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FORBIDDEN PLANET (1956) [98'] [2.55:1] [★★★★]
Fred M. Wilcox permanece uma figura quase anedótica na história do cinema, um artesão competente da velha Hollywood cujo nome se viu atrelado a duas obras diametralmente opostas, ambas hoje imortalizadas no Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos. De um lado, o dramalhão familiar Lassie Come Home (1943), que consagrou o mito do cão leal e marcou a primeira parceria de Wilcox com a Metro-Goldwyn-Mayer. De outro, este Forbidden Planet, um oásis de ambição intelectual e visual em meio ao deserto de produções apressadas e de orçamento reduzido que caracterizavam muito da ficção científica dos anos de 1950. A filmografia de Wilcox, embora curta, revela um diretor interessado em narrativas de isolamento e em personagens que enfrentam forças que extrapolam seu controle, ainda que sob a roupagem de gêneros distintos. Em Lassie Come Home, a ameaça era a adversidade econômica e a separação familiar; em Forbidden Planet, essa força incontrolável se transfere para o próprio psiquismo humano, transmutado em ameaça física por uma tecnologia alienígena incompreendida... O mundo do lançamento do filme, o ano de 1956, era um mundo preso entre a euforia da era atômica e as ansiedades paranoicas da Guerra Fria, entre o otimismo tecnológico e o medo do aniquilamento. Nesse contexto, Forbidden Planet se destaca não por ecoar os temores externos de invasão vermelha que infestavam a ficção científica da época, como em Invasion of the Body Snatchers, mas por propor um mergulho perturbador nas cavernas internas da mente. A bomba já não era a única ameaça; o perigo maior, sugere o filme com uma coragem temática ímpar para a época, residia na incapacidade da humanidade de lidar com seus próprios demônios interiores, um tema que ressoava com a crescente penetração da psicanálise freudiana na cultura popular americana do pós-guerra.
A trama de Forbidden Planet, inspirada na peça A Tempestade de William Shakespeare, é um marco de sofisticação narrativa para o gênero na década de 1950, estruturando-se como uma investigação científica que gradativamente se revela uma tragédia psicológica de consequências cósmicas. No século XXIII, a nave estelar C-57D, comandada pelo pragmático Comandante John J. Adams (Leslie Nielsen, em sua estreia no cinema), é enviada ao planeta Altair IV para investigar o silêncio (DE VINTE ANOS) da colônia terráquea da nave Bellerophon. Ao chegarem, encontram apenas dois sobreviventes: o filólogo da expedição Dr. Edward Morbius (Walter Pidgeon) e sua filha, a bela e isolada Altaira (Anne Francis). Completando a excêntrica família está Robby, o Robô (dublado por Marvin Miller), uma criação (em princípio inexplicável) de Morbius que serve como mordomo, cozinheiro e guarda-costas, sendo um dos primeiros robôs do cinema a exibir uma personalidade distinta, até mesmo com humor e senso de dever... Morbius enfim revela a Adams a existência dos Krell (*), uma avançada civilização alienígena que habitou Altair IV duzentos mil anos antes e que desapareceu misteriosamente em uma única noite, no exato ápice de seu poderio tecnológico, deixando para trás uma vasta infraestrutura subterrânea de máquinas incompreensíveis, inclusive um gerador de potência quase ilimitada. É revelado que Morbius utilizou um amplificador de intelecto Krell para expandir sua própria mente, e é a partir desse momento que a narrativa começa a aprofundar seus conflitos centrais. O primeiro grande conflito é o de Morbius consigo mesmo, dividido entre a admiração reverente pela cultura Krell e a possessividade extremada em relação à filha e ao segredo do planeta. A chegada de Adams e sua tripulação, composta por jovens oficiais como o Tenente Jerry Farman (Jack Kelly), incendeia o ciúme possessivo do Dr. Morbius, especialmente quando estes jovens começam a cortejar naturalmente a ingênua e lindíssima Altaira. O segundo conflito, e o motor da ação do filme, é desencadeado por ataques de uma força invisível e colossal que emerge do solo do planeta, destruindo equipamentos e matando membros da tripulação um a um da C-57D. A grande revelação, finalmente exposta pelo próprio Morbius em um momento de crise e compreensão tardia, é que essa força é uma manifestação física do seu próprio inconsciente reprimido, especificamente o Id no sentido freudiano. O Id é a reserva obscura dos instintos primitivos, desejos sexuais e impulsos agressivos que a sociedade e a razão reprimem. Morbius (já aperfeiçoado), ao utilizar a máquina Krell que materializa pensamentos, deu forma tangível e poderosa ao seu próprio Id monstruoso, a criatura invisível que ataca a nave e as pessoas ao seu redor. Este monstro do Id, um titã invisível aparentemente alimentado por energia infinita, não apenas assassinou os outros membros da colônia Bellerophon anos antes, como agora tenta eliminar Adams e seus homens para isolar Morbius e Altaira. Somente quando Morbius finalmente aceita a verdade e confronta sua própria criação psicótica, ordenando que Robby (que já tinha entendido a situação!) — que não pode ferir um ser humano — mate a criatura, é que o ciclo pode ser quebrado. O preço é a autodestruição: Morbius morre, e o gerador Krell, que tem sua destruição programada orientada pelo próprio doutor, detona enfim em uma reação em cadeia que oblitera todo Altair IV. A equipe sobrevivente foge com Altaira, que por fim se envolve romanticamente com Adams, e Robby a bordo da C-57D, tendo como único tesouro a constatação aterrorizante de que a maior fronteira a ser conquistada não está nas estrelas, mas dentro de cada ser humano.
(*) Inicialmente ele simplesmente diz que uma força invisível nativa do planeta destruiu a tripulação e a própria nave Bellerophon. Exceto a esposa de Morbius que morreu um pouco depois de causas naturais.
A linguagem audiovisual de Forbidden Planet é um elemento fundador da ficção científica cinematográfica, criando um senso de escala, maravilhamento e terror que permanece impressionante décadas depois, especialmente por meio da fotografia em CinemaScope e da trilha sonora eletrônica... O excelente diretor de fotografia George J. Folsey utiliza o formato widescreen 2.55:1 da CinemaScope com maestria, compondo planos que enfatizam a imensidão vazia do planeta Altair IV e, em contraste, o labirinto claustrofóbico e sobre-humano das instalações subterrâneas dos Krell. A sequência em que Adams e Morbius descem por elevadores e caminham por pontes suspensas sobre abismos de maquinário pulsante é um tour de force de design de produção (assinado por Cedric Gibbons e Arthur Lonergan) que influenciaria diretamente as representações de civilizações avançadas e extintas em obras como Babylon 5 e a franquia Alien. A fotografia de Folsey também se destaca pela maneira como lida com a presença do robô Robby, frequentemente iluminado para destacar sua construção de metal e plástico como um objeto real e funcional, e não uma fantasia, o que exigiu técnicas inovadoras de coordenação entre atores e o operador do traje... As atuações, sob a direção segura de Wilcox, são deliberadamente contidas e teatrais, adequadas ao tom de conto de advertência moral. Walter Pidgeon encarna a arrogância trágica do Dr. Morbius com uma gravidade shakesperiana, com a sua civilidade externa rachando apenas em momentos de fúria possessiva. Leslie Nielsen, em uma reviravolta e tanto para quem o conhece apenas pelas comédias posteriores (oitentistas e além), entrega um herói viril e determinado, mas com um toque de ingenuidade que o torna crível como um explorador no limite do desconhecido. Anne Francis, como Altaira, desempenha o papel da mulher ingênua somente agora em contato com o mundo exterior, e sua atuação transmite tanto a curiosidade infantil quanto o despertar de uma sexualidade que os homens ao seu redor não sabem como processar... No entanto, o elemento mais vanguardista e revolucionário da realização do filme é sua trilha sonora. Composta e executada por Louis e Bebe Barron, a partitura de Forbidden Planet é a primeira trilha completamente eletrônica da história do cinema. O casal Barron criou uma paisagem sonora de zumbidos, pulsos, guinchos e texturas abissais a partir de circuitos eletrônicos construídos por eles mesmos, uma música que não tem tom, ritmo ou melodia no sentido tradicional, mas funciona como uma manifestação acústica da própria mente do Monstro do ID. Essa abordagem radical, que soa tão alienígena hoje quanto em 1956, moldou a forma como o público passou a ouvir o desconhecido no espaço, influenciando diretamente as sonoridades eletrônicas de Doctor Who e do cinema de ficção científica subsequente... A montagem de Ferris Webster mantém o ritmo da investigação crescente, alternando cenas de diálogos densos com explosões de ação caótica nas sequências de ataque do monstro, construindo uma tensão que é (curiosamente) quase sempre mais intelectual do que visceral.
Forbidden Planet, dirigido por Fred M. Wilcox, conclui sua parábola com um amargo e inescapável veredicto sobre a natureza humana: a tecnologia, por mais avançada que seja, não pode redimir as falhas fundamentais da psique. O filme não oferece uma vitória triunfante, mas sim uma fuga desesperada. O id monstruoso de Morbius é derrotado, mas à custa de seu criador e da destruição completa de todo o legado dos Krell, uma civilização que alcançou o poder de deuses e foi aniquilada por seus próprios mundanos demônios inconscientes. A mensagem final, transmitida pela narração inicial e final, é de advertência: onde quer que o homem vá no cosmos, ele levará consigo a sua humanidade, com todas as suas luzes e todas as suas sombras. Essa é justamente a lição mais profunda que Star Trek herdaria da sua anterioridade e que, por sua vez, disseminaria enormemente por décadas. O legado do filme é assim verdadeiramente colossal e se estende por todo o gênero de ficção científica. Incluído no Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos em 2013 por sua importância cultural e histórica, Forbidden Planet estabeleceu um modelo narrativo que Gene Roddenberry adaptaria diretamente para o piloto original de Star Trek, The Cage, com semelhanças extremas de trama. Mais do que isso, a noção central do filme — a de que a evolução definitiva de qualquer espécie é interior e que a tecnologia pode ser um espelho e um catalisador para os piores aspectos do "EU" — tornou-se um pilar temático permanente de toda a franquia Star Trek, série a série. Forbidden Planet é, portanto, obviamente, um dos filmes de ficção científica mais influentes já produzidos, um ponto de origem a partir do qual rios de criatividade se bifurcaram, e sua nota de quatro estrelas, que poderiam ser quarenta, reflete não apenas sua qualidade intrínseca, mas seu papel fundador na mitologia do espaço como um palco para o drama humano.
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Localizado no coração da cadeia de influências da ficção científica cinematográfica, Forbidden Planet se posiciona como um elo vital entre as ficções especulativas do início do século XX e as grandes sagas espaciais que dominariam as telas a partir da década de 1960. A obra bebeu diretamente das tradições literárias, adaptando o arcano de William Shakespeare para o futuro atômico, e também se inspirou nas noções emergentes da psicanálise, que ganhavam corpo nas reflexões de Sigmund Freud sobre o id, o ego e o superego... Por sua vez, a influência do filme é tão vasta quanto o cosmos que retrata. Ele estabeleceu o arquétipo da nave estelar com sua tripulação multiétnica (em potencial) e com hierarquia (para) militar, um modelo que Star Trek aperfeiçoaria, mas que também reverberaria em produções como Space: 1999 e Battlestar Galactica (entre tantas outras)... O conceito da supercivilização desaparecida — os Krell — que deixa para trás uma infraestrutura incompreensível e perigosa é uma fonte direta para a Grande Máquina de Epsilon III em Babylon 5 e para os construtores anulares (Ring Builders no original) na série The Expanse, ambos ecoando a ideia de que o poder tecnológico supremo não é garantia de sobrevivência... Quanto à noção de instrumentalidade, o projeto dos Krell de criar uma sociedade sem mediação instrumental, onde o pensamento se torna matéria imediatamente, encontra um eco perturbador no Projeto de Instrumentalidade Humana de Neon Genesis Evangelion, embora em escala e intenção diferentes: enquanto os Krell falharam porque não conseguiram controlar seus próprios Ids, o plano em Evangelion busca fundir todas as consciências humanas em uma entidade única, transcendendo a individualidade que os Krell não conseguiram dominar... A natureza quase animada dos efeitos visuais, tão pronunciada em Forbidden Planet, deve-se ao fato de que o animador da Disney, Joshua Meador, foi contratado para criar as imagens do Monstro do ID e os raios "laser", utilizando técnicas tradicionais de animação desenhada à mão e, em alguns casos, fotografando diretamente os desenhos originais em preto e branco, o que conferiu à ameaça uma fluidez e uma irrealidade que, ironicamente, a tornaram mais aterrorizante e memorável do que muitos efeitos práticos da época... É este registro de passagem de bastão, esta celebração de um gênero que se reinventa constantemente ao olhar para trás e para frente, que faz de Forbidden Planet não apenas um filme, mas um nobre conector de legados, onde a imaginação humana se prova, ao mesmo tempo, a ferramenta mais poderosa e a mais perigosa de todas as que possuímos.
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