segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ONE BATTLE AFTER ANOTHER (2025)

---------- 


----------

"One Battle After Another" (2025) [162'] [1.90:1] [****]

Paul Thomas Anderson, um cineasta que desde os anos de 1990 esculpiu uma filmografia obsessivamente centrada nos abismos da psique masculina e nas mitologias tóxicas da América, surpreende com One Battle After Another. Este épico de ação e ideias representa um desvio significativo na sua carreira, não apenas pelo orçamento recorde e escala de blockbuster, mas pela vontade declarada de engajar com o ruído ensurdecedor do presente. Se filmes como There Will Be Blood ou The Master eram parábolas históricas sobre a corrosão da alma pelo capitalismo e pelo fanatismo, este é um foguete lançado diretamente no coração da América hiperpolarizada dos anos 2020 e além. Anderson abandona o distanciamento temporal para mergulhar na urgência de um país fraturado por guerras culturais, militarização das fronteiras e o espectro do autoritarismo. No entanto, mesmo neste terreno novo, o seu viés autoral permanece intacto: a fascinação por personagens despedaçados e obcecados, a percepção afiada de que os grandes ideais são frequentemente negociados por fraquezas pessoais mesquinhas, e uma desconfiança fundamental em relação a qualquer sistema de poder, seja ele o capital petrolífero, uma seita ou, agora, o estado policial E os seus opositores revolucionários. One Battle After Another é, assim, uma culminação de um autor que, sem abdicar do seu olhar íntimo e claustrofóbico, o amplifica para o tamanho de um pesadelo nacional, inserindo-se no debate contemporâneo como um conto de advertência sobre o ciclo eterno do conflito e o custo humano das guerras, sejam elas políticas ou pessoais.

A história, inspirada livremente num romance de Thomas Pynchon, é um mecanismo de relojoaria narrativa que engrena uma perseguição frenética com uma reflexão profunda sobre legado e traição. Dezesseis anos após os feitos do grupo revolucionário French 75, o seu ex-bombista Pat Calhoun, agora Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), vive uma existência apagada e paranoica, criando a filha Willa Ferguson (Chase Infiniti) longe do passado e completamente a margem da sociedade. A farsa de paz desmorona quando o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), um oficial militar racista e sádico humilhado pelo French 75 no passado, ressurge movido por uma obsessão psicossexual pela antiga companheira revolucionária de Bob, Perfídia Beverly Hills (vivida quase que selvagemente por Teyana Taylor) (que por falar nisso é negra!), e pela necessidade de apagar a prova viva do seu "desvio": a própria Willa, que é, revela-se, sua filha biológica (*)... A missão de Bob para proteger Willa, com a ajuda do seu professor de karatê Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro) e da comunidade de imigrantes e excluídos local, é o motor da ação, mas o tema central do filme é a desilusão e o peso da herança. Anderson explora a ironia amarga de que a luta contra um sistema opressor pode gerar os seus próprios monstros e traições: Perfídia, idealizada por Willa como uma heroína no presente, revelou-se no passado (após ter deixado Bob e uma Willa bebê para "voltar a causa") uma informante que sacrificou os camaradas para salvar a própria pele e que depois fugiu do programa de proteção a testemunhas (aliás esse acordo foi conseguido pelo próprio LockJaw, que usou as informações obtidas inclusive para MATAR membros do French75 e ficou furioso com a fuga de Perfídia). O conflito de Bob não é apenas contra Lockjaw, mas contra o seu próprio fracasso como revolucionário e a dificuldade de transmitir um sentido de luta à filha num mundo que parece ter tornado as suas antigas batalhas irrelevantes ou pervertidas (retrospectivamente o Sensei Sérgio parece ser o real mentor da jovem). Já Willa, vivida com ferocidade por Infiniti, encarna o conflito da nova geração, forçada a navegar entre o mito dos pais, a sua horrível verdade e a necessidade de forjar a sua própria identidade e resistência, culminando num clímax onde ela, e não o pai desgastado, faz o ajuste de contas com LockJaw e com o assassino enviado pelos Supremacistas para cauterizar toda a situação (Ao final de uma espetacular sequência de perseguição de carros por falar nisso!).

(*) LockJaw já no presente deseja ingressar numa Cabala de Supremacistas Brancos denominada (vejam só!) "Aventureiros Natalinos" e teme que a sua indiscrição do passado seja facilmente descoberta por tal grupo. Por isso age depois de tanto tempo.

Para contar esta história de paranoia e perseguição, Anderson e a sua equipe mobilizam uma linguagem audiovisual que é, em si mesma, um ato de rebelião cinematográfica. A fotografia de Michael Bauman, recorrendo ao formato VistaVision de grande resolução, capta a América contemporânea com uma crueza que vai do pitoresco ao claustrofóbico, transformando um muro fronteiriço numa paisagem abstrata e opressiva e as fugas pelos telhados de subúrbios numa coreografia desesperada. A montagem de Andy Jurgensen é um estudo de ritmo, alternando entre a comédia de erros (como na cena antológica em que Bob, nervoso, não consegue lembrar dos códigos secretos da resistência num telefone público) e sequências de ação de tirar o fôlego, como o duelo automotivo final numa estrada ondulante (que, por incrível que pareça, parece absorver e adaptar ao contexto a Mise-en-scène dos duelos dos faroestes de Sérgio Leone)... A trilha sonora de Jonny Greenwood é um personagem por si mesma, um conjunto de nervos expostos que vai desde pianos percussivos e repetitivos, que soam como um alarme de ansiedade constante, até crescendos orquestrais que amplificam o perigo... No que tange às atuações, DiCaprio entrega uma performance surpreendentemente física, utilizando seu corpo como um instrumento de comédia e tragédia, tropeçando e caindo enquanto tenta (sem conseguir) ser o herói que sua filha precisa (algo muito bem resumido pela sua incapacidade de lembrar dos códigos de contato com a resistência e mesmo trechos dos seus manifestos). Benicio del Toro, como o Sensei Sergio, rouba cada cena com uma estoicidade hilária, liderando um exército improvável de ninjas skatistas que exemplifica o absurdo maravilhoso do universo de Anderson (O filme também conta com freiras guerrilheiras plantadoras de maconha e esta Castanha não está brincando quanto a isso!)... O LockJaw (de Penn) é (por sua vez) detalhadamente composto a um infinitésimo de uma caricatura. Com trejeitos afetados (levemente afeminados) sobrepostos a atitudes machistas estereotipadas. Por exemplo, ele anda com as pernas arqueadas e de maneira ritmada lembrando um cowboy ao mesmo tempo em que parece ter recebido um doloroso experimento de ordenha da próstata (algo que Perfídia realizou nele aparentemente) (**).

(**) Ele chega mesmo a sugerir no final aos Supremacistas que Perfídia o "Estuprou em Reverso" roubando-lhe o seu sêmen (!). Isso parece remeter diretamente ao General Ripper de Dr. Strangelove de Kubrick e os seus infames "preciosos fluidos corporais". Aliás vários comentaristas tem feito conexão com a obra de Kubrick (muito na veia da sua paranoia absurda), inclusive o próprio Spielberg (grande fã e amigo de Kubrick). 

Em conclusão, One Battle After Another de Paul Thomas Anderson é um triunfo complexo e desafiador, um filme que se recusa a ser simples ou consolador. O seu veredicto sobre os temas da resistência e do extremismo é ambivalente e, por isso, poderosamente honesto: a luta é um ciclo inescapável (de fato "uma batalha após a outra"), frequentemente corrompida por falhas humanas e traições, mas a sua chama – especialmente quando transferida para uma nova geração mais lúcida e menos dogmática – permanece como única resposta à desumanização. Os personagens principais, Bob e Willa, encontram a sua redenção não numa vitória política clara, mas na reconstrução do seu vínculo familiar em bases mais saudáveis e honestas, sugerindo que a resistência mais profunda pode começar no âmbito pessoal. Para a obra de Anderson, este filme é um marco de maturidade e coragem, provando que o seu génio para a caracterização pode florescer numa escala blockbuster sem ceder à simplificação, criando aquela que é simultaneamente a sua obra mais acessível e uma das suas mais ricas tematicamente. Para além da sua filmografia, One Battle After Another impacta o cinema contemporâneo ao reivindicar um espaço meio esquecido: o do grande filme de ideias com o coração de um thriller implacável e a inteligência de um olhar crítico implacável. É uma obra que, como os seus protagonistas, acredita que a batalha, por mais cansativa que seja, vale sempre a pena ser travada, oferecendo-nos no processo um farol de excelência cinematográfica num panorama cultural frequentemente amnésico.

----------

sábado, 3 de janeiro de 2026

THE PITT S1 (2025)

 ----------


----------

S1.E01 ∙ 07:00 A.M. [***]
S1.E02 ∙ 08:00 A.M. [***]
S1.E03 ∙ 09:00 A.M. [***]
S1.E04 ∙ 10:00 A.M. [***] 
S1.E05 ∙ 11:00 A.M. [***] 
S1.E06 ∙ 12:00 P.M. [***] 
S1.E07 ∙ 01:00 P.M. [***] 
S1.E08 ∙ 02:00 P.M. [****] 
S1.E09 ∙ 03:00 P.M. [***1/2] 
S1.E10 ∙ 04:00 P.M. [****] 
S1.E11 ∙ 05:00 P.M. [***1/2] 
S1.E12 ∙ 06:00 P.M. [****]  
S1.E13 ∙ 07:00 P.M. [****]
S1.E14 ∙ 08:00 P.M. [****]
S1.E15 ∙ 09:00 P.M. [****]

----------

A primeira temporada de The Pitt (da HBO) posiciona-se como um dos empreendimentos mais ambiciosos e aclamados da carreira de seus longevos realizadores principais: R. Scott Gemmill, John Wells e Noah Wyle. Essa radiante reunião do trio que outrora colaborou na série de pronto socorro ER resulta não em uma mera nostalgia, mas em uma atualização radical do gênero médico para os tempos atuais. Para o maiúsculo produtor Wells (*), diretor do episódio piloto aqui, é a consolidação de sua expertise na condução de dramas realistas com grande elenco, enquanto Wyle, atuando e escrevendo um episódio, transcende a persona do intérprete do novato John Carter em ER para entregar uma performance definitiva como um médico tarimbado porém assombrado pelo trauma pandêmico (e claramente sofrendo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático ou TEPT). A opção estrutural — cada episódio cobrindo uma hora real de um plantão de 15 horas — não é um mero artifício, mas a espinha dorsal de uma imersão sem precedentes. Lançada em 2025, a série conecta-se visceralmente com um público global ainda processando as cicatrizes da COVID-19, transformando o fictício Pittsburgh Trauma Medical Center (o titular THE PITT) em um microcosmo da sociedade. Ela captura a exaustão sistêmica, a resiliência profissional e os dilemas éticos de uma era marcada pela precarização da saúde pública (o que inclui a desvalorização dos seus profissionais!) , oferecendo não apenas entretenimento, mas uma reflexão urgente e coletiva. A aclamação foi imediata e retumbante: a temporada conquistou cinco Prêmios Emmy, incluindo o de Melhor Série Dramática, e foi listada pelo American Film Institute (AFI) como um dos dez melhores programas de televisão do ano, consolidando seu inequívoco status popular e crítico desde o seu lançamento.

(*) De: China Beach , ER , The West Wing , The Third Watch , SouthLand , Animal Kingdom , Shameless... A narrativa da primeira temporada é um estudo de caracterização sob pressão máxima. Durante um único e aparentemente interminável plantão (que culmina transformando o PS em um hospital de campanha para tratar uma enxurrada de vítimas de um tiroteio em massa em um festival de música próximo), acompanhamos o experiente (médico chefe do dia) Dr. Michael "Robby" Robinavitch (Noah Wyle) no aniversário da morte de seu mentor na pandemia, um trauma que ecoa em cada decisão. Ao seu redor, uma nova geração de médicos navega os seus próprios abismos: a arrogante interna Dr. Trinity Santos (Isa Briones); a meticulosa Dr. Samira Mohan (Supriya Ganesh); a resiliente mãe solteira Dr. Cassie McKay (Fiona Dourif); a brilhante neurodivergente (e uma particular favorita desta Castanha) Dr. Melissa "Mel" King (Taylor Dearden) etc. A estrutura em tempo real é o motor narrativo perfeito, forçando escolhas éticas irrevogáveis e expondo o caráter de cada um. Casos como o de um idoso com Alzheimer cuja família revoga sua ordem de não reanimar, ou o de um adolescente vítima de overdose de fentanil, servem como veículos para explorar dignidade, vício, luto e falha sistêmica (ambos os casos direto das manchetes de jornais, assim como outros)... A série é muito elogiada por sua autenticidade médica — "o retrato mais realista de um departamento de emergência urbano movimentado", dizem alguns — mas também é criticada por uma abordagem por vezes didática de questões sociais, que alguns espectadores consideram "preguiçosa" ou "panfletária". Este é o conflito central da temporada: a luta humanista contra um sistema à beira do colapso, onde cada vitória é pessoal e cada derrota, coletiva. A profundidade dos conflitos individuais, revelando desde a insegurança de Mohan até o equilíbrio precário de McKay, entrelaça-se com a crise institucional, criando um mosaico complexo onde o pessoal e o profissional são indissociáveis.

(A série atinge força total no episódio 8 e daí não olha mais para trás até o fim da temporada!)

(Ao final do episódio 13, Robby é forçado a declarar morta a namorada de Jake, seu enteado de fato, quebrando finalmente sob o peso acumulado de traumas não processados. Ainda assim, após ser chamado a responsabilidade em meio ao caos por um dos estagiários de medicina novatos (Dennis Whitaker vivido por Gerran Howell) ele realiza o esforço sobre-humano de voltar ao plantão. É ver para crer a atuação de Wiley neste ponto.)

(Quando tudo é dito ao fim da temporada é inescapável a sensação de que a grande arma secreta da atração é o médico chefe do turno noturno do PS Dr. Jack Abbot (Shawn Hatosy), que se torna um favorito instantâneo do público apesar do tempo limitado em tela. Sem oferecer spoilers demais existem duas cenas contracapas com Robby e Abbot sozinhos no telhado do hospital que ressoam muito além do último episódio.)
(É muito sofisticado o tratamento dado a sub trama do vício em remédios do residente sênior Frank Langdon (Parick Ball). Introduzir Santos como alguém tão arrogante e ambiciosa e mesmo literalmente sem noção e fazer justo ela investigar tal questão sobre Langdon deixa a audiência em dúvida até o último momento sobre a veracidade do caso. Transformando o que seria uma trama convencional do gênero com execução tipicamente previsível em algo novo e fresco.)

A contribuição de Johanna Coelho como diretora de fotografia estabelece uma linguagem visual revolucionária para o gênero médico. Colaborando estreitamente com a designer de produção Nina Ruscio, Coelho iluminou um set completamente funcional de trezentos e sessenta graus que permitia aos diretores Amanda Marsalis, John Wells, Damian Marcano, Silver Tree, John Cameron e Quyen Tran filmarem em qualquer direção sem interrupções. A decisão de utilizar principalmente câmeras portáteis ARRI Alexa Mini LF cria uma estética documental imersiva onde a câmera funciona como um membro fantasma da equipe, seguindo personagens através de longos planos-sequência coreografados com precisão milimétrica. Os atores passaram duas semanas em campo de treinamento médico aprendendo suturas, intubação, ultrassonografia e ressuscitação cardiopulmonar, permitindo que executassem procedimentos realistas. Médicos e enfermeiros reais foram contratados como figurantes para adicionar autenticidade, e os operadores de câmera literalmente se vestiam com uniformes médicos caso fossem capturados acidentalmente nas tomadas. A profundidade de campo rasa aprisiona visualmente os espectadores junto aos personagens, vendo apenas o que eles veem, sentindo o espaço claustrofóbico de corredores superlotados e salas de trauma. Durante o tiroteio em massa dos episódios finais, Marsalis adiciona uma terceira câmera para capturar reações em meio ao mar de pacientes críticos, abandonando os planos-sequência fluidos em favor de montagem mais fragmentada que reflete o colapso da ordem. As atuações transcendem o mérito técnico: Wyle entrega camadas de dor mal disfarçada e explosões controladas, Katherine LaNasa transforma Dana Evans (a enfermeira chefe do turno diurno) em âncora emocional indispensável, enquanto o elenco jovem de Briones, Dearden, Howell etc. traz vulnerabilidade fresca ao cansaço institucional. A trilha sonora permanece discreta, permitindo que sons ambientes do pronto-socorro criem tensão orgânica.

Em conclusão, a primeira temporada de The Pitt, criação de Gemmill junto ao Know-How e a experiência de Wells e Wyle, oferece um veredicto implacável sobre a medicina americana contemporânea: o sistema está fundamentalmente quebrado, e os heróis que o sustentam estão se quebrando junto com ele. Robby termina o turno planejando uma licença porque reconhece (finalmente!) que não pode continuar neste ritmo sem destruir a si mesmo, Dana esvazia sua mesa incerta se retornará (tendo sido agredida por um paciente em meio ao caos!) e Langdon enfrenta um futuro profissional nebuloso após ser pego no vício. Mas existe resiliência tenaz nestes profissionais: Santos e Whitaker formam uma amizade improvável como colegas de apartamento, Mel mantém sua rotina de sextas-feiras com a irmã apesar do trauma do dia e a equipe inteira se recusa a abandonar pacientes mesmo quando todo recurso está esgotado. A série argumenta que dedicação individual jamais compensará negligência sistêmica, que o heroísmo médico não deveria ser necessário em uma sociedade funcional, e que ignorar a saúde mental de curadores apenas garante catástrofe coletiva. Wells, Gemmill e Wyle não romantizam o sacrifício; eles o expõem como sintoma de falha política e moral. O impacto foi imenso: a temporada conquistou treze indicações ao Emmy incluindo Melhor Série Dramática, vencendo cinco estatuetas e também foi listada entre os dez melhores programas de televisão de 2025 pelo American Film Institute (AFI). Profissionais de saúde organizaram sessões de exibição em hospitais por todo o país, validando sua precisão dolorosa. A renovação para segunda e terceira temporadas confirmou que esta não é anomalia, mas nova voz permanente exigindo que a televisão e a América confrontem verdades desconfortáveis sobre como tratamos aqueles que nos tratam. The Pitt redefiniu o drama médico contemporâneo com um testemunho urgente de uma crise nacional.

----------

ADOLESCENCE S1 (2025)

----------


01 - EP#1.1 [***1/2]
02 - EP#1.2 [***1/2]
03 - EP#1.3 [****]
04 - EP#1.4 [***1/2]

----------

Adolescence, a minissérie britânica de 2025 disponível na Netflix, estabelece-se não apenas como um triunfo artístico, mas como um marco cultural urgente. A força criativa por trás da produção é um triunvirato de peso: Stephen Graham, ator veterano que aqui assume o quádruplo papel de criador, roteirista, produtor executivo e protagonista; Jack Thorne, renomado escritor premiado com o BAFTA e o Emmy; e Philip Barantini, diretor que reafirma sua maestria na arte do plano-sequência após o aclamado Boiling Point (2021). Para Graham e Thorne, a série representa a culminação de carreiras dedicadas a retratos sociais densos e humanizados, agora voltadas para uma investigação brutal da masculinidade tóxica na era digital. A novidade radical está na fusão dessa inquietação temática com uma ousadia formal extrema. Para Barantini, a série consolida uma assinatura autoral – o filme-contínuo – e a eleva à escala e complexidade narrativa de uma minissérie, um feito técnico e dramático (talvez!) inédito na televisão. Adolescence se insere no cenário televisivo de 2025 como um antídoto potente à banalização do chamado true crime e dos thrillers procedurais. Enquanto a indústria ainda busca reviravoltas surpreendentes, a série desarma o público no primeiro episódio, trocando o "quem" pelo "porquê". Para sua audiência, oferece um espelho desconfortável sobre a criação de filhos num mundo hiperconectado; para a TV, é uma lição de como a forma pode ser fundida ao conteúdo para gerar empatia visceral; e, para o mundo, funciona como um diagnóstico angustiante e necessário dos efeitos colaterais da vida online na psique adolescente, ecoando casos reais de violência juvenil que inspiraram seus criadores.

A história central é aparentemente simples: Jamie Miller (Owen Cooper), um garoto de 13 anos de uma família comum do norte da Inglaterra, é preso sob a acusação de assassinar uma colega de escola, Katie Leonard. O grande trunfo narrativo, porém, é a abolição do suspense investigativo. O primeiro episódio termina com a exibição do vídeo de CCTV que incrimina Jamie de forma incontestável. A partir daí, Adolescence transforma-se numa profunda investigação psicológica, um mergulho nas raízes de um ato de violência misógina. A estrutura da minissérie, composta por quatro episódios que saltam no tempo, é um estudo de perspectivas e consequências. O episódio inicial foca no choque e na desorientação da família Miller durante a prisão, com o pai Eddie (Stephen Graham) tentando, em vão, proteger o filho de uma verdade que ele mesmo não consegue processar. O segundo episódio segue o detetive Luke Bascombe (Ashley Walters) pela ecologia social tóxica da escola, um labirinto de bullying, códigos de emojis hostis e a descoberta da influência da "manosfera" e de figuras como Andrew Tate sobre Jamie e seus amigos. O conflito central de Jamie, revelado com crueza no terceiro e mais aclamado episódio, é sua profunda insegurança, sua solidão e sua raiva, fermentadas em fóruns online que o levaram a ver a rejeição de Katie como uma humilhação que demandava retribuição violenta. Em uma sessão de avaliação psicológica com Briony Ariston (Erin Doherty), ele alterna entre vulnerabilidade infantil e arrogância misógina, confessando que pensou que Katie estaria "fraca" e mais receptiva após sofrer um vazamento de nudes. O episódio final, passado um ano depois, abandona o tribunal para se fixar no luto silencioso e na culpa dos Miller. O conflito de Eddie, agora, é interno: uma luta contra o autoquestionamento devastador de um pai que percebe não ter conhecido o filho que criou e que se pergunta, no ápice de sua dor, se o amou o suficiente ou se o amou de forma errada. A série identifica seus temas principais de forma cristalina: a radicação online do ódio às mulheres, o fracasso coletivo das instituições (família, escola) em interceptar sinais de angústia, e o abismo de incompreensão entre gerações criadas em realidades sociais radicalmente diferentes.

A realização audiovisual de Adolescence é o pilar que sustenta toda a sua potência dramática e conceitual. A escolha radical de filmar cada episódio em um único plano-sequência contínuo, sem cortes, é muito mais que um mero exercício de virtuosismo técnico. É uma decisão estética que redefine por completo o pacto emocional com o espectador. A câmera, operada com precisão cirúrgica pelo diretor de fotografia Matthew Lewis, torna-se uma testemunha incansável e claustrofóbica. Ela nos nega o alívio de um corte, forçando-nos a vivenciar em tempo real a agonia da família na delegacia, a tensão insuportável do interrogatório entre Jamie e Briony, e o peso esmagador do silêncio na casa vazia dos Miller. Essa técnica, que exigiu um trabalho coreográfico monumental de atores e equipe, com ensaios exaustivos e tomadas que duram a hora inteira do episódio, gera uma imersão e um realismo quase documental. As atuações, por sua vez, precisaram ser calibradas com a precisão de uma performance teatral ao vivo. Owen Cooper, em sua estreia absoluta, oferece uma atuação desarmadora em sua autenticidade, transitando entre a fragilidade de uma criança assustada e a pose dura de um adolescente radicalizado. Stephen Graham, como Eddie, conduz uma masterclass em dor contida, onde cada micro expressão e pausa carregada diz mais que qualquer diálogo. Erin Doherty, como a psicóloga, transmite com nuances mínimas o turbilhão interno entre a postura profissional e o horror humano diante do que ouve. A trilha sonora discreta e o design de som realista amplificam a sensação de estarmos invasivamente presentes naquelas salas. A linguagem visual, portanto, não ornamenta a história: ela é a própria experiência da história, replicando a asfixia, a inescapabilidade e a fluência caótica de um trauma que não pode ser editado ou suavizado.

Em conclusão, a minissérie Adolescence, de Graham, Thorne e Barantini, é um feito televisivo de rara integridade e impacto. O veredicto final que ela oferece sobre seus temas e personagens é sombrio, complexo e deliberadamente inconclusivo. A série não apresenta respostas fáceis nem redime seus personagens; em vez disso, oferece um retrato devastador de como uma constelação de falhas – pessoais, familiares, educacionais e, sobretudo, sociotecnológicas – pode convergir para a tragédia. Jamie Miller é tanto um perpetrador quanto uma vítima de um ecossistema digital venenoso, e seus pais, Eddie e Manda, são retratados menos como culpados e mais como representantes de uma geração perdida, incapaz de decifrar os códigos do novo mundo em que seus filhos crescem. O impacto da série transcende em muito o entretenimento. Para a audiência, funciona como um catalisador para reflexões dolorosas sobre paternidade, responsabilidade e o ambiente digital que permeia a vida jovem. Para a televisão, Adolescence eleva o padrão do drama criminal, provando que a profundidade psicológica e a ousadia formal podem gerar um engajamento massivo – tornou-se a primeira produção de streaming a liderar o ranking de audiência semanal no Reino Unido e foi premiada com múltiplos Emmys, incluindo Melhor Minissérie. Para a cultura em geral, a série cumpre uma função crucial de diagnóstico social, colocando um holofote incômodo e necessário sobre a maneira como ideologias de ódio encontram terreno fértil no isolamento e na insegurança da adolescência contemporânea. É, em suma, uma obra-prima que fere fundo para transformar, um marco do realismo televisivo do século XXI cuja relevância e poder de perturbação devem ecoar ainda por muito tempo.

----------

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

KAI HANSEN (1984-2000)

 ----------


(1984) Helloween [***]
(1985) Helloween Walls Of Jericho [****]
(1987) Helloween Keeper Of The Seven Keys - I [****]
(1988) Helloween Keeper Of The Seven Keys - II [****]
(1989) Helloween Live In The U.K [****]
(1990) Gamma Ray Heading For Tomorrow [***1/2]
(1991) Gamma Ray Sigh No More [***]
(1993) Gamma Ray Insanity & Genius [***]
(1995) Gamma Ray Land Of The Free [****]
(1997) Gamma Ray Somewhere Out In Space [****]
(1999) Gamma Ray Powerplant [***]
(2000) Gamma Ray Blast From The Past (Compilation) [***]

- Kai Hansen: guitars , vocals [01-02] , vocals [09-12].
- Michael Kiske: vocals [03-05].
- Michael Weikath: guitars [01-05].
- Markus Grosskopf: bass [01-05].
- Ingo Schwichtenberg: drums [01-05].
- Ralf Scheepers: vocals [06-08].
- Uwe Wessel: bass [06-07].
- Mathias Burchardt: drums [06].
- Dirk Schlächter: guitars [07-09] , bass [10-12].
- Uli Kusch: drums [07].
- Jan Rubach: bass [08-09].
- Thomas Nack: drums [08-09].
- Henjo Richter: guitars , keyboards [10-12].
- Daniel Zimmermann: drums [10-12].

----------

THIN LIZZY (1974-1979)

----------

1974 Night Life [**1/2]
1975 Fighting [***1/2]
1976 Jailbreak [****]
1976 Johnny The Fox [***1/2]
1977 Bad Reputation [****]
1978 Live & Dangerous (LIVE) [****]
1979 Black Rose  [****]

----------

PESSOAL:

- Brian Downey: bateria e percussão.
- Scott Gorham: guitarra.
- Phil Lynott: baixo, vocais, guitarras eventuais.
- Brian Robertson: guitarra, vocais de apoio [01-06].
- Gary Moore: guitarra, vocais de apoio [07].

----------

Thin Lizzy (1974-1979)

O período de 1974 a 1979 representa a era de ouro incontestável do Thin Lizzy. É a história de uma banda que se transformou de contendente promissora em lenda do rock, definindo um som e uma atitude que ecoariam por décadas. Esta era começou com a estabilização da formação clássica — o poeta e baixista Phil Lynott, o baterista Brian Downey, e o recém-chegado ataque de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson. Ao longo desses seis anos, eles navegaram turbulências internas, conflitos pessoais e um cenário musical dominado pela ascensão do punk. Sua resposta foi forjar uma identidade única: uma mistura de potência hard rock, narrativa urbana e um coração distintamente irlandês. Seu uso pioneiro de solos de guitarra harmonizados (pós WishBone Ash) se tornou um modelo para bandas vindouras de metal e hard rock.

A jornada teve início em 1974, um ano de transição e fundação. Com a nova formação clássica, a banda buscava solidificar seu som, mas o álbum *Night Life* adentrou um território mais suave, em descompasso com sua energia ao vivo. O ano foi mais sobre plantar sementes, incluindo o solo do convidado Gary Moore na célebre canção "Still in Love with You", do que colher frutos. Em 1975, determinados, eles entraram com um propósito renovado. O álbum *Fighting* foi uma reação direta, mostrando uma banda endurecendo seu ataque com uma crueza e confiança recém-descobertas. Foi o combate necessário antes da guerra pelo mundo do rock.

Então veio 1976, o ano da explosão. *Jailbreak* foi uma obra-prima de concisão e carisma que os catapultou ao estrelato internacional, impulsionado pelo hino atemporal "The Boys Are Back in Town". No entanto, o triunfo foi imediatamente seguido pela turbulência da hospitalização de Lynott, que mesmo assim e ainda em 76 rendeu o ágil e sombrio *Johnny the Fox*. Na esteira de um ano fraturado, 1977 foi sobre uma resiliência feroz. Com um dos guitarristas lesionado, a banda gravou *Bad Reputation* como um power trio, forjando seu álbum de estúdio mais pesado e desafiador. Em 1978, era hora de capturar a mágica do palco. O álbum *Live and Dangerous* imortalizou a energia explosiva da formação clássica com Gorham e Robertson, consagrando-se como um dos maiores discos ao vivo da história do rock. O ápice artístico final veio em 1979 com *Black Rose: A Rock Legend*. O retorno do virtuose Gary Moore para a gravação em estúdio empurrou a banda a novas alturas de brilho técnico e ambição, culminando na epopeia celta da faixa-título. Dos passos hesitantes de 1974 ao cume magistral de 1979, esta é a trajetória do Thin Lizzy em seu momento mais vital e criativo.

1974 Night Life [**1/2]

Surgindo no final de 1974, *Night Life* captura o Thin Lizzy em um momento de transição e exploração. O mundo do rock estava em fluxo, com a era grandiosa dos gigantes do início dos anos 70 dando lugar a uma abordagem mais direta e crua. Para o Thin Lizzy, este álbum introduziu a formação fundamental de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson, mas a música em si tomou um desvio surpreendente. Produzido com um brilho suave, quase soul, por Ron Nevison, ele contrasta fortemente com a força crua e hard rock que a banda exibia ao vivo. O disco parece um esforço consciente para mostrar versatilidade e habilidade na composição, por vezes em detrimento do fogo inato da banda. É um álbum de humores e melodias, apresentando baladas e números blues que destacam o desenvolvimento de Phil Lynott como um compositor de nuances. As faixas-chave contam essa história. Still in Love with You é a peça central inegável do álbum, uma balada blues de queima lenta elevada por um solo de guitarra emotivo e incisivo do convidado Gary Moore. Ela revelou a capacidade de Lynott para a alma profunda e o anseio romântico. Por outro lado, She Knows abre o álbum com um ritmo gentilmente propulsivo, mostrando um lado mais contido e melódico que era novo para a banda. Finalmente, It's Only Money fornece um golpe necessário de rock and roll mais duro e primal, um lembrete da energia central da banda lutando para brilhar através da produção polida. *Night Life* é um disco competente e muitas vezes bonito, mas parece uma pedra fundamental, um experimento que apontava para o som mais pesado e confiante que eles logo dominariam.

1975 Fighting [***1/2]

Se *Night Life* foi um passo tentativo, *Fighting*, de 1975, foi um salto decisivo para frente. Este álbum marca o momento em que o Thin Lizzy encontrou sua verdadeira voz e começou a lutar com todo o seu peso. O contexto era uma cena rock faminta por hinos, e com Lynott agora no comando da produção, a banda conscientemente se livrou do verniz mais suave do ano anterior para um som mais cru e assertivo. O título era uma declaração de intenção: este era o som de uma banda lutando por reconhecimento, afiando suas garras e estabelecendo a base essencial para os triunfos que viriam. Em comparação com as divagações soul de *Night Life*, *Fighting* é tudo sobre foco e força. O ataque de guitarras gêmeas de Gorham e Robertson começa a se unir no som harmonizado característico que se tornaria sua marca registrada, não apenas como decoração, mas como uma força motriz e melódica. O álbum arde com uma confiança recém-descoberta, canalizando a energia de seus shows ferozes para o estúdio. Três faixas definem essa mudança pivotal. Wild One é um dos primeiros grandes hinos de Lynott dirigidos a personagens, uma ode amarga e doce a um espírito inquieto, envolta em uma melodia que é tanto dura quanto terna. Suicide é um juggernaut hard rock, impulsionado pelos tambores trovejantes de Brian Downey e um riff implacável e urgente que anunciou a nova direção mais dura da banda. Talvez o mais revelador seja o cover de Rosalie, de Bob Seger, que eles reinventam completamente e tornam seu, injetando nele uma energia arrogante e celebratória que se tornaria um clássico ao vivo. *Fighting* é o som de uma banda crescendo em seu poder, um álbum crucial e emocionante onde todas as peças finalmente começaram a se encaixar.

1976 Jailbreak [****]

*Jailbreak* é o marco, o momento em que tudo cristalizou. Lançado em março de 1976, ele impulsionou o Thin Lizzy de ato de rock respeitado para estrelas internacionais. Em uma paisagem do rock cheia de fantasia e excesso, as canções de Lynott sobre rebeldes urbanos, fora-da-lei desesperados e cowboys românticos pareciam vividamente reais. O álbum é uma obra-prima de equilíbrio — duro, mas melódico, hínico, mas pessoal, capturando perfeitamente a essência da alquimia das guitarras gêmeas e da narrativa poética de Lynott. Seguindo a base de *Fighting*, *Jailbreak* refinou esse poder em uma coleção impecável de músicas, cada uma um single em potencial, mas parte de um todo coeso. Foi um sucesso criativo e comercial, quebrando o Top 20 em ambos os lados do Atlântico e finalmente dando a eles um hit global. O trio de músicas em seu núcleo é intocável. The Boys Are Back in Town é mais do que um hit; é um marco cultural, um hino arrogante e cheio de histórias, com um riff imortal e uma guitarra principal harmonizada que definiu uma era. Jailbreak abre o álbum com drama cinematográfico, uma narrativa tensa conduzida por uma linha de guitarra ameaçadora e preenchimentos explosivos de bateria de Downey. Cowboy Song mostra seu alcance dinâmico, passando de uma melodia nostálgica e desejosa para uma seção intermediária de hard rock galopante. *Jailbreak* não é apenas um álbum de sucesso; é uma declaração perfeita de identidade, o ápice da fórmula que a banda vinha construindo, e continua sendo o ponto de entrada definitivo para sua herança.

1976 Johnny The Fox [***1/2]

No calor do sucesso de *Jailbreak*, o Thin Lizzy lançou *Johnny the Fox* apenas sete meses depois, em outubro de 1976. Nascido do caos — escrito por Lynott enquanto se recuperava de hepatite — o álbum é um trabalho mais denso, complexo e, por vezes, mais sombrio. Enquanto o punk começava a ganhar força, desafiando as estrelas do rock estabelecidas, o Thin Lizzy respondeu não simplificando, mas aprofundando seu rock narrativo e rico em camadas. Comparado ao foco direto de *Jailbreak*, *Johnny the Fox* é mais variado e experimental, um álbum que prova que a banda não era um cavalo de um só truque. Apesar das circunstâncias difíceis de sua criação, o álbum rendeu hits e músicas de qualidade. A abertura Don't Believe a Word é uma aula de economia rock, um riff de blues cru e uma letra cínica que se tornou um single de sucesso. Rocky mostra o lado mais pesado e quase épico da banda, com harmonias de guitarra complexas e uma narrativa de luta. No extremo oposto do espectro, Old Flame é uma das baladas mais sinceras e bonitas de Lynott, uma reflexão suave sobre o amor perdido que demonstra sua amplitude emocional. *Johnny the Fox* pode carecer da consistência inabalável de seu predecessor imediato, mas compensa com ambição e profundidade, mostrando uma banda confiante o suficiente para explorar seus limites mesmo sob pressão extrema.

1977 Bad Reputation [****]

Em 1977, com as tensões internas crescendo e o guitarrista Brian Robertson temporariamente fora devido a uma lesão, o Thin Lizzy poderia ter facilmente desmoronado. Em vez disso, eles produziram um dos discos mais ferozes e focados de sua carreira: *Bad Reputation*. Gravado essencialmente como um power trio, o álbum possui uma crueza e uma urgência que refletem sua gênese turbulenta. Em um ano onde o punk e a nova onda desafiavam o antigo regime do rock, o Thin Lizzy respondeu com um disco que era pura atitude e potência. A faixa-título, Bad Reputation, é uma faixa monstro de hard rock, uma declaração desafiante construída sobre um riff impiedoso e a entrega vocal de Lynott no seu mais confiante. Dancing in the Moonlight, por outro lado, mostrou seu gênio para a música pop-rock inteligente, com um riff de baixo inesquecível e uma sensibilidade quase new wave que a tornou um clássico atemporal. O álbum também explora temas mais sombrios, como em Opium Trail, que reflete as batalhas pessoais crescentes de Lynott. *Bad Reputation* é um álbum de resiliência feroz. Ele prova que o núcleo criativo da banda — Lynott, Downey e Gorham — era inquebrável, capaz de transformar adversidade em arte poderosa e reafirmar seu lugar como uma das maiores bandas de rock da era.

1978 Live & Dangerous [****]

Muitas bandas lançam álbuns ao vivo como preenchimento entre discos de estúdio, mas *Live and Dangerous* do Thin Lizzy, lançado em 1978, é uma obra-prima que redefine o próprio gênero. Capturando a eletricidade de suas performances no palco entre 1976 e 1977, o álbum não apenas documenta a banda no auge de seus poderes, mas também aprimora miticamente seu legado. Em um momento em que o rock estava se tornando cada vez mais produzido em estúdio, *Live and Dangerous* foi um lembrete visceral do poder bruto e da conexão com o público. A versão de Jailbreak aqui é mais explosiva e urgente do que a original em estúdio. Cowboy Song se expande em uma jam épica, destacando a improvisação magistral e a química entre os guitarristas. A performance de Still in Love with You se torna uma balada monumental, com o solo de guitarra ganhando uma intensidade emocional avassaladora. É crucial notar que o som característico de guitarras gêmeas neste álbum é inteiramente de **Scott Gorham e Brian Robertson**, a formação estável da era de ouro. *Live and Dangerous* é mais do que um grande álbum ao vivo; é uma cápsula do tempo que congelou a essência do Thin Lizzy como uma força da natureza no palco, solidificando sua reputação como uma das maiores bandas ao vivo de todos os tempos.

1979 Black Rose [****]

*Black Rose: A Rock Legend*, de 1979, representa o pináculo artístico do Thin Lizzy. Com o retorno do guitarrista Gary Moore (no lugar de Robertson), a banda alcançou um novo nível de virtuosismo e ambição temática. Este álbum é a fusão final de todas as facetas do Thin Lizzy: o hard rock potente, a sensibilidade pop, a narrativa lírica e as raízes celtas, tudo embrulhado em uma produção impecável. O single Waiting for an Alibi é um exemplo perfeito de seu rock direcionado às rádios, com um riff cativante e uma letra cheia de personagens urbanos. Do You Believe in Love mergulha em um território mais pesado e complexo, com mudanças de tempo dinâmicas e harmonias de guitarra intrincadas. No entanto, a coroa do álbum é a faixa-título, Róisín Dubh (Black Rose). Esta epopeia de sete minutos é uma obra-prima ambiciosa, uma jornada musical que tece tradicionais irlandesas, como "The Mason's Apron" e "Danny Boy", em uma tapeçaria de hard rock poderosa. É a declaração definitiva de identidade de Lynott, celebrando sua herança irlandesa de uma forma inigualável no rock. *Black Rose* é o trabalho de estúdio mais coeso e realizado da banda, um álbum que prometia um futuro ainda mais brilhante e, de certa forma, serviu como um ponto final perfeito para sua era de ouro.

Conclusão

O legado do Thin Lizzy, forjado no intenso período entre 1974 e 1979, é duradouro. Eles transcenderam a classificação de simples banda de hard rock para se tornarem contadores de histórias musicais, cujo som — definido pela poesia de rua de Phil Lynott e pelo ataque pioneiro das guitarras gêmeas — influenciou gerações de artistas, do heavy metal ao rock alternativo. Mais do que uma sequência de álbuns, essa foi uma jornada de transformação, resiliência e pura magia no palco, que garantiu seu lugar eterno no panteão do rock.

----------

WISHBONE ASH (1970-1973)

------------


----------

ÁLBUNS:

1970 - Wishbone Ash [★★★½]
1971 - Pilgrimage [★★★½]
1972 - Argus [★★★★]
1973 - Wishbone Four [★★½]
1973 - Live Dates [★★★★]

----------

PESSOAL:

Andy Powell: guitarras solo, rítmicas e acústicas, vocais. 
Ted Turner: guitarras solo, slides, rítmicas e acústicas, vocais. 
Martin Turner: baixo, vocais. 
Steve Upton: bateria, percussão.

----------

WISHBONE ASH (1970-1973)

Entre 1970 e 1973, o Wishbone Ash forjou sua lenda em um dos períodos mais férteis e transformadores do rock. No alvorecer da década, com o fim de ícones como o Cream, o cenário musical ansiava por novas vozes que pudessem fundir o poder do blues rock emergente com a ambição do rock progressivo que ganhava forma. Foi nesse espaço que o quarteto formado por Martin Turner, Steve Upton, Andy Powell e Ted Turner surgiu, trazendo consigo uma arma secreta que redefiniria a linguagem de duas guitarras no rock: o ataque duplo e harmonizado, uma ideia com ecos dos Yardbirds, mas elevada a uma complexidade melódica e contrapontística então inédita. Apoiados por um endosso crucial de Ritchie Blackmore do Deep Purple, que os recomendou ao produtor Derek Lawrence e ajudou a fechar o contrato com a Decca/MCA, eles lançaram seu álbum homônimo de estreia no final de 1970, um trabalho cheio de energia crua e promessa.

Em 1971, a banda embarcou em uma verdadeira peregrinação artística. Enquanto o rock se fragmentava entre o hard rock hegemônico e as complexidades do prog em expansão, o Wishbone Ash explorou trilhas folk, acústicas e mesmo jazzísticas em Pilgrimage, mostrando uma maturidade composicional crescente e a consolidação de sua técnica instrumental. Após turnês extenuantes, esse período de experimentação e refinamento preparou o terreno para o salto quântico de 1972. Naquele ano, eles não apenas lançaram um álbum, mas ergueram um verdadeiro monumento: Argus. Uma fusão perfeita de temas mitológicos, hard rock encorpado e harmonias de guitarra sublimes, a obra foi coroada como "Álbum do Ano" pelos leitores das revistas Sounds e Melody Maker, um triunfo imenso, superando concorrentes como Machine Head do Deep Purple e Ziggy Stardust de David Bowie (entre muitos e muitos outros rivais de peso). Este feito cimentou seu status como influência central para a onda do heavy metal que se avizinhava, inspirando diretamente futuras gerações de músicos de bandas como Priest, Lizzy, Maiden etc.

O ano de 1973, no entanto, trouxe ventos de mudança. Enquanto o Glam e o Prog dominavam, a banda optou por um caminho mais introspectivo e orientado para canções em Wishbone Four, seu primeiro disco autoproduzido, que, apesar de seus méritos, soou como uma deliberada mudança de curso após a épica grandiosidade de Argus (o que desapontou a sua base de fãs). Contudo, o mesmo ano terminou com um triunfo inquestionável: a liberação do duplo Live Dates. Capturando a energia elétrica e a maestria técnica da formação clássica no palco, este álbum ao vivo serviu como um testemunho definitivo de seu poder performático e como um ponto de exclamação adequado para esta fase fundadora, pouco antes de mudanças na formação. Assim, em apenas quatro anos, o Wishbone Ash evoluiu de uma promessa ruidosa para arquitetos de uma obra-prima eterna, deixando um legado indelével na história do rock através da inovação sonora que colocou suas guitarras gêmeas em harmonia perfeita com a eternidade.

1970 - Wishbone Ash [***1/2]

Lançado em 4 de dezembro de 1970, o álbum de estreia do Wishbone Ash chegou em um momento em que o rock britânico buscava novos caminhos. O debut é um retrato de uma banda jovem e faminta, aproveitando a oportunidade dada por Blackmore e Lawrence... Musicalmente, é um caldeirão de influências: o blues rock shuffle de Blind Eye, a balada folk em 12/8 (outro shuffle) de Errors of My Way (que já contém as características harmonias de guitarras e de vocais da banda além de uma bela secção solo) (*) E as longas viagens instrumentais de Handy (essa ainda meio amorfa e claramente construída a partir de colagem de diferentes seções revividas de ensaios e de shows, apesar de bons momentos) e Phoenix (obra-prima do álbum e da banda, realmente muito bem composta em claro contraste a anterior) mostram um grupo disposto a explorar... As três faixas essenciais (entre outras)  são: Blind Eye que abre o disco com interessantes chamados e respostas com a bateria (instrumento excelente por toda a faixa) e estabelece o diálogo entre as guitarras ("O" de partida para a banda) ; Errors of My Way, uma balada melancólica e de fluxo livre que demonstra a sensibilidade folk e composicional da banda, trazendo curiosamente à mente o som de algo como um Fairport Convention da vida (!) e Phoenix, a épica de dez minutos que se tornaria um pilar dos shows ao vivo (em versões cada vez maiores) , um campo de prova para os solos entrelaçados de Powell e Turner. O álbum soa como um promissor trabalho de estreia – cheio de ideias, talvez um pouco inconsistente, mas já irradiando a química única que definiria o som da banda (e talvez até ganhando uma meia estrela extra por conta disso).

(*) Além de ter uma estrutura global cíclica (ou quase), comum ao progressivo e que influenciaria compositores pesados posteriores: como o Steve Harris do Iron Maiden por exemplo... 

(Outras coisas do Wishbone Ash em geral que lembram o Maiden em geral: um arsenal interminável de ritmos shuffles e variantes, além de: seções solo de baixo, baixo como único instrumento em cena e mesmo servindo como elemento disparador para novas secções da música em questão.)

(Desde o primeiro álbum a banda teve uma atitude de jazz-com-guitarra-guitarra-baixo-bateria, tanto composicional quanto improvisacional. Algo que influenciou bandas posteriores do rock e até mesmo bandas pesadas como o OPETH.)

1971 - Pilgrimage [***1/2]

Pilgrimage, lançado em setembro de 1971, encontra o Wishbone Ash em um momento de reflexão e expansão. Enquanto o rock progressivo florescia, a banda decidiu não apenas se aprofundar no hard rock, mas também em paisagens mais acústicas e jazzísticas (com direito a quatro instrumentais que não desapontam dentre sete faixas). O álbum funciona como um diário de viagem sonoro, mostrando um grupo mais confiante em sua técnica após turnês intensas... As três faixas-chave (entre outras) são: The Pilgrim, uma jornada instrumental de oito minutos que é a espinha dorsal do disco e uma joia menos conhecida no cânone da banda, alternando seções mais contemplativas com segmentos de puro peso cristalino excepcionalmente bem produzido e executado (soando as vezes para os ouvidos desta Castanha como um Proto Rush) ; Jail Bait, um rock direto e cativante, composto rapidamente em um pub e que se tornou um favorito imediato e perene nos palcos (que a produção consegue encaixar surpreendentemente bem no álbum) e Vas Dis, uma vigorosa interpretação de um tema de jazz de Jack McDuff, mostrando a versatilidade e o senso de humor da banda (com todos tocando e cantando muito numa faixa que soa desconcertantemente  contemporânea)... A inclusão da faixa final ao vivo Where Were You Tomorrow adiciona um sabor cru e espontâneo (Jam Hard Rock total!)... Pilgrimage é um álbum de transição essencial, com visíveis melhoras nas composições (apesar de termos partes reaproveitadas novamente) e especialmente na execução dos seus integrantes, algo que pavimentou o caminho para a obra-prima que estava por vir.

(Notem o inusitado reggae no final de Valediction.)

1972 - Argus [****]

Argus, lançado em 28 de abril de 1972, é a obra-prima absoluta do Wishbone Ash e um dos álbuns mais importantes do rock dos anos de 1970. Em um ano repleto de clássicos, ele se destacou ao ser votado “Álbum do Ano” pela revista Sounds, superando concorrentes como Machine Head e Ziggy Stardust. O álbum é uma fusão perfeita de conceito, melodia e poder: suas letras evocam um mundo medieval e mitológico, enquanto a música une a força do hard rock à delicadeza do folk progressivo. A produção virtuosa e cristalina de Lawrence criou um som atemporal (sem exageros). As joias imperdíveis (dentre todas) são: Time Was I ; Blowin’ Free, o hino incontestável do álbum, com seu riff contagiante e letra inspirada em um romance de verão – sua conclusão com guitarras gêmeas influenciou diretamente bandas como o Lizzy e o Maiden ; The King Will Come II, uma abertura majestosa com riffs triunfantes e harmonias de guitarra que soam como um chamado às armas (introdução em convenção e toda a estética épica retratada remetem ao Maiden e a todo o Power Metal Europeu que viria)  E Throw Down the Sword III, um final epicamente melancólico que encerra a jornada com um solo de guitarra comovente. Argus é o legado sonoro do Wishbone Ash, um disco virtualmente perfeito, ao mesmo tempo frágil e etéreo, estridente e eufórico, que continua a inspirar gerações.

(E o que dizer da belíssima Sometime World com um insano baixo Rushiano sobreposto a harmonias vocais cativantes e inesquecíveis?)



1973 - Wishbone Four [**1/2]

Wishbone Four, de maio de 1973, representou uma mudança de curso ousada e divisiva. Pela primeira vez, a banda assumiu as rédeas da produção, afastando-se do produtor Derek Lawrence. Em um momento em que muitas bandas de rock consolidavam seus estilos, o Wishbone Ash optou por explorar mais o folk acústico e canções mais curtas, diluindo um pouco o ataque duplo de guitarras que os consagrou. As três faixas mais representativas são: So Many Things to Say, uma abertura energética que mantém o espírito roqueiro anterior; No Easy Road, o single que surpreendeu com sua seção de metais e backing vocals, mostrando uma tentativa de alcançar um som mais radiofônico; e Everybody Needs a Friend, uma longa balada de quase nove minutos que, apesar de bem construída, faz falta o ímpeto improvisacional de épicas passadas. O álbum soa como uma coletânea de boas canções em busca de uma identidade coesa, ofuscado pela sombra gigante de Argus. É um trabalho digno, mas que marca um ponto de inflexão na trajetória ascendente da banda.

1973 - Live Dates [****]

Live Dates, lançado em novembro de 1973, é a consagração do Wishbone Ash como uma das grandes forças ao vivo de sua geração. Gravado em junho daquele ano em várias casas de espetáculo britânicas com o renomado estúdio móvel dos Rolling Stones, o álbum captura a banda no auge de seu poder no palco. É a antítese das experimentações de estúdio de Wishbone Four: um documento cru, energético e virtuosístico que celebra o melhor do repertório clássico. As três performances essenciais são: The King Will Come, que ganha uma dimensão ainda mais grandiosa e urgente ao vivo; Phoenix, em versão épica de 17 minutos que é a peça central do disco, uma verdadeira odisseia de solos de guitarra entrelaçados e dinâmica implacável, superando até mesmo sua já poderosa versão de estúdio; e Blowin’ Free, onde o hino de Argus explode em uma celebração eufórica, confirmando seu status como clássico instantâneo. Live Dates não é apenas um grande álbum ao vivo; é um testemunho definitivo da química da formação original e um lembrete potente de por que o Wishbone Ash deixou uma marca tão profunda na história do rock.

CONCLUSÃO:

A jornada do Wishbone Ash entre 1970 e 1973 é um dos arcos mais fascinantes e influentes do rock clássico. Em apenas quatro anos, a banda evoluiu de um promissor grupo de hard rock e blues para os arquitetos de uma obra-prima atemporal, Argus, passando por experimentações folk e culminando em um dos grandes discos ao vivo da era. Seu legado, no entanto, vai muito além das vendas ou das posições nas paradas. A inovação do seu “ataque duplo de guitarras gêmeas harmonizadas", refinado nesses anos, tornou-se uma pedra fundamental para o desenvolvimento do heavy metal e do hard rock das décadas seguintes, ecoando em bandas como Thin Lizzy, Judas Priest e Iron Maiden. Esta coleção de seis trabalhos – da energia crua do debut, passando pela peregrinação eclética de Pilgrimage, pelo pináculo de Argus, pela encruzilhada de Wishbone Four e pelo testemunho triunfante de Live Dates – forma um retrato completo de uma banda que, em seu período clássico, soube equilibrar ambição artística, poder instrumental e um melodismo inconfundível. É um legado sonoro que, mais de cinco décadas depois, continua a ressoar com força e inspiração, celebrado em novos lançamentos de arquivo e turnês contínuas que honram este período dourado.

----------

STRANGER THINGS S5 (2025)

----------


S5.E1 ∙ Chapter One: The Crawl [**1/2]
S5.E2 ∙ Chapter Two: The Vanishing of Holly Wheeler [**1/2]
S5.E3 ∙ Chapter Three: The Turnbow Trap [***]
S5.E4 ∙ Chapter Four: Sorcerer [***1/2]
S5.E5 ∙ Chapter Five: Shock Jock [**1/2]
S5.E6 ∙ Chapter Six: Escape from Camazotz [**1/2]
S5.E7 ∙ Chapter Seven: The Bridge [ZERO]
S5.E8 ∙ Chapter Eight: The Rightside Up [**]

----------

Esse episódio final (The Rightside Up) resume bem o que foi essa última temporada e a série como um todo: um elenco gigantesco/inchado desenvolvido de maneira superficial por regra ; um elenco jovem que perdeu vergonhosamente a janela da idade para interpretar os seus personagens (algo que inicialmente era uma virtude e que acabou virando uma maldição) E uma perda do controle tonal da atração (algo que progrediu ao longo do tempo).

Mesmo abstraindo o estranhíssimo "O Upside Down na realidade é um wormhole da Shopee!" (TM), o confronto final é conceitualmente pobre com o Devorador de Mentes, outrora uma peça de Terror Cósmico, aqui reduzido a uma espécie de "Megazord da Dimensão X" (TM2) (que supomos ser agora um agregado dos animais exóticos Demo+) (não que o roteiro ajude a esclarecer esse ponto). A não redenção de Vecna é positiva assim como a sua decapitação pela mão (perfeitamente escolhida) de Joyce Byers (um momento catártico para virtualmente todo o elenco de personagens, que coletivamente recordam dos seus traumas causados pelo vilão).

(Por outro lado, os detalhes da origem de Vecna fazerem parte de uma peça de teatro apartada da série é dose para Demogorgon Grávido!)    

O pós salto de 18 meses encerra os melhores momentos do segmento: a reconstrução de Hawkins, uma conversa chave entre Mike e Hopper sobre a perda de Eleven, a formatura da turma do ensino médio, o muito interessante reencontro dos quatro jovens adultos (Steve, Nancy, Jonathan e Robin), o pedido de Hopper à Joyce, a última campanha de D&D no porão de Mike (com Lucas, Will, Dustin e Max), remetendo ciclicamente ao início da série (sucedida in loco por uma campanha da sua irmã Holly com seus próprios amigos) etc. A série termina com a versão original de Heroes (de David Bowie) sobre créditos quadrinizados muito bem feitos.  

(Os militares e toda a coleta de lixo que não é feita por conta deles ferem quase que de morte toda esta quinta temporada. E DEFINITIVAMENTE Linda Hamilton está com problemas financeiros sérios...)

Eleven morre ou não?

As duas versões tem furos. O sacrifício dela é muito mal encenado e confuso (basta comparar com a morte de Vecna vista meros momentos antes). A história contada por Mike (alegoricamente muito bem posta na mesa final de D&D dos amigos) da sua sobrevida por sua vez tem a vantagem de ao menos ser melhor apresentada...

Enfim, morre ou não?

Esta Castanha vai tomar a rota cínica aqui: a série que nunca foi grande em consequências e muito menos em mortes dentro do elenco protagonista iria mudar a rota no episódio final? Apostamos que não... Qual a opção financeiramente mais sensível? Com certeza ela sobreviver! Não que Brown esteja muito interessada na franquia atualmente.

----------

 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

THE DIPLOMAT S3 (2025)

 ----------
 

01 Emperor Dead [***1/2]
02 Last Dance At The Country Club [***]
03 The Riderless Horse [***]
04 Arden [**1/2]
05 BirdWatchers [**1/2]
06 AmaganSett [***1/2]
07 PNG [**1/2]
08 Schrodingers Wife [***1/2]

----------

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

ONE PUNCH MAN S3 (2025)

----------

----------

01 ∙ Strategy Meeting [ZERO]
02 ∙ Monster Traits [ZERO]
03 ∙ Organism Limits [ZERO]
04 ∙ Counterattack Signal [ZERO]
05 ∙ Monster King [ZERO]
06 ∙ Motley Heroes [ZERO]
07 ∙ Counterstrike [ZERO]
08 ∙ Ninja Tale [**]
09 ∙ Brave Child [*]
10 ∙ Immortal BloodBath [ZERO]
11 ∙ Top Dragons [ZERO]
12 ∙ Ultimate Lifeform [*]

----------
 
ACASTANHADAS:

Esta terceira temporada nasce em um contexto de produção muito mais restrito do que aquele que deu origem ao segmento inicial da obra em anime. Depois do INEGÁVEL impacto  da primeira fornada de episódios, o comitê responsável reduziu investimentos, redistribuiu equipes e passou a lidar com uma agenda cada vez mais apertada, consequência direta do crescimento abrupto da demanda global por animação. A segunda temporada já havia sinalizado essas limitações (apesar de alguns fãs negacionistas!), mas a terceira as amplifica: menos animadores experientes disponíveis, cronogramas comprimidos e um planejamento que não permitia revisões profundas das sequências mais complexas. Improvisos passaram a substituir polimentos técnicos e a temporada inteira nasceu condicionada por esse cenário de escassez, o que compromete desde a concepção das cenas até a execução final.

Esse ambiente restrito impacta imediatamente o arco da vez, a adaptação do arco do resgate do filho de um influente financiador da Associação de Heróis, sequestrado e levado para o vasto e caótico covil subterrâneo da Associação de Monstros. No mangá, esse trecho se apoia em tensão constante, sensação de profundidade espacial e uma progressão dramática clara dentro do labirinto. Na terceira temporada animada, o potencial desse arco é prejudicado porque a limitação de recursos impede a criação de ambientes variados e convincentes. Os corredores apresentam repetição visual evidente, com pequenas mudanças de iluminação ou textura que não sustentam a sensação de deslocamento contínuo. O covil deveria parecer vivo, perigoso e imprevisível; em vez disso, muitas áreas parecem reutilizações sutis de cenas anteriores, o que compromete o impacto narrativo.

A animação sofre principalmente na fluidez dos movimentos e no peso físico das ações. Os confrontos dentro do subterrâneo carecem de consistência na velocidade e no volume dos quadros. Movimentos que exigiriam transições mais refinadas acabam simplificados, resultando em trajetórias rígidas e impactos que não criam a sensação de massa ou potência. Mesmo figuras de alta relevância, como combatentes de elite da Associação de Heróis ou entidades monstruosas que deveriam transmitir ameaça imediata, se movem com acelerações estranhas ou desacelerações abruptas, o que compromete tanto a leitura visual quanto o envolvimento emocional.

A direção também reflete as limitações impostas ao projeto. O humor da obra original depende do contraste entre grandiosidade estética e trivialidade de atitude do protagonista (largamente ausente nesta terceira temporada). Sem complexidade visual suficiente, esse contraste não se completa. A direção tenta manter a solenidade dos momentos de grande escala, mas o ritmo irregular e a montagem pouco expressiva dificultam a construção de clímax. Sequências que deveriam crescer organicamente acabam interrompidas por cortes secos. Outras, que pediriam concisão, se estendem demais. Essa inconsistência mina tanto o humor quanto a seriedade dramática do arco do resgate. Episódios que deveriam alternar tensão real e ironia fina acabam produzindo uma sensação de distanciamento emocional.

O resgate do menino, ponto central da temporada, exemplifica essa perda de precisão tonal. A operação deveria concentrar preocupação, urgência e progressão lógica à medida que os grupos avançam pelo subterrâneo. Em vez disso, a transição entre setores do covil é pouco clara, a ameaça dos monstros não se acumula de forma convincente e o percurso dos heróis não cria a sensação de avanço. O menino é encontrado dentro de uma sequência que, embora tente manter fidelidade ao material base, não transmite peso dramático suficiente. A falta de construção visual consistente transforma momentos que deveriam ser memoráveis em passagens rápidas, quase funcionais.

O conjunto final da temporada revela um projeto que tenta preservar a estrutura da obra original, mas não dispõe das condições ideais para isso. A ambição continua presente (em meio as condições desfavoráveis), mas a forma não acompanha. A combinação de orçamento comprimido, equipe reduzida e cronograma insuficiente produz uma adaptação que respeita a narrativa no plano geral, mas não consegue dar vida visual e tonal ao que torna essa história única. É uma temporada que não falha por falta de intenção (até acreditamos), e sim por falta de meios.

Em tempo: Respondendo antecipadamente, esta temporada de fato merece SIM as críticas virulentas recebidas. Os valores de produção foram DE FATO tão lastimáveis que a imensa maioria dos episódios não é sequer digna de nota (ver acima!). A falta de coesão da narrativa e a aspereza da montagem chegam a assustar pela falta do mínimo de profissionalismo e caso o espectador não desista no meio do caminho (O que com certeza é a mais sábia decisão aqui!) é quase que inevitável começar a rir pelos motivos errados... A pobreza da apresentação salta aos olhos (por exemplo: usando e abusando de uma certa atitude "mangá em tela" que dá nos nervos depois que se nota o uso recorrente de tão infame "recurso".)

----------

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

FRIEREN S1 (2023)

----------
 
 
01 "The Journey's End" [***1/2]
02 "It Didn't Have to Be Magic…" [***]
03 "Killing Magic" [***]
04 "The Land Where Souls Rest" [***]
05 "Phantoms of the Dead" [**1/2]
06 "The Hero of the Village" [***1/2]
07 "Like a Fairy Tale" [***1/2]
08 "Frieren the Slayer" [****]
09 "Aura the Guillotine" [****]
10 "A Powerful Mage" [****]
11 "Winter in the Northern Lands" [**1/2]
12 "A Real Hero" [***1/2]
13 "Aversion to One's Own Kind" [**1/2]
14 "Privilege of the Young" [***1/2]
15 "Smells Like Trouble" [***1/2]
16 "Long-Lived Friends" [***]
17 "Take Care" [***]
18 "First-Class Mage Exam" [***]
19 "Well-Laid Plans" [***]
20 "Necessary Killing" [***]
21 "The World of Magic" [****]
22 "Future Enemies" [***]
23 "Conquering the Labyrinth" [***1/2]
24 "Perfect Replicas" [***1/2]
25 "A Fatal Vulnerability" [****]
26 "The Height of Magic" [****]
27 "An Era of Humans" [****]
28 "It Would Be Embarrassing When We Met Again" [****]
 
----------
 
 

domingo, 9 de novembro de 2025

PLURIBUS S1 (2025)

-----
 

01 We is Us [****]
02 Pirate Lady [***1/2]
03 Grenade [***]
04 Please Carol [***]
05 Got Milk [***]
06 HDP [***]
07 The Gap [***]
08 Charm Offensive [***]
09 La Chica O El Mundo [***1/2]

-----