Entre 1970 e 1973, o Wishbone Ash forjou sua lenda em um dos períodos mais férteis e transformadores do rock. No alvorecer da década, com o fim de ícones como o Cream, o cenário musical ansiava por novas vozes que pudessem fundir o poder do blues rock emergente com a ambição do rock progressivo que ganhava forma. Foi nesse espaço que o quarteto formado por Martin Turner, Steve Upton, Andy Powell e Ted Turner surgiu, trazendo consigo uma arma secreta que redefiniria a linguagem de duas guitarras no rock: o ataque duplo e harmonizado, uma ideia com ecos dos Yardbirds, mas elevada a uma complexidade melódica e contrapontística então inédita. Apoiados por um endosso crucial de Ritchie Blackmore do Deep Purple, que os recomendou ao produtor Derek Lawrence e ajudou a fechar o contrato com a Decca/MCA, eles lançaram seu álbum homônimo de estreia no final de 1970, um trabalho cheio de energia crua e promessa.
Em 1971, a banda embarcou em uma verdadeira peregrinação artística. Enquanto o rock se fragmentava entre o hard rock hegemônico e as complexidades do prog em expansão, o Wishbone Ash explorou trilhas folk, acústicas e mesmo jazzísticas em Pilgrimage, mostrando uma maturidade composicional crescente e a consolidação de sua técnica instrumental. Após turnês extenuantes, esse período de experimentação e refinamento preparou o terreno para o salto quântico de 1972. Naquele ano, eles não apenas lançaram um álbum, mas ergueram um verdadeiro monumento: Argus. Uma fusão perfeita de temas mitológicos, hard rock encorpado e harmonias de guitarra sublimes, a obra foi coroada como "Álbum do Ano" pelos leitores das revistas Sounds e Melody Maker, um triunfo imenso, superando concorrentes como Machine Head do Deep Purple e Ziggy Stardust de David Bowie (entre muitos e muitos outros rivais de peso). Este feito cimentou seu status como influência central para a onda do heavy metal que se avizinhava, inspirando diretamente futuras gerações de músicos de bandas como Priest, Lizzy, Maiden etc.
O ano de 1973, no entanto, trouxe ventos de mudança. Enquanto o Glam e o Prog dominavam, a banda optou por um caminho mais introspectivo e orientado para canções em Wishbone Four, seu primeiro disco autoproduzido, que, apesar de seus méritos, soou como uma deliberada mudança de curso após a épica grandiosidade de Argus (o que desapontou a sua base de fãs). Contudo, o mesmo ano terminou com um triunfo inquestionável: a liberação do duplo Live Dates. Capturando a energia elétrica e a maestria técnica da formação clássica no palco, este álbum ao vivo serviu como um testemunho definitivo de seu poder performático e como um ponto de exclamação adequado para esta fase fundadora, pouco antes de mudanças na formação. Assim, em apenas quatro anos, o Wishbone Ash evoluiu de uma promessa ruidosa para arquitetos de uma obra-prima eterna, deixando um legado indelével na história do rock através da inovação sonora que colocou suas guitarras gêmeas em harmonia perfeita com a eternidade.
1970 - Wishbone Ash [***1/2]
Lançado em 4 de dezembro de 1970, o álbum de estreia do Wishbone Ash chegou em um momento em que o rock britânico buscava novos caminhos. O debut é um retrato de uma banda jovem e faminta, aproveitando a oportunidade dada por Blackmore e Lawrence... Musicalmente, é um caldeirão de influências: o blues rock shuffle de Blind Eye, a balada folk em 12/8 (outro shuffle) de Errors of My Way (que já contém as características harmonias de guitarras e de vocais da banda além de uma bela secção solo) (*) E as longas viagens instrumentais de Handy (essa ainda meio amorfa e claramente construída a partir de colagem de diferentes seções revividas de ensaios e de shows, apesar de bons momentos) e Phoenix (obra-prima do álbum e da banda, realmente muito bem composta em claro contraste a anterior) mostram um grupo disposto a explorar... As três faixas essenciais (entre outras) são: Blind Eye que abre o disco com interessantes chamados e respostas com a bateria (instrumento excelente por toda a faixa) e estabelece o diálogo entre as guitarras ("O" ponto de partida para a banda) ; Errors of My Way, uma balada melancólica e de fluxo livre que demonstra a sensibilidade folk e composicional da banda, trazendo curiosamente à mente o som de algo como um Fairport Convention da vida (!) e Phoenix, a épica de dez minutos que se tornaria um pilar dos shows ao vivo (em versões cada vez maiores) , um campo de prova para os solos entrelaçados de Powell e Turner. O álbum soa como um promissor trabalho de estreia – cheio de ideias, talvez um pouco inconsistente, mas já irradiando a química única que definiria o som da banda (e talvez até ganhando uma meia estrela extra por conta disso).
(*) Além de ter uma estrutura global cíclica (ou quase), comum ao progressivo e que influenciaria compositores pesados posteriores: como o Steve Harris do Iron Maiden por exemplo...
(Outras coisas do Wishbone Ash em geral que lembram o Maiden em geral: um arsenal interminável de ritmos shuffles e variantes, além de: seções solo de baixo, baixo como único instrumento em cena e mesmo servindo como elemento disparador para novas secções da música em questão.)
(Desde o primeiro álbum a banda teve uma atitude de jazz-com-guitarra-guitarra-baixo-bateria, tanto composicional quanto improvisacional. Algo que influenciou bandas posteriores do rock e até mesmo bandas pesadas como o OPETH.)
1971 - Pilgrimage [***1/2]
Pilgrimage, lançado em setembro de 1971, encontra o Wishbone Ash em um momento de reflexão e expansão. Enquanto o rock progressivo florescia, a banda decidiu não apenas se aprofundar no hard rock, mas também em paisagens mais acústicas e jazzísticas (com direito a quatro instrumentais que não desapontam dentre sete faixas). O álbum funciona como um diário de viagem sonoro, mostrando um grupo mais confiante em sua técnica após turnês intensas... As três faixas-chave (entre outras) são: The Pilgrim, uma jornada instrumental de oito minutos que é a espinha dorsal do disco e uma joia menos conhecida no cânone da banda, alternando seções mais contemplativas com segmentos de puro peso cristalino excepcionalmente bem produzido e executado (soando as vezes para os ouvidos desta Castanha como um Proto Rush) ; Jail Bait, um rock direto e cativante, composto rapidamente em um pub e que se tornou um favorito imediato e perene nos palcos (que a produção consegue encaixar surpreendentemente bem no álbum) e Vas Dis, uma vigorosa interpretação de um tema de jazz de Jack McDuff, mostrando a versatilidade e o senso de humor da banda (com todos tocando e cantando muito numa faixa que soa desconcertantemente contemporânea)... A inclusão da faixa final ao vivo Where Were You Tomorrow adiciona um sabor cru e espontâneo (Jam Hard Rock total!)... Pilgrimage é um álbum de transição essencial, com visíveis melhoras nas composições (apesar de termos partes reaproveitadas novamente) e especialmente na execução dos seus integrantes, algo que pavimentou o caminho para a obra-prima que estava por vir.
(Notem o inusitado reggae no final de Valediction.)
1972 - Argus [****]
Argus, lançado em 28 de abril de 1972, é a obra-prima absoluta do Wishbone Ash e um dos álbuns mais importantes do rock dos anos de 1970. Em um ano repleto de clássicos lendários, ele se destacou ao ser votado “Álbum do Ano” pela revista Sounds, superando concorrentes como Machine Head e Ziggy Stardust. O álbum é uma fusão perfeita de conceito, melodia e poder: suas letras (em geral) evocam um mundo medieval e mitológico, enquanto a música une a força do hard rock à delicadeza do folk progressivo (o feel do álbum parece combinar: coragem serena, nostalgia, anseio, melancolia e beleza). A produção virtuosa e cristalina de Lawrence criou um som atemporal (sem exageros), que mais do que superou o teste do tempo... As joias imperdíveis (dentre todas) são: Time Was, misturando folk acústico com partes pesadas super polidas e harmonias/solos de guitarras para além dessa terra (somente essa faixa já vale a compra do álbum) ; Blowin’ Free, talvez o hino do álbum, com seu riff contagiante e letra inspirada em um romance de verão – com a música excepcionalmente se entrelaçando e potencializando tal prosa ; The King Will Come, uma abertura majestosa com riffs triunfantes e harmonias de guitarra que soam como um chamado às armas (introdução em convenção e a estética épica liricamente retratada remetem ao Maiden e ao Power Metal Europeu que viria) E Throw Down the Sword, a favorita desta Castanha, um final epicamente melancólico que encerra uma não terminada jornada ultimamente com um monstruoso solo duplo de guitarra que faz até uma pedra se emocionar (notem a semelhança com Fade to Black do Metallica nos versos)... Argus é o legado sonoro do Wishbone Ash, um disco virtualmente perfeito, ao mesmo tempo frágil e etéreo, estridente e eufórico, que continua a inspirar gerações (54+ anos e contando).
(E o que dizer da belíssima Sometime World que eventualmente apresenta um insano baixo Rushiano sobreposto a harmonias vocais cativantes e inesquecíveis?)
(Leaf and Stream segue a rota folk com graça até o fim, com Martin Turner soando muito parecido com John Wetton.)
(Warrior é a mais a frente do seu tempo em estrutura e peso. Notem a majestade e a atualidade da ponte por exemplo. Certas partes (notem o refrão principalmente) lembram a canção Revelations do Maiden.)
1973 - Wishbone Four [**1/2]
Wishbone Four, de maio de 1973, representou uma mudança de curso ousada e divisiva. Pela primeira vez, a banda assumiu as rédeas da produção, afastando-se do produtor Derek Lawrence (e isso é algo aparente negativamente). Em um momento em que muitas bandas de rock consolidavam seus estilos, o Wishbone Ash optou por explorar mais o folk acústico e canções mais curtas, diluindo um pouco o ataque duplo de guitarras que os consagrou (isso sem falar na menor inspiração composicional)... As três faixas mais representativas são: So Many Things to Say, uma abertura energética que mantém o espírito roqueiro anterior (lembra o The Who em partes) ; No Easy Road, o single que surpreendeu com sua seção de metais e backing vocals, mostrando uma clara tentativa de alcançar um som mais radiofônico (esse um destaque bastante negativo que desanima o ouvinte) E Everybody Needs a Friend, uma longa balada de quase nove minutos não muito focados que, apesar de bem intencionada, traz, por exemplo, falta do ímpeto improvisacional de épicas passadas... O álbum soa como uma tímida coletânea de razoáveis/boas canções em busca de uma identidade coesa, largamente ofuscado pela sombra gigantesca de Argus. É um trabalho razoavelmente digno, mas que marca um ponto de inflexão na então trajetória ascendente da banda.
(A segunda metade do álbum é muito sem sal, para o bem e para o mal.)
1973 - Live Dates [****]
Live Dates, lançado em novembro de 1973, é a consagração do Wishbone Ash como uma das grandes forças ao vivo de sua geração (até as músicas do WAIV melhoram no palco). Gravado em junho daquele ano em várias casas de espetáculo britânicas com o renomado estúdio móvel dos Rolling Stones, o álbum captura a banda no auge de seu poder no palco. É a antítese do marasmo de estúdio de Wishbone Four: um documento cru, energético e virtuosístico que celebra o melhor do seu repertório clássico. As três performances essenciais (entre outras) são: The King Will Come, que ganha uma dimensão ainda mais grandiosa e urgente ao vivo ; Phoenix, em versão épica de 17 minutos que é a peça central do disco, uma verdadeira odisseia de solos de guitarra entrelaçados e dinâmica implacável, superando até mesmo sua já poderosa versão de estúdio E Blowin’ Free, onde o hino de Argus explode em uma celebração eufórica, confirmando seu status como clássico instantâneo (sem exageros). Live Dates não é apenas um grande álbum ao vivo (comparável aos melhores do período) ; é um testemunho definitivo da química da formação original e um lembrete potente de por que o Wishbone Ash deixou uma marca tão profunda na história do rock.
CONCLUSÃO
A jornada do Wishbone Ash entre 1970 e 1973 é um dos arcos mais fascinantes e influentes do rock clássico. Em apenas quatro anos, a banda evoluiu de um promissor grupo de hard rock e blues para os arquitetos de uma obra-prima atemporal, Argus, passando por experimentações folk/jazz e culminando em um dos grandes discos ao vivo da era. Seu legado, no entanto, vai muito além das vendas ou das posições nas paradas. A inovação do seu “ataque duplo de guitarras gêmeas harmonizadas", refinado nesses anos, tornou-se uma pedra fundamental para o desenvolvimento do heavy metal e do hard rock das décadas seguintes, ecoando em bandas como Thin Lizzy, Judas Priest e Iron Maiden (influenciou a NOWBHM e daí pulou para as vertentes mais extremas e/ou progressivas do rock pesado). Esta coleção de seis trabalhos – da energia crua do debut, passando pela peregrinação eclética de Pilgrimage, pelo pináculo de Argus, pela encruzilhada de Wishbone Four e pelo testemunho triunfante de Live Dates – forma um retrato completo de uma banda que, em seu período clássico, soube equilibrar ambição artística, poder instrumental e um melodismo inconfundível. É um legado sonoro que, mais de cinco décadas depois, continua a ressoar com força e inspiração, celebrado em novos lançamentos de arquivo e turnês contínuas que honram este período dourado.