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EPISÓDIOS
01 We is Us [****]
02 Pirate Lady [***1/2]
03 Grenade [***]
04 Please Carol [***]
05 Got Milk [***]
06 HDP [***]
07 The Gap [***]
08 Charm Offensive [***]
09 La Chica O El Mundo [***1/2]
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REVIEW
A primeira temporada de Pluribus, série de ficção científica lançada pela Apple TV+ em novembro de 2025, representa um ponto de inflexão nas já consagradas carreiras de seu criador, Vince Gilligan, e de sua protagonista, Rhea Seehorn. Gilligan, aclamado por ter redefinido o drama televisivo com Breaking Bad e sua prequel Better Call Saul, transita aqui para um território de alta conceituação científica (do qual não é nenhum estranho: vide os seus tempos em The X-Files), mantendo, porém, sua assinatura autoral: uma narrativa paciente, uma construção de personagens granular e um olhar penetrante sobre a moralidade humana. Para Seehorn, cuja interpretação da complexa Kim Wexler em BCS já era referência, o papel da amarga e pessimista Carol Sturka funciona como uma ampliação de seu registro, exigindo-lhe canalizar uma vulnerabilidade raivosa e um cinismo profundo que carregam o peso emocional da série. A temporada se insere com pertinência no contexto midiático de 2025, um período de intenso debate sobre os limites da inteligência artificial, a homogeneização cultural promovida pelas redes sociais e a busca, por vezes paradoxal, por felicidade e conformidade. Pluribus pega essa ansiedade coletiva e a extrapola para um cenário apocalíptico peculiar, questionando não um futuro distópico sombrio, mas um supostamente utópico, desafiando a audiência a refletir sobre o preço da harmonia e mesmo o valor da imperfeição.
A narrativa da primeira temporada se desenrola a partir de um evento cataclísmico singular: um vírus de origem extraterrestre transforma quase toda a humanidade em uma mente coletiva pacífica e perfeitamente satisfeita, conhecida como "União" ou "Os Outros". Contra esse pano de fundo, a autora de romances levemente eróticos Carol Sturka (Rhea Seehorn) (personagem natural de Albuquerque - cenário base da série) descobre ser uma das apenas treze pessoas no mundo imunes ao efeito do vírus. Sua missão, contudo, não é heroica no sentido tradicional; é uma luta visceral pela preservação de sua individualidade misantropa e caótica contra uma força que oferece paz e felicidade absolutas. Nessa jornada, ela é acompanhada por Zosia (Karolina Wydra) (personagem natural da Polônia e que apareceu pela primeira vez no Marrocos, algo que deverá ser explorado no futuro da série), uma integrante da mente coletiva designada para ser sua guia e companheira, cuja serenidade inabalável serve tanto de contraponto quanto de espelho distorcido para a angústia de Carol. Paralelamente, Carol entra em conflito e eventual aliança com o paraguaio Manousos Oviedo (Carlos-Manuel Vesga), outro imune que, diferentemente dela, opta por um isolamento total e uma resistência agressiva à assimilação. Os conflitos centrais giram em torno da desconfiança fundamental: a "União" é genuinamente benéfica ou uma forma insidiosa de escravidão? A felicidade imposta vale a perda da liberdade, da arte, do amor conflituoso e da própria história humana? A temporada utiliza a estrutura de uma estrada literária e física – com o casal Carol e Zosia viajando eventualmente por um mundo transformado – para desenvolver esses temas, mostrando como a ausência de dor também apaga a capacidade de criação, empatia genuína e crescimento.
A realização audiovisual de Pluribus é meticulosa e serve como um braço narrativo essencial. A direção de Vince Gilligan e sua equipe privilegia planos longos e um ritmo deliberadamente lento, criando uma atmosfera de desconforto e estranheza que imita a experiência da protagonista. A fotografia, frequentemente usando paletas de cores contrastantes – os tons quentes e desbotados dos espaços humanos remanescentes contra a limpeza fria e iluminada dos ambientes da "União" –, sublinha visualmente o conflito entre o caos orgânico e a ordem artificial. A montagem é econômica, confiando na potência do silêncio e da expressão dos atores para transmitir informação, uma técnica que Gilligan domina como poucos na TV. Nesse aspecto, as atuações são fundamentais. Rhea Seehorn oferece uma performance de virtuose, construindo uma Carol que é irritante, egoísta e tragicamente vulnerável, sem jamais perder a humanidade do espectador. Karolina Wydra, por sua vez, é magistral na sua ambiguidade, transmitindo uma calma que pode ser entendida como sabedoria ou como a mais profunda ameaça. Carlos-Manuel Vesga traz uma presença física e uma determinação silenciosa que faz de Manousos um contraponto pragmático e necessário. A trilha sonora assinada por Dave Porter abandona as melodias tradicionais, optando por texturas eletrônicas e ambientais que amplificam a sensação de desconexão e de um mundo reconfigurado por uma lógica alienígena.
A primeira temporada de Pluribus, obra do estupendo Vince Gilligan com uma atuação central indelével de sua musa Rhea Seehorn, conclui sua jornada inicial com um veredicto complexo e provocador. A série não oferece respostas fáceis sobre se a individualidade, com toda sua dor e conflito, é preferível a uma coletividade harmoniosa. Em vez disso, ela valida a luta pela autonomia de ser como um ato fundamental de resistência, ainda que os "heróis" dessa causa sejam profundamente falhos. Carol Sturka, Zosia e Manousos Oviedo emergem não como vencedores ou perdedores claros, mas como símbolos de diferentes respostas a uma transformação existencial. O impacto de Pluribus extrapola seu enredo, estabelecendo um novo patamar para a ficção científica televisiva ao fundir uma premissa de alta conceituação com um drama de personagens profundamente humano. Para a audiência de 2025, a série funciona como um espelho distorcido e poderoso, convidando à reflexão sobre conformidade, felicidade superficial e o valor inestimável da autenticidade imperfeita. Como um todo, Pluribus reforça o poder da televisão como meio para explorar as grandes questões filosóficas do nosso tempo, provando que a mais original das narrativas pode surgir da simples, porém eterna, dúvida sobre o que verdadeiramente nos define como espécie.
Em tempo #1: O amor que a "União" declara por Carol seguidas vezes aqui é um dos pontos mais intrigantes da atração. Cuidado absoluto de toda a humanidade por um dos seus ou apenas o vírus tentando cumprir o seu imperativo biológico de assimilação? Carol termina a temporada votando na segunda opção (tendo os seus óvulos congelados roubados, algo que agora permite a sua absorção unilateral pela coletividade E tendo agora uma bomba atômica de estimação como medida dissuasória).
Em tempo #2: É curioso como a diferença de atitude entre Carol e Manousos parece espelhar as diferenças entre as suas classes socioeconômicas e a distinção entre capitalismo central e periférico na Economia Global (e notem que contrariando clichês a posição de Manousos não tem nada de socialista).
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