "Dons" que foram coniventes com as suas manobras. Tessio, cada vez mais pressionado, trai Mike. Também recebendo a vingança batismal do novo "Don".

O tratamento da traição de Carlo (plantada sutilmente pelo roteiro) foi o mais representativo quanto à mentalidade da família. Ele trouxe Carlo para dentro dos negócios para mantê-lo feliz, como se tudo tivesse passado, mesmo concordando em batizar o seu filho (no fundo, obtendo um álibi perfeito) e ao final mata o cunhado e mente fria e descaradamente para a sua irmã e para a sua (segunda) esposa Kay sobre o seu envolvimento em tal morte. Tudo pela família (qual?).

A atuação de Brando (um dos grandes atores de todos os tempos) é simplesmente mitológica. É um completo mistério como ele consegue falar e ser levado a sério ("dentro" e "fora" do Filme) mesmo com uma prótese dentária que o deixa (literalmente) com a "cara de um buldogue". Sua escolha de interiorizar todo o poder do "Don" é igualmente fantástica. O detalhado gestual do seu personagem é um show à parte de composição, com direito até a um gato que ele achou perdido dentro dos estúdios da Paramount. Sua expressão quando Vito finalmente pede o "tal favor" (que ao contrário do que a cena inicial do filme deixa no ar não é nenhuma maldade) ao agente funerário Bonasera (Salvatore Corsitto) é comovente. A cena da morte do seu personagem (largamente improvisada) é tão bela quanto singela. Brilhante! Mestre dos Mestres!

Impressionante é a paciência de Coppola em manter um passo constante e vigoroso e ao mesmo tempo colocar um sem-número de detalhes em cada sequência. O andamento do filme é tão consistente e seguro que ele passa muito rápido, mesmo com quase 3 horas de duração (!). Isto sem falar na inesquecível fotografia sombria de Gordon Willis (que partiria também para uma bem sucedida parceria com Woody Allen) e na infinitamente tocante trilha de Nino Rota (de vários trabalhos com Fellini). A reconstituição de época também é maravilhosa. O elenco é excepcional (especialmente levando em conta o grande número de atores). Ainda que existam problemas isolados (Al Martino como Johnny Fontaine é obviamente um deles), raramente o pensamento de que alguém está "atuando" passa pela cabeça do espectador, tendo em Pacino e Brando os seus maiores destaques. As mulheres são intencionalmente escritas de uma maneira unidimensional, como parte do universo retratado. Shire e especialmente Keaton são obviamente capazes de muito mais.

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