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"One Battle After Another" (2025) [162'] [1.90:1] [****]
Paul Thomas Anderson, um cineasta que desde os anos de 1990 esculpiu uma filmografia obsessivamente centrada nos abismos da psique masculina e nas mitologias tóxicas da América, surpreende com One Battle After Another. Este épico de ação e ideias representa um desvio significativo na sua carreira, não apenas pelo orçamento recorde e escala de blockbuster, mas pela vontade declarada de engajar com o ruído ensurdecedor do presente. Se filmes como There Will Be Blood ou The Master eram parábolas históricas sobre a corrosão da alma pelo capitalismo e pelo fanatismo, este é um foguete lançado diretamente no coração da América hiperpolarizada dos anos 2020 e além. Anderson abandona o distanciamento temporal para mergulhar na urgência de um país fraturado por guerras culturais, militarização das fronteiras e o espectro do autoritarismo. No entanto, mesmo neste terreno novo, o seu viés autoral permanece intacto: a fascinação por personagens despedaçados e obcecados, a percepção afiada de que os grandes ideais são frequentemente negociados por fraquezas pessoais mesquinhas, e uma desconfiança fundamental em relação a qualquer sistema de poder, seja ele o capital petrolífero, uma seita ou, agora, o estado policial E os seus opositores revolucionários. One Battle After Another é, assim, uma culminação de um autor que, sem abdicar do seu olhar íntimo e claustrofóbico, o amplifica para o tamanho de um pesadelo nacional, inserindo-se no debate contemporâneo como um conto de advertência sobre o ciclo eterno do conflito e o custo humano das guerras, sejam elas políticas ou pessoais.
A história, inspirada livremente num romance de Thomas Pynchon, é um mecanismo de relojoaria narrativa que engrena uma perseguição frenética com uma reflexão profunda sobre legado e traição. Dezesseis anos após os feitos do grupo revolucionário French 75, o seu ex-bombista Pat Calhoun, agora Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), vive uma existência apagada e paranoica, criando a filha Willa Ferguson (Chase Infiniti) longe do passado e completamente a margem da sociedade. A farsa de paz desmorona quando o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), um oficial militar racista e sádico humilhado pelo French 75 no passado, ressurge movido por uma obsessão psicossexual pela antiga companheira revolucionária de Bob, Perfídia Beverly Hills (vivida quase que selvagemente por Teyana Taylor) (que por falar nisso é negra!), e pela necessidade de apagar a prova viva do seu "desvio": a própria Willa, que é, revela-se, sua filha biológica (*)... A missão de Bob para proteger Willa, com a ajuda do seu professor de karatê Sergio St. Carlos (Benicio Del Toro) e da comunidade de imigrantes e excluídos local, é o motor da ação, mas o tema central do filme é a desilusão e o peso da herança. Anderson explora a ironia amarga de que a luta contra um sistema opressor pode gerar os seus próprios monstros e traições: Perfídia, idealizada por Willa como uma heroína no presente, revelou-se no passado (após ter deixado Bob e uma Willa bebê para "voltar a causa") uma informante que sacrificou os camaradas para salvar a própria pele e que depois fugiu do programa de proteção a testemunhas (aliás esse acordo foi conseguido pelo próprio LockJaw, que usou as informações obtidas inclusive para MATAR membros do French75 e ficou furioso com a fuga de Perfídia). O conflito de Bob não é apenas contra Lockjaw, mas contra o seu próprio fracasso como revolucionário e a dificuldade de transmitir um sentido de luta à filha num mundo que parece ter tornado as suas antigas batalhas irrelevantes ou pervertidas (retrospectivamente o Sensei Sérgio parece ser o real mentor da jovem). Já Willa, vivida com ferocidade por Infiniti, encarna o conflito da nova geração, forçada a navegar entre o mito dos pais, a sua horrível verdade e a necessidade de forjar a sua própria identidade e resistência, culminando num clímax onde ela, e não o pai desgastado, faz o ajuste de contas com LockJaw e com o assassino enviado pelos Supremacistas para cauterizar toda a situação (Ao final de uma espetacular sequência de perseguição de carros por falar nisso!).
(*) LockJaw já no presente deseja ingressar numa Cabala de Supremacistas Brancos denominada (vejam só!) "Aventureiros Natalinos" e teme que a sua indiscrição do passado seja facilmente descoberta por tal grupo. Por isso age depois de tanto tempo.
Para contar esta história de paranoia e perseguição, Anderson e a sua equipa mobilizam uma linguagem audiovisual que é, em si mesma, um ato de rebelião cinematográfica. A fotografia de Michael Bauman, recorrendo ao formato VistaVision de grande resolução, capta a América contemporânea com uma crueza que vai do pitoresco ao claustrofóbico, transformando um muro fronteiriço numa paisagem abstrata e opressiva e as fugas pelos telhados de subúrbios numa coreografia desesperada. A montagem de Andy Jurgensen é um estudo de ritmo, alternando entre a comédia de erros (como na cena antológica em que Bob, nervoso, não consegue lembrar dos códigos secretos da resistência num telefone público) e sequências de ação de tirar o fôlego, como o duelo automotivo final numa estrada ondulante (que, por incrível que pareça, parece absorver e adaptar ao contexto a Mise-en-scène dos duelos dos faroestes de Sérgio Leone)... A trilha sonora de Jonny Greenwood é um personagem por si mesma, um conjunto de nervos expostos que vai desde pianos percussivos e repetitivos, que soam como um alarme de ansiedade constante, até crescendos orquestrais que amplificam o perigo... No que tange às atuações, DiCaprio entrega uma performance surpreendentemente física, utilizando seu corpo como um instrumento de comédia e tragédia, tropeçando e caindo enquanto tenta (sem conseguir) ser o herói que sua filha precisa (algo muito bem resumido pela sua incapacidade de lembrar dos códigos de contato com a resistência e mesmo trechos dos seus manifestos). Benicio del Toro, como o Sensei Sergio, rouba cada cena com uma estoicidade hilária, liderando um exército improvável de ninjas skatistas que exemplifica o absurdo maravilhoso do universo de Anderson (O filme também conta com freiras guerrilheiras plantadoras de maconha e esta Castanha não está brincando quanto a isso!)... O LockJaw (de Penn) é (por sua vez) detalhadamente composto a um infinitésimo de uma caricatura. Com trejeitos afetados (levemente afeminados) sobrepostos a atitudes machistas estereotipadas. Por exemplo, ele anda com as pernas arqueadas e de maneira ritmada lembrando um cowboy ao mesmo tempo em que parece ter recebido um doloroso experimento de ordenha da próstata (algo que Perfídia realizou nele aparentemente) (**).
(**) Ele chega mesmo a sugerir no final aos Supremacistas que Perfídia o "Estuprou em Reverso" roubando-lhe o seu sêmen (!). Isso parece remeter diretamente ao General Ripper de Dr. Strangelove de Kubrick e os seus infames "preciosos fluidos corporais". Aliás vários comentaristas tem feito conexão com a obra de Kubrick (muito na veia da sua paranoia absurda), inclusive o próprio Spielberg (grande fã e amigo de Kubrick).
Em conclusão, One Battle After Another de Paul Thomas Anderson é um triunfo complexo e desafiador, um filme que se recusa a ser simples ou consolador. O seu veredicto sobre os temas da resistência e do extremismo é ambivalente e, por isso, poderosamente honesto: a luta é um ciclo inescapável (de fato "uma batalha após a outra"), frequentemente corrompida por falhas humanas e traições, mas a sua chama – especialmente quando transferida para uma nova geração mais lúcida e menos dogmática – permanece como única resposta à desumanização. Os personagens principais, Bob e Willa, encontram a sua redenção não numa vitória política clara, mas na reconstrução do seu vínculo familiar em bases mais saudáveis e honestas, sugerindo que a resistência mais profunda pode começar no âmbito pessoal. Para a obra de Anderson, este filme é um marco de maturidade e coragem, provando que o seu génio para a caracterização pode florescer numa escala blockbuster sem ceder à simplificação, criando aquela que é simultaneamente a sua obra mais acessível e uma das suas mais ricas tematicamente. Para além da sua filmografia, One Battle After Another impacta o cinema contemporâneo ao reivindicar um espaço meio esquecido: o do grande filme de ideias com o coração de um thriller implacável e a inteligência de um olhar crítico implacável. É uma obra que, como os seus protagonistas, acredita que a batalha, por mais cansativa que seja, vale sempre a pena ser travada, oferecendo-nos no processo um farol de excelência cinematográfica num panorama cultural frequentemente amnésico.
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