quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP03 (2026)

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EPISÓDIOS

S01.E03 ∙ Vitus Reflux [*]

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ACASTANHADAS 

Episódio bastante fraco: uma história muito fina esticada sobre uma duração excessiva, uma história de universitários que pensa e age como uma história de colegiais, uma história de Star Trek (ultimamente) sobre pegadinhas entre alunos que parece roubada de Wednesday.

O episódio é de Reymi com direito a rotinas, montagens e voice overs ajudando a contar uma história surrada de pais narcisistas e filhos escrotos. O desenvolvimento pessoal é incremental na melhor das hipóteses após cruzarmos um mar de constrangimentos para ele e para a audiência (OBS: Para a surpresa de ninguém, Genesis emerge aqui como a líder construtiva da turma.).

(*) Muito tem se falado que a irreverente linguagem corporal da Chanceler reflete a sua extrema longevidade e experiência pessoal: "Eu realmente não dou a mínima para o que os outros pensam!" ...  Mas cabe salientar que existem inúmeras maneiras de transparecer uma atitude assim e esse ato de estar sempre de pé descalço e de se deitar por cima do mobiliário em cada cena claramente mostrou limitações aqui... Os Cadetes vão começar a notar e comentar isso? ... Deveriam!

(*) Será que vão ter a cara de pau de eventualmente pautar IA como Ferramenta de Ensino, especialmente discutir os seus abusos nesse contexto, na esteira do uso e abuso do DNA do Decano da Academia Rival aqui (não que ele não tenha feito bobagens antes disso) ? 

(*) Abundam aparentes materiais de prateleiras, incluindo roupas, equipamentos, utensílios, cenários etc. ... A unidimensional Klin'Hadar permanece como uma favorita com sinal trocado (com o agasalho esportivo e o apito convidando ao ridículo!).

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP01-02 (2026)

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EPISÓDIOS

S01.E01 ∙ Kids These Days [**]
S01.E02 ∙ Beta Test [**]

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ACASTANHADAS 

(correspondentes aos dois primeiros episódios de StarFleet Academy e que formam o seu de fato piloto)

A melhor personagem em geral é mesmo a capitão/chanceler-da-academia Nahla Ake (Holly Hunter), dupla posição essa estabelecida com uma trama efetiva que os fãs da terceira era de Star Trek vão achar bastante familiar e não se iludam: o retorno dela para a frota é por demais súbito e perfeito (especialmente tendo que sincronizar a recuperação/convencimento-de-Caleb-para-se-alistar no mesmo pacote!), justo para assumir uma dupla função politicamente carregada e crucial para a continuidade da Federação e da Frota Estelar. Isso parece testar a nossa suspensão de descrença!

Caleb Mir (Sandro Rosta) foi separado com cinco anos da mãe, presa por algum tipo de furto famélico com agravantes pela Federação representada por Ake. Caleb passou então a viver sozinho de situação ruim para situação pior e Ake pediu exoneração e foi ensinar crianças (muito envergonhada pelo ocorrido). A proposta de Vance (comandante da frota estelar) se torna deveras irresistível agora pela soma de todos esses eventos (especialmente se fatorarmos a longevidade multi centenária da capitã que foi testemunha de muitas glórias federadas do passado e a perda do seu próprio filho cadete com a "Queima").

Por outro lado, Nus Braka (vivido por Paul Giamatti) é infelizmente (ao menos aqui) um pirata-genérico-espanador-de-cenários com diálogos de prateleira (diálogos ruins que também assolam os cadetes, especialmente o inexplicável "cunhado betazoide" na cena final do segundo episódio). Braka faz parte do passado dos Mir e esperamos mais complexidade nas próximas aparições desse Klingarita = Klingon + Telarita... Giamatti e Tatiana Maslany (que interpreta com facilidade a mãe de Caleb) são atores convidados na série.

(A trama se contorce de dor para a emboscada de Braka contra a Athena funcionar nos seus termos: antes, durante e depois! Athena é a nave estelar comandada por Ake nas suas duas funções... Esta Castanha prefere Minerva a Athena por falar nisso!)

(Se chamarmos de "Conta de Fadas Trek" (TM) a história do Ferengi Nog na Frota Estelar, teremos que dizer que a de Caleb aqui é ordens de grandeza mais fantasiosa. Esgarçando a suspensão de descrença.)

(O segundo episódio é melhor: sem ação tradicional, falsa encrenca e cadetes salvando o dia. E o fato de Betazed receber a presidência federada nessa nova fase para finalmente concordar em "voltar ao lar" foi mesmo uma cartada capaz de encerrar qualquer negociação bem intencionada. E o melhor momento da série até aqui dada a ocorrência da "Queima".)

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Dentre os cadetes, a mais gostável (até meio que por construção francamente) é Genesis (Bella Shepard): sempre bem preparada para agir e para tirar foto, mas também sempre muito gentil e (muito importante) sem ser boboca ou babaca no processo... Achamos desnecessário o "Cadete X-Men": George Hawkins como Darem Reymi...  E a SAM (Kerrice Brooks) soa muito over... Por outro lado o Klingon Jay-Den Kraag (Karim Diané) sofre do problema oposto, duelando por atenção com o espaço vazio e com a sua confusa caracterização... Caleb teve simplesmente tempo demais em tela (juntando os dois episódios) e a ênfase na busca pela mãe trouxe um certo cansaço (talvez o desgaste terminal desta era). Mas vamos supor por enquanto que os outros regulares terão espaço comparável mais tarde...

(Aguardamos o comportamento de Tarima Sadal (Zoë Steiner) como cadete da Escola de Guerra nos próximos episódios... Por hora, diremos que Tarima foi mais interessante do que Caleb com muito menos tempo de tela. Ela é a filha do presidente de Betazed por falar nisso! E ele não tem nada de extrema direita!)

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(*) Não entendemos bem o uso de "linguagem de sinais" e de "tradução simultânea" por parte da delegação Betazoide... Será algum efeito colateral do seu isolacionismo?

(*) Mostrar a Federação tão burocratizada, fraca e incompetente é um osso muito duro de roer para qualquer fã (principalmente por que ela fica parecida demais com dezenas de organizações análogas do SCIFI em geral: exceto com a própria Federação!). O conceito da "Queima" foi um erro criativo grosseiro para a franquia.

(*) A "namorada betazoide" vai perder o controle em qual episódio?

(*) Entendemos que a Escola de Guerra é um artefato de ideias de episódios de Discovery mas será mesmo uma boa ideia sustentar tal conceito?

(*) Contracheque fácil para Picardo e Notaro que deve aparecer pouco. Se Castanha fosse showrunner (ao invés de um fruto seco), sacaríamos os dois do formato além da Klin'Hadar e colocaríamos apenas um primeiro oficial e mesmo uma adida acadêmica (no lugar da atual): ambos com personalidade para dentro e irmanados... Doutor, Engenheira e Klin'Hadar estão ali para (com o testemunho da nossa indiferença) apostar no humor (especialmente a última que é lamentavelmente uma espécie de sargenteante clichê enérgica e rigorosa).

(*) E mesmo já não gostando da estética e da tecnologia desse século as naceles da Athena (com aparentes motivos gregos) nos fizeram dar risadas involuntárias...

(*) O Quartel General da Frota Estelar fica estacionado aonde mesmo?

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

IT WAS JUST AN ACCIDENT (2025)

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 "IT WAS JUST AN ACCIDENT" (2025) [104'] [1,85:1] [***]

O realizador iraniano Jafar Panahi, figura cuja carreira se confunde com uma luta contínua contra a censura e a repressão no seu país, apresenta com It Was Just an Accident uma obra que simultaneamente marca uma evolução e uma consolidação no seu percurso cinematográfico. Após uma série de trabalhos metacinematográficos e profundamente autorreflexivos, como This Is Not a Film e No Bears, nos quais a impossibilidade de filmar se tornava o próprio tema, Panahi retorna aqui a uma narrativa ficcional mais clássica, sem, contudo, abdicar do substrato político que define a sua filmografia. O filme, rodado clandestinamente sem autorização das autoridades iranianas, opera uma mudança de registro ao adotar a estrutura de um thriller moral, carregado de tensão e reviravoltas, distanciando-se do tom documental e introspetivo de muitos dos seus predecessores. No entanto, reforça de maneira inabalável os seus vícios autorais: a crítica feroz, ainda que por vezes sardónica, ao aparelho estatal e à corrupção institucionalizada ; a exploração do espaço confinado como microcosmo da sociedade E a atenção dedicada aos indivíduos comuns aprisionados em dilemas éticos de grande magnitude. Inscrevendo-se no mundo contemporâneo do seu lançamento, o filme transcende o contexto específico do Irã para erguer uma reflexão universal e premente sobre os ciclos de violência, o peso do trauma coletivo e a difícil distinção entre justiça e vingança em sociedades marcadas por um passado de opressão. A história, inspirada em relatos que Panahi ouviu durante o seu próprio período na prisão, funciona como um potente alegoria sobre a incapacidade de uma nação se reconciliar consigo mesma quando os fantasmas do passado permanecem impunes e ativos no presente.

A narrativa, aparentemente simples, desdobra-se com uma implacável lógica de pesadelo. Tudo começa quando Eghbal (Ebrahim Azizi), um homem com uma prótese na perna, atropela acidentalmente um cão durante uma viagem noturna com a família. Esta colisão provoca uma avaria no automóvel, levando-o à oficina de Vahid (Vahid Mobasseri), um mecânico cuja vida aparentemente banal esconde as feridas profundas de ter sido um prisioneiro político. Ao ouvir o som característico da prótese e a voz de Eghbal, Vahid é transportado de volta aos seus tempos de tortura e identifica no cliente ocasional o seu antigo algoz, um guarda prisional conhecido pelo apelido de Perna de Pau. Movido por um impulso de revolta, Vahid sequestra Eghbal e, consumido pela dúvida sobre a sua identidade, parte numa jornada urbana para reunir outros sobreviventes que possam confirmá-la. Este grupo improvável, que constitui o núcleo dramático do filme, inclui a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Golrokh (Hadis Pakbaten) e o seu noivo Ali (Majid Panahi), e o temperamental Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr). O dilema central que os une e os divide não é apenas o de reconhecer o rosto de quem os torturou de olhos vendados, mas o de decidir o que fazer com ele: executar a vingança há muito desejada ou encontrar um caminho diferente que quebre a cadeia de violência. Os seus conflitos principais radicam precisamente nesta tensão entre o desejo visceral de retribuição, que os aproxima moralmente dos seus opressores, e uma centelha de humanidade que teima em sobreviver, simbolizada num momento crucial em que interrompem o seu plano para levar a esposa grata de Eghbal ao hospital. Esta estrutura de caça e julgamento informal serve como mecanismo perfeito para desenvolver os temas principais do longa: a natureza cíclica e corrosiva da violência, a difusa fronteira entre vítima e carrasco quando o primeiro adota os métodos do segundo, e a complexa busca por redenção e perdão num contexto onde a justiça formal é inexistente ou cúmplice.

Panahi serve-se de uma linguagem audiovisual contida, realista e profundamente eficaz para conferir peso e autenticidade a esta parábola moral. A direção, necessariamente discreta devido às condições clandestinas de filmagem, aposta numa montagem que privilegia planos sequência longos, especialmente no tenso clímax do filme, aumentando a sensação de claustrofobia e imersão no dilema dos personagens. A fotografia de Amin Jafari, com uma paleta de cores terrosas e uma luz natural, mantém um olhar observacional que recusa o melodrama, enquanto a quase ausência de trilha sonora não diegética intensifica o realismo cru e coloca o foco total nas palavras e nos silêncios carregados dos protagonistas. As atuações, maioritariamente de um elenco não profissional, são de uma sobriedade e veracidade notáveis. Vahid Mobasseri transmite com intensidade contida a agonia interna de Vahid, dividido entre a fúria e a dúvida. Mariam Afshari, como Shiva, oferece um contraponto de racionalidade cansada, enquanto Mohamad Ali Elyasmehr explode como a encarnação viva do ódio incontrolável em Hamid. Ebrahim Azizi, por sua vez, constrói um Eghbal complexo, um homem que pode ser tanto um monstro quanto um marido e pai comum, forçado a confrontar o seu passado. Apesar da gravidade do tema, Panahi injeta na narrativa momentos de um humor negro e absurdo, sátiras ácidas à burocracia e à corrupção endémica, como a cena em que uma propina é paga com uma máquina de cartões, que funcionam como válvulas de alívio e, simultaneamente, como comentários sociais cortantes. Esta mistura de tons, habilmente equilibrada, impede que o filme se torne um exercício de pura agonia, revelando antes o absurdo trágico que permeia a vida sob repressão.

Em conclusão, It Was Just an Accident de Jafar Panahi não oferece respostas fáceis para as questões profundas que levanta, e a sua grandeza reside precisamente nessa recusa. O veredicto final sobre os seus personagens e temas é deliberadamente ambíguo, encapsulado no final magistral e aberto à interpretação. Após forçar uma confissão e um pedido de desculpas vazio de Eghbal, Vahid opta por libertá-lo, num ato que poderá ser lido como perdão, exaustão ou a recusa definitiva em replicar a violência do opressor. No derradeiro plano, o som do passo de uma prótese aproxima-se e depois se afasta de Vahid, um ruído que o próprio realizador sugere poder existir apenas na mente do protagonista, um fantasma psicológico que talvez nunca o abandone. Esta ambiguidade genial coloca o espectador no lugar do personagem, obrigando-o a ponderar se o ciclo de violência foi verdadeiramente interrompido por um acto de misericórdia, ou se o trauma é uma prisão perpétua da qual não há fuga. Para a obra de Panahi, este filme representa um ponto de chegada e de maturidade artística, a síntese bem-sucedida entre a urgência política de um cineasta dissidente e o domínio formal de um contador de histórias exímio. Para além da sua filmografia, impacta o cinema contemporâneo como um testemunho corajoso e uma obra de rara potência moral, demonstrando que a mais elevada expressão artística pode nascer mesmo sob as condições mais opressivas, servindo tanto como reflexão intemporal sobre a condição humana quanto como documento vital e insurgente do seu tempo.

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TO BE HERO X SEASON 01 (2025)

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EPISÓDIOS

S1E01: Nice [***1/2]
S1E02: Moon [***1/2]
S1E03: The Ever-Standing Hero [***]
S1E04: The Commoner [****]
S1E05: One Actor [***1/2]
S1E06: Two E-Souls [***1/2]
S1E07: Three Seats[****]
S1E08: The Cyan Girl [***]
S1E09: Loss and Gain [***]
S1E10: The Truth Behind Luck [***1/2]
S1E11: Road to the Crown [***1/2]
S1E12: Fall of the Star [****]
S1E13: Tough Girl [**1/2]
S1E14: Impromptu Counterattack [**1/2]
S1E15: Affective Disorder [****]
S1E16: The Cure [***1/2]
S1E17: Whisper Flower [***]
S1E18: Died-Out Flame [***]
S1E19: Breaking the Balance [****]
S1E20: The Ruins Incident[****]
S1E21: Nurturing God [****]
S1E22: The Last Smile [****]
S1E23: Lie [****]
S1E24: X [****]

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REVIEW

A primeira temporada do donghua (*) To Be Hero X, lançada ao longo de 2025, consolida-se como um marco ambicioso na carreira de seu criador, diretor e roteirista, Haoling Li, e um ponto de inflexão para a indústria da animação asiática. Li, já aclamado por obras animadas anteriores, expande aqui o universo conceitual iniciado com To Be Hero e To Be Heroine, transcendendo-as em escala e profundidade temática. Esta produção é fruto de uma colaboração internacional sem precedentes, unindo o estúdio chinês BeDream, a gigante japonesa Aniplex e a plataforma de streaming chinesa Bilibili, além de reunir talentos de múltiplos estúdios de animação, simbolizando uma convergência criativa entre China e Japão. Para Li, To Be Hero X representa a maturidade de sua narrativa, abandonando a estrutura de protagonista único em favor de uma teia complexa (com múltiplos protagonistas e múltiplos pontos de vista) e não linear (a narrativa vai e volta no tempo do começo ao fim), um movimento arrojado que confirma sua reputação como contador de histórias inovador (**). Para a televisão e o mundo em 2025, a série oferece uma reflexão urgente e incisiva. Ela insere-se em um contexto global de saturação de narrativas de super-heróis e de questionamento sobre a espetacularização da vida pública, funcionando como uma lente de aumento crítica sobre a economia da atenção, a idolatria digital e a volatilidade da confiança social. Ao transformar a popularidade em um sistema de poder literal, a série comenta diretamente sobre a era das redes sociais, dos influenciadores e da política como espetáculo, posicionando-se não apenas como entretenimento, mas como um comentário social pertinente e provocador para sua audiência.

(*) A arte animada chinesa análoga ao anime.

(**) Impressiona a confiança na contação de história aqui em: (i) trazer a origem de um herói cachorro (Ahu, um top10 ao fim da temporada) e todo um novo arsenal de técnicas de animação JUSTO no penúltimo episódio da temporada , (ii) associar o chaveamento das técnicas de animação em tela ao característico estalar de dedos do X como se ele estivesse manipulando aquele mundo tanto ou mais do que as agências e a associação de heróis (Algo mais forte no presente do que no passado, sugerindo uma relação com o histórico de poderes do personagem) , (iii) dobrar a aposta para além de tanta complexidade global: o criador surpreende também dentro de um único sub arco e mesmo dentro de um único episódio etc.

A narrativa de To Be Hero X constrói-se sobre uma premissa poderosa: em seu mundo, os heróis não nascem, são eleitos pela percepção pública. O poder de um indivíduo é diretamente proporcional ao seu Valor de Confiança, uma métrica quantificada e manipulada por agências de marketing e conglomerados de mídia. O ápice desse sistema é o título de X, concedido ao herói mais confiável em um torneio bienal. A história, contada de forma não linear e através de onze arcos focados em diferentes protagonistas, desvenda as complexidades morais desse universo. O arco inicial (por exemplo) apresenta Lin Ling (dublado por Natsuki Hanae), um publicitário comum que, após testemunhar o suicídio do herói perfeito Nice (também dublado por Natsuki Hanae), é coagido (pela semelhança física e por escrever as campanhas do herói) a assumir sua identidade. Através dos olhos de Ling, exploramos a maquinaria por trás dos heróis: a pressão por uma imagem impecável, a relação simbiótica e por vezes parasítica com os fãs, e a perda da individualidade sob o peso das expectativas coletivas (Se acham que ele é o Nice, ele vai se tornar cada vez mais fisicamente parecido com o Nice ; Se acham que ele é muito certinho e cheio de manias, ele começa a desenvolver TOCs etc.). Essa investigação se aprofunda com outros heróis, como o trágico Homem Firme, cujo poder, derivado da crença pública em sua invencibilidade, o impede fisicamente de se curvar ou deitar, transformando-o em uma estátua viva de seu próprio mito (e a sua existência em uma penitência). Já Ciano da Sorte (dublada por Inori Minase), uma cantora cujo poder é a boa sorte, lida com a exploração de sua imagem desde a infância, ilustrando como a inocência é consumida pelo espetáculo... (***) O conflito central de cada personagem é uma variação do mesmo tema: a luta para preservar uma identidade autêntica em um sistema que os reduz a símbolos comerciais. Paralelamente, a série introduz uma ameaça sistêmica maior, o Valor de Medo, um poder simétrico e oposto que alimenta os vilões a partir do terror coletivo, sugerindo que a sociedade cria seus monstros a partir das mesmas emoções que forjam seus ídolos.

(***) A explicação para a bebê Ciano ser a única sobrevivente de um muito suspeito desastre aéreo (e que é também a origem da sua sorte) é deveras comovente (aliás todo o seu arco desde criança santa no orfanato até estrela pop é em tese bem movediço conceitualmente e acaba sendo muito bem executado aqui.). 

(As Agências dos Heróis são largamente inspiradas nas Big Techs ao mesmo tempo que a Comissão de Heróis parece representar uma agência reguladora francamente corrompida por essas... Por outro lado, a Comissão também lembra o Partido Comunista Chinês no sentido de zelar para que a aprovação de um herói não cresça sem limite o tornando indistinguível de uma divindade... Inclusive isso já aconteceu  no passado, com o heroi zero, com um resultado trágico, evento que serve de ponto de partida para o calendário vigente e para a criação da própria Comissão. ) 

(Os líderes das agencias são criaturas grotescamente amorais, manipuladoras sem qualquer limite e traem uns aos outros e até os seus próprios agenciados. Um desses líderes é devoto do herói zero e procura ativamente transformar algum novo herói em um deus e/ou trazer Zero de volta a vida.)

A realização audiovisual de To Be Hero X é um dos pilares de sua excelência e ambição. A direção de Haoling Li e a colaboração entre os estúdios resultam em uma revolução estilística que serve diretamente à narrativa e aos temas. A série é notória por sua mistura fluida e intencional de técnicas de animação 2D e 3D, com uma cinematografia que evoca a coreografia aérea e teatral dos filmes de artes marciais chineses (wuxia), desafiando constantemente a gravidade e a perspectiva tradicional. Este ecletismo visual não é mero exibicionismo; é diegético. O poder do misterioso herói X (dublado por Mamoru Miyano) permite-lhe manipular a própria realidade, alterando o estilo de arte ao seu redor com um estalar de dedos. Assim, as transições bruscas entre um CGI estilizado algo reminiscente da série Arcane, sequências em 2D tradicionais e mesmo estética de cartoon americano tornam-se manifestações literais de seu domínio sobre o meio, uma metalinguagem brilhante sobre o poder da animação (e sugere um entendimento profundo do personagem sobre o mundo da série e provavelmente além). A trilha sonora, supervisionada pelo renomado Hiroyuki Sawano (de Attack on Titan) e por uma constelação de compositores, eleva a experiência a outro patamar. Mais do que acompanhar, a música narra (mas raramente de maneira óbvia). Temas específicos para cada herói, como PARAGON para Nice ou NEON RAIN para E-Soul (OBS: Fiquem de olho no arco do E-Soul original. É de explodir a mente e cortar o coração!), atuam como leitmotifs emocionais, enquanto a poderosa abertura INERTIA e a inserção estratégica de músicas em clímax narrativos, como no confronto entre Lin Ling e God Eye, sincronizam batida cardíaca e impacto dramático com maestria. As atuações do elenco de dublagem, tanto japonês quanto chinês, conferem profundidade humana a esses arquétipos superpoderosos, capturando desde a angústia silenciosa de Nice até a determinação vulnerável de Lin Ling, entre outros.

Em conclusão, a primeira temporada de To Be Hero X, sob a visão criativa de Haoling Li e o esforço conjunto de BeDream, Aniplex e Bilibili, ergue-se como uma conquista monumental. Seu veredito final sobre os temas que explora é complexo e matizado: o heroísmo, como commodity social, é mostrado como uma força tanto redentora quanto destrutiva, capaz de inspirar, mas igualmente de esmagar identidades e perverter intenções puras (OBS: Vejam o arco do novo E-Soul para esses dois últimos itens). Para personagens como Lin Ling, a jornada termina com a reafirmação de si para além do símbolo; para outros, como o Homem Firme, a liberdade só é encontrada na renúncia ao título. A série não oferece respostas fáceis, mas conclui sua trama intrincada recompensando a audiência atenta com um desfecho coerente que amarra suas diversas linhas narrativas, confirmando que cada ação e escolha reverberou significativamente (e mais está por vir, especialmente sobre X, a nave alienígena abandonada e toda a mitologia desse mundo). O impacto de To Be Hero X transcende seu próprio universo. Para sua audiência, é uma experiência que exige e recompensa o engajamento intelectual, elevando o padrão do que uma animação de super-heróis pode aspirar a ser. Para a televisão e a indústria da animação, a série serve como um farol de inovação, demonstrando o potencial criativo explosivo das coproduções internacionais e estabelecendo um novo patamar de sofisticação visual e narrativa para os donghua, desafiando a hegemonia narrativa ocidental no gênero. Como um todo, To Be Hero X consagra-se não apenas como uma das melhores produções de 2025, mas como uma obra que redefine as possibilidades de sua forma, provando que a animação pode ser, simultaneamente, espetacular, filosoficamente profunda e culturalmente relevante.

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Sobre o conservadorismo: (I) A sexualidade é virtualmente não existente na série... O Nice Original parece ser cifrado como homossexual, com sua aparência e modos delicados, com um amigo herói inseparável que vira vilão/nemesis (*) no contexto do seu relacionamento falso com uma outra heroína (obrigada contratualmente e pela expectativa popular a colaborar na farsa) (lembrem-se: tudo cifrado!)... E ainda existem duas jovens adultas que se adoram como melhores amigas que em uma produção ocidental certamente seriam um casal. 

(*) Mecanismo aliás que serve de combustível a carreira dele como um tudo. Modelo de manipulação da opinião pública. 

(II) Existe ao menos um personagem neuro divergente com essa característica sendo tragicamente amplificada pela expectativa popular (de onde também vem infelizmente toda a sua persona assassina)... O que origina uma tocante tragicomédia: por amar demais a filha e não ter nenhuma ferramenta social para lidar com isso (muito pelo contrário!)... Aliás abundam na série problemas de relacionamentos entre pais e filhos (as) , sobram perdas e não falta luto.

(III) As personagens femininas são via de regra muito bonitas, capazes e com grande empatia (entre outras qualidades) (Mas não são perfeitas!)... Notamos que uma personagem neuro divergente (casada com esse aí de cima) aparentemente se regula neurologicamente permanentemente quando descobre estar grávida de uma menina... Todos os CEOs malignos são homens... A personagem feminina central é a heroína Queen, (originalmente uma criança prodígio) alguém com uma atitude tão marcante que serve de inspiração para toda uma nova era de heroínas desde os seus 12 anos. Ela tem a principal luta da temporada (um confronto brutal, do tipo vencer ou morrer, contra uma outra heroína TOP que sucumbiu ao valor do medo, uma vitória tristíssima para Queen) e ainda o principal momento heroico da temporada (uma majestosa redenção).

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Alguma perspectiva: Consideremos todo esse capítulo de 20 anos de histórias de super heróis começado com a primeira temporada da série Heroes em 2006... Nele incluímos as produções tradicionais de DC e MARVEL (e afins) , as produções desconstrutivas como Invincible e The Boys (entre outras) e mesmo episódios específicos de Black Mirror (e correlatas) por tratarem do contemporâneo de redes sociais e dos seus satélites... Posto isso, To Be Hero X resume e supera todos esses esforços no gênero, trazendo uma mudança de paradigma.   

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Material EXTRABLOG01: aqui

Material EXTRABLOG02: aqui

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THE PITT S2 (2026)

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EPISÓDIOS

S2.E01 ∙ 07:00 A.M. [***]
S2.E02 ∙ 08:00 A.M. [***]
S2.E03 ∙ 09:00 A.M. [***]

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ACASTANHADAS

07:00 AM: "The Pitt retorna preservando o formato vencedor (de público e crítica)  da primeira temporada, com mais um plantão  de 15 horas, agora ambientado no feriado americano de quatro de julho... O Doutor Robby (O chefe do PS) está de volta no seu último plantão antes de embarcar em um trimestre sabático. Assim como a enfermeira chefe Evans (apesar da agressão sofrida), o residente sênior Langdon (regressando de uma clínica de reabilitação) entre outros favoritos... Robby não quer discutir de forma alguma com Langdon o que ocorreu com seu amigo e pupilo (mas supomos que eles vão conversar sobre TUDO até o episódio oito)... Robby também parece estar em rota de colisão com a sua substituta temporária (a doutora Baran Al-Hashimi vivida por Sepideh Moafi, uma advogada do uso de IA Generativa no PS e além) (Será que vamos ter, durante a temporada, um pulso eletromagnético transportando o PS para idade da pedra ou algo assim?) ... Sólida abertura de temporada com as atuações e os valores de produção já esperados."

(Dúvida da Castanha: Garcia e Santos tem ou tiveram um caso?)

(Dúvida da Castanha: Robby conduzir a moto sem capacete na cena de abertura tendo um claramente disponível tem algum significado transcendental?)

(Al-Hashimi se comporta MUITO estranhamente na presença de uma bebê recém nascida abandonada no PS. O que virá dai?)

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08:00 AM: "King ("Mel") está visivelmente distraída e apreensiva com a aproximação do seu depoimento em um processo de erro médico em que ela é ré (Robby diz que ser assim processado é algo comum na sua carreira como desinfetar as mãos enquanto Al-Hashimi não tem ideia do que é IMAGINAR ser processada por causa da sua prática médica e quer permanecer assim... Dizer que a nossa "Mel" ficou absolutamente confusa no meio desses dois doidos não seria nenhum exagero!)... "Mel" leva depois um tombo feio de um "bandido-paciente" perseguido pela polícia no meio do PS (quando os policiais ameaçam querer tomar o seu testemunho no caso, ela começa a se desregular mas é protegida e acolhida por Langdon)... Como era mesmo "O dia da Mel", ela acaba (juntamente com Santos) cuidando de um SEVERO caso de priapismo e drenando o sangue do pênis enfermo (!) ... Outro bom episódio e estamos "desconfiados" do aparente caso de abuso infantil sobre uma paciente de Santos (parece já elaborado demais para receber uma solução banal)."

(Whitaker é o novo pupilo de Robby no lugar de Langdon.)

(O "reencontro" de Santos e Langdon promete. Mas supomos que vai quebrar expectativas.)

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09:00 AM: "A paciente criança de Santos foi bem resolvida como um caso de Porfiria (tudo bem atuado ao redor). O caso menor de McKay também parece que se resolveu com um tumor no cérebro (Entra agora outro paciente com um ator convidado de destaque. Aguardemos!). Enquanto isso o caso de Louie parece se deteriorar... Um motociclista sem capacete que entra morto no PS parece oferecer mais um vislumbre com relação ao futuro do Doutor Robby. Chama atenção ainda uma senhora judia que entra com queimaduras nas pernas, ela é uma sobrevivente do Massacre da Tree Of Life (*). Mais um vislumbre?"

(*) O Massacre da Sinagoga Tree of Life (Árvore da Vida), ocorrido em 27 de outubro de 2018, em Pittsburgh, Pensilvânia, foi o ataque antissemita mais mortal da história dos Estados Unidos.

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HUMBLE PIE (1969-1971)

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ÁLBUNS

1969 - As Safe as Yesterday Is [**1/2]
1969 - Town and Country [**1/2]
1970 - Humble Pie [***1/2]
1971 - Rock On [***1/2]
1971 - Performance: Rockin' the Fillmore (LIVE) [****]

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PESSOAL

Steve Marriott: vocais , guitarras , teclados etc.
Peter Frampton: vocais , guitarras , teclados etc.
Greg Ridley: vocais , baixos.
Jerry Shirley: bateria , percussão.

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INTRODUÇÃO

Entre o fim dos anos sessenta e o início dos anos setenta, enquanto o rock se fragmentava do psicodelismo em direção a formas mais brutais e enraizadas, surgiu uma banda que personificou essa transição com uma autenticidade ruidosa. O Humble Pie nasceu de uma frustração criativa e de uma amizade improvável. No último dia de 1968, um Steve Marriott insatisfeito abandonou o palco com os Small Faces e telefonou, ainda na madrugada, para o jovem guitarrista Peter Frampton. Unindo-se ao baixista Greg Ridley e ao baterista Jerry Shirley, eles formaram uma das primeiras super bandas britânicas, mas escolheram um nome irônico, Humble Pie ("Torta Humilde"), para rebater as altas expectativas. Seu legado, entretanto, seria tudo menos modesto, influenciando futuras gerações de bandas de hard rock e blues, de Aerosmith a The Black Crowes, com sua mistura crua de força rítmica e alma soul.

O período entre 1969 e 1971 foi de uma metamorfose acelerada. A banda começou explorando um folk-rock acústico e canções introspectivas, mas rapidamente foi redirecionada pela visão do novo empresário Dee Anthony, que focou no mercado americano e exigiu um som mais agressivo e direto, com Marriott como frontman inquestionável. Nos bastidores, esse foi um tempo de intensa atividade: gravações frenéticas para a falida Immediate Records, turnês desgastantes pelos EUA e momentos definidores, como a noite em que Frampton, enfrentando problemas de feedback (microfonia), recebeu de um fã a lendária guitarra Les Paul 'Phenix' que se tornou sua marca registrada. O ápice dessa era foi a conquista da América não através de singles de sucesso, mas pelo poder avassalador de seus shows ao vivo, selada com históricos concertos no Hyde Park de Londres e principalmente no Shea Stadium de Nova York, onde ofuscaram a banda principal, Grand Funk Railroad. Em apenas três anos, o Humble Pie evoluiu de uma promessa "ecumênica" para uma coesa máquina de rock pesado e soul, deixando uma marca indelével no cenário do rock setentista.

1969 - AS SAFE AS YESTERDAY IS

Lançado em agosto de 1969, As Safe as Yesterday Is chegou em um momento de redefinição no rock britânico. A era psicodélica dava lugar a sons mais terrenos, com bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath forjando um caminho mais pesado. O Humble Pie, recém-formado, apresentou neste álbum de estreia uma miscelânea que refletia as diversas influências de seus integrantes, transitando do folk ao blues e a passagens proto metal. Produzido enquanto a banda ainda se conhecia, o álbum soa mais como uma coleção de ideias individuais do que como uma declaração coesa de grupo, o que lhe confere um charme despretensioso, mas também uma certa falta de direção. A faixa-título, As Safe as Yesterday Is, é uma balada melancólica com toques de piano que mostra a faceta mais introspectiva e folk de Marriott, evidenciando a influência de bandas como The Band (com uma mudança de clima no final). Em claro contraste, Natural Born Boogie, single que alcançou o top 5 britânico, é um blues-rock acelerado e contundente, com um riff central pegajoso e a voz agressiva de Marriott, antecipando a veia mais comercial que explorariam posteriormente. A música (e o álbum) também tem o curioso destaque de ter sido descrita pela revista Rolling Stone como heavy metal, um dos primeiros usos do termo, ainda que de forma pejorativa. Já I'll Go Alone, composta por Frampton, destaca o lado mais melódico e introspectivo do guitarrista, com uma levada mais folk acústica que contrasta com o blues elétrico dominante do disco, antevendo a veia composicional que ele desenvolveria em sua carreira solo. O álbum é um retrato honesto de uma banda talentosa em busca de sua voz coletiva, um primeiro passo promissor, mas que ainda não capturava a fúria sinérgica que os tornariam famosos ao vivo.

1969 - TOWN AND COUNTRY

Apressadamente lançado em novembro de 1969, apenas três meses após a estreia, Town and Country surgiu de um período criativo febril e sob a sombra do colapso financeiro da gravadora Immediate Records. Enquanto o rock endurecia com o surgimento do hard rock, o Humble Pie tomou aqui uma direção surpreendentemente pastoral. O álbum é predominantemente acústico, focando em harmonias vocais e arranjos delicados, um contraponto consciente ao barulho crescente da cena. Esta foi uma encruzilhada artística: o disco celebra o talento individual para a composição de todos os quatro membros, mas também revela a tensão entre essa abordagem folk e a atração pelo poder bruto que seu empresário americano exigia. A faixa de abertura, Take Me Back, é uma bela e nostálgica canção country-rock liderada por Frampton, destacando seus vocais suaves e a rica tapeçaria de violões. The Sad Bag of Shaky Jake é uma narrativa blues acústica peculiar com a voz característica de Marriott, mostrando seu dom para a contação de histórias e seu humor cáustico. O ponto alto absoluto, no entanto, é a canção Every Mother's Son, uma extensa narrativa folk de quase seis minutos que se tornou o centro de seus shows na época. Com sua estrutura de conto e arranjos acústicos elaborados, a música exemplifica a busca do álbum por um som pastoral e introspectivo, demonstrando a capacidade da banda de criar atmosferas densas mesmo longe do rock elétrico... Town and Country é um álbum de transição íntimo e ambicioso, um último suspiro acústico antes da banda mergulhar de cabeça no hard rock. É um trabalho admirado pela coragem, mas que, em sua diversidade, carece do impacto unificado que definiria seus lançamentos seguintes.

1970 - HUMBLE PIE

O álbum homônimo de 1970, frequentemente chamado de The Beardsley Album por sua capa com ilustração de Aubrey Beardsley, marca um ponto de virada decisivo. Era o primeiro trabalho para a A&M Records e sob a gestão férrea de Dee Anthony, que pressionou por um som mais pesado e comercial para o mercado americano. O resultado é um disco de personalidade dividida, mas fascinante, que oscila entre o rock progressivo e o hard rock cru, servindo como um laboratório para a fórmula que iria explodir em breve. A faixa de abertura, Live With Me, não deve ser confundida com a dos Rolling Stones; é uma longa e atmosférica jam de quase oito minutos com influências pós-psicodélicas, mostrando a banda explorando texturas e dinâmicas complexas. Em nítido contraste, One Eyed Trouser Snake Rumba é um rock pesado e irreverente, um prenúncio claro do estilo barulhento e divertido que se tornaria sua marca, com um riff central primitivo e eficaz. Outro destaque é a poderosa versão de I'm Ready, de Willie Dixon, onde Marriott entrega uma performance vocal absolutamente visceral, cheia de ganchos de guitarra e um sentimento de blues elétrico que se tornaria central em seu repertório ao vivo. O álbum também contém Theme from Skint, uma sátira mordaz de Marriott sobre a falência da Immediate Records, e Earth and Water Song, uma balada etérea de Frampton que demonstra o contraste estilístico ainda presente dentro da banda. Humble Pie é um álbum de transição bem-sucedido, onde a banda começa a encontrar sua voz coletiva poderosa, abrindo caminho para a consolidação que viria no ano seguinte.

1971 - ROCK ON

Gravado em janeiro de 1971, Rock On é a cristalização em estúdio de tudo o que o Humble Pie vinha buscando. É um álbum confiante, coeso e brutalmente eficaz, que abraça plenamente sua americanização com uma mistura de hard rock, R&B e soul. Considerado por muitos seu melhor trabalho em estúdio, o disco apresenta a banda no ápice de sua forma como unidade, com Marriott no comando vocal absoluto e Frampton contribuindo com alguns de seus melhores momentos na guitarra. A abertura com Shine On, de Frampton, é energética e otimista, estabelecendo um tom contagiante. O verdadeiro coração do álbum, porém, é Stone Cold Fever, uma jam monstruosa e primitiva que se tornou um hino da banda. Com um riff inesquecível e a performance cavernosa de Marriott, a música é frequentemente citada como uma influência fundamental para bandas como o Aerosmith. Outro momento essencial é a versão sulfurosa de Rollin' Stone (de Muddy Waters), onde o grupo demonstra suas profundas raízes no blues, com Frampton entregando solos reminiscentes de Jimmy Page e Marriott vocalizando com intensidade crua. O álbum também mostra sua amplitude com A Song for Jenny, uma balada soul tocante escrita por Marriott para sua esposa, enriquecida pelos vocais de fundo das "Soul Sisters" (PP Arnold, Doris Troy e Claudia Lennear). Rock On prova que o Humble Pie era muito mais do que uma "Liga Secundária dos Rolling Stones"; era uma força única, inventando um rock pesado com alma que ecoaria por décadas.

1971 - PERFORMANCE: ROCKIN' THE FILLMORE (LIVE)

Se Rock On definiu o poder da banda em estúdio, Performance: Rockin' the Fillmore, lançado no final de 1971, foi a sua coroação absoluta. Gravado durante duas noites no lendário Fillmore East de Nova York, este álbum ao vivo capturou o Humble Pie em seu habitat natural e no auge de seus poderes, transformando-os de uma banda promissora em uma atração de estádio. O disco é um monumento ao rock de arena setentista, caracterizado por jams extensas, energia crua e a dinâmica eletrizante entre Marriott e Frampton. A faixa que resume esse espírito é I Don't Need No Doctor, uma explosão de funk-rock que se tornou um padrão das rádios FM americanas e impulsionou o álbum ao status de ouro. A performance é uma avalanche de ritmo, com a guitarra + wah-wah de Frampton e os gritos soul de Marriott criando uma catarse irresistível. Outro pilar é a épica interpretação de I Walk On Gilded Splinters, do Dr. John, que ocupava um lado inteiro do vinil original. A banda transforma a canção em uma jam psicodélica e tribal de quase 25 minutos, uma viagem hipnótica que mostra sua coragem e sua conexão simbiótica em palco. Stone Cold Fever, já poderosa em estúdio, ganha aqui dimensões ainda mais colossais, com a seção rítmica de Ridley e Shirley provando ser uma fundação implacável e a dupla de guitarras atingindo clímaxes estrondosos. O álbum é pura adrenalina, a essência do que tornou a banda lendária ao vivo. Sua liberação quase coincidiu com a saída de Frampton para carreira solo, tornando-o um registro histórico perfeito e insuperável de uma formação lendária em seu momento de glória.

CONCLUSÃO

A jornada do Humble Pie de 1969 a 1971 foi uma ascensão meteórica alimentada por talento bruto, vontade férrea e uma transformação artística radical. Eles começaram como um coletivo de músicos de prestígio tentando escapar de seus rótulos pop, passaram pela experimentação folk e emergiram como uma das forças mais brutais e carismáticas do rock ao vivo. Seu legado, no entanto, transcende a breve janela de seu maior sucesso. Eles foram arquitetos de um som que fundia o peso do hard rock britânico com a profundidade do soul americano, uma fórmula que irrigaria o rock das décadas seguintes. A voz visceral de Steve Marriott, hoje reverenciada por ícones como Robert Plant e Ozzy Osbourne, permanece um padrão de entrega emocional crua. As guitarras de Peter Frampton no Fillmore prenunciaram a era dos guitar heroes dos anos 70. Mesmo após o fim da formação clássica, o espírito da banda provou ser indestrutível, inspirando reinvenções e tributos. Em apenas três anos intensos, o Humble Pie assou uma "torta" nada humilde, mas sim um banquete sonoro robusto e duradouro, cujos ecos de guitarra distorcida e soul gritado continuam a ressoar, um testemunho perene do poder do rock em seu estado mais puro e passional.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ONE BATTLE AFTER ANOTHER (2025)

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"One Battle After Another" (2025) [162'] [1.90:1] [****]

Paul Thomas Anderson, um cineasta que desde os anos de 1990 esculpiu uma filmografia obsessivamente centrada nos abismos da psique masculina e nas mitologias tóxicas da América, surpreende com One Battle After Another. Este épico de ação e ideias representa um desvio significativo na sua carreira, não apenas pelo orçamento recorde e escala de blockbuster, mas pela vontade declarada de engajar com o ruído ensurdecedor do presente. Se filmes como There Will Be Blood ou The Master eram parábolas históricas sobre a corrosão da alma pelo capitalismo e pelo fanatismo, este é um foguete lançado diretamente no coração da América hiperpolarizada dos anos 2020 e além. Anderson abandona o distanciamento temporal para mergulhar na urgência de um país fraturado por guerras culturais, militarização das fronteiras e o espectro do autoritarismo. No entanto, mesmo neste terreno novo, o seu viés autoral permanece intacto: a fascinação por personagens despedaçados e obcecados, a percepção afiada de que os grandes ideais são frequentemente negociados por fraquezas pessoais mesquinhas, e uma desconfiança fundamental em relação a qualquer sistema de poder, seja ele o capital petrolífero, uma seita ou, agora, o estado policial E os seus opositores revolucionários. One Battle After Another é, assim, uma culminação de um autor que, sem abdicar do seu olhar íntimo e claustrofóbico, o amplifica para o tamanho de um pesadelo nacional, inserindo-se no debate contemporâneo como um conto de advertência sobre o ciclo eterno do conflito e o custo humano das guerras, sejam elas políticas ou pessoais.

A história, inspirada livremente num romance de Thomas Pynchon, é um mecanismo de relojoaria narrativa que engrena uma perseguição frenética com uma reflexão profunda sobre legado e traição. Dezesseis anos após os feitos do grupo revolucionário French 75, o seu ex-bombista Pat Calhoun, agora Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), vive uma existência apagada e paranoica, criando a filha Willa Ferguson (Chase Infiniti) longe do passado e completamente a margem da sociedade. A farsa de paz desmorona quando o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), um oficial militar racista e sádico humilhado pelo French 75 no passado, ressurge movido por uma obsessão psicossexual pela antiga companheira revolucionária de Bob, Perfídia Beverly Hills (vivida quase que selvagemente por Teyana Taylor) (que por falar nisso é negra!), e pela necessidade de apagar a prova viva do seu "desvio": a própria Willa, que é, revela-se, sua filha biológica (*)... A missão de Bob para proteger Willa, com a ajuda do seu professor de karatê Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro) e da comunidade de imigrantes e excluídos local, é o motor da ação, mas o tema central do filme é a desilusão e o peso da herança. Anderson explora a ironia amarga de que a luta contra um sistema opressor pode gerar os seus próprios monstros e traições: Perfídia, idealizada por Willa como uma heroína no presente, revelou-se no passado (após ter deixado Bob e uma Willa bebê para "voltar a causa") uma informante que sacrificou os camaradas para salvar a própria pele e que depois fugiu do programa de proteção a testemunhas (aliás esse acordo foi conseguido pelo próprio LockJaw, que usou as informações obtidas inclusive para MATAR membros do French75 e ficou furioso com a fuga de Perfídia). O conflito de Bob não é apenas contra Lockjaw, mas contra o seu próprio fracasso como revolucionário e a dificuldade de transmitir um sentido de luta à filha num mundo que parece ter tornado as suas antigas batalhas irrelevantes ou pervertidas (retrospectivamente o Sensei Sérgio parece ser o real mentor da jovem). Já Willa, vivida com ferocidade por Infiniti, encarna o conflito da nova geração, forçada a navegar entre o mito dos pais, a sua horrível verdade e a necessidade de forjar a sua própria identidade e resistência, culminando num clímax onde ela, e não o pai desgastado, faz o ajuste de contas com LockJaw e com o assassino enviado pelos Supremacistas para cauterizar toda a situação (Ao final de uma espetacular sequência de perseguição de carros por falar nisso!).

(*) LockJaw já no presente deseja ingressar numa Cabala de Supremacistas Brancos denominada (vejam só!) "Aventureiros Natalinos" e teme que a sua indiscrição do passado seja facilmente descoberta por tal grupo. Por isso age depois de tanto tempo.

Para contar esta história de paranoia e perseguição, Anderson e a sua equipe mobilizam uma linguagem audiovisual que é, em si mesma, um ato de rebelião cinematográfica. A fotografia de Michael Bauman, recorrendo ao formato VistaVision de grande resolução, capta a América contemporânea com uma crueza que vai do pitoresco ao claustrofóbico, transformando um muro fronteiriço numa paisagem abstrata e opressiva e as fugas pelos telhados de subúrbios numa coreografia desesperada. A montagem de Andy Jurgensen é um estudo de ritmo, alternando entre a comédia de erros (como na cena antológica em que Bob, nervoso, não consegue lembrar dos códigos secretos da resistência num telefone público) e sequências de ação de tirar o fôlego, como o duelo automotivo final numa estrada ondulante (que, por incrível que pareça, parece absorver e adaptar ao contexto a Mise-en-scène dos duelos dos faroestes de Sérgio Leone)... A trilha sonora de Jonny Greenwood é um personagem por si mesma, um conjunto de nervos expostos que vai desde pianos percussivos e repetitivos, que soam como um alarme de ansiedade constante, até crescendos orquestrais que amplificam o perigo... No que tange às atuações, DiCaprio entrega uma performance surpreendentemente física, utilizando seu corpo como um instrumento de comédia e tragédia, tropeçando e caindo enquanto tenta (sem conseguir) ser o herói que sua filha precisa (algo muito bem resumido pela sua incapacidade de lembrar dos códigos de contato com a resistência e mesmo trechos dos seus manifestos). Benicio del Toro, como o Sensei Sergio, rouba cada cena com uma estoicidade hilária, liderando um exército improvável de ninjas skatistas que exemplifica o absurdo maravilhoso do universo de Anderson (O filme também conta com freiras guerrilheiras plantadoras de maconha e esta Castanha não está brincando quanto a isso!)... O LockJaw (de Penn) é (por sua vez) detalhadamente composto a um infinitésimo de uma caricatura. Com trejeitos afetados (levemente afeminados) sobrepostos a atitudes machistas estereotipadas. Por exemplo, ele anda com as pernas arqueadas e de maneira ritmada lembrando um cowboy ao mesmo tempo em que parece ter recebido um doloroso experimento de ordenha da próstata (algo que Perfídia realizou nele aparentemente) (**).

(**) Ele chega mesmo a sugerir no final aos Supremacistas que Perfídia o "Estuprou em Reverso" roubando-lhe o seu sêmen (!). Isso parece remeter diretamente ao General Ripper de Dr. Strangelove de Kubrick e os seus infames "preciosos fluidos corporais". Aliás vários comentaristas tem feito conexão com a obra de Kubrick (muito na veia da sua paranoia absurda), inclusive o próprio Spielberg (grande fã e amigo de Kubrick). 

Em conclusão, One Battle After Another de Paul Thomas Anderson é um triunfo complexo e desafiador, um filme que se recusa a ser simples ou consolador. O seu veredicto sobre os temas da resistência e do extremismo é ambivalente e, por isso, poderosamente honesto: a luta é um ciclo inescapável (de fato "uma batalha após a outra"), frequentemente corrompida por falhas humanas e traições, mas a sua chama – especialmente quando transferida para uma nova geração mais lúcida e menos dogmática – permanece como única resposta à desumanização. Os personagens principais, Bob e Willa, encontram a sua redenção não numa vitória política clara, mas na reconstrução do seu vínculo familiar em bases mais saudáveis e honestas, sugerindo que a resistência mais profunda pode começar no âmbito pessoal. Para a obra de Anderson, este filme é um marco de maturidade e coragem, provando que o seu génio para a caracterização pode florescer numa escala blockbuster sem ceder à simplificação, criando aquela que é simultaneamente a sua obra mais acessível e uma das suas mais ricas tematicamente. Para além da sua filmografia, One Battle After Another impacta o cinema contemporâneo ao reivindicar um espaço meio esquecido: o do grande filme de ideias com o coração de um thriller implacável e a inteligência de um olhar crítico implacável. É uma obra que, como os seus protagonistas, acredita que a batalha, por mais cansativa que seja, vale sempre a pena ser travada, oferecendo-nos no processo um farol de excelência cinematográfica num panorama cultural frequentemente amnésico.

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sábado, 3 de janeiro de 2026

THE PITT S1 (2025)

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EPISÓDIOS

S1.E01 ∙ 07:00 A.M. [***]
S1.E02 ∙ 08:00 A.M. [***]
S1.E03 ∙ 09:00 A.M. [***]
S1.E04 ∙ 10:00 A.M. [***] 
S1.E05 ∙ 11:00 A.M. [***] 
S1.E06 ∙ 12:00 P.M. [***] 
S1.E07 ∙ 01:00 P.M. [***] 
S1.E08 ∙ 02:00 P.M. [****] 
S1.E09 ∙ 03:00 P.M. [***1/2] 
S1.E10 ∙ 04:00 P.M. [****] 
S1.E11 ∙ 05:00 P.M. [***1/2] 
S1.E12 ∙ 06:00 P.M. [****]  
S1.E13 ∙ 07:00 P.M. [****]
S1.E14 ∙ 08:00 P.M. [****]
S1.E15 ∙ 09:00 P.M. [****]

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REVIEW

A primeira temporada de The Pitt (da HBO) posiciona-se como um dos empreendimentos mais ambiciosos e aclamados da carreira de seus longevos realizadores principais: R. Scott Gemmill, John Wells e Noah Wyle. Essa radiante reunião do trio que outrora colaborou na série de pronto socorro ER resulta não em uma mera nostalgia, mas em uma atualização radical do gênero médico para os tempos atuais. Para o maiúsculo produtor Wells (*), diretor do episódio piloto aqui, é a consolidação de sua expertise na condução de dramas realistas com grande elenco, enquanto Wyle, atuando e escrevendo um episódio, transcende a persona do intérprete do novato John Carter em ER para entregar uma performance definitiva como um médico tarimbado porém assombrado pelo trauma pandêmico (e claramente sofrendo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático ou TEPT). A opção estrutural — cada episódio cobrindo uma hora real de um plantão de 15 horas — não é um mero artifício, mas a espinha dorsal de uma imersão sem precedentes. Lançada em 2025, a série conecta-se visceralmente com um público global ainda processando as cicatrizes da COVID-19, transformando o fictício Pittsburgh Trauma Medical Center (o titular THE PITT) em um microcosmo da sociedade. Ela captura a exaustão sistêmica, a resiliência profissional e os dilemas éticos de uma era marcada pela precarização da saúde pública (o que inclui a desvalorização dos seus profissionais!) , oferecendo não apenas entretenimento, mas uma reflexão urgente e coletiva. A aclamação foi imediata e retumbante: a temporada conquistou cinco Prêmios Emmy, incluindo o de Melhor Série Dramática, e foi listada pelo American Film Institute (AFI) como um dos dez melhores programas de televisão do ano, consolidando seu inequívoco status popular e crítico desde o seu lançamento.

(*) De: China Beach , ER , The West Wing , The Third Watch , SouthLand , Animal Kingdom , Shameless... A narrativa da primeira temporada é um estudo de caracterização sob pressão máxima. Durante um único e aparentemente interminável plantão (que culmina transformando o PS em um hospital de campanha para tratar uma enxurrada de vítimas de um tiroteio em massa em um festival de música próximo), acompanhamos o experiente (médico chefe do dia) Dr. Michael "Robby" Robinavitch (Noah Wyle) no aniversário da morte de seu mentor na pandemia, um trauma que ecoa em cada decisão. Ao seu redor, uma nova geração de médicos navega os seus próprios abismos: a arrogante interna Dr. Trinity Santos (Isa Briones); a meticulosa Dr. Samira Mohan (Supriya Ganesh); a resiliente mãe solteira Dr. Cassie McKay (Fiona Dourif); a brilhante neurodivergente (e uma particular favorita desta Castanha) Dr. Melissa "Mel" King (Taylor Dearden) etc. A estrutura em tempo real é o motor narrativo perfeito, forçando escolhas éticas irrevogáveis e expondo o caráter de cada um. Casos como o de um idoso com Alzheimer cuja família revoga sua ordem de não reanimar, ou o de um adolescente vítima de overdose de fentanil, servem como veículos para explorar dignidade, vício, luto e falha sistêmica (ambos os casos direto das manchetes de jornais, assim como outros)... A série é muito elogiada por sua autenticidade médica — "o retrato mais realista de um departamento de emergência urbano movimentado", dizem alguns — mas também é criticada por uma abordagem por vezes didática de questões sociais, que alguns espectadores consideram "preguiçosa" ou "panfletária". Este é o conflito central da temporada: a luta humanista contra um sistema à beira do colapso, onde cada vitória é pessoal e cada derrota, coletiva. A profundidade dos conflitos individuais, revelando desde a insegurança de Mohan até o equilíbrio precário de McKay, entrelaça-se com a crise institucional, criando um mosaico complexo onde o pessoal e o profissional são indissociáveis.

(A série atinge força total no episódio 8 e daí não olha mais para trás até o fim da temporada!)

(Ao final do episódio 13, Robby é forçado a declarar morta a namorada de Jake, seu enteado de fato, quebrando finalmente sob o peso acumulado de traumas não processados. Ainda assim, após ser chamado a responsabilidade em meio ao caos por um dos estagiários de medicina novatos (Dennis Whitaker vivido por Gerran Howell) ele realiza o esforço sobre-humano de voltar ao plantão. É ver para crer a atuação de Wiley neste ponto.)

(Quando tudo é dito ao fim da temporada é inescapável a sensação de que a grande arma secreta da atração é o médico chefe do turno noturno do PS Dr. Jack Abbot (Shawn Hatosy), que se torna um favorito instantâneo do público apesar do tempo limitado em tela. Sem oferecer spoilers demais existem duas cenas contracapas com Robby e Abbot sozinhos no telhado do hospital que ressoam muito além do último episódio.)
(É muito sofisticado o tratamento dado a sub trama do vício em remédios do residente sênior Frank Langdon (Parick Ball). Introduzir Santos como alguém tão arrogante e ambiciosa e mesmo literalmente sem noção e fazer justo ela investigar tal questão sobre Langdon deixa a audiência em dúvida até o último momento sobre a veracidade do caso. Transformando o que seria uma trama convencional do gênero com execução tipicamente previsível em algo novo e fresco.)

A contribuição de Johanna Coelho como diretora de fotografia estabelece uma linguagem visual revolucionária para o gênero médico. Colaborando estreitamente com a designer de produção Nina Ruscio, Coelho iluminou um set completamente funcional de trezentos e sessenta graus que permitia aos diretores Amanda Marsalis, John Wells, Damian Marcano, Silver Tree, John Cameron e Quyen Tran filmarem em qualquer direção sem interrupções. A decisão de utilizar principalmente câmeras portáteis ARRI Alexa Mini LF cria uma estética documental imersiva onde a câmera funciona como um membro fantasma da equipe, seguindo personagens através de longos planos-sequência coreografados com precisão milimétrica. Os atores passaram duas semanas em campo de treinamento médico aprendendo suturas, intubação, ultrassonografia e ressuscitação cardiopulmonar, permitindo que executassem procedimentos realistas. Médicos e enfermeiros reais foram contratados como figurantes para adicionar autenticidade, e os operadores de câmera literalmente se vestiam com uniformes médicos caso fossem capturados acidentalmente nas tomadas. A profundidade de campo rasa aprisiona visualmente os espectadores junto aos personagens, vendo apenas o que eles veem, sentindo o espaço claustrofóbico de corredores superlotados e salas de trauma. Durante o tiroteio em massa dos episódios finais, Marsalis adiciona uma terceira câmera para capturar reações em meio ao mar de pacientes críticos, abandonando os planos-sequência fluidos em favor de montagem mais fragmentada que reflete o colapso da ordem. As atuações transcendem o mérito técnico: Wyle entrega camadas de dor mal disfarçada e explosões controladas, Katherine LaNasa transforma Dana Evans (a enfermeira chefe do turno diurno) em âncora emocional indispensável, enquanto o elenco jovem de Briones, Dearden, Howell etc. traz vulnerabilidade fresca ao cansaço institucional. A trilha sonora permanece discreta, permitindo que sons ambientes do pronto-socorro criem tensão orgânica.

Em conclusão, a primeira temporada de The Pitt, criação de Gemmill junto ao Know-How e a experiência de Wells e Wyle, oferece um veredicto implacável sobre a medicina americana contemporânea: o sistema está fundamentalmente quebrado, e os heróis que o sustentam estão se quebrando junto com ele. Robby termina o turno planejando uma licença porque reconhece (finalmente!) que não pode continuar neste ritmo sem destruir a si mesmo, Dana esvazia sua mesa incerta se retornará (tendo sido agredida por um paciente em meio ao caos!) e Langdon enfrenta um futuro profissional nebuloso após ser pego no vício. Mas existe resiliência tenaz nestes profissionais: Santos e Whitaker formam uma amizade improvável como colegas de apartamento, Mel mantém sua rotina de sextas-feiras com a irmã apesar do trauma do dia e a equipe inteira se recusa a abandonar pacientes mesmo quando todo recurso está esgotado. A série argumenta que dedicação individual jamais compensará negligência sistêmica, que o heroísmo médico não deveria ser necessário em uma sociedade funcional, e que ignorar a saúde mental de curadores apenas garante catástrofe coletiva. Wells, Gemmill e Wyle não romantizam o sacrifício; eles o expõem como sintoma de falha política e moral. O impacto foi imenso: a temporada conquistou treze indicações ao Emmy incluindo Melhor Série Dramática, vencendo cinco estatuetas e também foi listada entre os dez melhores programas de televisão de 2025 pelo American Film Institute (AFI). Profissionais de saúde organizaram sessões de exibição em hospitais por todo o país, validando sua precisão dolorosa. A renovação para segunda e terceira temporadas confirmou que esta não é anomalia, mas nova voz permanente exigindo que a televisão e a América confrontem verdades desconfortáveis sobre como tratamos aqueles que nos tratam. The Pitt redefiniu o drama médico contemporâneo com um testemunho urgente de uma crise nacional.

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ADOLESCENCE S1 (2025)

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EPISÓDIOS

01 - EP#1.1 [***1/2]
02 - EP#1.2 [***1/2]
03 - EP#1.3 [****]
04 - EP#1.4 [***1/2]

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REVIEW

Adolescence, a minissérie britânica de 2025 disponível na Netflix, estabelece-se não apenas como um triunfo artístico, mas como um marco cultural urgente. A força criativa por trás da produção é um triunvirato de peso: Stephen Graham, ator veterano que aqui assume o quádruplo papel de criador, roteirista, produtor executivo e protagonista; Jack Thorne, renomado escritor premiado com o BAFTA e o Emmy; e Philip Barantini, diretor que reafirma sua maestria na arte do plano-sequência após o aclamado Boiling Point (2021). Para Graham e Thorne, a série representa a culminação de carreiras dedicadas a retratos sociais densos e humanizados, agora voltadas para uma investigação brutal da masculinidade tóxica na era digital. A novidade radical está na fusão dessa inquietação temática com uma ousadia formal extrema. Para Barantini, a série consolida uma assinatura autoral – o filme-contínuo – e a eleva à escala e complexidade narrativa de uma minissérie, um feito técnico e dramático (talvez!) inédito na televisão. Adolescence se insere no cenário televisivo de 2025 como um antídoto potente à banalização do chamado true crime e dos thrillers procedurais. Enquanto a indústria ainda busca reviravoltas surpreendentes, a série desarma o público no primeiro episódio, trocando o "quem" pelo "porquê". Para sua audiência, oferece um espelho desconfortável sobre a criação de filhos num mundo hiperconectado; para a TV, é uma lição de como a forma pode ser fundida ao conteúdo para gerar empatia visceral; e, para o mundo, funciona como um diagnóstico angustiante e necessário dos efeitos colaterais da vida online na psique adolescente, ecoando casos reais de violência juvenil que inspiraram seus criadores.

A história central é aparentemente simples: Jamie Miller (Owen Cooper), um garoto de 13 anos de uma família comum do norte da Inglaterra, é preso sob a acusação de assassinar uma colega de escola, Katie Leonard. O grande trunfo narrativo, porém, é a abolição do suspense investigativo. O primeiro episódio termina com a exibição do vídeo de CCTV que incrimina Jamie de forma incontestável. A partir daí, Adolescence transforma-se numa profunda investigação psicológica, um mergulho nas raízes de um ato de violência misógina. A estrutura da minissérie, composta por quatro episódios que saltam no tempo, é um estudo de perspectivas e consequências. O episódio inicial foca no choque e na desorientação da família Miller durante a prisão, com o pai Eddie (Stephen Graham) tentando, em vão, proteger o filho de uma verdade que ele mesmo não consegue processar. O segundo episódio segue o detetive Luke Bascombe (Ashley Walters) pela ecologia social tóxica da escola, um labirinto de bullying, códigos de emojis hostis e a descoberta da influência da "manosfera" e de figuras como Andrew Tate sobre Jamie e seus amigos. O conflito central de Jamie, revelado com crueza no terceiro e mais aclamado episódio, é sua profunda insegurança, sua solidão e sua raiva, fermentadas em fóruns online que o levaram a ver a rejeição de Katie como uma humilhação que demandava retribuição violenta. Em uma sessão de avaliação psicológica com Briony Ariston (Erin Doherty), ele alterna entre vulnerabilidade infantil e arrogância misógina, confessando que pensou que Katie estaria "fraca" e mais receptiva após sofrer um vazamento de nudes. O episódio final, passado um ano depois, abandona o tribunal para se fixar no luto silencioso e na culpa dos Miller. O conflito de Eddie, agora, é interno: uma luta contra o autoquestionamento devastador de um pai que percebe não ter conhecido o filho que criou e que se pergunta, no ápice de sua dor, se o amou o suficiente ou se o amou de forma errada. A série identifica seus temas principais de forma cristalina: a radicação online do ódio às mulheres, o fracasso coletivo das instituições (família, escola) em interceptar sinais de angústia, e o abismo de incompreensão entre gerações criadas em realidades sociais radicalmente diferentes.

A realização audiovisual de Adolescence é o pilar que sustenta toda a sua potência dramática e conceitual. A escolha radical de filmar cada episódio em um único plano-sequência contínuo, sem cortes, é muito mais que um mero exercício de virtuosismo técnico. É uma decisão estética que redefine por completo o pacto emocional com o espectador. A câmera, operada com precisão cirúrgica pelo diretor de fotografia Matthew Lewis, torna-se uma testemunha incansável e claustrofóbica. Ela nos nega o alívio de um corte, forçando-nos a vivenciar em tempo real a agonia da família na delegacia, a tensão insuportável do interrogatório entre Jamie e Briony, e o peso esmagador do silêncio na casa vazia dos Miller. Essa técnica, que exigiu um trabalho coreográfico monumental de atores e equipe, com ensaios exaustivos e tomadas que duram a hora inteira do episódio, gera uma imersão e um realismo quase documental. As atuações, por sua vez, precisaram ser calibradas com a precisão de uma performance teatral ao vivo. Owen Cooper, em sua estreia absoluta, oferece uma atuação desarmadora em sua autenticidade, transitando entre a fragilidade de uma criança assustada e a pose dura de um adolescente radicalizado. Stephen Graham, como Eddie, conduz uma masterclass em dor contida, onde cada micro expressão e pausa carregada diz mais que qualquer diálogo. Erin Doherty, como a psicóloga, transmite com nuances mínimas o turbilhão interno entre a postura profissional e o horror humano diante do que ouve. A trilha sonora discreta e o design de som realista amplificam a sensação de estarmos invasivamente presentes naquelas salas. A linguagem visual, portanto, não ornamenta a história: ela é a própria experiência da história, replicando a asfixia, a inescapabilidade e a fluência caótica de um trauma que não pode ser editado ou suavizado.

Em conclusão, a minissérie Adolescence, de Graham, Thorne e Barantini, é um feito televisivo de rara integridade e impacto. O veredicto final que ela oferece sobre seus temas e personagens é sombrio, complexo e deliberadamente inconclusivo. A série não apresenta respostas fáceis nem redime seus personagens; em vez disso, oferece um retrato devastador de como uma constelação de falhas – pessoais, familiares, educacionais e, sobretudo, sociotecnológicas – pode convergir para a tragédia. Jamie Miller é tanto um perpetrador quanto uma vítima de um ecossistema digital venenoso, e seus pais, Eddie e Manda, são retratados menos como culpados e mais como representantes de uma geração perdida, incapaz de decifrar os códigos do novo mundo em que seus filhos crescem. O impacto da série transcende em muito o entretenimento. Para a audiência, funciona como um catalisador para reflexões dolorosas sobre paternidade, responsabilidade e o ambiente digital que permeia a vida jovem. Para a televisão, Adolescence eleva o padrão do drama criminal, provando que a profundidade psicológica e a ousadia formal podem gerar um engajamento massivo – tornou-se a primeira produção de streaming a liderar o ranking de audiência semanal no Reino Unido e foi premiada com múltiplos Emmys, incluindo Melhor Minissérie. Para a cultura em geral, a série cumpre uma função crucial de diagnóstico social, colocando um holofote incômodo e necessário sobre a maneira como ideologias de ódio encontram terreno fértil no isolamento e na insegurança da adolescência contemporânea. É, em suma, uma obra-prima que fere fundo para transformar, um marco do realismo televisivo do século XXI cuja relevância e poder de perturbação devem ecoar ainda por muito tempo.

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