sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

STAR TREK: STARFLEET ACADEMY S01 EP01-02 (2026)

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EPISÓDIOS

S01.E01 ∙ Kids These Days [**]
S01.E02 ∙ Beta Test [**]

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ACASTANHADAS 

(correspondentes aos dois primeiros episódios de StarFleet Academy e que formam o seu de fato piloto)

A melhor personagem em geral é mesmo a capitão/chanceler-da-academia Nahla Ake (Holly Hunter), dupla posição essa estabelecida com uma trama efetiva que os fãs da terceira era de Star Trek vão achar bastante familiar e não se iludam: o retorno dela para a frota é por demais súbito e perfeito (especialmente tendo que sincronizar a recuperação/convencimento-de-Caleb-para-se-alistar no mesmo pacote!), justo para assumir uma dupla função politicamente carregada e crucial para a continuidade da Federação e da Frota Estelar. Isso parece testar a nossa suspensão de descrença!

Caleb Mir (Sandro Rosta) foi separado com cinco anos da mãe, presa por algum tipo de furto famélico com agravantes pela Federação representada por Ake. Caleb passou então a viver sozinho de situação ruim para situação pior e Ake pediu exoneração e foi ensinar crianças (muito envergonhada pelo ocorrido). A proposta de Vance (comandante da frota estelar) se torna deveras irresistível agora pela soma de todos esses eventos (especialmente se fatorarmos a longevidade multi centenária da capitã que foi testemunha de muitas glórias federadas do passado e a perda do seu próprio filho cadete com a "Queima").

Por outro lado, Nus Braka (vivido por Paul Giamatti) é infelizmente (ao menos aqui) um pirata-genérico-espanador-de-cenários com diálogos de prateleira (diálogos ruins que também assolam os cadetes, especialmente o inexplicável "cunhado betazoide" na cena final do segundo episódio). Braka faz parte do passado dos Mir e esperamos mais complexidade nas próximas aparições desse Klingarita = Klingon + Telarita... Giamatti e Tatiana Maslany (que interpreta com facilidade a mãe de Caleb) são atores convidados na série.

(A trama se contorce de dor para a emboscada de Braka contra a Athena funcionar nos seus termos: antes, durante e depois! Athena é a nave estelar comandada por Ake nas suas duas funções... Esta Castanha prefere Minerva a Athena por falar nisso!)

(Se chamarmos de "Conta de Fadas Trek" (TM) a história do Ferengi Nog na Frota Estelar, teremos que dizer que a de Caleb aqui é ordens de grandeza mais fantasiosa. Esgarçando a suspensão de descrença.)

(O segundo episódio é melhor: sem ação tradicional, falsa encrenca e cadetes salvando o dia. E o fato de Betazed receber a presidência federada nessa nova fase para finalmente concordar em "voltar ao lar" foi mesmo uma cartada capaz de encerrar qualquer negociação bem intencionada. E o melhor momento da série até aqui dada a ocorrência da "Queima".)

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Dentre os cadetes, a mais gostável (até meio que por construção francamente) é Genesis (Bella Shepard): sempre bem preparada para agir e para tirar foto, mas também sempre muito gentil e (muito importante) sem ser boboca ou babaca no processo... Achamos desnecessário o "Cadete X-Men": George Hawkins como Darem Reymi...  E a SAM (Kerrice Brooks) soa muito over... Por outro lado o Klingon Jay-Den Kraag (Karim Diané) sofre do problema oposto, duelando por atenção com o espaço vazio e com a sua confusa caracterização... Caleb teve simplesmente tempo demais em tela (juntando os dois episódios) e a ênfase na busca pela mãe trouxe um certo cansaço (talvez o desgaste terminal desta era). Mas vamos supor por enquanto que os outros regulares terão espaço comparável mais tarde...

(Aguardamos o comportamento de Tarima Sadal (Zoë Steiner) como cadete da Escola de Guerra nos próximos episódios... Por hora, diremos que Tarima foi mais interessante do que Caleb com muito menos tempo de tela. Ela é a filha do presidente de Betazed por falar nisso! E ele não tem nada de extrema direita!)

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(*) Não entendemos bem o uso de "linguagem de sinais" e de "tradução simultânea" por parte da delegação Betazoide... Será algum efeito colateral do seu isolacionismo?

(*) Mostrar a Federação tão burocratizada, fraca e incompetente é um osso muito duro de roer para qualquer fã (principalmente por que ela fica parecida demais com dezenas de organizações análogas do SCIFI em geral: exceto com a própria Federação!). O conceito da "Queima" foi um erro criativo grosseiro para a franquia.

(*) A "namorada betazoide" vai perder o controle em qual episódio?

(*) Entendemos que a Escola de Guerra é um artefato de ideias de episódios de Discovery mas será mesmo uma boa ideia sustentar tal conceito?

(*) Contracheque fácil para Picardo e Notaro que deve aparecer pouco. Se Castanha fosse showrunner (ao invés de um fruto seco), sacaríamos os dois do formato além da Klin'Hadar e colocaríamos apenas um primeiro oficial e mesmo uma adida acadêmica (no lugar da atual): ambos com personalidade para dentro e irmanados... Doutor, Engenheira e Klin'Hadar estão ali para (com o testemunho da nossa indiferença) apostar no humor (especialmente a última que é lamentavelmente uma espécie de sargenteante clichê enérgica e rigorosa).

(*) E mesmo já não gostando da estética e da tecnologia desse século as naceles da Athena (com aparentes motivos gregos) nos fizeram dar risadas involuntárias...

(*) O Quartel General da Frota Estelar fica estacionado aonde mesmo?

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

IT WAS JUST AN ACCIDENT (2025)

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 "IT WAS JUST AN ACCIDENT" (2025) [104'] [1,85:1] [***]

O realizador iraniano Jafar Panahi, figura cuja carreira se confunde com uma luta contínua contra a censura e a repressão no seu país, apresenta com It Was Just an Accident uma obra que simultaneamente marca uma evolução e uma consolidação no seu percurso cinematográfico. Após uma série de trabalhos metacinematográficos e profundamente autorreflexivos, como This Is Not a Film e No Bears, nos quais a impossibilidade de filmar se tornava o próprio tema, Panahi retorna aqui a uma narrativa ficcional mais clássica, sem, contudo, abdicar do substrato político que define a sua filmografia. O filme, rodado clandestinamente sem autorização das autoridades iranianas, opera uma mudança de registro ao adotar a estrutura de um thriller moral, carregado de tensão e reviravoltas, distanciando-se do tom documental e introspetivo de muitos dos seus predecessores. No entanto, reforça de maneira inabalável os seus vícios autorais: a crítica feroz, ainda que por vezes sardónica, ao aparelho estatal e à corrupção institucionalizada ; a exploração do espaço confinado como microcosmo da sociedade E a atenção dedicada aos indivíduos comuns aprisionados em dilemas éticos de grande magnitude. Inscrevendo-se no mundo contemporâneo do seu lançamento, o filme transcende o contexto específico do Irã para erguer uma reflexão universal e premente sobre os ciclos de violência, o peso do trauma coletivo e a difícil distinção entre justiça e vingança em sociedades marcadas por um passado de opressão. A história, inspirada em relatos que Panahi ouviu durante o seu próprio período na prisão, funciona como um potente alegoria sobre a incapacidade de uma nação se reconciliar consigo mesma quando os fantasmas do passado permanecem impunes e ativos no presente.

A narrativa, aparentemente simples, desdobra-se com uma implacável lógica de pesadelo. Tudo começa quando Eghbal (Ebrahim Azizi), um homem com uma prótese na perna, atropela acidentalmente um cão durante uma viagem noturna com a família. Esta colisão provoca uma avaria no automóvel, levando-o à oficina de Vahid (Vahid Mobasseri), um mecânico cuja vida aparentemente banal esconde as feridas profundas de ter sido um prisioneiro político. Ao ouvir o som característico da prótese e a voz de Eghbal, Vahid é transportado de volta aos seus tempos de tortura e identifica no cliente ocasional o seu antigo algoz, um guarda prisional conhecido pelo apelido de Perna de Pau. Movido por um impulso de revolta, Vahid sequestra Eghbal e, consumido pela dúvida sobre a sua identidade, parte numa jornada urbana para reunir outros sobreviventes que possam confirmá-la. Este grupo improvável, que constitui o núcleo dramático do filme, inclui a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Golrokh (Hadis Pakbaten) e o seu noivo Ali (Majid Panahi), e o temperamental Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr). O dilema central que os une e os divide não é apenas o de reconhecer o rosto de quem os torturou de olhos vendados, mas o de decidir o que fazer com ele: executar a vingança há muito desejada ou encontrar um caminho diferente que quebre a cadeia de violência. Os seus conflitos principais radicam precisamente nesta tensão entre o desejo visceral de retribuição, que os aproxima moralmente dos seus opressores, e uma centelha de humanidade que teima em sobreviver, simbolizada num momento crucial em que interrompem o seu plano para levar a esposa grata de Eghbal ao hospital. Esta estrutura de caça e julgamento informal serve como mecanismo perfeito para desenvolver os temas principais do longa: a natureza cíclica e corrosiva da violência, a difusa fronteira entre vítima e carrasco quando o primeiro adota os métodos do segundo, e a complexa busca por redenção e perdão num contexto onde a justiça formal é inexistente ou cúmplice.

Panahi serve-se de uma linguagem audiovisual contida, realista e profundamente eficaz para conferir peso e autenticidade a esta parábola moral. A direção, necessariamente discreta devido às condições clandestinas de filmagem, aposta numa montagem que privilegia planos sequência longos, especialmente no tenso clímax do filme, aumentando a sensação de claustrofobia e imersão no dilema dos personagens. A fotografia de Amin Jafari, com uma paleta de cores terrosas e uma luz natural, mantém um olhar observacional que recusa o melodrama, enquanto a quase ausência de trilha sonora não diegética intensifica o realismo cru e coloca o foco total nas palavras e nos silêncios carregados dos protagonistas. As atuações, maioritariamente de um elenco não profissional, são de uma sobriedade e veracidade notáveis. Vahid Mobasseri transmite com intensidade contida a agonia interna de Vahid, dividido entre a fúria e a dúvida. Mariam Afshari, como Shiva, oferece um contraponto de racionalidade cansada, enquanto Mohamad Ali Elyasmehr explode como a encarnação viva do ódio incontrolável em Hamid. Ebrahim Azizi, por sua vez, constrói um Eghbal complexo, um homem que pode ser tanto um monstro quanto um marido e pai comum, forçado a confrontar o seu passado. Apesar da gravidade do tema, Panahi injeta na narrativa momentos de um humor negro e absurdo, sátiras ácidas à burocracia e à corrupção endémica, como a cena em que uma propina é paga com uma máquina de cartões, que funcionam como válvulas de alívio e, simultaneamente, como comentários sociais cortantes. Esta mistura de tons, habilmente equilibrada, impede que o filme se torne um exercício de pura agonia, revelando antes o absurdo trágico que permeia a vida sob repressão.

Em conclusão, It Was Just an Accident de Jafar Panahi não oferece respostas fáceis para as questões profundas que levanta, e a sua grandeza reside precisamente nessa recusa. O veredicto final sobre os seus personagens e temas é deliberadamente ambíguo, encapsulado no final magistral e aberto à interpretação. Após forçar uma confissão e um pedido de desculpas vazio de Eghbal, Vahid opta por libertá-lo, num ato que poderá ser lido como perdão, exaustão ou a recusa definitiva em replicar a violência do opressor. No derradeiro plano, o som do passo de uma prótese aproxima-se e depois se afasta de Vahid, um ruído que o próprio realizador sugere poder existir apenas na mente do protagonista, um fantasma psicológico que talvez nunca o abandone. Esta ambiguidade genial coloca o espectador no lugar do personagem, obrigando-o a ponderar se o ciclo de violência foi verdadeiramente interrompido por um acto de misericórdia, ou se o trauma é uma prisão perpétua da qual não há fuga. Para a obra de Panahi, este filme representa um ponto de chegada e de maturidade artística, a síntese bem-sucedida entre a urgência política de um cineasta dissidente e o domínio formal de um contador de histórias exímio. Para além da sua filmografia, impacta o cinema contemporâneo como um testemunho corajoso e uma obra de rara potência moral, demonstrando que a mais elevada expressão artística pode nascer mesmo sob as condições mais opressivas, servindo tanto como reflexão intemporal sobre a condição humana quanto como documento vital e insurgente do seu tempo.

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TO BE HERO X SEASON 01 (2025)

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EPISÓDIOS

S1E01: Nice [***1/2]
S1E02: Moon [***1/2]
S1E03: The Ever-Standing Hero [***]
S1E04: The Commoner [****]
S1E05: One Actor [***1/2]
S1E06: Two E-Souls [***1/2]
S1E07: Three Seats[****]
S1E08: The Cyan Girl [***]
S1E09: Loss and Gain [***]
S1E10: The Truth Behind Luck [***1/2]
S1E11: Road to the Crown [***1/2]
S1E12: Fall of the Star [****]
S1E13: Tough Girl [**1/2]
S1E14: Impromptu Counterattack [**1/2]
S1E15: Affective Disorder [****]
S1E16: The Cure [***1/2]
S1E17: Whisper Flower [***]
S1E18: Died-Out Flame [***]
S1E19: Breaking the Balance [****]
S1E20: The Ruins Incident[****]
S1E21: Nurturing God [****]
S1E22: The Last Smile [****]
S1E23: Lie [****]
S1E24: X [****]

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REVIEW

A primeira temporada do donghua (*) To Be Hero X, lançada ao longo de 2025, consolida-se como um marco ambicioso na carreira de seu criador, diretor e roteirista, Haoling Li, e um ponto de inflexão para a indústria da animação asiática. Li, já aclamado por obras animadas anteriores, expande aqui o universo conceitual iniciado com To Be Hero e To Be Heroine, transcendendo-as em escala e profundidade temática. Esta produção é fruto de uma colaboração internacional sem precedentes, unindo o estúdio chinês BeDream, a gigante japonesa Aniplex e a plataforma de streaming chinesa Bilibili, além de reunir talentos de múltiplos estúdios de animação, simbolizando uma convergência criativa entre China e Japão. Para Li, To Be Hero X representa a maturidade de sua narrativa, abandonando a estrutura de protagonista único em favor de uma teia complexa (com múltiplos protagonistas e múltiplos pontos de vista) e não linear (a narrativa vai e volta no tempo do começo ao fim), um movimento arrojado que confirma sua reputação como contador de histórias inovador (**). Para a televisão e o mundo em 2025, a série oferece uma reflexão urgente e incisiva. Ela insere-se em um contexto global de saturação de narrativas de super-heróis e de questionamento sobre a espetacularização da vida pública, funcionando como uma lente de aumento crítica sobre a economia da atenção, a idolatria digital e a volatilidade da confiança social. Ao transformar a popularidade em um sistema de poder literal, a série comenta diretamente sobre a era das redes sociais, dos influenciadores e da política como espetáculo, posicionando-se não apenas como entretenimento, mas como um comentário social pertinente e provocador para sua audiência.

(*) A arte animada chinesa análoga ao anime.

(**) Impressiona a confiança na contação de história aqui em: (i) trazer a origem de um herói cachorro (um top10 ao fim da temporada) e todo um novo arsenal de técnicas de animação JUSTO no penúltimo episódio da temporada , (ii) associar o chaveamento das técnicas de animação em tela ao estalar de dedos do X como se ele estivesse manipulando aquele mundo tanto ou mais do que as agências e a associação de heróis (Algo mais forte no presente do que no passado, sugerindo uma relação com o histórico de poderes do personagem) , (iii) dobrar a aposta para além de tanta complexidade global: o criador surpreende também dentro de um único sub arco e mesmo dentro de um único episódio etc.

A narrativa de To Be Hero X constrói-se sobre uma premissa poderosa: em seu mundo, os heróis não nascem, são eleitos pela percepção pública. O poder de um indivíduo é diretamente proporcional ao seu Valor de Confiança, uma métrica quantificada e manipulada por agências de marketing e conglomerados de mídia. O ápice desse sistema é o título de X, concedido ao herói mais confiável em um torneio bienal. A história, contada de forma não linear e através de onze arcos focados em diferentes protagonistas, desvenda as complexidades morais desse universo. O arco inicial (por exemplo) apresenta Lin Ling (dublado por Natsuki Hanae), um publicitário comum que, após testemunhar o suicídio do herói perfeito Nice (também dublado por Natsuki Hanae), é coagido (pela semelhança física e por escrever as campanhas do herói) a assumir sua identidade. Através dos olhos de Ling, exploramos a maquinaria por trás dos heróis: a pressão por uma imagem impecável, a relação simbiótica e por vezes parasítica com os fãs, e a perda da individualidade sob o peso das expectativas coletivas (Se acham que ele é o Nice, ele vai se tornar cada vez mais fisicamente parecido com o Nice ; Se acham que ele é muito certinho e cheio de manias, ele começa a desenvolver TOCs etc.). Essa investigação se aprofunda com outros heróis, como o trágico Homem Firme, cujo poder, derivado da crença pública em sua invencibilidade, o impede fisicamente de se curvar ou deitar, transformando-o em uma estátua viva de seu próprio mito (e a sua existência uma penitência). Já Ciano da Sorte (dublada por Inori Minase), uma cantora cujo poder é a boa sorte, lida com a exploração de sua imagem desde a infância, ilustrando como a inocência é consumida pelo espetáculo... (***) O conflito central de cada personagem é uma variação do mesmo tema: a luta para preservar uma identidade autêntica em um sistema que os reduz a símbolos comerciais. Paralelamente, a série introduz uma ameaça sistêmica maior, o Valor de Medo, um poder simétrico e oposto que alimenta os vilões a partir do terror coletivo, sugerindo que a sociedade cria seus monstros a partir das mesmas emoções que forjam seus ídolos.

(***) A explicação para a bebê Ciano ser a única sobrevivente de um desastre aéreo (e que é também a origem da sua sorte) é deveras comovente (aliás todo o seu arco desde criança santa no orfanato até estrela pop é em tese bem movediço e acaba sendo muito bem executado aqui.). 

(As Agências dos Heróis são largamente inspiradas nas Big Techs ao mesmo tempo que a Comissão de Heróis parece representar uma agência reguladora francamente corrompida por essas... Por outro lado, a Comissão também lembra o Partido Comunista Chinês no sentido de zelar para que a aprovação de um herói não cresça sem limite o tornando indistinguível de uma divindade... Inclusive isso já aconteceu  no passado, com o heroi zero, com um resultado trágico, evento que serve de ponto de partida para o calendário vigente e para a criação da própria Comissão. ) 

(Os líderes das agencias são criaturas grotescamente amorais, manipuladoras sem qualquer limite e traem uns aos outros e até os seus próprios agenciados. Um desses líderes é devoto do herói zero e procura ativamente transformar algum herói em um deus.)

A realização audiovisual de To Be Hero X é um dos pilares de sua excelência e ambição. A direção de Haoling Li e a colaboração entre os estúdios resultam em uma revolução estilística que serve diretamente à narrativa e aos temas. A série é notória por sua mistura fluida e intencional de técnicas de animação 2D e 3D, com uma cinematografia que evoca a coreografia aérea e teatral dos filmes de artes marciais chineses (wuxia), desafiando constantemente a gravidade e a perspectiva tradicional. Este ecletismo visual não é mero exibicionismo; é diegético. O poder do misterioso herói X (dublado por Mamoru Miyano) permite-lhe manipular a própria realidade, alterando o estilo de arte ao seu redor com um estalar de dedos. Assim, as transições bruscas entre um CGI estilizado algo reminiscente da série Arcane, sequências em 2D tradicionais e mesmo estética de cartoon americano tornam-se manifestações literais de seu domínio sobre o meio, uma metalinguagem brilhante sobre o poder da animação (e sugere um entendimento profundo do personagem sobre o mundo da série). A trilha sonora, supervisionada pelo renomado Hiroyuki Sawano (de Attack on Titan) e por uma constelação de compositores, eleva a experiência a outro patamar. Mais do que acompanhar, a música narra (mas raramente de maneira óbvia). Temas específicos para cada herói, como PARAGON para Nice ou NEON RAIN para E-Soul, atuam como leitmotifs emocionais, enquanto a poderosa abertura INERTIA e a inserção estratégica de músicas em clímax narrativos, como no confronto entre Lin Ling e God Eye, sincronizam batida cardíaca e impacto dramático com maestria. As atuações do elenco de dublagem, tanto japonês quanto chinês, conferem profundidade humana a esses arquétipos superpoderosos, capturando desde a angústia silenciosa de Nice até a determinação vulnerável de Lin Ling.

Em conclusão, a primeira temporada de To Be Hero X, sob a visão criativa de Haoling Li e o esforço conjunto de BeDream, Aniplex e Bilibili, ergue-se como uma conquista monumental. Seu veredito final sobre os temas que explora é complexo e matizado: o heroísmo, como commodity social, é mostrado como uma força tanto redentora quanto destrutiva, capaz de inspirar, mas igualmente de esmagar identidades e perverter intenções puras. Para personagens como Lin Ling, a jornada termina com a reafirmação de si para além do símbolo; para outros, como o Homem Firme, a liberdade só é encontrada na renúncia ao título. A série não oferece respostas fáceis, mas conclui sua trama intrincada recompensando a audiência atenta com um desfecho coerente que amarra suas diversas linhas narrativas, confirmando que cada ação e escolha reverberou significativamente. O impacto de To Be Hero X transcende seu próprio universo. Para sua audiência, é uma experiência que exige e recompensa o engajamento intelectual, elevando o padrão do que uma animação de super-heróis pode aspirar a ser. Para a televisão e a indústria da animação, a série serve como um farol de inovação, demonstrando o potencial criativo explosivo das coproduções internacionais e estabelecendo um novo patamar de sofisticação visual e narrativa para os donghua, desafiando a hegemonia narrativa ocidental no gênero. Como um todo, To Be Hero X consagra-se não apenas como uma das melhores produções de 2025, mas como uma obra que redefine as possibilidades de sua forma, provando que a animação pode ser, simultaneamente, espetacular, filosoficamente profunda e culturalmente relevante.

Material EXTRABLOG01: aqui

Material EXTRABLOG02: aqui

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THE PITT S2 (2026)

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EPISÓDIOS

S2.E01 ∙ 07:00 A.M. [***]
S2.E02 ∙ 08:00 A.M. [***]

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ACASTANHADAS

07:00 AM: "The Pitt retorna preservando o formato vencedor (de público e crítica)  da primeira temporada, com mais um plantão  de 15 horas, agora ambientado no feriado americano de quatro de julho... O Doutor Robby (O chefe do PS) está de volta no seu último plantão antes de embarcar em um trimestre sabático. Assim como a enfermeira chefe Evans (apesar da agressão sofrida), o residente sênior Langdon (regressando de uma clínica de reabilitação) entre outros favoritos... Robby não quer discutir de forma alguma com Langdon o que ocorreu com seu amigo e pupilo (mas supomos que eles vão conversar sobre TUDO até o episódio oito)... Robby também parece estar em rota de colisão com a sua substituta temporária (a doutora Baran Al-Hashimi vivida por Sepideh Moafi, uma advogada do uso de IA Generativa no PS e além) (Será que vamos ter, durante a temporada, um pulso eletromagnético transportando o PS para idade da pedra ou algo assim?) ... Sólida abertura de temporada com as atuações e os valores de produção já esperados."

(Dúvida da Castanha: Garcia e Santos tem ou tiveram um caso?)

(Dúvida da Castanha: Robby conduzir a moto sem capacete na cena de abertura tendo um claramente disponível tem algum significado transcendental?)

(Al-Hashimi se comporta MUITO estranhamente na presença de uma bebê recém nascida abandonada no PS. O que virá dai?)

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08:00 AM: "King ("Mel") está visivelmente distraída e apreensiva com a aproximação do seu depoimento em um processo de erro médico em que ela é ré (Robby diz que ser assim processado é algo comum na sua carreira como desinfetar as mãos enquanto Al-Hashimi não tem ideia do que é IMAGINAR ser processada por causa da sua prática médica e quer permanecer assim... Dizer que a nossa "Mel" ficou absolutamente confusa no meio desses dois doidos não seria nenhum exagero!)... "Mel" leva depois um tombo feio de um "bandido-paciente" perseguido pela polícia no meio do PS (quando os policiais ameaçam querer tomar o seu testemunho no caso, ela começa a se desregular mas é protegida e acolhida por Langdon)... Como era mesmo "O dia da Mel", ela acaba (juntamente com Santos) cuidando de um SEVERO caso de priapismo e drenando o sangue do pênis enfermo (!) ... Outro bom episódio e estamos "desconfiados" do aparente caso de abuso infantil sobre uma paciente de Santos (parece já elaborado demais para receber uma solução banal)."

(Whitaker é o novo pupilo de Robby no lugar de Langdon.)

(O "reencontro" de Santos e Langdon promete. Mas supomos que vai quebrar expectativas.)

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HUMBLE PIE (1969-1971)

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ÁLBUNS

1969 - As Safe as Yesterday Is [**1/2]
1969 - Town and Country [**1/2]
1970 - Humble Pie [***1/2]
1971 - Rock On [***1/2]
1971 - Performance: Rockin' the Fillmore (LIVE) [***1/2]

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PESSOAL

Steve Marriott: vocais , guitarras , teclados etc.
Peter Frampton: vocais , guitarras , teclados etc.
Greg Ridley: vocais , baixos.
Jerry Shirley: bateria , percussão.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

ONE BATTLE AFTER ANOTHER (2025)

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"One Battle After Another" (2025) [162'] [1.90:1] [****]

Paul Thomas Anderson, um cineasta que desde os anos de 1990 esculpiu uma filmografia obsessivamente centrada nos abismos da psique masculina e nas mitologias tóxicas da América, surpreende com One Battle After Another. Este épico de ação e ideias representa um desvio significativo na sua carreira, não apenas pelo orçamento recorde e escala de blockbuster, mas pela vontade declarada de engajar com o ruído ensurdecedor do presente. Se filmes como There Will Be Blood ou The Master eram parábolas históricas sobre a corrosão da alma pelo capitalismo e pelo fanatismo, este é um foguete lançado diretamente no coração da América hiperpolarizada dos anos 2020 e além. Anderson abandona o distanciamento temporal para mergulhar na urgência de um país fraturado por guerras culturais, militarização das fronteiras e o espectro do autoritarismo. No entanto, mesmo neste terreno novo, o seu viés autoral permanece intacto: a fascinação por personagens despedaçados e obcecados, a percepção afiada de que os grandes ideais são frequentemente negociados por fraquezas pessoais mesquinhas, e uma desconfiança fundamental em relação a qualquer sistema de poder, seja ele o capital petrolífero, uma seita ou, agora, o estado policial E os seus opositores revolucionários. One Battle After Another é, assim, uma culminação de um autor que, sem abdicar do seu olhar íntimo e claustrofóbico, o amplifica para o tamanho de um pesadelo nacional, inserindo-se no debate contemporâneo como um conto de advertência sobre o ciclo eterno do conflito e o custo humano das guerras, sejam elas políticas ou pessoais.

A história, inspirada livremente num romance de Thomas Pynchon, é um mecanismo de relojoaria narrativa que engrena uma perseguição frenética com uma reflexão profunda sobre legado e traição. Dezesseis anos após os feitos do grupo revolucionário French 75, o seu ex-bombista Pat Calhoun, agora Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), vive uma existência apagada e paranoica, criando a filha Willa Ferguson (Chase Infiniti) longe do passado e completamente a margem da sociedade. A farsa de paz desmorona quando o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), um oficial militar racista e sádico humilhado pelo French 75 no passado, ressurge movido por uma obsessão psicossexual pela antiga companheira revolucionária de Bob, Perfídia Beverly Hills (vivida quase que selvagemente por Teyana Taylor) (que por falar nisso é negra!), e pela necessidade de apagar a prova viva do seu "desvio": a própria Willa, que é, revela-se, sua filha biológica (*)... A missão de Bob para proteger Willa, com a ajuda do seu professor de karatê Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro) e da comunidade de imigrantes e excluídos local, é o motor da ação, mas o tema central do filme é a desilusão e o peso da herança. Anderson explora a ironia amarga de que a luta contra um sistema opressor pode gerar os seus próprios monstros e traições: Perfídia, idealizada por Willa como uma heroína no presente, revelou-se no passado (após ter deixado Bob e uma Willa bebê para "voltar a causa") uma informante que sacrificou os camaradas para salvar a própria pele e que depois fugiu do programa de proteção a testemunhas (aliás esse acordo foi conseguido pelo próprio LockJaw, que usou as informações obtidas inclusive para MATAR membros do French75 e ficou furioso com a fuga de Perfídia). O conflito de Bob não é apenas contra Lockjaw, mas contra o seu próprio fracasso como revolucionário e a dificuldade de transmitir um sentido de luta à filha num mundo que parece ter tornado as suas antigas batalhas irrelevantes ou pervertidas (retrospectivamente o Sensei Sérgio parece ser o real mentor da jovem). Já Willa, vivida com ferocidade por Infiniti, encarna o conflito da nova geração, forçada a navegar entre o mito dos pais, a sua horrível verdade e a necessidade de forjar a sua própria identidade e resistência, culminando num clímax onde ela, e não o pai desgastado, faz o ajuste de contas com LockJaw e com o assassino enviado pelos Supremacistas para cauterizar toda a situação (Ao final de uma espetacular sequência de perseguição de carros por falar nisso!).

(*) LockJaw já no presente deseja ingressar numa Cabala de Supremacistas Brancos denominada (vejam só!) "Aventureiros Natalinos" e teme que a sua indiscrição do passado seja facilmente descoberta por tal grupo. Por isso age depois de tanto tempo.

Para contar esta história de paranoia e perseguição, Anderson e a sua equipe mobilizam uma linguagem audiovisual que é, em si mesma, um ato de rebelião cinematográfica. A fotografia de Michael Bauman, recorrendo ao formato VistaVision de grande resolução, capta a América contemporânea com uma crueza que vai do pitoresco ao claustrofóbico, transformando um muro fronteiriço numa paisagem abstrata e opressiva e as fugas pelos telhados de subúrbios numa coreografia desesperada. A montagem de Andy Jurgensen é um estudo de ritmo, alternando entre a comédia de erros (como na cena antológica em que Bob, nervoso, não consegue lembrar dos códigos secretos da resistência num telefone público) e sequências de ação de tirar o fôlego, como o duelo automotivo final numa estrada ondulante (que, por incrível que pareça, parece absorver e adaptar ao contexto a Mise-en-scène dos duelos dos faroestes de Sérgio Leone)... A trilha sonora de Jonny Greenwood é um personagem por si mesma, um conjunto de nervos expostos que vai desde pianos percussivos e repetitivos, que soam como um alarme de ansiedade constante, até crescendos orquestrais que amplificam o perigo... No que tange às atuações, DiCaprio entrega uma performance surpreendentemente física, utilizando seu corpo como um instrumento de comédia e tragédia, tropeçando e caindo enquanto tenta (sem conseguir) ser o herói que sua filha precisa (algo muito bem resumido pela sua incapacidade de lembrar dos códigos de contato com a resistência e mesmo trechos dos seus manifestos). Benicio del Toro, como o Sensei Sergio, rouba cada cena com uma estoicidade hilária, liderando um exército improvável de ninjas skatistas que exemplifica o absurdo maravilhoso do universo de Anderson (O filme também conta com freiras guerrilheiras plantadoras de maconha e esta Castanha não está brincando quanto a isso!)... O LockJaw (de Penn) é (por sua vez) detalhadamente composto a um infinitésimo de uma caricatura. Com trejeitos afetados (levemente afeminados) sobrepostos a atitudes machistas estereotipadas. Por exemplo, ele anda com as pernas arqueadas e de maneira ritmada lembrando um cowboy ao mesmo tempo em que parece ter recebido um doloroso experimento de ordenha da próstata (algo que Perfídia realizou nele aparentemente) (**).

(**) Ele chega mesmo a sugerir no final aos Supremacistas que Perfídia o "Estuprou em Reverso" roubando-lhe o seu sêmen (!). Isso parece remeter diretamente ao General Ripper de Dr. Strangelove de Kubrick e os seus infames "preciosos fluidos corporais". Aliás vários comentaristas tem feito conexão com a obra de Kubrick (muito na veia da sua paranoia absurda), inclusive o próprio Spielberg (grande fã e amigo de Kubrick). 

Em conclusão, One Battle After Another de Paul Thomas Anderson é um triunfo complexo e desafiador, um filme que se recusa a ser simples ou consolador. O seu veredicto sobre os temas da resistência e do extremismo é ambivalente e, por isso, poderosamente honesto: a luta é um ciclo inescapável (de fato "uma batalha após a outra"), frequentemente corrompida por falhas humanas e traições, mas a sua chama – especialmente quando transferida para uma nova geração mais lúcida e menos dogmática – permanece como única resposta à desumanização. Os personagens principais, Bob e Willa, encontram a sua redenção não numa vitória política clara, mas na reconstrução do seu vínculo familiar em bases mais saudáveis e honestas, sugerindo que a resistência mais profunda pode começar no âmbito pessoal. Para a obra de Anderson, este filme é um marco de maturidade e coragem, provando que o seu génio para a caracterização pode florescer numa escala blockbuster sem ceder à simplificação, criando aquela que é simultaneamente a sua obra mais acessível e uma das suas mais ricas tematicamente. Para além da sua filmografia, One Battle After Another impacta o cinema contemporâneo ao reivindicar um espaço meio esquecido: o do grande filme de ideias com o coração de um thriller implacável e a inteligência de um olhar crítico implacável. É uma obra que, como os seus protagonistas, acredita que a batalha, por mais cansativa que seja, vale sempre a pena ser travada, oferecendo-nos no processo um farol de excelência cinematográfica num panorama cultural frequentemente amnésico.

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sábado, 3 de janeiro de 2026

THE PITT S1 (2025)

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EPISÓDIOS

S1.E01 ∙ 07:00 A.M. [***]
S1.E02 ∙ 08:00 A.M. [***]
S1.E03 ∙ 09:00 A.M. [***]
S1.E04 ∙ 10:00 A.M. [***] 
S1.E05 ∙ 11:00 A.M. [***] 
S1.E06 ∙ 12:00 P.M. [***] 
S1.E07 ∙ 01:00 P.M. [***] 
S1.E08 ∙ 02:00 P.M. [****] 
S1.E09 ∙ 03:00 P.M. [***1/2] 
S1.E10 ∙ 04:00 P.M. [****] 
S1.E11 ∙ 05:00 P.M. [***1/2] 
S1.E12 ∙ 06:00 P.M. [****]  
S1.E13 ∙ 07:00 P.M. [****]
S1.E14 ∙ 08:00 P.M. [****]
S1.E15 ∙ 09:00 P.M. [****]

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REVIEW

A primeira temporada de The Pitt (da HBO) posiciona-se como um dos empreendimentos mais ambiciosos e aclamados da carreira de seus longevos realizadores principais: R. Scott Gemmill, John Wells e Noah Wyle. Essa radiante reunião do trio que outrora colaborou na série de pronto socorro ER resulta não em uma mera nostalgia, mas em uma atualização radical do gênero médico para os tempos atuais. Para o maiúsculo produtor Wells (*), diretor do episódio piloto aqui, é a consolidação de sua expertise na condução de dramas realistas com grande elenco, enquanto Wyle, atuando e escrevendo um episódio, transcende a persona do intérprete do novato John Carter em ER para entregar uma performance definitiva como um médico tarimbado porém assombrado pelo trauma pandêmico (e claramente sofrendo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático ou TEPT). A opção estrutural — cada episódio cobrindo uma hora real de um plantão de 15 horas — não é um mero artifício, mas a espinha dorsal de uma imersão sem precedentes. Lançada em 2025, a série conecta-se visceralmente com um público global ainda processando as cicatrizes da COVID-19, transformando o fictício Pittsburgh Trauma Medical Center (o titular THE PITT) em um microcosmo da sociedade. Ela captura a exaustão sistêmica, a resiliência profissional e os dilemas éticos de uma era marcada pela precarização da saúde pública (o que inclui a desvalorização dos seus profissionais!) , oferecendo não apenas entretenimento, mas uma reflexão urgente e coletiva. A aclamação foi imediata e retumbante: a temporada conquistou cinco Prêmios Emmy, incluindo o de Melhor Série Dramática, e foi listada pelo American Film Institute (AFI) como um dos dez melhores programas de televisão do ano, consolidando seu inequívoco status popular e crítico desde o seu lançamento.

(*) De: China Beach , ER , The West Wing , The Third Watch , SouthLand , Animal Kingdom , Shameless... A narrativa da primeira temporada é um estudo de caracterização sob pressão máxima. Durante um único e aparentemente interminável plantão (que culmina transformando o PS em um hospital de campanha para tratar uma enxurrada de vítimas de um tiroteio em massa em um festival de música próximo), acompanhamos o experiente (médico chefe do dia) Dr. Michael "Robby" Robinavitch (Noah Wyle) no aniversário da morte de seu mentor na pandemia, um trauma que ecoa em cada decisão. Ao seu redor, uma nova geração de médicos navega os seus próprios abismos: a arrogante interna Dr. Trinity Santos (Isa Briones); a meticulosa Dr. Samira Mohan (Supriya Ganesh); a resiliente mãe solteira Dr. Cassie McKay (Fiona Dourif); a brilhante neurodivergente (e uma particular favorita desta Castanha) Dr. Melissa "Mel" King (Taylor Dearden) etc. A estrutura em tempo real é o motor narrativo perfeito, forçando escolhas éticas irrevogáveis e expondo o caráter de cada um. Casos como o de um idoso com Alzheimer cuja família revoga sua ordem de não reanimar, ou o de um adolescente vítima de overdose de fentanil, servem como veículos para explorar dignidade, vício, luto e falha sistêmica (ambos os casos direto das manchetes de jornais, assim como outros)... A série é muito elogiada por sua autenticidade médica — "o retrato mais realista de um departamento de emergência urbano movimentado", dizem alguns — mas também é criticada por uma abordagem por vezes didática de questões sociais, que alguns espectadores consideram "preguiçosa" ou "panfletária". Este é o conflito central da temporada: a luta humanista contra um sistema à beira do colapso, onde cada vitória é pessoal e cada derrota, coletiva. A profundidade dos conflitos individuais, revelando desde a insegurança de Mohan até o equilíbrio precário de McKay, entrelaça-se com a crise institucional, criando um mosaico complexo onde o pessoal e o profissional são indissociáveis.

(A série atinge força total no episódio 8 e daí não olha mais para trás até o fim da temporada!)

(Ao final do episódio 13, Robby é forçado a declarar morta a namorada de Jake, seu enteado de fato, quebrando finalmente sob o peso acumulado de traumas não processados. Ainda assim, após ser chamado a responsabilidade em meio ao caos por um dos estagiários de medicina novatos (Dennis Whitaker vivido por Gerran Howell) ele realiza o esforço sobre-humano de voltar ao plantão. É ver para crer a atuação de Wiley neste ponto.)

(Quando tudo é dito ao fim da temporada é inescapável a sensação de que a grande arma secreta da atração é o médico chefe do turno noturno do PS Dr. Jack Abbot (Shawn Hatosy), que se torna um favorito instantâneo do público apesar do tempo limitado em tela. Sem oferecer spoilers demais existem duas cenas contracapas com Robby e Abbot sozinhos no telhado do hospital que ressoam muito além do último episódio.)
(É muito sofisticado o tratamento dado a sub trama do vício em remédios do residente sênior Frank Langdon (Parick Ball). Introduzir Santos como alguém tão arrogante e ambiciosa e mesmo literalmente sem noção e fazer justo ela investigar tal questão sobre Langdon deixa a audiência em dúvida até o último momento sobre a veracidade do caso. Transformando o que seria uma trama convencional do gênero com execução tipicamente previsível em algo novo e fresco.)

A contribuição de Johanna Coelho como diretora de fotografia estabelece uma linguagem visual revolucionária para o gênero médico. Colaborando estreitamente com a designer de produção Nina Ruscio, Coelho iluminou um set completamente funcional de trezentos e sessenta graus que permitia aos diretores Amanda Marsalis, John Wells, Damian Marcano, Silver Tree, John Cameron e Quyen Tran filmarem em qualquer direção sem interrupções. A decisão de utilizar principalmente câmeras portáteis ARRI Alexa Mini LF cria uma estética documental imersiva onde a câmera funciona como um membro fantasma da equipe, seguindo personagens através de longos planos-sequência coreografados com precisão milimétrica. Os atores passaram duas semanas em campo de treinamento médico aprendendo suturas, intubação, ultrassonografia e ressuscitação cardiopulmonar, permitindo que executassem procedimentos realistas. Médicos e enfermeiros reais foram contratados como figurantes para adicionar autenticidade, e os operadores de câmera literalmente se vestiam com uniformes médicos caso fossem capturados acidentalmente nas tomadas. A profundidade de campo rasa aprisiona visualmente os espectadores junto aos personagens, vendo apenas o que eles veem, sentindo o espaço claustrofóbico de corredores superlotados e salas de trauma. Durante o tiroteio em massa dos episódios finais, Marsalis adiciona uma terceira câmera para capturar reações em meio ao mar de pacientes críticos, abandonando os planos-sequência fluidos em favor de montagem mais fragmentada que reflete o colapso da ordem. As atuações transcendem o mérito técnico: Wyle entrega camadas de dor mal disfarçada e explosões controladas, Katherine LaNasa transforma Dana Evans (a enfermeira chefe do turno diurno) em âncora emocional indispensável, enquanto o elenco jovem de Briones, Dearden, Howell etc. traz vulnerabilidade fresca ao cansaço institucional. A trilha sonora permanece discreta, permitindo que sons ambientes do pronto-socorro criem tensão orgânica.

Em conclusão, a primeira temporada de The Pitt, criação de Gemmill junto ao Know-How e a experiência de Wells e Wyle, oferece um veredicto implacável sobre a medicina americana contemporânea: o sistema está fundamentalmente quebrado, e os heróis que o sustentam estão se quebrando junto com ele. Robby termina o turno planejando uma licença porque reconhece (finalmente!) que não pode continuar neste ritmo sem destruir a si mesmo, Dana esvazia sua mesa incerta se retornará (tendo sido agredida por um paciente em meio ao caos!) e Langdon enfrenta um futuro profissional nebuloso após ser pego no vício. Mas existe resiliência tenaz nestes profissionais: Santos e Whitaker formam uma amizade improvável como colegas de apartamento, Mel mantém sua rotina de sextas-feiras com a irmã apesar do trauma do dia e a equipe inteira se recusa a abandonar pacientes mesmo quando todo recurso está esgotado. A série argumenta que dedicação individual jamais compensará negligência sistêmica, que o heroísmo médico não deveria ser necessário em uma sociedade funcional, e que ignorar a saúde mental de curadores apenas garante catástrofe coletiva. Wells, Gemmill e Wyle não romantizam o sacrifício; eles o expõem como sintoma de falha política e moral. O impacto foi imenso: a temporada conquistou treze indicações ao Emmy incluindo Melhor Série Dramática, vencendo cinco estatuetas e também foi listada entre os dez melhores programas de televisão de 2025 pelo American Film Institute (AFI). Profissionais de saúde organizaram sessões de exibição em hospitais por todo o país, validando sua precisão dolorosa. A renovação para segunda e terceira temporadas confirmou que esta não é anomalia, mas nova voz permanente exigindo que a televisão e a América confrontem verdades desconfortáveis sobre como tratamos aqueles que nos tratam. The Pitt redefiniu o drama médico contemporâneo com um testemunho urgente de uma crise nacional.

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ADOLESCENCE S1 (2025)

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EPISÓDIOS

01 - EP#1.1 [***1/2]
02 - EP#1.2 [***1/2]
03 - EP#1.3 [****]
04 - EP#1.4 [***1/2]

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REVIEW

Adolescence, a minissérie britânica de 2025 disponível na Netflix, estabelece-se não apenas como um triunfo artístico, mas como um marco cultural urgente. A força criativa por trás da produção é um triunvirato de peso: Stephen Graham, ator veterano que aqui assume o quádruplo papel de criador, roteirista, produtor executivo e protagonista; Jack Thorne, renomado escritor premiado com o BAFTA e o Emmy; e Philip Barantini, diretor que reafirma sua maestria na arte do plano-sequência após o aclamado Boiling Point (2021). Para Graham e Thorne, a série representa a culminação de carreiras dedicadas a retratos sociais densos e humanizados, agora voltadas para uma investigação brutal da masculinidade tóxica na era digital. A novidade radical está na fusão dessa inquietação temática com uma ousadia formal extrema. Para Barantini, a série consolida uma assinatura autoral – o filme-contínuo – e a eleva à escala e complexidade narrativa de uma minissérie, um feito técnico e dramático (talvez!) inédito na televisão. Adolescence se insere no cenário televisivo de 2025 como um antídoto potente à banalização do chamado true crime e dos thrillers procedurais. Enquanto a indústria ainda busca reviravoltas surpreendentes, a série desarma o público no primeiro episódio, trocando o "quem" pelo "porquê". Para sua audiência, oferece um espelho desconfortável sobre a criação de filhos num mundo hiperconectado; para a TV, é uma lição de como a forma pode ser fundida ao conteúdo para gerar empatia visceral; e, para o mundo, funciona como um diagnóstico angustiante e necessário dos efeitos colaterais da vida online na psique adolescente, ecoando casos reais de violência juvenil que inspiraram seus criadores.

A história central é aparentemente simples: Jamie Miller (Owen Cooper), um garoto de 13 anos de uma família comum do norte da Inglaterra, é preso sob a acusação de assassinar uma colega de escola, Katie Leonard. O grande trunfo narrativo, porém, é a abolição do suspense investigativo. O primeiro episódio termina com a exibição do vídeo de CCTV que incrimina Jamie de forma incontestável. A partir daí, Adolescence transforma-se numa profunda investigação psicológica, um mergulho nas raízes de um ato de violência misógina. A estrutura da minissérie, composta por quatro episódios que saltam no tempo, é um estudo de perspectivas e consequências. O episódio inicial foca no choque e na desorientação da família Miller durante a prisão, com o pai Eddie (Stephen Graham) tentando, em vão, proteger o filho de uma verdade que ele mesmo não consegue processar. O segundo episódio segue o detetive Luke Bascombe (Ashley Walters) pela ecologia social tóxica da escola, um labirinto de bullying, códigos de emojis hostis e a descoberta da influência da "manosfera" e de figuras como Andrew Tate sobre Jamie e seus amigos. O conflito central de Jamie, revelado com crueza no terceiro e mais aclamado episódio, é sua profunda insegurança, sua solidão e sua raiva, fermentadas em fóruns online que o levaram a ver a rejeição de Katie como uma humilhação que demandava retribuição violenta. Em uma sessão de avaliação psicológica com Briony Ariston (Erin Doherty), ele alterna entre vulnerabilidade infantil e arrogância misógina, confessando que pensou que Katie estaria "fraca" e mais receptiva após sofrer um vazamento de nudes. O episódio final, passado um ano depois, abandona o tribunal para se fixar no luto silencioso e na culpa dos Miller. O conflito de Eddie, agora, é interno: uma luta contra o autoquestionamento devastador de um pai que percebe não ter conhecido o filho que criou e que se pergunta, no ápice de sua dor, se o amou o suficiente ou se o amou de forma errada. A série identifica seus temas principais de forma cristalina: a radicação online do ódio às mulheres, o fracasso coletivo das instituições (família, escola) em interceptar sinais de angústia, e o abismo de incompreensão entre gerações criadas em realidades sociais radicalmente diferentes.

A realização audiovisual de Adolescence é o pilar que sustenta toda a sua potência dramática e conceitual. A escolha radical de filmar cada episódio em um único plano-sequência contínuo, sem cortes, é muito mais que um mero exercício de virtuosismo técnico. É uma decisão estética que redefine por completo o pacto emocional com o espectador. A câmera, operada com precisão cirúrgica pelo diretor de fotografia Matthew Lewis, torna-se uma testemunha incansável e claustrofóbica. Ela nos nega o alívio de um corte, forçando-nos a vivenciar em tempo real a agonia da família na delegacia, a tensão insuportável do interrogatório entre Jamie e Briony, e o peso esmagador do silêncio na casa vazia dos Miller. Essa técnica, que exigiu um trabalho coreográfico monumental de atores e equipe, com ensaios exaustivos e tomadas que duram a hora inteira do episódio, gera uma imersão e um realismo quase documental. As atuações, por sua vez, precisaram ser calibradas com a precisão de uma performance teatral ao vivo. Owen Cooper, em sua estreia absoluta, oferece uma atuação desarmadora em sua autenticidade, transitando entre a fragilidade de uma criança assustada e a pose dura de um adolescente radicalizado. Stephen Graham, como Eddie, conduz uma masterclass em dor contida, onde cada micro expressão e pausa carregada diz mais que qualquer diálogo. Erin Doherty, como a psicóloga, transmite com nuances mínimas o turbilhão interno entre a postura profissional e o horror humano diante do que ouve. A trilha sonora discreta e o design de som realista amplificam a sensação de estarmos invasivamente presentes naquelas salas. A linguagem visual, portanto, não ornamenta a história: ela é a própria experiência da história, replicando a asfixia, a inescapabilidade e a fluência caótica de um trauma que não pode ser editado ou suavizado.

Em conclusão, a minissérie Adolescence, de Graham, Thorne e Barantini, é um feito televisivo de rara integridade e impacto. O veredicto final que ela oferece sobre seus temas e personagens é sombrio, complexo e deliberadamente inconclusivo. A série não apresenta respostas fáceis nem redime seus personagens; em vez disso, oferece um retrato devastador de como uma constelação de falhas – pessoais, familiares, educacionais e, sobretudo, sociotecnológicas – pode convergir para a tragédia. Jamie Miller é tanto um perpetrador quanto uma vítima de um ecossistema digital venenoso, e seus pais, Eddie e Manda, são retratados menos como culpados e mais como representantes de uma geração perdida, incapaz de decifrar os códigos do novo mundo em que seus filhos crescem. O impacto da série transcende em muito o entretenimento. Para a audiência, funciona como um catalisador para reflexões dolorosas sobre paternidade, responsabilidade e o ambiente digital que permeia a vida jovem. Para a televisão, Adolescence eleva o padrão do drama criminal, provando que a profundidade psicológica e a ousadia formal podem gerar um engajamento massivo – tornou-se a primeira produção de streaming a liderar o ranking de audiência semanal no Reino Unido e foi premiada com múltiplos Emmys, incluindo Melhor Minissérie. Para a cultura em geral, a série cumpre uma função crucial de diagnóstico social, colocando um holofote incômodo e necessário sobre a maneira como ideologias de ódio encontram terreno fértil no isolamento e na insegurança da adolescência contemporânea. É, em suma, uma obra-prima que fere fundo para transformar, um marco do realismo televisivo do século XXI cuja relevância e poder de perturbação devem ecoar ainda por muito tempo.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

KAI HANSEN (1984-2000)

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(1984) Helloween [***]
(1985) Helloween Walls Of Jericho [****]
(1987) Helloween Keeper Of The Seven Keys - I [****]
(1988) Helloween Keeper Of The Seven Keys - II [****]
(1989) Helloween Live In The U.K [****]
(1990) Gamma Ray Heading For Tomorrow [***1/2]
(1991) Gamma Ray Sigh No More [***]
(1993) Gamma Ray Insanity & Genius [***]
(1995) Gamma Ray Land Of The Free [****]
(1997) Gamma Ray Somewhere Out In Space [****]
(1999) Gamma Ray Powerplant [***]
(2000) Gamma Ray Blast From The Past (Compilation) [***]

- Kai Hansen: guitars , vocals [01-02] , vocals [09-12].
- Michael Kiske: vocals [03-05].
- Michael Weikath: guitars [01-05].
- Markus Grosskopf: bass [01-05].
- Ingo Schwichtenberg: drums [01-05].
- Ralf Scheepers: vocals [06-08].
- Uwe Wessel: bass [06-07].
- Mathias Burchardt: drums [06].
- Dirk Schlächter: guitars [07-09] , bass [10-12].
- Uli Kusch: drums [07].
- Jan Rubach: bass [08-09].
- Thomas Nack: drums [08-09].
- Henjo Richter: guitars , keyboards [10-12].
- Daniel Zimmermann: drums [10-12].

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THIN LIZZY (1974-1979)

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1974 Night Life [**1/2]
1975 Fighting [***1/2]
1976 Jailbreak [****]
1976 Johnny The Fox [***1/2]
1977 Bad Reputation [****]
1978 Live & Dangerous (LIVE) [****]
1979 Black Rose  [****]

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PESSOAL:

- Brian Downey: bateria e percussão.
- Scott Gorham: guitarra.
- Phil Lynott: baixo, vocais, guitarras eventuais.
- Brian Robertson: guitarra, vocais de apoio [01-06].
- Gary Moore: guitarra, vocais de apoio [07].

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Thin Lizzy (1974-1979)

O período de 1974 a 1979 representa a era de ouro incontestável do Thin Lizzy. É a história de uma banda que se transformou de contendente promissora em lenda do rock, definindo um som e uma atitude que ecoariam por décadas. Esta era começou com a estabilização da formação clássica — o poeta e baixista Phil Lynott, o baterista Brian Downey, e o recém-chegado ataque de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson. Ao longo desses seis anos, eles navegaram turbulências internas, conflitos pessoais e um cenário musical dominado pela ascensão do punk. Sua resposta foi forjar uma identidade única: uma mistura de potência hard rock, narrativa urbana e um coração distintamente irlandês. Seu uso pioneiro de solos de guitarra harmonizados (pós WishBone Ash) se tornou um modelo para bandas vindouras de metal e hard rock.

A jornada teve início em 1974, um ano de transição e fundação. Com a nova formação clássica, a banda buscava solidificar seu som, mas o álbum *Night Life* adentrou um território mais suave, em descompasso com sua energia ao vivo. O ano foi mais sobre plantar sementes, incluindo o solo do convidado Gary Moore na célebre canção "Still in Love with You", do que colher frutos. Em 1975, determinados, eles entraram com um propósito renovado. O álbum *Fighting* foi uma reação direta, mostrando uma banda endurecendo seu ataque com uma crueza e confiança recém-descobertas. Foi o combate necessário antes da guerra pelo mundo do rock.

Então veio 1976, o ano da explosão. *Jailbreak* foi uma obra-prima de concisão e carisma que os catapultou ao estrelato internacional, impulsionado pelo hino atemporal "The Boys Are Back in Town". No entanto, o triunfo foi imediatamente seguido pela turbulência da hospitalização de Lynott, que mesmo assim e ainda em 76 rendeu o ágil e sombrio *Johnny the Fox*. Na esteira de um ano fraturado, 1977 foi sobre uma resiliência feroz. Com um dos guitarristas lesionado, a banda gravou *Bad Reputation* como um power trio, forjando seu álbum de estúdio mais pesado e desafiador. Em 1978, era hora de capturar a mágica do palco. O álbum *Live and Dangerous* imortalizou a energia explosiva da formação clássica com Gorham e Robertson, consagrando-se como um dos maiores discos ao vivo da história do rock. O ápice artístico final veio em 1979 com *Black Rose: A Rock Legend*. O retorno do virtuose Gary Moore para a gravação em estúdio empurrou a banda a novas alturas de brilho técnico e ambição, culminando na epopeia celta da faixa-título. Dos passos hesitantes de 1974 ao cume magistral de 1979, esta é a trajetória do Thin Lizzy em seu momento mais vital e criativo.

1974 Night Life [**1/2]

Surgindo no final de 1974, *Night Life* captura o Thin Lizzy em um momento de transição e exploração. O mundo do rock estava em fluxo, com a era grandiosa dos gigantes do início dos anos 70 dando lugar a uma abordagem mais direta e crua. Para o Thin Lizzy, este álbum introduziu a formação fundamental de guitarras gêmeas de Scott Gorham e Brian Robertson, mas a música em si tomou um desvio surpreendente. Produzido com um brilho suave, quase soul, por Ron Nevison, ele contrasta fortemente com a força crua e hard rock que a banda exibia ao vivo. O disco parece um esforço consciente para mostrar versatilidade e habilidade na composição, por vezes em detrimento do fogo inato da banda. É um álbum de humores e melodias, apresentando baladas e números blues que destacam o desenvolvimento de Phil Lynott como um compositor de nuances. As faixas-chave contam essa história. Still in Love with You é a peça central inegável do álbum, uma balada blues de queima lenta elevada por um solo de guitarra emotivo e incisivo do convidado Gary Moore. Ela revelou a capacidade de Lynott para a alma profunda e o anseio romântico. Por outro lado, She Knows abre o álbum com um ritmo gentilmente propulsivo, mostrando um lado mais contido e melódico que era novo para a banda. Finalmente, It's Only Money fornece um golpe necessário de rock and roll mais duro e primal, um lembrete da energia central da banda lutando para brilhar através da produção polida. *Night Life* é um disco competente e muitas vezes bonito, mas parece uma pedra fundamental, um experimento que apontava para o som mais pesado e confiante que eles logo dominariam.

1975 Fighting [***1/2]

Se *Night Life* foi um passo tentativo, *Fighting*, de 1975, foi um salto decisivo para frente. Este álbum marca o momento em que o Thin Lizzy encontrou sua verdadeira voz e começou a lutar com todo o seu peso. O contexto era uma cena rock faminta por hinos, e com Lynott agora no comando da produção, a banda conscientemente se livrou do verniz mais suave do ano anterior para um som mais cru e assertivo. O título era uma declaração de intenção: este era o som de uma banda lutando por reconhecimento, afiando suas garras e estabelecendo a base essencial para os triunfos que viriam. Em comparação com as divagações soul de *Night Life*, *Fighting* é tudo sobre foco e força. O ataque de guitarras gêmeas de Gorham e Robertson começa a se unir no som harmonizado característico que se tornaria sua marca registrada, não apenas como decoração, mas como uma força motriz e melódica. O álbum arde com uma confiança recém-descoberta, canalizando a energia de seus shows ferozes para o estúdio. Três faixas definem essa mudança pivotal. Wild One é um dos primeiros grandes hinos de Lynott dirigidos a personagens, uma ode amarga e doce a um espírito inquieto, envolta em uma melodia que é tanto dura quanto terna. Suicide é um juggernaut hard rock, impulsionado pelos tambores trovejantes de Brian Downey e um riff implacável e urgente que anunciou a nova direção mais dura da banda. Talvez o mais revelador seja o cover de Rosalie, de Bob Seger, que eles reinventam completamente e tornam seu, injetando nele uma energia arrogante e celebratória que se tornaria um clássico ao vivo. *Fighting* é o som de uma banda crescendo em seu poder, um álbum crucial e emocionante onde todas as peças finalmente começaram a se encaixar.

1976 Jailbreak [****]

*Jailbreak* é o marco, o momento em que tudo cristalizou. Lançado em março de 1976, ele impulsionou o Thin Lizzy de ato de rock respeitado para estrelas internacionais. Em uma paisagem do rock cheia de fantasia e excesso, as canções de Lynott sobre rebeldes urbanos, fora-da-lei desesperados e cowboys românticos pareciam vividamente reais. O álbum é uma obra-prima de equilíbrio — duro, mas melódico, hínico, mas pessoal, capturando perfeitamente a essência da alquimia das guitarras gêmeas e da narrativa poética de Lynott. Seguindo a base de *Fighting*, *Jailbreak* refinou esse poder em uma coleção impecável de músicas, cada uma um single em potencial, mas parte de um todo coeso. Foi um sucesso criativo e comercial, quebrando o Top 20 em ambos os lados do Atlântico e finalmente dando a eles um hit global. O trio de músicas em seu núcleo é intocável. The Boys Are Back in Town é mais do que um hit; é um marco cultural, um hino arrogante e cheio de histórias, com um riff imortal e uma guitarra principal harmonizada que definiu uma era. Jailbreak abre o álbum com drama cinematográfico, uma narrativa tensa conduzida por uma linha de guitarra ameaçadora e preenchimentos explosivos de bateria de Downey. Cowboy Song mostra seu alcance dinâmico, passando de uma melodia nostálgica e desejosa para uma seção intermediária de hard rock galopante. *Jailbreak* não é apenas um álbum de sucesso; é uma declaração perfeita de identidade, o ápice da fórmula que a banda vinha construindo, e continua sendo o ponto de entrada definitivo para sua herança.

1976 Johnny The Fox [***1/2]

No calor do sucesso de *Jailbreak*, o Thin Lizzy lançou *Johnny the Fox* apenas sete meses depois, em outubro de 1976. Nascido do caos — escrito por Lynott enquanto se recuperava de hepatite — o álbum é um trabalho mais denso, complexo e, por vezes, mais sombrio. Enquanto o punk começava a ganhar força, desafiando as estrelas do rock estabelecidas, o Thin Lizzy respondeu não simplificando, mas aprofundando seu rock narrativo e rico em camadas. Comparado ao foco direto de *Jailbreak*, *Johnny the Fox* é mais variado e experimental, um álbum que prova que a banda não era um cavalo de um só truque. Apesar das circunstâncias difíceis de sua criação, o álbum rendeu hits e músicas de qualidade. A abertura Don't Believe a Word é uma aula de economia rock, um riff de blues cru e uma letra cínica que se tornou um single de sucesso. Rocky mostra o lado mais pesado e quase épico da banda, com harmonias de guitarra complexas e uma narrativa de luta. No extremo oposto do espectro, Old Flame é uma das baladas mais sinceras e bonitas de Lynott, uma reflexão suave sobre o amor perdido que demonstra sua amplitude emocional. *Johnny the Fox* pode carecer da consistência inabalável de seu predecessor imediato, mas compensa com ambição e profundidade, mostrando uma banda confiante o suficiente para explorar seus limites mesmo sob pressão extrema.

1977 Bad Reputation [****]

Em 1977, com as tensões internas crescendo e o guitarrista Brian Robertson temporariamente fora devido a uma lesão, o Thin Lizzy poderia ter facilmente desmoronado. Em vez disso, eles produziram um dos discos mais ferozes e focados de sua carreira: *Bad Reputation*. Gravado essencialmente como um power trio, o álbum possui uma crueza e uma urgência que refletem sua gênese turbulenta. Em um ano onde o punk e a nova onda desafiavam o antigo regime do rock, o Thin Lizzy respondeu com um disco que era pura atitude e potência. A faixa-título, Bad Reputation, é uma faixa monstro de hard rock, uma declaração desafiante construída sobre um riff impiedoso e a entrega vocal de Lynott no seu mais confiante. Dancing in the Moonlight, por outro lado, mostrou seu gênio para a música pop-rock inteligente, com um riff de baixo inesquecível e uma sensibilidade quase new wave que a tornou um clássico atemporal. O álbum também explora temas mais sombrios, como em Opium Trail, que reflete as batalhas pessoais crescentes de Lynott. *Bad Reputation* é um álbum de resiliência feroz. Ele prova que o núcleo criativo da banda — Lynott, Downey e Gorham — era inquebrável, capaz de transformar adversidade em arte poderosa e reafirmar seu lugar como uma das maiores bandas de rock da era.

1978 Live & Dangerous [****]

Muitas bandas lançam álbuns ao vivo como preenchimento entre discos de estúdio, mas *Live and Dangerous* do Thin Lizzy, lançado em 1978, é uma obra-prima que redefine o próprio gênero. Capturando a eletricidade de suas performances no palco entre 1976 e 1977, o álbum não apenas documenta a banda no auge de seus poderes, mas também aprimora miticamente seu legado. Em um momento em que o rock estava se tornando cada vez mais produzido em estúdio, *Live and Dangerous* foi um lembrete visceral do poder bruto e da conexão com o público. A versão de Jailbreak aqui é mais explosiva e urgente do que a original em estúdio. Cowboy Song se expande em uma jam épica, destacando a improvisação magistral e a química entre os guitarristas. A performance de Still in Love with You se torna uma balada monumental, com o solo de guitarra ganhando uma intensidade emocional avassaladora. É crucial notar que o som característico de guitarras gêmeas neste álbum é inteiramente de **Scott Gorham e Brian Robertson**, a formação estável da era de ouro. *Live and Dangerous* é mais do que um grande álbum ao vivo; é uma cápsula do tempo que congelou a essência do Thin Lizzy como uma força da natureza no palco, solidificando sua reputação como uma das maiores bandas ao vivo de todos os tempos.

1979 Black Rose [****]

*Black Rose: A Rock Legend*, de 1979, representa o pináculo artístico do Thin Lizzy. Com o retorno do guitarrista Gary Moore (no lugar de Robertson), a banda alcançou um novo nível de virtuosismo e ambição temática. Este álbum é a fusão final de todas as facetas do Thin Lizzy: o hard rock potente, a sensibilidade pop, a narrativa lírica e as raízes celtas, tudo embrulhado em uma produção impecável. O single Waiting for an Alibi é um exemplo perfeito de seu rock direcionado às rádios, com um riff cativante e uma letra cheia de personagens urbanos. Do You Believe in Love mergulha em um território mais pesado e complexo, com mudanças de tempo dinâmicas e harmonias de guitarra intrincadas. No entanto, a coroa do álbum é a faixa-título, Róisín Dubh (Black Rose). Esta epopeia de sete minutos é uma obra-prima ambiciosa, uma jornada musical que tece tradicionais irlandesas, como "The Mason's Apron" e "Danny Boy", em uma tapeçaria de hard rock poderosa. É a declaração definitiva de identidade de Lynott, celebrando sua herança irlandesa de uma forma inigualável no rock. *Black Rose* é o trabalho de estúdio mais coeso e realizado da banda, um álbum que prometia um futuro ainda mais brilhante e, de certa forma, serviu como um ponto final perfeito para sua era de ouro.

Conclusão

O legado do Thin Lizzy, forjado no intenso período entre 1974 e 1979, é duradouro. Eles transcenderam a classificação de simples banda de hard rock para se tornarem contadores de histórias musicais, cujo som — definido pela poesia de rua de Phil Lynott e pelo ataque pioneiro das guitarras gêmeas — influenciou gerações de artistas, do heavy metal ao rock alternativo. Mais do que uma sequência de álbuns, essa foi uma jornada de transformação, resiliência e pura magia no palco, que garantiu seu lugar eterno no panteão do rock.

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WISHBONE ASH (1970-1973)

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ÁLBUNS

1970 - Wishbone Ash [★★★½]
1971 - Pilgrimage [★★★½]
1972 - Argus [★★★★]
1973 - Wishbone Four [★★½]
1973 - Live Dates [★★★★]

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PESSOAL

Andy Powell: guitarras solo, rítmicas e acústicas, vocais. 
Ted Turner: guitarras solo, slides, rítmicas e acústicas, vocais. 
Martin Turner: baixo, vocais. 
Steve Upton: bateria, percussão.

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INTRODUÇÃO

Entre 1970 e 1973, o Wishbone Ash forjou sua lenda em um dos períodos mais férteis e transformadores do rock. No alvorecer da década, com o fim de ícones como o Cream, o cenário musical ansiava por novas vozes que pudessem fundir o poder do blues rock emergente com a ambição do rock progressivo que ganhava forma. Foi nesse espaço que o quarteto formado por Martin Turner, Steve Upton, Andy Powell e Ted Turner surgiu, trazendo consigo uma arma secreta que redefiniria a linguagem de duas guitarras no rock: o ataque duplo e harmonizado, uma ideia com ecos dos Yardbirds, mas elevada a uma complexidade melódica e contrapontística então inédita. Apoiados por um endosso crucial de Ritchie Blackmore do Deep Purple, que os recomendou ao produtor Derek Lawrence e ajudou a fechar o contrato com a Decca/MCA, eles lançaram seu álbum homônimo de estreia no final de 1970, um trabalho cheio de energia crua e promessa.

Em 1971, a banda embarcou em uma verdadeira peregrinação artística. Enquanto o rock se fragmentava entre o hard rock hegemônico e as complexidades do prog em expansão, o Wishbone Ash explorou trilhas folk, acústicas e mesmo jazzísticas em Pilgrimage, mostrando uma maturidade composicional crescente e a consolidação de sua técnica instrumental. Após turnês extenuantes, esse período de experimentação e refinamento preparou o terreno para o salto quântico de 1972. Naquele ano, eles não apenas lançaram um álbum, mas ergueram um verdadeiro monumento: Argus. Uma fusão perfeita de temas mitológicos, hard rock encorpado e harmonias de guitarra sublimes, a obra foi coroada como "Álbum do Ano" pelos leitores das revistas Sounds e Melody Maker, um triunfo imenso, superando concorrentes como Machine Head do Deep Purple e Ziggy Stardust de David Bowie (entre muitos e muitos outros rivais de peso). Este feito cimentou seu status como influência central para a onda do heavy metal que se avizinhava, inspirando diretamente futuras gerações de músicos de bandas como Priest, Lizzy, Maiden etc.

O ano de 1973, no entanto, trouxe ventos de mudança. Enquanto o Glam e o Prog dominavam, a banda optou por um caminho mais introspectivo e orientado para canções em Wishbone Four, seu primeiro disco autoproduzido, que, apesar de seus méritos, soou como uma deliberada mudança de curso após a épica grandiosidade de Argus (o que desapontou a sua base de fãs). Contudo, o mesmo ano terminou com um triunfo inquestionável: a liberação do duplo Live Dates. Capturando a energia elétrica e a maestria técnica da formação clássica no palco, este álbum ao vivo serviu como um testemunho definitivo de seu poder performático e como um ponto de exclamação adequado para esta fase fundadora, pouco antes de mudanças na formação. Assim, em apenas quatro anos, o Wishbone Ash evoluiu de uma promessa ruidosa para arquitetos de uma obra-prima eterna, deixando um legado indelével na história do rock através da inovação sonora que colocou suas guitarras gêmeas em harmonia perfeita com a eternidade.

1970 - Wishbone Ash [***1/2]

Lançado em 4 de dezembro de 1970, o álbum de estreia do Wishbone Ash chegou em um momento em que o rock britânico buscava novos caminhos. O debut é um retrato de uma banda jovem e faminta, aproveitando a oportunidade dada por Blackmore e Lawrence... Musicalmente, é um caldeirão de influências: o blues rock shuffle de Blind Eye, a balada folk em 12/8 (outro shuffle) de Errors of My Way (que já contém as características harmonias de guitarras e de vocais da banda além de uma bela secção solo) (*) E as longas viagens instrumentais de Handy (essa ainda meio amorfa e claramente construída a partir de colagem de diferentes seções revividas de ensaios e de shows, apesar de bons momentos) e Phoenix (obra-prima do álbum e da banda, realmente muito bem composta em claro contraste a anterior) mostram um grupo disposto a explorar... As três faixas essenciais (entre outras)  são: Blind Eye que abre o disco com interessantes chamados e respostas com a bateria (instrumento excelente por toda a faixa) e estabelece o diálogo entre as guitarras ("O" ponto de partida para a banda) ; Errors of My Way, uma balada melancólica e de fluxo livre que demonstra a sensibilidade folk e composicional da banda, trazendo curiosamente à mente o som de algo como um Fairport Convention da vida (!) e Phoenix, a épica de dez minutos que se tornaria um pilar dos shows ao vivo (em versões cada vez maiores) , um campo de prova para os solos entrelaçados de Powell e Turner. O álbum soa como um promissor trabalho de estreia – cheio de ideias, talvez um pouco inconsistente, mas já irradiando a química única que definiria o som da banda (e talvez até ganhando uma meia estrela extra por conta disso).

(*) Além de ter uma estrutura global cíclica (ou quase), comum ao progressivo e que influenciaria compositores pesados posteriores: como o Steve Harris do Iron Maiden por exemplo... 

(Outras coisas do Wishbone Ash em geral que lembram o Maiden em geral: um arsenal interminável de ritmos shuffles e variantes, além de: seções solo de baixo, baixo como único instrumento em cena e mesmo servindo como elemento disparador para novas secções da música em questão.)

(Desde o primeiro álbum a banda teve uma atitude de jazz-com-guitarra-guitarra-baixo-bateria, tanto composicional quanto improvisacional. Algo que influenciou bandas posteriores do rock e até mesmo bandas pesadas como o OPETH.)

1971 - Pilgrimage [***1/2]

Pilgrimage, lançado em setembro de 1971, encontra o Wishbone Ash em um momento de reflexão e expansão. Enquanto o rock progressivo florescia, a banda decidiu não apenas se aprofundar no hard rock, mas também em paisagens mais acústicas e jazzísticas (com direito a quatro instrumentais que não desapontam dentre sete faixas). O álbum funciona como um diário de viagem sonoro, mostrando um grupo mais confiante em sua técnica após turnês intensas... As três faixas-chave (entre outras) são: The Pilgrim, uma jornada instrumental de oito minutos que é a espinha dorsal do disco e uma joia menos conhecida no cânone da banda, alternando seções mais contemplativas com segmentos de puro peso cristalino excepcionalmente bem produzido e executado (soando as vezes para os ouvidos desta Castanha como um Proto Rush) ; Jail Bait, um rock direto e cativante, composto rapidamente em um pub e que se tornou um favorito imediato e perene nos palcos (que a produção consegue encaixar surpreendentemente bem no álbum) e Vas Dis, uma vigorosa interpretação de um tema de jazz de Jack McDuff, mostrando a versatilidade e o senso de humor da banda (com todos tocando e cantando muito numa faixa que soa desconcertantemente  contemporânea)... A inclusão da faixa final ao vivo Where Were You Tomorrow adiciona um sabor cru e espontâneo (Jam Hard Rock total!)... Pilgrimage é um álbum de transição essencial, com visíveis melhoras nas composições (apesar de termos partes reaproveitadas novamente) e especialmente na execução dos seus integrantes, algo que pavimentou o caminho para a obra-prima que estava por vir.

(Notem o inusitado reggae no final de Valediction.)

1972 - Argus [****]

Argus, lançado em 28 de abril de 1972, é a obra-prima absoluta do Wishbone Ash e um dos álbuns mais importantes do rock dos anos de 1970. Em um ano repleto de clássicos lendários, ele se destacou ao ser votado “Álbum do Ano” pela revista Sounds, superando concorrentes como Machine Head e Ziggy Stardust. O álbum é uma fusão perfeita de conceito, melodia e poder: suas letras (em geral) evocam um mundo medieval e mitológico, enquanto a música une a força do hard rock à delicadeza do folk progressivo (o feel do álbum parece combinar: coragem serena, nostalgia, anseio, melancolia e beleza). A produção virtuosa e cristalina de Lawrence criou um som atemporal (sem exageros), que mais do que superou o teste do tempo... As joias imperdíveis (dentre todas) são: Time Was, misturando folk acústico com partes pesadas super polidas e harmonias/solos de guitarras para além dessa terra (somente essa faixa já vale a compra do álbum)  ;  Blowin’ Free, talvez o hino do álbum, com seu riff contagiante e letra inspirada em um romance de verão – com a música excepcionalmente se entrelaçando e potencializando tal prosa ; The King Will Come, uma abertura majestosa com riffs triunfantes e harmonias de guitarra que soam como um chamado às armas (introdução em convenção e a estética épica liricamente retratada remetem ao Maiden e ao Power Metal Europeu que viria)  E Throw Down the Sword, a favorita desta Castanha, um final epicamente melancólico que encerra uma não terminada jornada ultimamente com um monstruoso solo duplo de guitarra que faz até uma pedra se emocionar (notem a semelhança com Fade to Black do Metallica nos versos)... Argus é o legado sonoro do Wishbone Ash, um disco virtualmente perfeito, ao mesmo tempo frágil e etéreo, estridente e eufórico, que continua a inspirar gerações (54+ anos e contando).

(E o que dizer da belíssima Sometime World que eventualmente apresenta um insano baixo Rushiano sobreposto a harmonias vocais cativantes e inesquecíveis?)

(Leaf and Stream segue a rota folk com graça até o fim, com Martin Turner soando muito parecido com John Wetton.)

(Warrior é  a mais a frente do seu tempo em estrutura e peso. Notem a majestade e a atualidade da ponte por exemplo. Certas partes (notem o refrão principalmente) lembram a canção Revelations do Maiden.)

1973 - Wishbone Four [**1/2]

Wishbone Four, de maio de 1973, representou uma mudança de curso ousada e divisiva. Pela primeira vez, a banda assumiu as rédeas da produção, afastando-se do produtor Derek Lawrence (e isso é algo aparente negativamente). Em um momento em que muitas bandas de rock consolidavam seus estilos, o Wishbone Ash optou por explorar mais o folk acústico e canções mais curtas, diluindo um pouco o ataque duplo de guitarras que os consagrou (isso sem falar na menor inspiração composicional)... As três faixas mais representativas são: So Many Things to Say, uma abertura energética que mantém o espírito roqueiro anterior (lembra o The Who em partes) ; No Easy Road, o single que surpreendeu com sua seção de metais e backing vocals, mostrando uma clara tentativa de alcançar um som mais radiofônico (esse um destaque bastante negativo que desanima o ouvinte) E Everybody Needs a Friend, uma longa balada de quase nove minutos não muito focados que, apesar de bem intencionada, traz, por exemplo, falta do ímpeto improvisacional de épicas passadas... O álbum soa como uma tímida coletânea de razoáveis/boas canções em busca de uma identidade coesa, largamente ofuscado pela sombra gigantesca de Argus. É um trabalho razoavelmente digno, mas que marca um ponto de inflexão na então trajetória ascendente da banda.

(A segunda metade do álbum é muito sem sal, para o bem e para o mal.)

1973 - Live Dates [****]

Live Dates, lançado em novembro de 1973, é a consagração do Wishbone Ash como uma das grandes forças ao vivo de sua geração (até as músicas do WAIV melhoram no palco). Gravado em junho daquele ano em várias casas de espetáculo britânicas com o renomado estúdio móvel dos Rolling Stones, o álbum captura a banda no auge de seu poder no palco. É a antítese do marasmo de estúdio de Wishbone Four: um documento cru, energético e virtuosístico que celebra o melhor do seu repertório clássico. As três performances essenciais (entre outras) são: The King Will Come, que ganha uma dimensão ainda mais grandiosa e urgente ao vivo ; Phoenix, em versão épica de 17 minutos que é a peça central do disco, uma verdadeira odisseia de solos de guitarra entrelaçados e dinâmica implacável, superando até mesmo sua já poderosa versão de estúdio E Blowin’ Free, onde o hino de Argus explode em uma celebração eufórica, confirmando seu status como clássico instantâneo (sem exageros). Live Dates não é apenas um grande álbum ao vivo (comparável aos melhores do período) ; é um testemunho definitivo da química da formação original e um lembrete potente de por que o Wishbone Ash deixou uma marca tão profunda na história do rock.

CONCLUSÃO

A jornada do Wishbone Ash entre 1970 e 1973 é um dos arcos mais fascinantes e influentes do rock clássico. Em apenas quatro anos, a banda evoluiu de um promissor grupo de hard rock e blues para os arquitetos de uma obra-prima atemporal, Argus, passando por experimentações folk/jazz e culminando em um dos grandes discos ao vivo da era. Seu legado, no entanto, vai muito além das vendas ou das posições nas paradas. A inovação do seu “ataque duplo de guitarras gêmeas harmonizadas", refinado nesses anos, tornou-se uma pedra fundamental para o desenvolvimento do heavy metal e do hard rock das décadas seguintes, ecoando em bandas como Thin Lizzy, Judas Priest e Iron Maiden (influenciou a NOWBHM e daí pulou para as vertentes mais extremas e/ou progressivas do rock pesado). Esta coleção de seis trabalhos – da energia crua do debut, passando pela peregrinação eclética de Pilgrimage, pelo pináculo de Argus, pela encruzilhada de Wishbone Four e pelo testemunho triunfante de Live Dates – forma um retrato completo de uma banda que, em seu período clássico, soube equilibrar ambição artística, poder instrumental e um melodismo inconfundível. É um legado sonoro que, mais de cinco décadas depois, continua a ressoar com força e inspiração, celebrado em novos lançamentos de arquivo e turnês contínuas que honram este período dourado.

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