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SENTIMENTAL VALUE (2025) [133'] [1.85:1] [★★★★]
O mais recente trabalho do norueguês Joachim Trier, Sentimental Value, chega às telas coroado com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2025, e se apresenta como uma obra que, à primeira vista, pode parecer uma continuação temática de seu aclamado antecessor, The Worst Person in the World . No entanto, Trier opera aqui uma mudança sutil, porém significativa, em seu foco autoral. Se no filme de 2021 ele dissecava as angústias existenciais de uma jovem mulher na Oslo contemporânea, em Sentimental Value o diretor expande seu olhar para o núcleo familiar, investigando as fissuras emocionais que atravessam gerações. A obra reforça seu viés humanista ao explorar as complexidades das relações com uma honestidade quase clínica, mas se diferencia ao adotar uma estrutura mais fragmentada e metalinguística, usando o próprio fazer cinematográfico como ferramenta de escavação da memória e do trauma . Lançado num mundo que ainda lida com os efeitos do isolamento e a dificuldade de reconexão humana, o filme ressoa profundamente ao questionar como nos comunicamos com aqueles que amamos, especialmente quando a linguagem cotidiana se mostra insuficiente, propondo a arte como uma ponte possível, ainda que frágil, para o entendimento.
A trama se desenrola a partir do reencontro das irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) com seu pai, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um renomado diretor de cinema que as abandonou na infância para se dedicar à carreira . O pretexto para o retorno é a morte da mãe delas, a ex-esposa de Gustav, e o enterro realizado na imponente casa de família, uma propriedade que legalmente pertence a ele e que se torna o epicentro emocional da narrativa . Gustav, em um momento de ostensiva crise criativa e existencial aos 70 anos, revela ter escrito um roteiro autobiográfico, centrado na história de sua própria mãe (uma resistente antifascista que cometeu suicídio após ser torturada na guerra), e que se passa naquela mesma casa. Ele oferece o papel principal a Nora, uma talentosa atriz de teatro que sofre de ataques de pânico e nutre um profundo ressentimento pela ausência paterna . Diante da recusa enfática da filha, Gustav escala a jovem e entusiasmada estrela americana Rachel Kemp (Elle Fanning) para o posto, o que reacende velhas feridas e força a família a confrontar seus fantasmas . Os temas principais do longa são a natureza do valor sentimental (personificado na casa e nos objetos que a habitam), o peso do trauma herdado, a dificuldade do perdão e a busca por uma linguagem comum entre pais e filhos. Enquanto Nora (Reinsve) luta contra a raiva e o medo de se expor, Agnes (Lilleaas) tenta compreender o pai sem deixar de proteger o próprio filho pequeno, e Gustav (Skarsgård) se debate entre o arrependimento tardio e seu egoísmo crônico, usando o projeto fílmico como uma desajeitada e muitas vezes inadequada tentativa de reparação .
Trier constrói essa complexa teia emocional com uma linguagem audiovisual sofisticada e precisa, que casa perfeitamente com a fragmentação da memória. A montagem, assinada por Olivier Bugge Coutté, utiliza recorrentes cortes para a tela preta, criando pausas que funcionam como respiros e separam as camadas temporais da narrativa, evitando qualquer linearidade simplista e imitando o fluxo irregular das lembranças . A fotografia de Kasper Tuxen é um elemento à parte, banhando as cenas do presente em uma luz melancólica e fria, frequentemente isolando os personagens em quadros que enfatizam sua solidão, enquanto as memórias mais antigas surgem em granulados 16mm, conferindo-lhes textura de documento histórico . A direção de Trier, que ele descreve como uma busca pelo "acústico", permite que os atores ditem o ritmo emocional das cenas, algo evidente nas atuações . Stellan Skarsgård entrega uma atuação contida e monumental, construindo um Gustav que é ao mesmo tempo magnético e repulsivo em sua fragilidade narcisista . Renate Reinsve, novamente musa do diretor, prova seu alcance dramático ao transmitir, com microexpressões faciais, uma tempestade de insegurança, mágoa e amor reprimido . A trilha sonora, que pontua a narrativa com canções de Roxy Music e New Order, não é mero adorno, mas sim um fio condutor que ancora as diferentes épocas vividas pela família e sublinha a passagem do tempo dentro da casa .
Em seu veredicto final, Sentimental Value não oferece resoluções fáceis ou catarses tradicionais, mas sim a compreensão de que o valor sentimental das coisas e das pessoas reside justamente em sua imperfeição e na complexidade das histórias que carregam. Joachim Trier conduz seus personagens a um ponto de entendimento que só é possível através da arte que criam: Nora encontra no roteiro do pai uma forma de vê-lo, finalmente, como um homem frágil e arrependido, e não apenas como a figura ausente que a feriu . O filme reafirma, assim, o poder do cinema como um dispositivo para rearranjar o passado e curar, ainda que parcialmente, as feridas do presente. Para a filmografia de Trier, a obra se consolida como um passo adiante em sua maturidade autoral, expandindo o interesse pelas relações humanas para além do indivíduo e investigando como o trauma e o amor se entrelaçam na estrutura familiar. É um drama poderoso e comovente que, ao mirar no íntimo e no particular, atinge o universal, deixando no espectador a certeza de que, por mais rachada que seja a estrutura, um lar ainda pode ser um lugar de luz e de encontro .
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