quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

IT WAS JUST AN ACCIDENT (2025)

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 "IT WAS JUST AN ACCIDENT" (2025) [104'] [1,85:1] [***]

O realizador iraniano Jafar Panahi, figura cuja carreira se confunde com uma luta contínua contra a censura e a repressão no seu país, apresenta com It Was Just an Accident uma obra que simultaneamente marca uma evolução e uma consolidação no seu percurso cinematográfico. Após uma série de trabalhos metacinematográficos e profundamente autorreflexivos, como This Is Not a Film e No Bears, nos quais a impossibilidade de filmar se tornava o próprio tema, Panahi retorna aqui a uma narrativa ficcional mais clássica, sem, contudo, abdicar do substrato político que define a sua filmografia. O filme, rodado clandestinamente sem autorização das autoridades iranianas, opera uma mudança de registro ao adotar a estrutura de um thriller moral, carregado de tensão e reviravoltas, distanciando-se do tom documental e introspetivo de muitos dos seus predecessores. No entanto, reforça de maneira inabalável os seus vícios autorais: a crítica feroz, ainda que por vezes sardónica, ao aparelho estatal e à corrupção institucionalizada ; a exploração do espaço confinado como microcosmo da sociedade E a atenção dedicada aos indivíduos comuns aprisionados em dilemas éticos de grande magnitude. Inscrevendo-se no mundo contemporâneo do seu lançamento, o filme transcende o contexto específico do Irã para erguer uma reflexão universal e premente sobre os ciclos de violência, o peso do trauma coletivo e a difícil distinção entre justiça e vingança em sociedades marcadas por um passado de opressão. A história, inspirada em relatos que Panahi ouviu durante o seu próprio período na prisão, funciona como um potente alegoria sobre a incapacidade de uma nação se reconciliar consigo mesma quando os fantasmas do passado permanecem impunes e ativos no presente.

A narrativa, aparentemente simples, desdobra-se com uma implacável lógica de pesadelo. Tudo começa quando Eghbal (Ebrahim Azizi), um homem com uma prótese na perna, atropela acidentalmente um cão durante uma viagem noturna com a família. Esta colisão provoca uma avaria no automóvel, levando-o à oficina de Vahid (Vahid Mobasseri), um mecânico cuja vida aparentemente banal esconde as feridas profundas de ter sido um prisioneiro político. Ao ouvir o som característico da prótese e a voz de Eghbal, Vahid é transportado de volta aos seus tempos de tortura e identifica no cliente ocasional o seu antigo algoz, um guarda prisional conhecido pelo apelido de Perna de Pau. Movido por um impulso de revolta, Vahid sequestra Eghbal e, consumido pela dúvida sobre a sua identidade, parte numa jornada urbana para reunir outros sobreviventes que possam confirmá-la. Este grupo improvável, que constitui o núcleo dramático do filme, inclui a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Golrokh (Hadis Pakbaten) e o seu noivo Ali (Majid Panahi), e o temperamental Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr). O dilema central que os une e os divide não é apenas o de reconhecer o rosto de quem os torturou de olhos vendados, mas o de decidir o que fazer com ele: executar a vingança há muito desejada ou encontrar um caminho diferente que quebre a cadeia de violência. Os seus conflitos principais radicam precisamente nesta tensão entre o desejo visceral de retribuição, que os aproxima moralmente dos seus opressores, e uma centelha de humanidade que teima em sobreviver, simbolizada num momento crucial em que interrompem o seu plano para levar a esposa grata de Eghbal ao hospital. Esta estrutura de caça e julgamento informal serve como mecanismo perfeito para desenvolver os temas principais do longa: a natureza cíclica e corrosiva da violência, a difusa fronteira entre vítima e carrasco quando o primeiro adota os métodos do segundo, e a complexa busca por redenção e perdão num contexto onde a justiça formal é inexistente ou cúmplice.

Panahi serve-se de uma linguagem audiovisual contida, realista e profundamente eficaz para conferir peso e autenticidade a esta parábola moral. A direção, necessariamente discreta devido às condições clandestinas de filmagem, aposta numa montagem que privilegia planos sequência longos, especialmente no tenso clímax do filme, aumentando a sensação de claustrofobia e imersão no dilema dos personagens. A fotografia de Amin Jafari, com uma paleta de cores terrosas e uma luz natural, mantém um olhar observacional que recusa o melodrama, enquanto a quase ausência de trilha sonora não diegética intensifica o realismo cru e coloca o foco total nas palavras e nos silêncios carregados dos protagonistas. As atuações, maioritariamente de um elenco não profissional, são de uma sobriedade e veracidade notáveis. Vahid Mobasseri transmite com intensidade contida a agonia interna de Vahid, dividido entre a fúria e a dúvida. Mariam Afshari, como Shiva, oferece um contraponto de racionalidade cansada, enquanto Mohamad Ali Elyasmehr explode como a encarnação viva do ódio incontrolável em Hamid. Ebrahim Azizi, por sua vez, constrói um Eghbal complexo, um homem que pode ser tanto um monstro quanto um marido e pai comum, forçado a confrontar o seu passado. Apesar da gravidade do tema, Panahi injeta na narrativa momentos de um humor negro e absurdo, sátiras ácidas à burocracia e à corrupção endémica, como a cena em que uma propina é paga com uma máquina de cartões, que funcionam como válvulas de alívio e, simultaneamente, como comentários sociais cortantes. Esta mistura de tons, habilmente equilibrada, impede que o filme se torne um exercício de pura agonia, revelando antes o absurdo trágico que permeia a vida sob repressão.

Em conclusão, It Was Just an Accident de Jafar Panahi não oferece respostas fáceis para as questões profundas que levanta, e a sua grandeza reside precisamente nessa recusa. O veredicto final sobre os seus personagens e temas é deliberadamente ambíguo, encapsulado no final magistral e aberto à interpretação. Após forçar uma confissão e um pedido de desculpas vazio de Eghbal, Vahid opta por libertá-lo, num ato que poderá ser lido como perdão, exaustão ou a recusa definitiva em replicar a violência do opressor. No derradeiro plano, o som do passo de uma prótese aproxima-se e depois se afasta de Vahid, um ruído que o próprio realizador sugere poder existir apenas na mente do protagonista, um fantasma psicológico que talvez nunca o abandone. Esta ambiguidade genial coloca o espectador no lugar do personagem, obrigando-o a ponderar se o ciclo de violência foi verdadeiramente interrompido por um acto de misericórdia, ou se o trauma é uma prisão perpétua da qual não há fuga. Para a obra de Panahi, este filme representa um ponto de chegada e de maturidade artística, a síntese bem-sucedida entre a urgência política de um cineasta dissidente e o domínio formal de um contador de histórias exímio. Para além da sua filmografia, impacta o cinema contemporâneo como um testemunho corajoso e uma obra de rara potência moral, demonstrando que a mais elevada expressão artística pode nascer mesmo sob as condições mais opressivas, servindo tanto como reflexão intemporal sobre a condição humana quanto como documento vital e insurgente do seu tempo.

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