segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

KAI HANSEN (1984-2000)

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(1984) Helloween [***]
(1985) Helloween Walls Of Jericho [****]
(1987) Helloween Keeper Of The Seven Keys - I [****]
(1988) Helloween Keeper Of The Seven Keys - II [****]
(1989) Helloween Live In The U.K [****]
(1990) Gamma Ray Heading For Tomorrow [***1/2]
(1991) Gamma Ray Sigh No More [***]
(1993) Gamma Ray Insanity & Genius [***]
(1995) Gamma Ray Land Of The Free [****]
(1997) Gamma Ray Somewhere Out In Space [****]
(1999) Gamma Ray Powerplant [***]
(2000) Gamma Ray Blast From The Past (Compilation) [***]

- Kai Hansen: guitars , vocals [01-02] , vocals [09-12].
- Michael Kiske: vocals [03-05].
- Michael Weikath: guitars [01-05].
- Markus Grosskopf: bass [01-05].
- Ingo Schwichtenberg: drums [01-05].
- Ralf Scheepers: vocals [06-08].
- Uwe Wessel: bass [06-07].
- Mathias Burchardt: drums [06].
- Dirk Schlächter: guitars [07-09] , bass [10-12].
- Uli Kusch: drums [07].
- Jan Rubach: bass [08-09].
- Thomas Nack: drums [08-09].
- Henjo Richter: guitars , keyboards [10-12].
- Daniel Zimmermann: drums [10-12].

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THIN LIZZY (1974-1979)

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1974 Night Life [**1/2]
1975 Fighting [***1/2]
1976 Jailbreak [****]
1976 Johnny The Fox [***1/2]
1977 Bad Reputation [****]
1978 Live & Dangerous (LIVE) [****]
1979 Black Rose  [****]

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PESSOAL:

- Brian Downey: bateria e percussão.
- Scott Gorham: guitarra.
- Phil Lynott: baixo, vocais, guitarras eventuais.
- Brian Robertson: guitarra, vocais de apoio [01-06].
- Gary Moore: guitarra, vocais de apoio [07].

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Thin Lizzy (1974-1979)

O período de 1974 a 1979 representa a era de ouro incontestável do Thin Lizzy. É a história de uma banda que se transformou de contendente promissora em lenda do rock, definindo um som e uma atitude que ecoariam por décadas. Esta era começou com a estabilização da formação clássica — o poeta e baixista Phil Lynott, o baterista Brian Downey, e o recém-chegado ataque de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson. Ao longo desses seis anos, eles navegaram turbulências internas, conflitos pessoais e um cenário musical dominado pela ascensão do punk. Sua resposta foi forjar uma identidade única: uma mistura de potência hard rock, narrativa urbana e um coração distintamente irlandês. Seu uso pioneiro de solos de guitarra harmonizados (pós WishBone Ash) se tornou um modelo para bandas vindouras de metal e hard rock.

A jornada teve início em 1974, um ano de transição e fundação. Com a nova formação clássica, a banda buscava solidificar seu som, mas o álbum *Night Life* adentrou um território mais suave, em descompasso com sua energia ao vivo. O ano foi mais sobre plantar sementes, incluindo o solo do convidado Gary Moore na célebre canção "Still in Love with You", do que colher frutos. Em 1975, determinados, eles entraram com um propósito renovado. O álbum *Fighting* foi uma reação direta, mostrando uma banda endurecendo seu ataque com uma crueza e confiança recém-descobertas. Foi o combate necessário antes da guerra pelo mundo do rock.

Então veio 1976, o ano da explosão. *Jailbreak* foi uma obra-prima de concisão e carisma que os catapultou ao estrelato internacional, impulsionado pelo hino atemporal "The Boys Are Back in Town". No entanto, o triunfo foi imediatamente seguido pela turbulência da hospitalização de Lynott, que mesmo assim e ainda em 76 rendeu o ágil e sombrio *Johnny the Fox*. Na esteira de um ano fraturado, 1977 foi sobre uma resiliência feroz. Com um dos guitarristas lesionado, a banda gravou *Bad Reputation* como um power trio, forjando seu álbum de estúdio mais pesado e desafiador. Em 1978, era hora de capturar a mágica do palco. O álbum *Live and Dangerous* imortalizou a energia explosiva da formação clássica com Gorham e Robertson, consagrando-se como um dos maiores discos ao vivo da história do rock. O ápice artístico final veio em 1979 com *Black Rose: A Rock Legend*. O retorno do virtuose Gary Moore para a gravação em estúdio empurrou a banda a novas alturas de brilho técnico e ambição, culminando na epopeia celta da faixa-título. Dos passos hesitantes de 1974 ao cume magistral de 1979, esta é a trajetória do Thin Lizzy em seu momento mais vital e criativo.

1974 Night Life [**1/2]

Surgindo no final de 1974, *Night Life* captura o Thin Lizzy em um momento de transição e exploração. O mundo do rock estava em fluxo, com a era grandiosa dos gigantes do início dos anos 70 dando lugar a uma abordagem mais direta e crua. Para o Thin Lizzy, este álbum introduziu a formação fundamental de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson, mas a música em si tomou um desvio surpreendente. Produzido com um brilho suave, quase soul, por Ron Nevison, ele contrasta fortemente com a força crua e hard rock que a banda exibia ao vivo. O disco parece um esforço consciente para mostrar versatilidade e habilidade na composição, por vezes em detrimento do fogo inato da banda. É um álbum de humores e melodias, apresentando baladas e números blues que destacam o desenvolvimento de Phil Lynott como um compositor de nuances. As faixas-chave contam essa história. Still in Love with You é a peça central inegável do álbum, uma balada blues de queima lenta elevada por um solo de guitarra emotivo e incisivo do convidado Gary Moore. Ela revelou a capacidade de Lynott para a alma profunda e o anseio romântico. Por outro lado, She Knows abre o álbum com um ritmo gentilmente propulsivo, mostrando um lado mais contido e melódico que era novo para a banda. Finalmente, It's Only Money fornece um golpe necessário de rock and roll mais duro e primal, um lembrete da energia central da banda lutando para brilhar através da produção polida. *Night Life* é um disco competente e muitas vezes bonito, mas parece uma pedra fundamental, um experimento que apontava para o som mais pesado e confiante que eles logo dominariam.

1975 Fighting [***1/2]

Se *Night Life* foi um passo tentativo, *Fighting*, de 1975, foi um salto decisivo para frente. Este álbum marca o momento em que o Thin Lizzy encontrou sua verdadeira voz e começou a lutar com todo o seu peso. O contexto era uma cena rock faminta por hinos, e com Lynott agora no comando da produção, a banda conscientemente se livrou do verniz mais suave do ano anterior para um som mais cru e assertivo. O título era uma declaração de intenção: este era o som de uma banda lutando por reconhecimento, afiando suas garras e estabelecendo a base essencial para os triunfos que viriam. Em comparação com as divagações soul de *Night Life*, *Fighting* é tudo sobre foco e força. O ataque de guitarras gêmeas de Gorham e Robertson começa a se unir no som harmonizado característico que se tornaria sua marca registrada, não apenas como decoração, mas como uma força motriz e melódica. O álbum arde com uma confiança recém-descoberta, canalizando a energia de seus shows ferozes para o estúdio. Três faixas definem essa mudança pivotal. Wild One é um dos primeiros grandes hinos de Lynott dirigidos a personagens, uma ode amarga e doce a um espírito inquieto, envolta em uma melodia que é tanto dura quanto terna. Suicide é um juggernaut hard rock, impulsionado pelos tambores trovejantes de Brian Downey e um riff implacável e urgente que anunciou a nova direção mais dura da banda. Talvez o mais revelador seja o cover de Rosalie, de Bob Seger, que eles reinventam completamente e tornam seu, injetando nele uma energia arrogante e celebratória que se tornaria um clássico ao vivo. *Fighting* é o som de uma banda crescendo em seu poder, um álbum crucial e emocionante onde todas as peças finalmente começaram a se encaixar.

1976 Jailbreak [****]

*Jailbreak* é o marco, o momento em que tudo cristalizou. Lançado em março de 1976, ele impulsionou o Thin Lizzy de ato de rock respeitado para estrelas internacionais. Em uma paisagem do rock cheia de fantasia e excesso, as canções de Lynott sobre rebeldes urbanos, fora-da-lei desesperados e cowboys românticos pareciam vividamente reais. O álbum é uma obra-prima de equilíbrio — duro, mas melódico, hínico, mas pessoal, capturando perfeitamente a essência da alquimia das guitarras gêmeas e da narrativa poética de Lynott. Seguindo a base de *Fighting*, *Jailbreak* refinou esse poder em uma coleção impecável de músicas, cada uma um single em potencial, mas parte de um todo coeso. Foi um sucesso criativo e comercial, quebrando o Top 20 em ambos os lados do Atlântico e finalmente dando a eles um hit global. O trio de músicas em seu núcleo é intocável. The Boys Are Back in Town é mais do que um hit; é um marco cultural, um hino arrogante e cheio de histórias, com um riff imortal e uma guitarra principal harmonizada que definiu uma era. Jailbreak abre o álbum com drama cinematográfico, uma narrativa tensa conduzida por uma linha de guitarra ameaçadora e preenchimentos explosivos de bateria de Downey. Cowboy Song mostra seu alcance dinâmico, passando de uma melodia nostálgica e desejosa para uma seção intermediária de hard rock galopante. *Jailbreak* não é apenas um álbum de sucesso; é uma declaração perfeita de identidade, o ápice da fórmula que a banda vinha construindo, e continua sendo o ponto de entrada definitivo para sua herança.

1976 Johnny The Fox [***1/2]

No calor do sucesso de *Jailbreak*, o Thin Lizzy lançou *Johnny the Fox* apenas sete meses depois, em outubro de 1976. Nascido do caos — escrito por Lynott enquanto se recuperava de hepatite — o álbum é um trabalho mais denso, complexo e, por vezes, mais sombrio. Enquanto o punk começava a ganhar força, desafiando as estrelas do rock estabelecidas, o Thin Lizzy respondeu não simplificando, mas aprofundando seu rock narrativo e rico em camadas. Comparado ao foco direto de *Jailbreak*, *Johnny the Fox* é mais variado e experimental, um álbum que prova que a banda não era um cavalo de um só truque. Apesar das circunstâncias difíceis de sua criação, o álbum rendeu hits e músicas de qualidade. A abertura Don't Believe a Word é uma aula de economia rock, um riff de blues cru e uma letra cínica que se tornou um single de sucesso. Rocky mostra o lado mais pesado e quase épico da banda, com harmonias de guitarra complexas e uma narrativa de luta. No extremo oposto do espectro, Old Flame é uma das baladas mais sinceras e bonitas de Lynott, uma reflexão suave sobre o amor perdido que demonstra sua amplitude emocional. *Johnny the Fox* pode carecer da consistência inabalável de seu predecessor imediato, mas compensa com ambição e profundidade, mostrando uma banda confiante o suficiente para explorar seus limites mesmo sob pressão extrema.

1977 Bad Reputation [****]

Em 1977, com as tensões internas crescendo e o guitarrista Brian Robertson temporariamente fora devido a uma lesão, o Thin Lizzy poderia ter facilmente desmoronado. Em vez disso, eles produziram um dos discos mais ferozes e focados de sua carreira: *Bad Reputation*. Gravado essencialmente como um power trio, o álbum possui uma crueza e uma urgência que refletem sua gênese turbulenta. Em um ano onde o punk e a nova onda desafiavam o antigo regime do rock, o Thin Lizzy respondeu com um disco que era pura atitude e potência. A faixa-título, Bad Reputation, é uma faixa monstro de hard rock, uma declaração desafiante construída sobre um riff impiedoso e a entrega vocal de Lynott no seu mais confiante. Dancing in the Moonlight, por outro lado, mostrou seu gênio para a música pop-rock inteligente, com um riff de baixo inesquecível e uma sensibilidade quase new wave que a tornou um clássico atemporal. O álbum também explora temas mais sombrios, como em Opium Trail, que reflete as batalhas pessoais crescentes de Lynott. *Bad Reputation* é um álbum de resiliência feroz. Ele prova que o núcleo criativo da banda — Lynott, Downey e Gorham — era inquebrável, capaz de transformar adversidade em arte poderosa e reafirmar seu lugar como uma das maiores bandas de rock da era.

1978 Live & Dangerous [****]

Muitas bandas lançam álbuns ao vivo como preenchimento entre discos de estúdio, mas *Live and Dangerous* do Thin Lizzy, lançado em 1978, é uma obra-prima que redefine o próprio gênero. Capturando a eletricidade de suas performances no palco entre 1976 e 1977, o álbum não apenas documenta a banda no auge de seus poderes, mas também aprimora miticamente seu legado. Em um momento em que o rock estava se tornando cada vez mais produzido em estúdio, *Live and Dangerous* foi um lembrete visceral do poder bruto e da conexão com o público. A versão de Jailbreak aqui é mais explosiva e urgente do que a original em estúdio. Cowboy Song se expande em uma jam épica, destacando a improvisação magistral e a química entre os guitarristas. A performance de Still in Love with You se torna uma balada monumental, com o solo de guitarra ganhando uma intensidade emocional avassaladora. É crucial notar que o som característico de guitarras gêmeas neste álbum é inteiramente de **Scott Gorham e Brian Robertson**, a formação estável da era de ouro. *Live and Dangerous* é mais do que um grande álbum ao vivo; é uma cápsula do tempo que congelou a essência do Thin Lizzy como uma força da natureza no palco, solidificando sua reputação como uma das maiores bandas ao vivo de todos os tempos.

1979 Black Rose [****]

*Black Rose: A Rock Legend*, de 1979, representa o pináculo artístico do Thin Lizzy. Com o retorno do guitarrista Gary Moore (no lugar de Robertson), a banda alcançou um novo nível de virtuosismo e ambição temática. Este álbum é a fusão final de todas as facetas do Thin Lizzy: o hard rock potente, a sensibilidade pop, a narrativa lírica e as raízes celtas, tudo embrulhado em uma produção impecável. O single Waiting for an Alibi é um exemplo perfeito de seu rock direcionado às rádios, com um riff cativante e uma letra cheia de personagens urbanos. Do You Believe in Love mergulha em um território mais pesado e complexo, com mudanças de tempo dinâmicas e harmonias de guitarra intrincadas. No entanto, a coroa do álbum é a faixa-título, Róisín Dubh (Black Rose). Esta epopeia de sete minutos é uma obra-prima ambiciosa, uma jornada musical que tece tradicionais irlandesas, como "The Mason's Apron" e "Danny Boy", em uma tapeçaria de hard rock poderosa. É a declaração definitiva de identidade de Lynott, celebrando sua herança irlandesa de uma forma inigualável no rock. *Black Rose* é o trabalho de estúdio mais coeso e realizado da banda, um álbum que prometia um futuro ainda mais brilhante e, de certa forma, serviu como um ponto final perfeito para sua era de ouro.

Conclusão

O legado do Thin Lizzy, forjado no intenso período entre 1974 e 1979, é duradouro. Eles transcenderam a classificação de simples banda de hard rock para se tornarem contadores de histórias musicais, cujo som — definido pela poesia de rua de Phil Lynott e pelo ataque pioneiro das guitarras gêmeas — influenciou gerações de artistas, do heavy metal ao rock alternativo. Mais do que uma sequência de álbuns, essa foi uma jornada de transformação, resiliência e pura magia no palco, que garantiu seu lugar eterno no panteão do rock.

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WISHBONE ASH (1970-1973)

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ÁLBUNS

1970 - Wishbone Ash [★★★½]
1971 - Pilgrimage [★★★½]
1972 - Argus [★★★★]
1973 - Wishbone Four [★★½]
1973 - Live Dates [★★★★]

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PESSOAL

Andy Powell: guitarras solo, rítmicas e acústicas, vocais. 
Ted Turner: guitarras solo, slides, rítmicas e acústicas, vocais. 
Martin Turner: baixo, vocais. 
Steve Upton: bateria, percussão.

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INTRODUÇÃO

Entre 1970 e 1973, o Wishbone Ash forjou sua lenda em um dos períodos mais férteis e transformadores do rock. No alvorecer da década, com o fim de ícones como o Cream, o cenário musical ansiava por novas vozes que pudessem fundir o poder do blues rock emergente com a ambição do rock progressivo que ganhava forma. Foi nesse espaço que o quarteto formado por Martin Turner, Steve Upton, Andy Powell e Ted Turner surgiu, trazendo consigo uma arma secreta que redefiniria a linguagem de duas guitarras no rock: o ataque duplo e harmonizado, uma ideia com ecos dos Yardbirds, mas elevada a uma complexidade melódica e contrapontística então inédita. Apoiados por um endosso crucial de Ritchie Blackmore do Deep Purple, que os recomendou ao produtor Derek Lawrence e ajudou a fechar o contrato com a Decca/MCA, eles lançaram seu álbum homônimo de estreia no final de 1970, um trabalho cheio de energia crua e promessa.

Em 1971, a banda embarcou em uma verdadeira peregrinação artística. Enquanto o rock se fragmentava entre o hard rock hegemônico e as complexidades do prog em expansão, o Wishbone Ash explorou trilhas folk, acústicas e mesmo jazzísticas em Pilgrimage, mostrando uma maturidade composicional crescente e a consolidação de sua técnica instrumental. Após turnês extenuantes, esse período de experimentação e refinamento preparou o terreno para o salto quântico de 1972. Naquele ano, eles não apenas lançaram um álbum, mas ergueram um verdadeiro monumento: Argus. Uma fusão perfeita de temas mitológicos, hard rock encorpado e harmonias de guitarra sublimes, a obra foi coroada como "Álbum do Ano" pelos leitores das revistas Sounds e Melody Maker, um triunfo imenso, superando concorrentes como Machine Head do Deep Purple e Ziggy Stardust de David Bowie (entre muitos e muitos outros rivais de peso). Este feito cimentou seu status como influência central para a onda do heavy metal que se avizinhava, inspirando diretamente futuras gerações de músicos de bandas como Priest, Lizzy, Maiden etc.

O ano de 1973, no entanto, trouxe ventos de mudança. Enquanto o Glam e o Prog dominavam, a banda optou por um caminho mais introspectivo e orientado para canções em Wishbone Four, seu primeiro disco autoproduzido, que, apesar de seus méritos, soou como uma deliberada mudança de curso após a épica grandiosidade de Argus (o que desapontou a sua base de fãs). Contudo, o mesmo ano terminou com um triunfo inquestionável: a liberação do duplo Live Dates. Capturando a energia elétrica e a maestria técnica da formação clássica no palco, este álbum ao vivo serviu como um testemunho definitivo de seu poder performático e como um ponto de exclamação adequado para esta fase fundadora, pouco antes de mudanças na formação. Assim, em apenas quatro anos, o Wishbone Ash evoluiu de uma promessa ruidosa para arquitetos de uma obra-prima eterna, deixando um legado indelével na história do rock através da inovação sonora que colocou suas guitarras gêmeas em harmonia perfeita com a eternidade.

1970 - Wishbone Ash [***1/2]

Lançado em 4 de dezembro de 1970, o álbum de estreia do Wishbone Ash chegou em um momento em que o rock britânico buscava novos caminhos. O debut é um retrato de uma banda jovem e faminta, aproveitando a oportunidade dada por Blackmore e Lawrence... Musicalmente, é um caldeirão de influências: o blues rock shuffle de Blind Eye, a balada folk em 12/8 (outro shuffle) de Errors of My Way (que já contém as características harmonias de guitarras e de vocais da banda além de uma bela secção solo) (*) E as longas viagens instrumentais de Handy (essa ainda meio amorfa e claramente construída a partir de colagem de diferentes seções revividas de ensaios e de shows, apesar de bons momentos) e Phoenix (obra-prima do álbum e da banda, realmente muito bem composta em claro contraste a anterior) mostram um grupo disposto a explorar... As três faixas essenciais (entre outras)  são: Blind Eye que abre o disco com interessantes chamados e respostas com a bateria (instrumento excelente por toda a faixa) e estabelece o diálogo entre as guitarras ("O" ponto de partida para a banda) ; Errors of My Way, uma balada melancólica e de fluxo livre que demonstra a sensibilidade folk e composicional da banda, trazendo curiosamente à mente o som de algo como um Fairport Convention da vida (!) e Phoenix, a épica de dez minutos que se tornaria um pilar dos shows ao vivo (em versões cada vez maiores) , um campo de prova para os solos entrelaçados de Powell e Turner. O álbum soa como um promissor trabalho de estreia – cheio de ideias, talvez um pouco inconsistente, mas já irradiando a química única que definiria o som da banda (e talvez até ganhando uma meia estrela extra por conta disso).

(*) Além de ter uma estrutura global cíclica (ou quase), comum ao progressivo e que influenciaria compositores pesados posteriores: como o Steve Harris do Iron Maiden por exemplo... 

(Outras coisas do Wishbone Ash em geral que lembram o Maiden em geral: um arsenal interminável de ritmos shuffles e variantes, além de: seções solo de baixo, baixo como único instrumento em cena e mesmo servindo como elemento disparador para novas secções da música em questão.)

(Desde o primeiro álbum a banda teve uma atitude de jazz-com-guitarra-guitarra-baixo-bateria, tanto composicional quanto improvisacional. Algo que influenciou bandas posteriores do rock e até mesmo bandas pesadas como o OPETH.)

1971 - Pilgrimage [***1/2]

Pilgrimage, lançado em setembro de 1971, encontra o Wishbone Ash em um momento de reflexão e expansão. Enquanto o rock progressivo florescia, a banda decidiu não apenas se aprofundar no hard rock, mas também em paisagens mais acústicas e jazzísticas (com direito a quatro instrumentais que não desapontam dentre sete faixas). O álbum funciona como um diário de viagem sonoro, mostrando um grupo mais confiante em sua técnica após turnês intensas... As três faixas-chave (entre outras) são: The Pilgrim, uma jornada instrumental de oito minutos que é a espinha dorsal do disco e uma joia menos conhecida no cânone da banda, alternando seções mais contemplativas com segmentos de puro peso cristalino excepcionalmente bem produzido e executado (soando as vezes para os ouvidos desta Castanha como um Proto Rush) ; Jail Bait, um rock direto e cativante, composto rapidamente em um pub e que se tornou um favorito imediato e perene nos palcos (que a produção consegue encaixar surpreendentemente bem no álbum) e Vas Dis, uma vigorosa interpretação de um tema de jazz de Jack McDuff, mostrando a versatilidade e o senso de humor da banda (com todos tocando e cantando muito numa faixa que soa desconcertantemente  contemporânea)... A inclusão da faixa final ao vivo Where Were You Tomorrow adiciona um sabor cru e espontâneo (Jam Hard Rock total!)... Pilgrimage é um álbum de transição essencial, com visíveis melhoras nas composições (apesar de termos partes reaproveitadas novamente) e especialmente na execução dos seus integrantes, algo que pavimentou o caminho para a obra-prima que estava por vir.

(Notem o inusitado reggae no final de Valediction.)

1972 - Argus [****]

Argus, lançado em 28 de abril de 1972, é a obra-prima absoluta do Wishbone Ash e um dos álbuns mais importantes do rock dos anos de 1970. Em um ano repleto de clássicos lendários, ele se destacou ao ser votado “Álbum do Ano” pela revista Sounds, superando concorrentes como Machine Head e Ziggy Stardust. O álbum é uma fusão perfeita de conceito, melodia e poder: suas letras (em geral) evocam um mundo medieval e mitológico, enquanto a música une a força do hard rock à delicadeza do folk progressivo (o feel do álbum parece combinar: coragem serena, nostalgia, anseio, melancolia e beleza). A produção virtuosa e cristalina de Lawrence criou um som atemporal (sem exageros), que mais do que superou o teste do tempo... As joias imperdíveis (dentre todas) são: Time Was, misturando folk acústico com partes pesadas super polidas e harmonias/solos de guitarras para além dessa terra (somente essa faixa já vale a compra do álbum)  ;  Blowin’ Free, talvez o hino do álbum, com seu riff contagiante e letra inspirada em um romance de verão – com a música excepcionalmente se entrelaçando e potencializando tal prosa ; The King Will Come, uma abertura majestosa com riffs triunfantes e harmonias de guitarra que soam como um chamado às armas (introdução em convenção e a estética épica liricamente retratada remetem ao Maiden e ao Power Metal Europeu que viria)  E Throw Down the Sword, a favorita desta Castanha, um final epicamente melancólico que encerra uma não terminada jornada ultimamente com um monstruoso solo duplo de guitarra que faz até uma pedra se emocionar (notem a semelhança com Fade to Black do Metallica nos versos)... Argus é o legado sonoro do Wishbone Ash, um disco virtualmente perfeito, ao mesmo tempo frágil e etéreo, estridente e eufórico, que continua a inspirar gerações (54+ anos e contando).

(E o que dizer da belíssima Sometime World que eventualmente apresenta um insano baixo Rushiano sobreposto a harmonias vocais cativantes e inesquecíveis?)

(Leaf and Stream segue a rota folk com graça até o fim, com Martin Turner soando muito parecido com John Wetton.)

(Warrior é  a mais a frente do seu tempo em estrutura e peso. Notem a majestade e a atualidade da ponte por exemplo. Certas partes (notem o refrão principalmente) lembram a canção Revelations do Maiden.)

1973 - Wishbone Four [**1/2]

Wishbone Four, de maio de 1973, representou uma mudança de curso ousada e divisiva. Pela primeira vez, a banda assumiu as rédeas da produção, afastando-se do produtor Derek Lawrence (e isso é algo aparente negativamente). Em um momento em que muitas bandas de rock consolidavam seus estilos, o Wishbone Ash optou por explorar mais o folk acústico e canções mais curtas, diluindo um pouco o ataque duplo de guitarras que os consagrou (isso sem falar na menor inspiração composicional)... As três faixas mais representativas são: So Many Things to Say, uma abertura energética que mantém o espírito roqueiro anterior (lembra o The Who em partes) ; No Easy Road, o single que surpreendeu com sua seção de metais e backing vocals, mostrando uma clara tentativa de alcançar um som mais radiofônico (esse um destaque bastante negativo que desanima o ouvinte) E Everybody Needs a Friend, uma longa balada de quase nove minutos não muito focados que, apesar de bem intencionada, traz, por exemplo, falta do ímpeto improvisacional de épicas passadas... O álbum soa como uma tímida coletânea de razoáveis/boas canções em busca de uma identidade coesa, largamente ofuscado pela sombra gigantesca de Argus. É um trabalho razoavelmente digno, mas que marca um ponto de inflexão na então trajetória ascendente da banda.

(A segunda metade do álbum é muito sem sal, para o bem e para o mal.)

1973 - Live Dates [****]

Live Dates, lançado em novembro de 1973, é a consagração do Wishbone Ash como uma das grandes forças ao vivo de sua geração (até as músicas do WAIV melhoram no palco). Gravado em junho daquele ano em várias casas de espetáculo britânicas com o renomado estúdio móvel dos Rolling Stones, o álbum captura a banda no auge de seu poder no palco. É a antítese do marasmo de estúdio de Wishbone Four: um documento cru, energético e virtuosístico que celebra o melhor do seu repertório clássico. As três performances essenciais (entre outras) são: The King Will Come, que ganha uma dimensão ainda mais grandiosa e urgente ao vivo ; Phoenix, em versão épica de 17 minutos que é a peça central do disco, uma verdadeira odisseia de solos de guitarra entrelaçados e dinâmica implacável, superando até mesmo sua já poderosa versão de estúdio E Blowin’ Free, onde o hino de Argus explode em uma celebração eufórica, confirmando seu status como clássico instantâneo (sem exageros). Live Dates não é apenas um grande álbum ao vivo (comparável aos melhores do período) ; é um testemunho definitivo da química da formação original e um lembrete potente de por que o Wishbone Ash deixou uma marca tão profunda na história do rock.

CONCLUSÃO

A jornada do Wishbone Ash entre 1970 e 1973 é um dos arcos mais fascinantes e influentes do rock clássico. Em apenas quatro anos, a banda evoluiu de um promissor grupo de hard rock e blues para os arquitetos de uma obra-prima atemporal, Argus, passando por experimentações folk/jazz e culminando em um dos grandes discos ao vivo da era. Seu legado, no entanto, vai muito além das vendas ou das posições nas paradas. A inovação do seu “ataque duplo de guitarras gêmeas harmonizadas", refinado nesses anos, tornou-se uma pedra fundamental para o desenvolvimento do heavy metal e do hard rock das décadas seguintes, ecoando em bandas como Thin Lizzy, Judas Priest e Iron Maiden (influenciou a NOWBHM e daí pulou para as vertentes mais extremas e/ou progressivas do rock pesado). Esta coleção de seis trabalhos – da energia crua do debut, passando pela peregrinação eclética de Pilgrimage, pelo pináculo de Argus, pela encruzilhada de Wishbone Four e pelo testemunho triunfante de Live Dates – forma um retrato completo de uma banda que, em seu período clássico, soube equilibrar ambição artística, poder instrumental e um melodismo inconfundível. É um legado sonoro que, mais de cinco décadas depois, continua a ressoar com força e inspiração, celebrado em novos lançamentos de arquivo e turnês contínuas que honram este período dourado.

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STRANGER THINGS S5 (2025)

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EPISÓDIOS

S5.E1 ∙ Chapter One: The Crawl [**1/2]
S5.E2 ∙ Chapter Two: The Vanishing of Holly Wheeler [**1/2]
S5.E3 ∙ Chapter Three: The Turnbow Trap [***]
S5.E4 ∙ Chapter Four: Sorcerer [***1/2]
S5.E5 ∙ Chapter Five: Shock Jock [**1/2]
S5.E6 ∙ Chapter Six: Escape from Camazotz [**1/2]
S5.E7 ∙ Chapter Seven: The Bridge [ZERO]
S5.E8 ∙ Chapter Eight: The Rightside Up [**]

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ACASTANHADAS

Esse episódio final (The Rightside Up) resume bem o que foi essa última temporada e a série como um todo: um elenco gigantesco/inchado desenvolvido de maneira superficial por regra ; um elenco jovem que perdeu vergonhosamente a janela da idade para interpretar os seus personagens (algo que inicialmente era uma virtude e que acabou virando uma maldição) E uma perda do controle tonal da atração (algo que progrediu ao longo do tempo).

Mesmo abstraindo o estranhíssimo "O Upside Down na realidade é um wormhole da Shopee!" (TM), o confronto final é conceitualmente pobre com o Devorador de Mentes, outrora uma peça de Terror Cósmico, aqui reduzido a uma espécie de "Megazord da Dimensão X" (TM2) (que supomos ser agora um agregado dos animais exóticos Demo+) (não que o roteiro ajude a esclarecer esse ponto). A não redenção de Vecna é positiva assim como a sua decapitação pela mão (perfeitamente escolhida) de Joyce Byers (um momento catártico para virtualmente todo o elenco de personagens, que coletivamente recordam dos seus traumas causados pelo vilão).

(Por outro lado, os detalhes da origem de Vecna fazerem parte de uma peça de teatro apartada da série é dose para Demogorgon Grávido!)    

O pós salto de 18 meses encerra os melhores momentos do segmento: a reconstrução de Hawkins, uma conversa chave entre Mike e Hopper sobre a perda de Eleven, a formatura da turma do ensino médio, o muito interessante reencontro dos quatro jovens adultos (Steve, Nancy, Jonathan e Robin), o pedido de Hopper à Joyce, a última campanha de D&D no porão de Mike (com Lucas, Will, Dustin e Max), remetendo ciclicamente ao início da série (sucedida in loco por uma campanha da sua irmã Holly com seus próprios amigos) etc. A série termina com a versão original de Heroes (de David Bowie) sobre créditos quadrinizados muito bem feitos.  

(Os militares e toda a coleta de lixo que não é feita por conta deles ferem quase que de morte toda esta quinta temporada. E DEFINITIVAMENTE Linda Hamilton está com problemas financeiros sérios...)

Eleven morre ou não?

As duas versões tem furos. O sacrifício dela é muito mal encenado e confuso (basta comparar com a morte de Vecna vista meros momentos antes). A história contada por Mike (alegoricamente muito bem posta na mesa final de D&D dos amigos) da sua sobrevida por sua vez tem a vantagem de ao menos ser melhor apresentada...

Enfim, morre ou não?

Esta Castanha vai tomar a rota cínica aqui: a série que nunca foi grande em consequências e muito menos em mortes dentro do elenco protagonista iria mudar a rota no episódio final? Apostamos que não... Qual a opção financeiramente mais sensível? Com certeza ela sobreviver! Não que Brown esteja muito interessada na franquia atualmente.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

THE DIPLOMAT S3 (2025)

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EPISÓDIOS

01 Emperor Dead [***1/2]
02 Last Dance At The Country Club [***]
03 The Riderless Horse [***]
04 Arden [**1/2]
05 BirdWatchers [**1/2]
06 AmaganSett [***1/2]
07 PNG [**1/2]
08 Schrodingers Wife [***1/2]

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ACASTANHADAS

A terceira temporada de The Diplomat (2025) eleva o thriller político romântico (ou romântico político como vê criticamente esta Castanha) a novos patamares de tensão e absurdos gloriosos. A história começa no caótico rescaldo da morte do presidente Rayburn, que Hal pode ter inadvertidamente causado. A vice-presidente Grace Penn assume o cargo e, em uma manobra surpreendente, escolhe o próprio Hal como seu vice-presidente, relegando Kate ao papel de segunda-dama (!). Kate é então forçada a um malabarismo impossível: manter seu posto de embaixadora no Reino Unido enquanto é sistematicamente arrastada para as crises diárias da Casa Branca.

Enquanto navega por essa dupla vida, Kate eventualmente enfrenta uma perigosa ameaça militar: um submarino russo naufragado e armado com a arma nuclear Poseidon (um dos muitos "bichos papões" do arsenal russo – em tese um Drone capaz de submergir o reino unido e boa parte da Europa gerando tsunamis carregados de radiação) e um romance inesperado com o charmoso espião irlandês Callum Ellis (Aidan Turner). Paralelamente, Hal se transforma em um vice-presidente astuto, formando uma parceria política formidável e alarmante com a presidente Penn. Essa dinâmica afasta ainda mais Kate e levanta questões sobre até onde Hal irá para manter seu poder.

A temporada brilha com as performances de Keri Russell (como Kate), que transborda frustração e genialidade, e de Rufus Sewell, que torna Hal complexo e cativante. A presença ampliada de Allison Janney como a presidente Penn e a adição de Bradley Whitford como seu marido trazem uma química eletrizante.

O ritmo é frenético (nos seus termos), o diálogo, afiado, e a trama, repleta de reviravoltas. O final, porém, é um golpe de mestre (em muitos níveis): Kate descobre que Hal e Grace conspiraram para extrair secretamente o Poseidon para a américa, um ato que pode ser visto como de guerra pelo Reino Unido (pois o citado Drone que estava em águas britânicas é basicamente uma arma do juízo final!). O cliffhanger redefine todas as alianças e deixa Kate diante de uma decisão impossível. Uma quarta temporada terá que lidar com as consequências dessa traição, forçando Kate a escolher entre expor a verdade ou se juntar aos conspiradores para controlar o dano. O futuro da série nunca pareceu tão incerto e promissor.

Em tempo: Pena que a intriga política (e a espionagem) fiquem muitas vezes em segundo plano frente os vários relacionamentos/romances. Talvez esta Castanha deva migrar para um produto de espionagem "puro sangue". 

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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

ONE PUNCH MAN S3 (2025)

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EPISÓDIOS

01 ∙ Strategy Meeting [ZERO]
02 ∙ Monster Traits [ZERO]
03 ∙ Organism Limits [ZERO]
04 ∙ Counterattack Signal [ZERO]
05 ∙ Monster King [ZERO]
06 ∙ Motley Heroes [ZERO]
07 ∙ Counterstrike [ZERO]
08 ∙ Ninja Tale [**]
09 ∙ Brave Child [*]
10 ∙ Immortal BloodBath [ZERO]
11 ∙ Top Dragons [ZERO]
12 ∙ Ultimate Lifeform [*]

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REVIEW

Esta terceira temporada nasce em um contexto de produção muito mais restrito do que aquele que deu origem ao segmento inicial da obra em anime. Depois do INEGÁVEL impacto  da primeira fornada de episódios, o comitê responsável reduziu investimentos, redistribuiu equipes e passou a lidar com uma agenda cada vez mais apertada, consequência direta do crescimento abrupto da demanda global por animação. A segunda temporada já havia sinalizado essas limitações (apesar de alguns fãs negacionistas!), mas a terceira as amplifica: menos animadores experientes disponíveis, cronogramas comprimidos e um planejamento que não permitia revisões profundas das sequências mais complexas. Improvisos passaram a substituir polimentos técnicos e a temporada inteira nasceu condicionada por esse cenário de escassez, o que compromete desde a concepção das cenas até a execução final.

Esse ambiente restrito impacta imediatamente o arco da vez, a adaptação do arco do resgate do filho de um influente financiador da Associação de Heróis, sequestrado e levado para o vasto e caótico covil subterrâneo da Associação de Monstros. No mangá, esse trecho se apoia em tensão constante, sensação de profundidade espacial e uma progressão dramática clara dentro do labirinto. Na terceira temporada animada, o potencial desse arco é prejudicado porque a limitação de recursos impede a criação de ambientes variados e convincentes. Os corredores apresentam repetição visual evidente, com pequenas mudanças de iluminação ou textura que não sustentam a sensação de deslocamento contínuo. O covil deveria parecer vivo, perigoso e imprevisível; em vez disso, muitas áreas parecem reutilizações sutis de cenas anteriores, o que compromete o impacto narrativo.

A animação sofre principalmente na fluidez dos movimentos e no peso físico das ações. Os confrontos dentro do subterrâneo carecem de consistência na velocidade e no volume dos quadros. Movimentos que exigiriam transições mais refinadas acabam simplificados, resultando em trajetórias rígidas e impactos que não criam a sensação de massa ou potência. Mesmo figuras de alta relevância, como combatentes de elite da Associação de Heróis ou entidades monstruosas que deveriam transmitir ameaça imediata, se movem com acelerações estranhas ou desacelerações abruptas, o que compromete tanto a leitura visual quanto o envolvimento emocional.

A direção também reflete as limitações impostas ao projeto. O humor da obra original depende do contraste entre grandiosidade estética e trivialidade de atitude do protagonista (largamente ausente nesta terceira temporada). Sem complexidade visual suficiente, esse contraste não se completa. A direção tenta manter a solenidade dos momentos de grande escala, mas o ritmo irregular e a montagem pouco expressiva dificultam a construção de clímax. Sequências que deveriam crescer organicamente acabam interrompidas por cortes secos. Outras, que pediriam concisão, se estendem demais. Essa inconsistência mina tanto o humor quanto a seriedade dramática do arco do resgate. Episódios que deveriam alternar tensão real e ironia fina acabam produzindo uma sensação de distanciamento emocional.

O resgate do menino, ponto central da temporada, exemplifica essa perda de precisão tonal. A operação deveria concentrar preocupação, urgência e progressão lógica à medida que os grupos avançam pelo subterrâneo. Em vez disso, a transição entre setores do covil é pouco clara, a ameaça dos monstros não se acumula de forma convincente e o percurso dos heróis não cria a sensação de avanço. O menino é encontrado dentro de uma sequência que, embora tente manter fidelidade ao material base, não transmite peso dramático suficiente. A falta de construção visual consistente transforma momentos que deveriam ser memoráveis em passagens rápidas, quase funcionais.

O conjunto final da temporada revela um projeto que tenta preservar a estrutura da obra original, mas não dispõe das condições ideais para isso. A ambição continua presente (em meio as condições desfavoráveis), mas a forma não acompanha. A combinação de orçamento comprimido, equipe reduzida e cronograma insuficiente produz uma adaptação que respeita a narrativa no plano geral, mas não consegue dar vida visual e tonal ao que torna essa história única. É uma temporada que não falha por falta de intenção (até acreditamos), e sim por falta de meios.

Em tempo: Respondendo antecipadamente, esta temporada de fato merece SIM as críticas virulentas recebidas. Os valores de produção foram DE FATO tão lastimáveis que a imensa maioria dos episódios não é sequer digna de nota (ver acima!). A falta de coesão da narrativa e a aspereza da montagem chegam a assustar pela falta do mínimo de profissionalismo e caso o espectador não desista no meio do caminho (O que com certeza é a mais sábia decisão aqui!) é quase que inevitável começar a rir pelos motivos errados... A pobreza da apresentação salta aos olhos (por exemplo: usando e abusando de uma certa atitude "mangá em tela" que dá nos nervos depois que se nota o uso recorrente de tão infame "recurso".)

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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

FRIEREN S1 (2023)

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EPISÓDIOS

01 "The Journey's End" [***1/2]
02 "It Didn't Have to Be Magic…" [***]
03 "Killing Magic" [***]
04 "The Land Where Souls Rest" [***]
05 "Phantoms of the Dead" [**1/2]
06 "The Hero of the Village" [***1/2]
07 "Like a Fairy Tale" [***1/2]
08 "Frieren the Slayer" [****]
09 "Aura the Guillotine" [****]
10 "A Powerful Mage" [****]
11 "Winter in the Northern Lands" [**1/2]
12 "A Real Hero" [***1/2]
13 "Aversion to One's Own Kind" [**1/2]
14 "Privilege of the Young" [***1/2]
15 "Smells Like Trouble" [***1/2]
16 "Long-Lived Friends" [***]
17 "Take Care" [***]
18 "First-Class Mage Exam" [***]
19 "Well-Laid Plans" [***]
20 "Necessary Killing" [***]
21 "The World of Magic" [****]
22 "Future Enemies" [***]
23 "Conquering the Labyrinth" [***1/2]
24 "Perfect Replicas" [***1/2]
25 "A Fatal Vulnerability" [****]
26 "The Height of Magic" [****]
27 "An Era of Humans" [****]
28 "It Would Be Embarrassing When We Met Again" [****]

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REVIEW

A primeira temporada do anime Frieren: Beyond Journey's End (Sousou no Frieren), lançada entre 2023 e 2024, consolidou-se como um ponto de inflexão na carreira do estúdio Madhouse e um marco na animação japonesa contemporânea. Baseada no aclamado mangá de Kanehito Yamada e Tsukasa Abe, vencedor do prestigiado prêmio Manga Taishō, a adaptação surge em um cenário de saturação de narrativas de fantasia épica, propondo uma reflexão profunda e melancólica sobre o que acontece após o tradicional "felizes para sempre". Ao colocar no centro da trama uma elfa virtualmente imortal (a titular Frieren) que enfrenta o lento e inexorável passar do tempo, o peso do arrependimento e a complexidade do luto, a série conecta-se profundamente com uma audiência global em um período pós-pandêmico, onde temas como a efemeridade das conexões, a valorização do cotidiano e o processamento emocional da perda ganharam relevância inédita. A obra se afasta da busca por um objetivo externo grandioso para embarcar em uma jornada interior de autodescoberta, um movimento que a insere na tradição de narrativas contemplativas da Madhouse, ao mesmo tempo que renova radicalmente os códigos do gênero de fantasia com uma abordagem introspectiva, filosófica e esteticamente sublime. Este reposicionamento, reconhecido pela crítica e pelo público, que a celebra por seus temas de memória e relacionamentos , demonstra uma maturidade narrativa rara, elevando a série à condição de fenômeno cultural que transcende o nicho dos animes.

A narrativa da primeira temporada inicia-se após a derrota do Rei Demônio, evento tradicionalmente tratado como desfecho final em outras histórias do gênero. Acompanhamos a maga élfica Frieren (voz de Atsumi Tanezaki), cuja vida se estende por milênios, enquanto ela lida com as consequências do tempo sobre seus companheiros mortais. A morte por velhice do herói líder Himmel (Nobuhiko Okamoto) funciona como catalisador essencial para o enredo, fazendo Frieren confrontar dolorosamente um arrependimento profundo e transformador: ela dedicou uma década de sua vida infinita à jornada épica ao lado de Himmel, do sacerdote Heiter (Hiroki Tochi) e do guerreiro anão Eisen (Yoji Ueda), mas nunca se esforçou genuinamente para compreendê-los em sua efêmera e vibrante humanidade. Movida por esse remorso e pelo último pedido de um moribundo Heiter, ela assume como discípula a talentosa jovem órfã Fern (Kana Ichinose), embarcando com ela em uma nova viagem rumo ao extremo norte, ao lendário local onde as almas dos mortos descansam, com a promessa de um reencontro simbólico e reparador com Himmel. Ao longo do caminho, juntam-se a elas o guerreiro Stark (um discípulo de Eisen com voz de Chiaki Kobayashi), um jovem de força colossal mas assombrado por uma insegurança profunda, formando um novo grupo que ecoa e contrasta deliberadamente com a dinâmica do antigo. A trama estrutura-se em arcos episódicos que magistralmente misturam fantasia, meros slices of life e ação, onde o verdadeiro conflito não reside em monstros colossais, mas no processo lento, doloroso e belo de Frieren aprender a dar significado ao tempo finito, às memórias passageiras e aos laços afetivos, entendendo a beleza da transitoriedade humana que ela outrora ignorou com distração imortal (flashbacks misturam topicamente as duas jornadas e além, sem cerimônias ou avisos).

A realização audiovisual é absolutamente fundamental para materializar essas reflexões tão subjetivas e emocionais. A direção não menos do que visionária de Keiichiro Saito e a produção meticulosa da Madhouse optam por uma abordagem visual profundamente contemplativa, empregando uma paleta de cores frequentemente suave e pastel que enfatiza a nostalgia, a serenidade e a passagem poética das estações, intercalada com explosões calculadas de cores vibrantes e efeitos luminosos espetaculares durante os raros, porém devastadoramente impactantes, combates mágicos. A animação dos feitiços, como o já icônico e letal Zoltraak, é de uma fluidez e criatividade notáveis, empregando técnicas tridimensionais sofisticadas para dar uma dinamicidade coreográfica aos confrontos, sem jamais abandonar a clareza narrativa e o peso tático de cada movimento. A trilha sonora, composta pelo talentoso californiano Evan Call, é um elemento narrativo por si só, uma verdadeira protagonista auditiva; seus temas orquestrais, que transitam do melancólico introspectivo ao heroico grandioso, reforçam de maneira comovente a dimensão emocional e a escala épica da jornada interior da personagem. As aberturas e encerramentos também carregam significado profundo, com Yuusha de Yoasobi e Anytime Anywhere de Milet (que pode ser vista como uma espécie de conversa entre Frieren e Himmel do além, interpretação que se torna cada vez mais emocionante ao longo da temporada), cujas letras poéticas falam de heroísmo, memória e saudade, resumindo perfeitamente o cerne temático da série. As performances de dublagem alcançam níveis de excelência, com Atsumi Tanezaki capturando magistralmente a frieza inicial e o gradual "descongelar" emocional de Frieren através de nuances sutis na entonação, enquanto Kana Ichinose e Chiaki Kobayashi dão vida a Fern e Stark com uma mistura convincente de vulnerabilidade juvenil e determinação crescente. A montagem, por sua vez, utiliza com maestria flashbacks recorrentes, contrastando a mesma paisagem ou vilarejo visitado com décadas de intervalo, para visualizar de forma concreta, poética e profundamente comovente a passagem implacável do tempo, que é o tema central e o verdadeiro antagonista da obra.

A primeira temporada de Frieren: Beyond Journey's End, sob a visão filosófica dos criadores originais Kanehito Yamada e Tsukasa Abe e da equipe magistral do estúdio Madhouse comandada COM EXTREMA CONFIANÇA E SEGURANÇA por Keiichiro Saito, conclui seu arco inaugural estabelecendo a série de forma indelével como uma obra-prima moderna do gênero de fantasia e um marco da animação narrativa. O veredicto final sobre seus temas é de uma rara e tocante sabedoria, uma beleza melancólica que ressoa muito após o término dos episódios: a série argumenta, com profunda sensibilidade e sem sentimentalismos baratos, que o significado último da vida não reside exclusivamente nos grandes feitos heroicos ou nos legados monumentais, mas sim nos pequenos e aparentemente insignificantes momentos compartilhados, nas lembranças simples que cultivamos com cuidado, e no esforço sincero e presente de conhecer e compreender aquelas almas passageiras que caminham conosco, por mais breve que seja essa travessia comum. A jornada de Frieren e Fern é, em sua essência mais pura, uma jornada dual de cura e crescimento mútuo, onde a elfa milenar começa a reparar pacientemente sua desconexão emocional secular, enquanto a jovem humana aprende a forjar seu próprio caminho de poder e identidade além da sombra da obrigação e da gratidão. O impacto cultural da série extrapola em muito seu já expressivo sucesso de crítica e público, refletido em sua posição elevada em plataformas especializadas e na aclamação geral que destaca seu crescimento de personagem e narrativa introspectiva . Ela demonstra, de forma cristalina, que há espaço vasto e fértil na mídia contemporânea para narrativas de fantasia maduras, introspectivas e focadas em emoções humanas universais, elevando o potencial narrativo do anime a patamares literários e oferecendo um contraponto valioso e necessário à cultura vigente da urgência, do espetáculo instantâneo e do esquecimento rápido. Frieren: Beyond Journey's End ergue-se, assim, como uma meditação tocante, artisticamente sublime e filosoficamente rica sobre a mortalidade, a memória afetiva e as frágeis e eternas conexões que nos definem, tornando-se um marco indelével não apenas para sua audiência dedicada, mas para a televisão e a animação como um todo.

P.S.: Prestem atenção no feitiço do campo de flores...
 
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domingo, 9 de novembro de 2025

PLURIBUS S1 (2025)

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EPISÓDIOS

01 We is Us [****]
02 Pirate Lady [***1/2]
03 Grenade [***]
04 Please Carol [***]
05 Got Milk [***]
06 HDP [***]
07 The Gap [***]
08 Charm Offensive [***]
09 La Chica O El Mundo [***1/2]

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REVIEW

A primeira temporada de Pluribus, série de ficção científica lançada pela Apple TV+ em novembro de 2025, representa um ponto de inflexão nas já consagradas carreiras de seu criador, Vince Gilligan, e de sua protagonista, Rhea Seehorn. Gilligan, aclamado por ter redefinido o drama televisivo com Breaking Bad e sua prequel Better Call Saul, transita aqui para um território de alta conceituação científica (do qual não é nenhum estranho: vide os seus tempos em The X-Files), mantendo, porém, sua assinatura autoral: uma narrativa paciente, uma construção de personagens granular e um olhar penetrante sobre a moralidade humana. Para Seehorn, cuja interpretação da complexa Kim Wexler em BCS já era referência, o papel da amarga e pessimista Carol Sturka funciona como uma ampliação de seu registro, exigindo-lhe canalizar uma vulnerabilidade raivosa e um cinismo profundo que carregam o peso emocional da série. A temporada se insere com pertinência no contexto midiático de 2025, um período de intenso debate sobre os limites da inteligência artificial, a homogeneização cultural promovida pelas redes sociais e a busca, por vezes paradoxal, por felicidade e conformidade. Pluribus pega essa ansiedade coletiva e a extrapola para um cenário apocalíptico peculiar, questionando não um futuro distópico sombrio, mas um supostamente utópico, desafiando a audiência a refletir sobre o preço da harmonia e mesmo o valor da imperfeição.

A narrativa da primeira temporada se desenrola a partir de um evento cataclísmico singular: um vírus de origem extraterrestre transforma quase toda a humanidade em uma mente coletiva pacífica e perfeitamente satisfeita, conhecida como "União" ou "Os Outros". Contra esse pano de fundo, a autora de romances levemente eróticos Carol Sturka (Rhea Seehorn) (personagem natural de Albuquerque - cenário base da série) descobre ser uma das apenas treze pessoas no mundo imunes ao efeito do vírus. Sua missão, contudo, não é heroica no sentido tradicional; é uma luta visceral pela preservação de sua individualidade misantropa e caótica contra uma força que oferece paz e felicidade absolutas. Nessa jornada, ela é acompanhada por Zosia (Karolina Wydra) (personagem natural da Polônia e que apareceu pela primeira vez no Marrocos, algo que deverá ser explorado no futuro da série), uma integrante da mente coletiva designada para ser sua guia e companheira, cuja serenidade inabalável serve tanto de contraponto quanto de espelho distorcido para a angústia de Carol. Paralelamente, Carol entra em conflito e eventual aliança com o paraguaio Manousos Oviedo (Carlos-Manuel Vesga), outro imune que, diferentemente dela, opta por um isolamento total e uma resistência agressiva à assimilação. Os conflitos centrais giram em torno da desconfiança fundamental: a "União" é genuinamente benéfica ou uma forma insidiosa de escravidão? A felicidade imposta vale a perda da liberdade, da arte, do amor conflituoso e da própria história humana? A temporada utiliza a estrutura de uma estrada literária e física – com o casal Carol e Zosia viajando eventualmente por um mundo transformado – para desenvolver esses temas, mostrando como a ausência de dor também apaga a capacidade de criação, empatia genuína e crescimento.

A realização audiovisual de Pluribus é meticulosa e serve como um braço narrativo essencial. A direção de Vince Gilligan e sua equipe privilegia planos longos e um ritmo deliberadamente lento, criando uma atmosfera de desconforto e estranheza que imita a experiência da protagonista. A fotografia, frequentemente usando paletas de cores contrastantes – os tons quentes e desbotados dos espaços humanos remanescentes contra a limpeza fria e iluminada dos ambientes da "União" –, sublinha visualmente o conflito entre o caos orgânico e a ordem artificial. A montagem é econômica, confiando na potência do silêncio e da expressão dos atores para transmitir informação, uma técnica que Gilligan domina como poucos na TV. Nesse aspecto, as atuações são fundamentais. Rhea Seehorn oferece uma performance de virtuose, construindo uma Carol que é irritante, egoísta e tragicamente vulnerável, sem jamais perder a humanidade do espectador. Karolina Wydra, por sua vez, é magistral na sua ambiguidade, transmitindo uma calma que pode ser entendida como sabedoria ou como a mais profunda ameaça. Carlos-Manuel Vesga traz uma presença física e uma determinação silenciosa que faz de Manousos um contraponto pragmático e necessário. A trilha sonora assinada por Dave Porter abandona as melodias tradicionais, optando por texturas eletrônicas e ambientais que amplificam a sensação de desconexão e de um mundo reconfigurado por uma lógica alienígena.

A primeira temporada de Pluribus, obra do estupendo Vince Gilligan com uma atuação central indelével de sua musa Rhea Seehorn, conclui sua jornada inicial com um veredicto complexo e provocador. A série não oferece respostas fáceis sobre se a individualidade, com toda sua dor e conflito, é preferível a uma coletividade harmoniosa. Em vez disso, ela valida a luta pela autonomia de ser como um ato fundamental de resistência, ainda que os "heróis" dessa causa sejam profundamente falhos. Carol Sturka, Zosia e Manousos Oviedo emergem não como vencedores ou perdedores claros, mas como símbolos de diferentes respostas a uma transformação existencial. O impacto de Pluribus extrapola seu enredo, estabelecendo um novo patamar para a ficção científica televisiva ao fundir uma premissa de alta conceituação com um drama de personagens profundamente humano. Para a audiência de 2025, a série funciona como um espelho distorcido e poderoso, convidando à reflexão sobre conformidade, felicidade superficial e o valor inestimável da autenticidade imperfeita. Como um todo, Pluribus reforça o poder da televisão como meio para explorar as grandes questões filosóficas do nosso tempo, provando que a mais original das narrativas pode surgir da simples, porém eterna, dúvida sobre o que verdadeiramente nos define como espécie.

Em tempo #1: O amor que a "União" declara por Carol seguidas vezes aqui é um dos pontos mais intrigantes da atração. Cuidado absoluto de toda a humanidade por um dos seus ou apenas o vírus tentando cumprir o seu imperativo biológico de assimilação? Carol termina a temporada votando na segunda opção (tendo os seus óvulos congelados roubados, algo que agora permite a sua absorção unilateral pela coletividade E tendo agora uma bomba atômica de estimação como medida dissuasória).

Em tempo #2: É curioso como a diferença de atitude entre Carol e Manousos parece espelhar as diferenças entre as suas classes socioeconômicas e a distinção entre capitalismo central e periférico na Economia Global (e notem que contrariando clichês a posição de Manousos não tem nada de socialista).

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segunda-feira, 20 de outubro de 2025

DANDADAN S2 (2025)

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01 "Like, This Is the Legend of the Giant Snake" [**1/2]
02 "The Evil Eye" [***1/2]
03 "You Won't Get Away with This!" [***1/2]
04 "That's, Like, Way Deadly" [***1/2]
05 "We Can All Stay There Together!" [***]
06 "We Became a Family" [***1/2]
07 "Feeling Kinda Gloomy" [***]
08 "You Can Do It, Okarun!" [***1/2]
09 "I Want to Rebuild the House" [***1/2]
10 "The Secret Art of Being Attractive" [***]
11 "Hey, It's a Kaiju" [***]
12 "Clash! Space Kaiju vs. Giant Robot!" [***1/2]

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MY HERO ACADEMIA S8 (2025)

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EPISÓDIOS

S8.E01 ∙ Toshinori Yagi: Rising/Origin [****]
S8.E02 ∙ The End of an Era, and the Beginning [****]
S8.E03 ∙ The Final Boss!! [****]
S8.E04 ∙ Quirk: Explosion [****]
S8.E05 ∙ Historys Greatest Villain [****]
S8.E06 ∙ Wrench it Open, Izuku Midorya [****] 
S8.E07 ∙ From Aizawa [****]
S8.E08 ∙ Izuku Midorya Rising [****]
S8.E09  Epilogue , The Hellish Todoroki Family: Final [****]
S8.E10  The Girl Who Loves Smiles [****]
S8.E11 ∙ My Hero Academia [****]

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ACASTANHADAS

A oitava e última temporada de My Hero Academia (2025) entrega mais do que um simples final. É uma conclusão realmente estupenda, um acerto de contas épico com as suas próprias oscilações de qualidade, e, acima de tudo, um tributo emocionante à sua própria jornada. Em apenas 11 episódios densos e realizados com primor, a produção fecha o ciclo da era One For All de forma espetacular, adaptando o restante do Arco da Guerra Final e o Epílogo do mangá . O resultado é uma temporada que se mantém em nível de excelência, justificando a críticas positivas e a aclamação esmagadora do público. 

O cerne narrativo é, inevitavelmente, o duelo final pelo destino do mundo. Enquanto Izuku Midoriya luta para resgatar a humanidade de Tomura Shigaraki em uma batalha de ideais e socos devastadores, outra guerra, carregada de simbolismo, acontece nas ruínas de outra cidade. Ali, um Toshinori Yagi destituído de seu poder, mas não de sua coragem, enfrenta All For One dentro de uma armadura que replica as Individualidades de seus alunos . Este confronto é puro legado versus pura ganância, e sua conclusão é uma das chaves para a vitória. All Might cumpre seu papel ao extremo, desgastando o corpo regredido do vilão até que uma figura inesperada surja para o golpe de misericórdia .

E aqui reside uma das maiores correções e triunfos da temporada: a ascensão definitiva de Katsuki Bakugo como co-protagonista. Sua reentrada no campo de batalha, após uma ressurreição engenhosa e inusitada, não é apenas um momento de puro heroísmo, é uma redefinição de seu papel . Ao salvar All Might das garras de All For One, ele reescreve o futuro e se proclama, com a arrogância que lhe é peculiar e totalmente merecida, "o chefe final" . Seu duelo contra All For One é o clímax da redenção de Bakugo. Ele não luta apenas com explosões, mas com uma compreensão tática profunda de sua própria Individualidade (uma única ao contrário da propaganda egoísta do vilão), plantando minúsculas gotas de suor explosivo dentro de All For One para desestabilizá-lo por dentro. A derrota final de All For One, regredido a um bebê que chora até desaparecer, é creditada em grande parte à fúria implacável e à genialidade de combate de Bakugo, solidificando-o como um dos pilares que sustentou a vitória neste dia.

(O segmento conta finalmente a origem de All for One e do seu irmão. Material de altíssima qualidade!)

Enquanto isso, a luta de Deku atinge seu ápice no emblemático Episódio 167, "Izuku Midoriya: Rising" . É aqui que o tema central da série brilha: ninguém vence sozinho. Com seu corpo à beira do colapso e apenas restando as brasas de One For All, Deku é catapultado em direção ao inimigo por uma verdadeira avalanche de camaradagem . Cada herói sobrevivente, de seus colegas de classe 1-A a profissionais desgastados, forma um escudo humano e um caminho, gritando seu apoio. Este momento é a definitiva catarse emocional da série, onde a verdadeira força não é o poder de um, mas a fé de todos em um só . O soco final de Deku, desferido ao som de You Say Run, não carrega apenas o poder de oito usuários passados do One for All, mas os desejos de um mundo inteiro, limpando os céus e selando o fim do pior vilão da história .

A temporada, no entanto, brilha igualmente no silêncio que se segue ao rugido. O epílogo, ambientado oito anos no futuro, é uma cereja do bolo perfeita e sábia . Ele renuncia a um "felizes para sempre" idealizado para mostrar um mundo em lenta e constante reconstrução. Vemos nossos heróis como jovens adultos, lidando com as responsabilidades e os legados que escolheram. Ochaco Uraraka, agora a Heroína Profissional nº. 24, usa sua fama para promover aconselhamento sobre Individualidades em escolas, canalizando sua empatia para um novo tipo de salvamento. E Shoto Todoroki e Katsuki Bakugo se consolidam como os pilares da nova geração de heróis de alto escalão.

E Izuku Midoriya? Sua escolha final é talvez a mais ousada e significativa de sua jornada. Tornando-se um grande herói ao abrir mão daquilo que o definia, ele encontra um propósito ainda mais profundo: cultivar o futuro. Como professor na U.A., ele passa o bastão, guiando a próxima geração com a mesma compaixão e fé obstinada que All Might uma vez depositou nele. É um fechamento de ciclo poeticamente perfeito, que transforma o símbolo da paz em uma semente permanente.

(Esta Castanha pensa que não era de fato necessário o traje simulador de poderes que permite que ele continue sendo herói parcialmente com a sua turma da U.A.)

Em suma, a oitava temporada de My Hero Academia é uma conclusão excelente que entende perfeitamente o espírito de sua própria narrativa. Ela equilibra o espetáculo visual implacável e as batalhas cinematográficas do Studio Bones com uma profundidade emocional rara. Ao dar a cada arco de personagem um fechamento digno — seja a redenção de Bakugo, a empatia de Uraraka ou o sacrifício continuado de All Might — e ao apostar em um epílogo contemplativo e cheio de esperança, a série assegura seu legado. Não como apenas mais um shonen de sucesso, mas como uma das sagas de super-heróis mais humanas, coerentes e inspiradoras já contadas, um verdadeiro marco que, assim como seu protagonista, deu o seu melhor até o último frame.

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