segunda-feira, 10 de novembro de 2025

FRIEREN S1 (2023)

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EPISÓDIOS

01 "The Journey's End" [***1/2]
02 "It Didn't Have to Be Magic…" [***]
03 "Killing Magic" [***]
04 "The Land Where Souls Rest" [***]
05 "Phantoms of the Dead" [**1/2]
06 "The Hero of the Village" [***1/2]
07 "Like a Fairy Tale" [***1/2]
08 "Frieren the Slayer" [****]
09 "Aura the Guillotine" [****]
10 "A Powerful Mage" [****]
11 "Winter in the Northern Lands" [**1/2]
12 "A Real Hero" [***1/2]
13 "Aversion to One's Own Kind" [**1/2]
14 "Privilege of the Young" [***1/2]
15 "Smells Like Trouble" [***1/2]
16 "Long-Lived Friends" [***]
17 "Take Care" [***]
18 "First-Class Mage Exam" [***]
19 "Well-Laid Plans" [***]
20 "Necessary Killing" [***]
21 "The World of Magic" [****]
22 "Future Enemies" [***]
23 "Conquering the Labyrinth" [***1/2]
24 "Perfect Replicas" [***1/2]
25 "A Fatal Vulnerability" [****]
26 "The Height of Magic" [****]
27 "An Era of Humans" [****]
28 "It Would Be Embarrassing When We Met Again" [****]

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REVIEW

A primeira temporada do anime Frieren: Beyond Journey's End (Sousou no Frieren), lançada entre 2023 e 2024, consolidou-se como um ponto de inflexão na carreira do estúdio Madhouse e um marco na animação japonesa contemporânea. Baseada no aclamado mangá de Kanehito Yamada e Tsukasa Abe, vencedor do prestigiado prêmio Manga Taishō, a adaptação surge em um cenário de saturação de narrativas de fantasia épica, propondo uma reflexão profunda e melancólica sobre o que acontece após o tradicional "felizes para sempre". Ao colocar no centro da trama uma elfa virtualmente imortal (a titular Frieren) que enfrenta o lento e inexorável passar do tempo, o peso do arrependimento e a complexidade do luto, a série conecta-se profundamente com uma audiência global em um período pós-pandêmico, onde temas como a efemeridade das conexões, a valorização do cotidiano e o processamento emocional da perda ganharam relevância inédita. A obra se afasta da busca por um objetivo externo grandioso para embarcar em uma jornada interior de autodescoberta, um movimento que a insere na tradição de narrativas contemplativas da Madhouse, ao mesmo tempo que renova radicalmente os códigos do gênero de fantasia com uma abordagem introspectiva, filosófica e esteticamente sublime. Este reposicionamento, reconhecido pela crítica e pelo público, que a celebra por seus temas de memória e relacionamentos , demonstra uma maturidade narrativa rara, elevando a série à condição de fenômeno cultural que transcende o nicho dos animes.

A narrativa da primeira temporada inicia-se após a derrota do Rei Demônio, evento tradicionalmente tratado como desfecho final em outras histórias do gênero. Acompanhamos a maga élfica Frieren (voz de Atsumi Tanezaki), cuja vida se estende por milênios, enquanto ela lida com as consequências do tempo sobre seus companheiros mortais. A morte por velhice do herói líder Himmel (Nobuhiko Okamoto) funciona como catalisador essencial para o enredo, fazendo Frieren confrontar dolorosamente um arrependimento profundo e transformador: ela dedicou uma década de sua vida infinita à jornada épica ao lado de Himmel, do sacerdote Heiter (Hiroki Tochi) e do guerreiro anão Eisen (Yoji Ueda), mas nunca se esforçou genuinamente para compreendê-los em sua efêmera e vibrante humanidade. Movida por esse remorso e pelo último pedido de um moribundo Heiter, ela assume como discípula a talentosa jovem órfã Fern (Kana Ichinose), embarcando com ela em uma nova viagem rumo ao extremo norte, ao lendário local onde as almas dos mortos descansam, com a promessa de um reencontro simbólico e reparador com Himmel. Ao longo do caminho, juntam-se a elas o guerreiro Stark (um discípulo de Eisen com voz de Chiaki Kobayashi), um jovem de força colossal mas assombrado por uma insegurança profunda, formando um novo grupo que ecoa e contrasta deliberadamente com a dinâmica do antigo. A trama estrutura-se em arcos episódicos que magistralmente misturam fantasia, meros slices of life e ação, onde o verdadeiro conflito não reside em monstros colossais, mas no processo lento, doloroso e belo de Frieren aprender a dar significado ao tempo finito, às memórias passageiras e aos laços afetivos, entendendo a beleza da transitoriedade humana que ela outrora ignorou com distração imortal (flashbacks misturam topicamente as duas jornadas e além, sem cerimônias ou avisos).

A realização audiovisual é absolutamente fundamental para materializar essas reflexões tão subjetivas e emocionais. A direção não menos do que visionária de Keiichiro Saito e a produção meticulosa da Madhouse optam por uma abordagem visual profundamente contemplativa, empregando uma paleta de cores frequentemente suave e pastel que enfatiza a nostalgia, a serenidade e a passagem poética das estações, intercalada com explosões calculadas de cores vibrantes e efeitos luminosos espetaculares durante os raros, porém devastadoramente impactantes, combates mágicos. A animação dos feitiços, como o já icônico e letal Zoltraak, é de uma fluidez e criatividade notáveis, empregando técnicas tridimensionais sofisticadas para dar uma dinamicidade coreográfica aos confrontos, sem jamais abandonar a clareza narrativa e o peso tático de cada movimento. A trilha sonora, composta pelo talentoso californiano Evan Call, é um elemento narrativo por si só, uma verdadeira protagonista auditiva; seus temas orquestrais, que transitam do melancólico introspectivo ao heroico grandioso, reforçam de maneira comovente a dimensão emocional e a escala épica da jornada interior da personagem. As aberturas e encerramentos também carregam significado profundo, com Yuusha de Yoasobi e Anytime Anywhere de Milet (que pode ser vista como uma espécie de conversa entre Frieren e Himmel do além, interpretação que se torna cada vez mais emocionante ao longo da temporada), cujas letras poéticas falam de heroísmo, memória e saudade, resumindo perfeitamente o cerne temático da série. As performances de dublagem alcançam níveis de excelência, com Atsumi Tanezaki capturando magistralmente a frieza inicial e o gradual "descongelar" emocional de Frieren através de nuances sutis na entonação, enquanto Kana Ichinose e Chiaki Kobayashi dão vida a Fern e Stark com uma mistura convincente de vulnerabilidade juvenil e determinação crescente. A montagem, por sua vez, utiliza com maestria flashbacks recorrentes, contrastando a mesma paisagem ou vilarejo visitado com décadas de intervalo, para visualizar de forma concreta, poética e profundamente comovente a passagem implacável do tempo, que é o tema central e o verdadeiro antagonista da obra.

A primeira temporada de Frieren: Beyond Journey's End, sob a visão filosófica dos criadores originais Kanehito Yamada e Tsukasa Abe e da equipe magistral do estúdio Madhouse comandada COM EXTREMA CONFIANÇA E SEGURANÇA por Keiichiro Saito, conclui seu arco inaugural estabelecendo a série de forma indelével como uma obra-prima moderna do gênero de fantasia e um marco da animação narrativa. O veredicto final sobre seus temas é de uma rara e tocante sabedoria, uma beleza melancólica que ressoa muito após o término dos episódios: a série argumenta, com profunda sensibilidade e sem sentimentalismos baratos, que o significado último da vida não reside exclusivamente nos grandes feitos heroicos ou nos legados monumentais, mas sim nos pequenos e aparentemente insignificantes momentos compartilhados, nas lembranças simples que cultivamos com cuidado, e no esforço sincero e presente de conhecer e compreender aquelas almas passageiras que caminham conosco, por mais breve que seja essa travessia comum. A jornada de Frieren e Fern é, em sua essência mais pura, uma jornada dual de cura e crescimento mútuo, onde a elfa milenar começa a reparar pacientemente sua desconexão emocional secular, enquanto a jovem humana aprende a forjar seu próprio caminho de poder e identidade além da sombra da obrigação e da gratidão. O impacto cultural da série extrapola em muito seu já expressivo sucesso de crítica e público, refletido em sua posição elevada em plataformas especializadas e na aclamação geral que destaca seu crescimento de personagem e narrativa introspectiva . Ela demonstra, de forma cristalina, que há espaço vasto e fértil na mídia contemporânea para narrativas de fantasia maduras, introspectivas e focadas em emoções humanas universais, elevando o potencial narrativo do anime a patamares literários e oferecendo um contraponto valioso e necessário à cultura vigente da urgência, do espetáculo instantâneo e do esquecimento rápido. Frieren: Beyond Journey's End ergue-se, assim, como uma meditação tocante, artisticamente sublime e filosoficamente rica sobre a mortalidade, a memória afetiva e as frágeis e eternas conexões que nos definem, tornando-se um marco indelével não apenas para sua audiência dedicada, mas para a televisão e a animação como um todo.

P.S.: Prestem atenção no feitiço do campo de flores...
 
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