----------
----------
DISCLOSURE DAY (2026) [145'] [1.90:1] [**1/2]
Aos setenta e nove anos, Steven Spielberg retorna ao tema que o consagrou (junto ao grande público) como um dos visionários do cinema moderno. Disclosure Day é o mais novo capítulo de sua longa e frutífera relação com a possibilidade de vida extraterrestre, uma jornada que começou em 1977 com Close Encounters of the Third Kind. Contudo, se lá ele capturou a assombrosa maravilha do primeiro contato, e em E.T. the Extra-Terrestrial a doçura do afeto interestelar, neste novo filme o diretor parece menos interessado em explorar o desconhecido e mais em repetir os movimentos de sua própria gramática, como um músico que, cansado de compor, se dedica a reger orquestrações já conhecidas. A trama se apoia em um roteiro de David Koepp, velho parceiro de Jurassic Park e War of the Worlds, e reúne atores protagonistas mais do que competentes como Emily Blunt e Josh O'Connor, mas o resultado final esbarra em uma armadilha peculiar: o filme está tão contido no acúmulo de influências que formaram o seu diretor, e na repetição de seus próprios vícios autorais, que parece mais uma citação de si mesmo do que um olhar renovado para o céu... Lançado em um momento histórico em que governos ocidentais já desclassificaram documentos sobre Fenômenos Anômalos Não Identificados e a discussão sobre a existência de inteligências além da Terra deixou os círculos conspiratórios para ganhar as manchetes sérias, Disclosure Day poderia ser uma obra urgente. No entanto, ao invés de se debruçar sobre as implicações reais de um mundo à beira da revelação, o filme oferece uma versão água-com-açúcar e excessivamente encenada do debate, tratando seus temas de maneira mais citada do que aprofundada. Em um cenário geopolítico marcado por guerras de informação e desconfiança institucional, o longa de Spielberg se apega a um otimismo quase ingênuo, que soa mais como uma carta de amor ao passado do que como um comentário corajoso sobre o presente. É justamente essa nostalgia acrítica, aliada a uma execução por vezes preguiçosa de seus elementos de suspense, que impede a obra de alcançar a transcendência que o diretor claramente almeja aqui.
A espinha dorsal narrativa de Disclosure Day é construída em dois eixos (aparentemente) paralelos que, como era de se esperar, convergem em algum momento da projeção... De um lado, acompanhamos o analista de segurança cibernética Daniel Kellner (Josh O'Connor), funcionário da poderosa corporação (não governamental) Wardex, que decide se tornar delator ao roubar (além de um artefato extra terrestre) uma mochila repleta de evidências irrefutáveis sobre a existência de vida alienígena e o papel da empresa em um longo e sangrento esquema de encobrimento que dura décadas (desde o caso Roswell de 1947). Perseguido pelo chefe da Wardex, o frio e calculista Noah Scanlon (Colin Firth), Kellner está desesperado para entregar os arquivos (e todo o resto) a Hugo Wakefield (Colman Domingo), um ex-funcionário da corporação que lidera uma célula de ativistas dedicados à divulgação global da verdade. Do outro lado do país, em Kansas City, a meteorologista Margaret Fairchild (Emily Blunt) sofre uma transformação súbita e inexplicável. Durante um telejornal matinal ao vivo, ela começa a emitir ruídos guturais e cliques, uma aparente língua alienígena, e logo descobre que adquiriu uma espécie de hiper empatia (compreender COMPLETA E PROFUNDAMENTE qualquer pessoa posta a sua frente e parecer para essas com um ente querido)... A conexão entre os dois, revelada no terceiro ato, reside no fato de que ambos foram abduzidos ainda crianças e utilizados como cobaias em experimentos sensoriais pelos alienígenas, um trauma que lhes concedeu habilidades latentes despertadas apenas na idade adulta [Daniel recebe um extraordinário dom matemático que o permite entender perfeitamente as mensagens dos alienígenas. Por sua vez, Margaret recebe o dom de transmitir tal mensagem para cada ser humano de forma perfeitamente compreensível e confiável.]. Com a ajuda de Wakefield, que os abriga em uma réplica do quarto de infância de Margaret para estimular suas memórias, a dupla descobre o plano final: invadir a emissora de TV onde Margaret trabalha e transmitir ao vivo, para o mundo inteiro, todo o acervo de vídeos, fotos e documentos classificados sobre a presença alienígena. O clímax, portanto, é um grande ato de disclosure, ou revelação, onde a humanidade assiste estarrecida às telas de seus aparelhos enquanto as provas são exibidas e o planeta inteiro testemunha o primeiro contato oficial... Os temas principais do longa giram em torno da natureza da fé, da confiança nas instituições e do poder catártico da verdade. A personagem de Jane (Eve Hewson), namorada de Kellner e ex-noviça, funciona como a voz do questionamento teológico, preocupada que a descoberta de alienígenas possa destruir a crença religiosa tradicional. Já a madre Maura (Elizabeth Marvel), superiora do convento onde Jane se esconde, parece ter saído de um seminário de divulgação científica, repetindo frases de efeito sobre a imensidão do cosmos que mais lembram Carl Sagan do que uma freira em crise de fé, o que evidencia o caráter por vezes simplório e expositivo do texto de Koepp. Os conflitos centrais são claros: Kellner luta contra a paranoia e a desconfiança, Fairchild contra o medo de suas próprias capacidades, e ambos contra a maquinaria violenta da Wardex. No entanto, os antagonistas da corporação são ridiculamente ineficientes, lembrando os infames Keystone Cops do cinema mudo, cujas perseguições e tentativas de captura beiram o pastelão, comprometendo completamente a verossimilhança da ameaça que deveriam representar. Muito das sequências de ação é mal executado, com os agentes cometendo erros amadores que tiram o espectador da imersão, transformando a tensão em tédio e a perseguição por vezes em uma comédia involuntária.
A mise-en-scène de Spielberg, que já foi sinônimo de inovação e clareza narrativa, parece aqui operar no piloto automático. Janusz Kaminski, o seu diretor de fotografia de longa data, filma a maior parte da ação com uma paleta severamente dessaturada e cheia de halos de luz, um estilo que funcionou bem em Minority Report (2002) e Munich (2005), mas que aqui soa apenas como um vício de linguagem. As cenas noturnas e os corredores frios da Wardex são competentes, porém genéricos, sem a inventividade que um diretor com o currículo de Spielberg deveria naturalmente possuir. A montagem, assinada por Sarah Broshar, tenta imprimir um ritmo frenético, especialmente nas sequências de fuga, mas esbarra na inconsistência da encenação. Há uma cena particularmente problemática onde Kellner foge de dezenas de agentes simplesmente agachado atrás de uma cerca baixa ou quando os personagens têm tempo de sobra para armar um plano elaborado enquanto os vilões estão a segundos de alcançá-los (entre outros). Esses deslizes de lógica interna não são apenas falhas de roteiro, mas problemas fundamentais de direção e montagem, que falham em estabelecer as regras espaciais e temporais da ação, destruindo a verossimilhança do thriller. A trilha sonora de John Williams, nonagenário e colaborador de todas as horas, é, por sua vez, um dos pontos altos do filme, ainda que pareça (como esperado) uma colcha de retalhos de seus próprios temas passados, evocando a majestade de Close Encounters sem criar uma identidade própria. A performance de Emily Blunt é, como de costume, magnética e profunda (apesar do uso de uma espécie de máscara interpretativa aqui), conferindo uma gravidade a Margaret que o roteiro nem sempre merece. Josh O'Connor, como Kellner, oscila entre um nervosismo genuíno e uma passividade exasperante. Colin Firth, por sua vez, parece MUITO perdido no papel do vilão corporativo, incapaz de transmitir a frieza necessária sem recorrer a trejeitos exagerados... O problema central da linguagem audiovisual aqui é que ela falha em sustentar a premissa. A espetacularidade do primeiro contato, que deveria ser o auge da experiência, é resumida a telas de televisão e reações de jornalistas, uma abordagem que transforma um evento cosmicamente grandioso em um ordinário episódio de noticiário. Nesse ponto, uma comparação se torna inevitável: Disclosure Day guarda uma semelhança perturbadora com o filme 2010: The Year We Make Contact, de Peter Hyams (1984). Em ambos, temos uma iminente ameaça de aniquilação global (a Terceira Guerra Mundial) que é suspensa nos minutos finais por um fenômeno extraterrestre testemunhado por todo o globo. Contudo, a versão de Spielberg parece uma versão empobrecida e televisiva da obra inspirada em Arthur C. Clarke. Onde Hyams construiu uma tensão política densa e um mistério científico palpável (e com extraordinário senso de deslumbramento), Spielberg oferece perseguições de carro mal coreografadas e soluções mágicas fornecidas por um dispositivo alienígena (os artefatos) que pode fazer qualquer coisa, desde teleportar até controlar mentes, simplesmente porque o roteiro precisa. Essa preguiça narrativa, aliada à execução aquém do esperado da ação e da fotografia, faz com que o filme pareça menor do que a soma de suas partes.
Ao fim de suas duas horas e vinte e cinco minutos, Disclosure Day deixa a sensação de que Steven Spielberg, o diretor que já ensinou a olhar para o céu com assombro, parece agora mais interessado em replicar a gramática de seus próprios sonhos do que em sonhar novos pesadelos ou maravilhas. O veredicto final do longa sobre seus temas é frustrantemente conservador: a verdade, por mais dura que seja, nos unirá, e a tecnologia alienígena, por mais incompreensível que pareça, estará a serviço da bondade humana (isso sem falar um pio sobre as intenções dos aliens em si!) (e dos seus motivos para: insistirem conosco por 80+ anos, sempre adotarem alguma variante da estética GRAY e preferirem visitar os EUA)... Ao eliminar qualquer ambiguidade ou complexidade moral da revelação, o filme se torna uma parábola unidimensional, um abraço apertado demais que sufoca ao invés de acolher. O conflito de Kellner é resolvido quando ele finalmente entrega os dados e se sente leve. O medo de Margaret desaparece quando ela domina seus poderes e os usa para o bem. A crise de fé de Jane é varrida para debaixo do tapete quando a sua antiga madre superiora profere um discurso iluminado sobre a grandeza do cosmos. Tudo se resolve de maneira demasiadamente limpa e sentimental, sem as arestas ou as perguntas não respondidas que caracterizam as melhores ficções científicas. Quanto ao impacto na obra do diretor, Disclosure Day é um capítulo menor em uma filmografia longeva e respeitada por boa parte da cinefilia. Não chega a ser um fracasso, pois o carisma de seus intérpretes e a nostalgia inerente ao tema (especialmente com o tratamento completamente POP aqui utilizado) garantem algum nível de entretenimento, mas também não alcança o status de um revival criativo (ou de obra prima tardia na carreira). O legado do filme, a curto prazo, parece ser o de um exercício de estilo que confirma o pior dos medos sobre a fase crepuscular de Spielberg: a incapacidade de se renovar! Em um mundo sedento por respostas e amedrontado pelo futuro, o diretor oferece uma fábula açucarada que, por mais bem-intencionada que seja, parece desconectada da urgência e da complexidade do momento... A crítica mais severa, no entanto, talvez parta da comparação com 2010: The Year We Make Contact. Ao invocar essa obra mais antiga e pouco celebrada (e com seus proprio problemas contextuais e além), mas infinitamente mais competente em sua construção de suspense e em seu drama político climático, Disclosure Day revela sua própria fragilidade. Se a versão de Hyams é um sólido filme de ficção científica dos anos 1980 (ainda que sofra a sombra do seu antecessor), a versão de Spielberg parece (especialmente no seu ato final) um ordinário episódio de série de TV que se estende por tempo demais, repleto de personagens apatetados e soluções mágicas. No final, o que fica é a estranha sensação de que, ao tentar entregar a revelação definitiva, Spielberg esqueceu de nos mostrar algo que não soubéssemos ou não esperássemos. O Dia da Revelação chega, mas o espanto, infelizmente, fica para depois dos créditos.
----------









