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MARTY SUPREME (2025) [150 '] [2.39:1] [★★★]
Marty Supreme representa um momento de transição e afirmação na carreira de Josh Safdie, marcando o seu primeiro trabalho inteiramente solo desde a estreia em 2008 com The Pleasure of Being Robbed, após uma década de colaboração intensa com o irmão Benny em filmes como Good Time e Uncut Gems. Se por um lado o filme reforça os vieses autorais que consagraram a dupla — o retrato de Nova Iorque como paisagem de oportunidades e armadilhas, a figura do hustler judeu-americano movido a ansiedade e arrogância, a montagem frenética que beira o colapso nervoso — por outro lado introduz uma variação significativa no tom. Pela primeira vez, Safdie entrega-se a um final que não é apenas catártico na sua violência ou desespero, mas que encontra espaço para uma doçura inesperada, quase que uma rendição emocional (aliás, um final que soa um pouco estranho levando-se em conta tudo o que o antecedeu em tela). A ausência de Benny na codireção faz-se sentir numa abordagem ligeiramente menos abrasiva, mais contemplativa nos momentos certos, ainda que o motor narrativo continue a ser a combustão espontânea de um protagonista incapaz de estar parado. O filme chega num momento em que a nostalgia dos anos 1950 é frequentemente convocada para narrativas de estabilidade e prosperidade, mas Safdie subverte essa imagem ao transformar a década num palco para uma reflexão profundamente contemporânea sobre as raízes do individualismo predatório americano, o sonho como motor de autodestruição e a solidão estrutural de quem persegue a grandeza a todo custo. Há também uma camada de comentário sobre a mercantilização do talento e a transformação do atleta em entretenimento, temas que ressoam com a atual era dos influenciadores e da economia da atenção. O realizador utiliza ainda a figura do protagonista para explorar as tensões raciais e o antissemitismo latente no período, evidentes em momentos como a piada sobre não ser ganancioso ou a humilhação proposta no Japão envolvendo um porco . A produção, a mais cara da A24 até à data com um orçamento acima de 70 milhões de dólares, já ultrapassou os 152 de bilheteira mundial e recebeu nove indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Chalamet como o personagem título... A sua combinação de ambição temática e sucesso comercial coloca Marty Supreme num lugar singular na filmografia de Safdie, ampliando o seu alcance sem sacrificar a identidade estética que o tornou conhecido.
A trama acompanha Marty Mauser (Timothée Chalamet) [virtualmente cena a cena], um vendedor de sapatos no Lower East Side dos anos de 1950 cujo talento fenomenal para o tênis de mesa alimenta um sonho obsessivo: tornar-se campeão mundial e escapar da mediocridade que lhe foi destinada. Após um encontro sexual furtivo com a amiga de infância Rachel Mizler (Odessa A'Zion) — que engravida e vê no caso uma possibilidade de algum amor verdadeiro para além do casamento opressor — Marty rouba o patrão (e tio) e parte para jogar um torneio em Londres, onde lá seduz (de forma largamente artificial por falar nisso) a atriz decadente Kay Stone (Gwyneth Paltrow) enquanto vive acima das possibilidades no Ritz (literalmente mandando a conta para a organização da competição) e perde a final para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi), que utiliza uma raquete de esponja então inovadora e é deficiente auditivo... O seu regresso a Nova Iorque revela-se um inferno de dívidas, fugas, encontros com o gangster Ezra Mishkin (Abel Ferrara) dono de um cão chamado Moses (!) que ele fica de levar ao veterinário (o que ele não faz e acaba por perder o animal!) e mesmo a descoberta da paternidade. A narrativa ainda inclui: golpes variados junto com um colega taxista, a destruição de um posto de gasolina com a fuga de Moses, tentativas de "devolver" Moses mesmo sem a posse do animal (!) até um confronto armado com um fazendeiro antissemita (Penn Jillette) que estava retendo Moses (!?) [NOTA: Rachel se mostra uma trambiqueira tão amalucada quanto Marty] ... O filme culmina no Japão, onde Marty aceita (já sem outra alternativa para competir no mundial por lá) participar num circo promocional para o magnata das canetas Milton Rockwell (Kevin O'Leary) [marido de Kay], apenas para se revoltar contra a humilhação pública de ter que perder e beijar um porco [antes desse último], reconquistar a dignidade vencendo um set para valer contra Endo (incialmente estava tudo armado para ele perder) e , por fim, regressar aos braços de Rachel (que havia sido baleada em meio as confusões com o fazendeiro) e do filho recém-nascido... Os temas principais aqui são o preço da ambição, a natureza performativa da identidade americana e a tensão insolúvel entre a solidão do sonhador e a redenção possível através do amor e da paternidade, numa estrutura que bebe tanto do melodrama familiar quanto do cinema de assalto... A sequência de abertura, que sobrepõe espermatozoides a fertilizar um óvulo que quando fecundado se transforma numa bola de pingue-pongue, estabelece imediatamente o tom: Marty é uma força vital incontrolável, um narcisista movido a testosterona e convicção.
A linguagem audiovisual de Marty Supreme é uma respeitável engenharia sensorial ao serviço do delírio do protagonista. A fotografia de Darius Khondji, rodada em 35mm com lentes anamórficas Panavision C Series e recorrendo por vezes a uma câmara CinemaScope literalmente retirada de um museu, confere à Nova Iorque dos anos 1950 uma textura ao mesmo tempo granulada e hiper-realista, como se a cidade fosse uma extensão da pele suada e ansiosa de Marty. Khondji inspirou-se nos fotógrafos Ernst Haas e Helen Levitt, bem como nos pintores Honoré Daumier e Georges Bellows, para criar uma iluminação que ora evoca os retratos de estúdio da época, ora mergulha as personagens numa penumbra expressionista . O design de produção de Jack Fisk, veterano colaborador de Terrence Malick e Paul Thomas Anderson, recria a cidade com uma atenção alucinante aos detalhes, desde os tacos dos bares sujos até aos interiores opulentos de Manhattan, transportando o espectador para uma época que parece tangível . A montagem, assinada pelo próprio Safdie com Ronald Bronstein, recusa qualquer respiro: as imagens colidem umas nas outras num ritmo que oscila entre o êxtase da vitória e o pânico da derrota, com as cenas de pingue-pongue filmadas de forma quase documental, utilizando lentes longíssimas que aproximam o espectador da ação sem recorrer aos truques de dinamização comercial... [E mais um ponto polêmico...] A banda sonora de Daniel Lopatin abandona a eletrônica fria de Uncut Gems para abraçar uma colagem anacrónica de New Order, Peter Gabriel, Tears for Fears, Public Image Ltd. e Alphaville, criando a sensação deliberada de que Marty é um "predador dos anos 1980" preso numa roupagem dos anos de 1950 . Esta escolha, que poderia ser um mero exercício de estilo, revela-se uma chave interpretativa: a energia new wave e synth-pop sublinha a natureza atemporal da ambição desmedida, como se o som profetizasse a chegada de uma era onde a imagem e a auto promoção reinariam absolutas. [Assim é possível decodificar a intenção dos realizadores mas a execução não supera plenamente o ÓBVIO estranhamento assim provocado] ... As atuações são um tanto mistas: Chalamet entrega-se por completo, esculpindo um personagem tão magnético quanto insuportável ; Paltrow falha em encontrar camadas inesperadas numa estrela em declínio (saindo algo bem caricatural) ; A'Zion procura acompanhar a deixa de Chalamet (e funciona nesses termos) e por outro lado o casting de (largamente) não-atores como Kevin O'Leary e Abel Ferrara sublinha a fronteira difusa entre realidade e representação que sempre interessou aos Safdie. Ferrara, diretor de alguns clássicos NEO NOIR, traz uma autoridade natural ao papel de gangster, enquanto O'Leary aproveita a sua persona pública de homem de negócios arrogante para criar um vilão memorável [NOTA: E conta a melhor piada do filme, dizendo que os Rockwell são vampiros]... As participações de figuras como Philippe Petit, David Mamet, Isaac Mizrahi e Sandra Bernhard pontuam o filme com achados de elenco surpreendentes, transformando cada cena num jogo de reconhecimento.
Marty Supreme confirma Josh Safdie como um inegável talento formalista do cinema americano contemporâneo, capaz de orquestrar duas horas e meia de tensão quase insustentável sem nunca perder o domínio sobre os meios expressivos. No entanto, o veredicto final sobre os temas que levanta é mais ambivalente do que a pirotecnia visual pode sugerir... O filme escrutina o individualismo predatório de Marty com certa lucidez, mas há momentos em que a admiração pela energia vital do protagonista parece ofuscar a necessária distância crítica (ou seja: o filme aparenta ser também uma criatura do tipo "da mão para a boca ciclicamente e sem parar"). Mais alguns problemas: a sequência de abertura é frágil (parecendo estar no filme errado) (idem para a sequência final) e a cena em Auschwitz, com um prisioneiro a cobrir-se de mel para ser lambido por outros sendo um claro exemplo de "rir de" ao invés de "rir com" ... No balanço final, Marty Supreme impacta a obra do diretor ao demonstrar que é possível transportar a linguagem do thriller psicológico para o território do melodrama sem perder a identidade, ainda que o resultado, brilhante em superfície, deixe no ar a sensação de que a profundidade emocional ficou aquém da ambição estética. A grandeza que Marty Mauser persegue, afinal, talvez seja tão inatingível para ele quanto a síntese perfeita entre forma e sentimento é para o cinema que o criou... Safdie entrega um espetáculo inegável, uma montanha-russa que prende o espectador do princípio ao fim, mas deixa uma sombra de insatisfação: a promessa de um significado mais profundo, repetidamente adiada em favor do próximo golpe de efeito, do próximo plano deslumbrante, da próxima reviravolta alucinante. E talvez essa seja a mais honesta das conclusões sobre um filme dedicado a um homem que nunca consegue parar para pensar no que realmente importa.
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