quinta-feira, 27 de novembro de 2025

THE DIPLOMAT S3 (2025)

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EPISÓDIOS

01 Emperor Dead [***1/2]
02 Last Dance At The Country Club [***]
03 The Riderless Horse [***]
04 Arden [**1/2]
05 BirdWatchers [**1/2]
06 AmaganSett [***1/2]
07 PNG [**1/2]
08 Schrodingers Wife [***1/2]

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ACASTANHADAS

A terceira temporada de The Diplomat (2025) eleva o thriller político romântico (ou romântico político como vê criticamente esta Castanha) a novos patamares de tensão e absurdos gloriosos. A história começa no caótico rescaldo da morte do presidente Rayburn, que Hal pode ter inadvertidamente causado. A vice-presidente Grace Penn assume o cargo e, em uma manobra surpreendente, escolhe o próprio Hal como seu vice-presidente, relegando Kate ao papel de segunda-dama (!). Kate é então forçada a um malabarismo impossível: manter seu posto de embaixadora no Reino Unido enquanto é sistematicamente arrastada para as crises diárias da Casa Branca.

Enquanto navega por essa dupla vida, Kate eventualmente enfrenta uma perigosa ameaça militar: um submarino russo naufragado e armado com a arma nuclear Poseidon (um dos muitos "bichos papões" do arsenal russo – em tese um Drone capaz de submergir o reino unido e boa parte da Europa gerando tsunamis carregados de radiação) e um romance inesperado com o charmoso espião irlandês Callum Ellis (Aidan Turner). Paralelamente, Hal se transforma em um vice-presidente astuto, formando uma parceria política formidável e alarmante com a presidente Penn. Essa dinâmica afasta ainda mais Kate e levanta questões sobre até onde Hal irá para manter seu poder.

A temporada brilha com as performances de Keri Russell (como Kate), que transborda frustração e genialidade, e de Rufus Sewell, que torna Hal complexo e cativante. A presença ampliada de Allison Janney como a presidente Penn e a adição de Bradley Whitford como seu marido trazem uma química eletrizante.

O ritmo é frenético (nos seus termos), o diálogo, afiado, e a trama, repleta de reviravoltas. O final, porém, é um golpe de mestre (em muitos níveis): Kate descobre que Hal e Grace conspiraram para extrair secretamente o Poseidon para a américa, um ato que pode ser visto como de guerra pelo Reino Unido (pois o citado Drone que estava em águas britânicas é basicamente uma arma do juízo final!). O cliffhanger redefine todas as alianças e deixa Kate diante de uma decisão impossível. Uma quarta temporada terá que lidar com as consequências dessa traição, forçando Kate a escolher entre expor a verdade ou se juntar aos conspiradores para controlar o dano. O futuro da série nunca pareceu tão incerto e promissor.

Em tempo: Pena que a intriga política (e a espionagem) fiquem muitas vezes em segundo plano frente os vários relacionamentos/romances. Talvez esta Castanha deva migrar para um produto de espionagem "puro sangue". 

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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

ONE PUNCH MAN S3 (2025)

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EPISÓDIOS

01 ∙ Strategy Meeting [ZERO]
02 ∙ Monster Traits [ZERO]
03 ∙ Organism Limits [ZERO]
04 ∙ Counterattack Signal [ZERO]
05 ∙ Monster King [ZERO]
06 ∙ Motley Heroes [ZERO]
07 ∙ Counterstrike [ZERO]
08 ∙ Ninja Tale [**]
09 ∙ Brave Child [*]
10 ∙ Immortal BloodBath [ZERO]
11 ∙ Top Dragons [ZERO]
12 ∙ Ultimate Lifeform [*]

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REVIEW

Esta terceira temporada nasce em um contexto de produção muito mais restrito do que aquele que deu origem ao segmento inicial da obra em anime. Depois do INEGÁVEL impacto  da primeira fornada de episódios, o comitê responsável reduziu investimentos, redistribuiu equipes e passou a lidar com uma agenda cada vez mais apertada, consequência direta do crescimento abrupto da demanda global por animação. A segunda temporada já havia sinalizado essas limitações (apesar de alguns fãs negacionistas!), mas a terceira as amplifica: menos animadores experientes disponíveis, cronogramas comprimidos e um planejamento que não permitia revisões profundas das sequências mais complexas. Improvisos passaram a substituir polimentos técnicos e a temporada inteira nasceu condicionada por esse cenário de escassez, o que compromete desde a concepção das cenas até a execução final.

Esse ambiente restrito impacta imediatamente o arco da vez, a adaptação do arco do resgate do filho de um influente financiador da Associação de Heróis, sequestrado e levado para o vasto e caótico covil subterrâneo da Associação de Monstros. No mangá, esse trecho se apoia em tensão constante, sensação de profundidade espacial e uma progressão dramática clara dentro do labirinto. Na terceira temporada animada, o potencial desse arco é prejudicado porque a limitação de recursos impede a criação de ambientes variados e convincentes. Os corredores apresentam repetição visual evidente, com pequenas mudanças de iluminação ou textura que não sustentam a sensação de deslocamento contínuo. O covil deveria parecer vivo, perigoso e imprevisível; em vez disso, muitas áreas parecem reutilizações sutis de cenas anteriores, o que compromete o impacto narrativo.

A animação sofre principalmente na fluidez dos movimentos e no peso físico das ações. Os confrontos dentro do subterrâneo carecem de consistência na velocidade e no volume dos quadros. Movimentos que exigiriam transições mais refinadas acabam simplificados, resultando em trajetórias rígidas e impactos que não criam a sensação de massa ou potência. Mesmo figuras de alta relevância, como combatentes de elite da Associação de Heróis ou entidades monstruosas que deveriam transmitir ameaça imediata, se movem com acelerações estranhas ou desacelerações abruptas, o que compromete tanto a leitura visual quanto o envolvimento emocional.

A direção também reflete as limitações impostas ao projeto. O humor da obra original depende do contraste entre grandiosidade estética e trivialidade de atitude do protagonista (largamente ausente nesta terceira temporada). Sem complexidade visual suficiente, esse contraste não se completa. A direção tenta manter a solenidade dos momentos de grande escala, mas o ritmo irregular e a montagem pouco expressiva dificultam a construção de clímax. Sequências que deveriam crescer organicamente acabam interrompidas por cortes secos. Outras, que pediriam concisão, se estendem demais. Essa inconsistência mina tanto o humor quanto a seriedade dramática do arco do resgate. Episódios que deveriam alternar tensão real e ironia fina acabam produzindo uma sensação de distanciamento emocional.

O resgate do menino, ponto central da temporada, exemplifica essa perda de precisão tonal. A operação deveria concentrar preocupação, urgência e progressão lógica à medida que os grupos avançam pelo subterrâneo. Em vez disso, a transição entre setores do covil é pouco clara, a ameaça dos monstros não se acumula de forma convincente e o percurso dos heróis não cria a sensação de avanço. O menino é encontrado dentro de uma sequência que, embora tente manter fidelidade ao material base, não transmite peso dramático suficiente. A falta de construção visual consistente transforma momentos que deveriam ser memoráveis em passagens rápidas, quase funcionais.

O conjunto final da temporada revela um projeto que tenta preservar a estrutura da obra original, mas não dispõe das condições ideais para isso. A ambição continua presente (em meio as condições desfavoráveis), mas a forma não acompanha. A combinação de orçamento comprimido, equipe reduzida e cronograma insuficiente produz uma adaptação que respeita a narrativa no plano geral, mas não consegue dar vida visual e tonal ao que torna essa história única. É uma temporada que não falha por falta de intenção (até acreditamos), e sim por falta de meios.

Em tempo: Respondendo antecipadamente, esta temporada de fato merece SIM as críticas virulentas recebidas. Os valores de produção foram DE FATO tão lastimáveis que a imensa maioria dos episódios não é sequer digna de nota (ver acima!). A falta de coesão da narrativa e a aspereza da montagem chegam a assustar pela falta do mínimo de profissionalismo e caso o espectador não desista no meio do caminho (O que com certeza é a mais sábia decisão aqui!) é quase que inevitável começar a rir pelos motivos errados... A pobreza da apresentação salta aos olhos (por exemplo: usando e abusando de uma certa atitude "mangá em tela" que dá nos nervos depois que se nota o uso recorrente de tão infame "recurso".)

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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

FRIEREN S1 (2023)

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EPISÓDIOS

01 "The Journey's End" [***1/2]
02 "It Didn't Have to Be Magic…" [***]
03 "Killing Magic" [***]
04 "The Land Where Souls Rest" [***]
05 "Phantoms of the Dead" [**1/2]
06 "The Hero of the Village" [***1/2]
07 "Like a Fairy Tale" [***1/2]
08 "Frieren the Slayer" [****]
09 "Aura the Guillotine" [****]
10 "A Powerful Mage" [****]
11 "Winter in the Northern Lands" [**1/2]
12 "A Real Hero" [***1/2]
13 "Aversion to One's Own Kind" [**1/2]
14 "Privilege of the Young" [***1/2]
15 "Smells Like Trouble" [***1/2]
16 "Long-Lived Friends" [***]
17 "Take Care" [***]
18 "First-Class Mage Exam" [***]
19 "Well-Laid Plans" [***]
20 "Necessary Killing" [***]
21 "The World of Magic" [****]
22 "Future Enemies" [***]
23 "Conquering the Labyrinth" [***1/2]
24 "Perfect Replicas" [***1/2]
25 "A Fatal Vulnerability" [****]
26 "The Height of Magic" [****]
27 "An Era of Humans" [****]
28 "It Would Be Embarrassing When We Met Again" [****]

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REVIEW

A primeira temporada do anime Frieren: Beyond Journey's End (Sousou no Frieren), lançada entre 2023 e 2024, consolidou-se como um ponto de inflexão na carreira do estúdio Madhouse e um marco na animação japonesa contemporânea. Baseada no aclamado mangá de Kanehito Yamada e Tsukasa Abe, vencedor do prestigiado prêmio Manga Taishō, a adaptação surge em um cenário de saturação de narrativas de fantasia épica, propondo uma reflexão profunda e melancólica sobre o que acontece após o tradicional "felizes para sempre". Ao colocar no centro da trama uma elfa virtualmente imortal (a titular Frieren) que enfrenta o lento e inexorável passar do tempo, o peso do arrependimento e a complexidade do luto, a série conecta-se profundamente com uma audiência global em um período pós-pandêmico, onde temas como a efemeridade das conexões, a valorização do cotidiano e o processamento emocional da perda ganharam relevância inédita. A obra se afasta da busca por um objetivo externo grandioso para embarcar em uma jornada interior de autodescoberta, um movimento que a insere na tradição de narrativas contemplativas da Madhouse, ao mesmo tempo que renova radicalmente os códigos do gênero de fantasia com uma abordagem introspectiva, filosófica e esteticamente sublime. Este reposicionamento, reconhecido pela crítica e pelo público, que a celebra por seus temas de memória e relacionamentos , demonstra uma maturidade narrativa rara, elevando a série à condição de fenômeno cultural que transcende o nicho dos animes.

A narrativa da primeira temporada inicia-se após a derrota do Rei Demônio, evento tradicionalmente tratado como desfecho final em outras histórias do gênero. Acompanhamos a maga élfica Frieren (voz de Atsumi Tanezaki), cuja vida se estende por milênios, enquanto ela lida com as consequências do tempo sobre seus companheiros mortais. A morte por velhice do herói líder Himmel (Nobuhiko Okamoto) funciona como catalisador essencial para o enredo, fazendo Frieren confrontar dolorosamente um arrependimento profundo e transformador: ela dedicou uma década de sua vida infinita à jornada épica ao lado de Himmel, do sacerdote Heiter (Hiroki Tochi) e do guerreiro anão Eisen (Yoji Ueda), mas nunca se esforçou genuinamente para compreendê-los em sua efêmera e vibrante humanidade. Movida por esse remorso e pelo último pedido de um moribundo Heiter, ela assume como discípula a talentosa jovem órfã Fern (Kana Ichinose), embarcando com ela em uma nova viagem rumo ao extremo norte, ao lendário local onde as almas dos mortos descansam, com a promessa de um reencontro simbólico e reparador com Himmel. Ao longo do caminho, juntam-se a elas o guerreiro Stark (um discípulo de Eisen com voz de Chiaki Kobayashi), um jovem de força colossal mas assombrado por uma insegurança profunda, formando um novo grupo que ecoa e contrasta deliberadamente com a dinâmica do antigo. A trama estrutura-se em arcos episódicos que magistralmente misturam fantasia, meros slices of life e ação, onde o verdadeiro conflito não reside em monstros colossais, mas no processo lento, doloroso e belo de Frieren aprender a dar significado ao tempo finito, às memórias passageiras e aos laços afetivos, entendendo a beleza da transitoriedade humana que ela outrora ignorou com distração imortal (flashbacks misturam topicamente as duas jornadas e além, sem cerimônias ou avisos).

A realização audiovisual é absolutamente fundamental para materializar essas reflexões tão subjetivas e emocionais. A direção não menos do que visionária de Keiichiro Saito e a produção meticulosa da Madhouse optam por uma abordagem visual profundamente contemplativa, empregando uma paleta de cores frequentemente suave e pastel que enfatiza a nostalgia, a serenidade e a passagem poética das estações, intercalada com explosões calculadas de cores vibrantes e efeitos luminosos espetaculares durante os raros, porém devastadoramente impactantes, combates mágicos. A animação dos feitiços, como o já icônico e letal Zoltraak, é de uma fluidez e criatividade notáveis, empregando técnicas tridimensionais sofisticadas para dar uma dinamicidade coreográfica aos confrontos, sem jamais abandonar a clareza narrativa e o peso tático de cada movimento. A trilha sonora, composta pelo talentoso californiano Evan Call, é um elemento narrativo por si só, uma verdadeira protagonista auditiva; seus temas orquestrais, que transitam do melancólico introspectivo ao heroico grandioso, reforçam de maneira comovente a dimensão emocional e a escala épica da jornada interior da personagem. As aberturas e encerramentos também carregam significado profundo, com Yuusha de Yoasobi e Anytime Anywhere de Milet (que pode ser vista como uma espécie de conversa entre Frieren e Himmel do além, interpretação que se torna cada vez mais emocionante ao longo da temporada), cujas letras poéticas falam de heroísmo, memória e saudade, resumindo perfeitamente o cerne temático da série. As performances de dublagem alcançam níveis de excelência, com Atsumi Tanezaki capturando magistralmente a frieza inicial e o gradual "descongelar" emocional de Frieren através de nuances sutis na entonação, enquanto Kana Ichinose e Chiaki Kobayashi dão vida a Fern e Stark com uma mistura convincente de vulnerabilidade juvenil e determinação crescente. A montagem, por sua vez, utiliza com maestria flashbacks recorrentes, contrastando a mesma paisagem ou vilarejo visitado com décadas de intervalo, para visualizar de forma concreta, poética e profundamente comovente a passagem implacável do tempo, que é o tema central e o verdadeiro antagonista da obra.

A primeira temporada de Frieren: Beyond Journey's End, sob a visão filosófica dos criadores originais Kanehito Yamada e Tsukasa Abe e da equipe magistral do estúdio Madhouse comandada COM EXTREMA CONFIANÇA E SEGURANÇA por Keiichiro Saito, conclui seu arco inaugural estabelecendo a série de forma indelével como uma obra-prima moderna do gênero de fantasia e um marco da animação narrativa. O veredicto final sobre seus temas é de uma rara e tocante sabedoria, uma beleza melancólica que ressoa muito após o término dos episódios: a série argumenta, com profunda sensibilidade e sem sentimentalismos baratos, que o significado último da vida não reside exclusivamente nos grandes feitos heroicos ou nos legados monumentais, mas sim nos pequenos e aparentemente insignificantes momentos compartilhados, nas lembranças simples que cultivamos com cuidado, e no esforço sincero e presente de conhecer e compreender aquelas almas passageiras que caminham conosco, por mais breve que seja essa travessia comum. A jornada de Frieren e Fern é, em sua essência mais pura, uma jornada dual de cura e crescimento mútuo, onde a elfa milenar começa a reparar pacientemente sua desconexão emocional secular, enquanto a jovem humana aprende a forjar seu próprio caminho de poder e identidade além da sombra da obrigação e da gratidão. O impacto cultural da série extrapola em muito seu já expressivo sucesso de crítica e público, refletido em sua posição elevada em plataformas especializadas e na aclamação geral que destaca seu crescimento de personagem e narrativa introspectiva . Ela demonstra, de forma cristalina, que há espaço vasto e fértil na mídia contemporânea para narrativas de fantasia maduras, introspectivas e focadas em emoções humanas universais, elevando o potencial narrativo do anime a patamares literários e oferecendo um contraponto valioso e necessário à cultura vigente da urgência, do espetáculo instantâneo e do esquecimento rápido. Frieren: Beyond Journey's End ergue-se, assim, como uma meditação tocante, artisticamente sublime e filosoficamente rica sobre a mortalidade, a memória afetiva e as frágeis e eternas conexões que nos definem, tornando-se um marco indelével não apenas para sua audiência dedicada, mas para a televisão e a animação como um todo.

P.S.: Prestem atenção no feitiço do campo de flores...
 
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domingo, 9 de novembro de 2025

PLURIBUS S1 (2025)

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EPISÓDIOS

01 We is Us [****]
02 Pirate Lady [***1/2]
03 Grenade [***]
04 Please Carol [***]
05 Got Milk [***]
06 HDP [***]
07 The Gap [***]
08 Charm Offensive [***]
09 La Chica O El Mundo [***1/2]

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REVIEW

A primeira temporada de Pluribus, série de ficção científica lançada pela Apple TV+ em novembro de 2025, representa um ponto de inflexão nas já consagradas carreiras de seu criador, Vince Gilligan, e de sua protagonista, Rhea Seehorn. Gilligan, aclamado por ter redefinido o drama televisivo com Breaking Bad e sua prequel Better Call Saul, transita aqui para um território de alta conceituação científica (do qual não é nenhum estranho: vide os seus tempos em The X-Files), mantendo, porém, sua assinatura autoral: uma narrativa paciente, uma construção de personagens granular e um olhar penetrante sobre a moralidade humana. Para Seehorn, cuja interpretação da complexa Kim Wexler em BCS já era referência, o papel da amarga e pessimista Carol Sturka funciona como uma ampliação de seu registro, exigindo-lhe canalizar uma vulnerabilidade raivosa e um cinismo profundo que carregam o peso emocional da série. A temporada se insere com pertinência no contexto midiático de 2025, um período de intenso debate sobre os limites da inteligência artificial, a homogeneização cultural promovida pelas redes sociais e a busca, por vezes paradoxal, por felicidade e conformidade. Pluribus pega essa ansiedade coletiva e a extrapola para um cenário apocalíptico peculiar, questionando não um futuro distópico sombrio, mas um supostamente utópico, desafiando a audiência a refletir sobre o preço da harmonia e mesmo o valor da imperfeição.

A narrativa da primeira temporada se desenrola a partir de um evento cataclísmico singular: um vírus de origem extraterrestre transforma quase toda a humanidade em uma mente coletiva pacífica e perfeitamente satisfeita, conhecida como "União" ou "Os Outros". Contra esse pano de fundo, a autora de romances levemente eróticos Carol Sturka (Rhea Seehorn) (personagem natural de Albuquerque - cenário base da série) descobre ser uma das apenas treze pessoas no mundo imunes ao efeito do vírus. Sua missão, contudo, não é heroica no sentido tradicional; é uma luta visceral pela preservação de sua individualidade misantropa e caótica contra uma força que oferece paz e felicidade absolutas. Nessa jornada, ela é acompanhada por Zosia (Karolina Wydra) (personagem natural da Polônia e que apareceu pela primeira vez no Marrocos, algo que deverá ser explorado no futuro da série), uma integrante da mente coletiva designada para ser sua guia e companheira, cuja serenidade inabalável serve tanto de contraponto quanto de espelho distorcido para a angústia de Carol. Paralelamente, Carol entra em conflito e eventual aliança com o paraguaio Manousos Oviedo (Carlos-Manuel Vesga), outro imune que, diferentemente dela, opta por um isolamento total e uma resistência agressiva à assimilação. Os conflitos centrais giram em torno da desconfiança fundamental: a "União" é genuinamente benéfica ou uma forma insidiosa de escravidão? A felicidade imposta vale a perda da liberdade, da arte, do amor conflituoso e da própria história humana? A temporada utiliza a estrutura de uma estrada literária e física – com o casal Carol e Zosia viajando eventualmente por um mundo transformado – para desenvolver esses temas, mostrando como a ausência de dor também apaga a capacidade de criação, empatia genuína e crescimento.

A realização audiovisual de Pluribus é meticulosa e serve como um braço narrativo essencial. A direção de Vince Gilligan e sua equipe privilegia planos longos e um ritmo deliberadamente lento, criando uma atmosfera de desconforto e estranheza que imita a experiência da protagonista. A fotografia, frequentemente usando paletas de cores contrastantes – os tons quentes e desbotados dos espaços humanos remanescentes contra a limpeza fria e iluminada dos ambientes da "União" –, sublinha visualmente o conflito entre o caos orgânico e a ordem artificial. A montagem é econômica, confiando na potência do silêncio e da expressão dos atores para transmitir informação, uma técnica que Gilligan domina como poucos na TV. Nesse aspecto, as atuações são fundamentais. Rhea Seehorn oferece uma performance de virtuose, construindo uma Carol que é irritante, egoísta e tragicamente vulnerável, sem jamais perder a humanidade do espectador. Karolina Wydra, por sua vez, é magistral na sua ambiguidade, transmitindo uma calma que pode ser entendida como sabedoria ou como a mais profunda ameaça. Carlos-Manuel Vesga traz uma presença física e uma determinação silenciosa que faz de Manousos um contraponto pragmático e necessário. A trilha sonora assinada por Dave Porter abandona as melodias tradicionais, optando por texturas eletrônicas e ambientais que amplificam a sensação de desconexão e de um mundo reconfigurado por uma lógica alienígena.

A primeira temporada de Pluribus, obra do estupendo Vince Gilligan com uma atuação central indelével de sua musa Rhea Seehorn, conclui sua jornada inicial com um veredicto complexo e provocador. A série não oferece respostas fáceis sobre se a individualidade, com toda sua dor e conflito, é preferível a uma coletividade harmoniosa. Em vez disso, ela valida a luta pela autonomia de ser como um ato fundamental de resistência, ainda que os "heróis" dessa causa sejam profundamente falhos. Carol Sturka, Zosia e Manousos Oviedo emergem não como vencedores ou perdedores claros, mas como símbolos de diferentes respostas a uma transformação existencial. O impacto de Pluribus extrapola seu enredo, estabelecendo um novo patamar para a ficção científica televisiva ao fundir uma premissa de alta conceituação com um drama de personagens profundamente humano. Para a audiência de 2025, a série funciona como um espelho distorcido e poderoso, convidando à reflexão sobre conformidade, felicidade superficial e o valor inestimável da autenticidade imperfeita. Como um todo, Pluribus reforça o poder da televisão como meio para explorar as grandes questões filosóficas do nosso tempo, provando que a mais original das narrativas pode surgir da simples, porém eterna, dúvida sobre o que verdadeiramente nos define como espécie.

Em tempo #1: O amor que a "União" declara por Carol seguidas vezes aqui é um dos pontos mais intrigantes da atração. Cuidado absoluto de toda a humanidade por um dos seus ou apenas o vírus tentando cumprir o seu imperativo biológico de assimilação? Carol termina a temporada votando na segunda opção (tendo os seus óvulos congelados roubados, algo que agora permite a sua absorção unilateral pela coletividade E tendo agora uma bomba atômica de estimação como medida dissuasória).

Em tempo #2: É curioso como a diferença de atitude entre Carol e Manousos parece espelhar as diferenças entre as suas classes socioeconômicas e a distinção entre capitalismo central e periférico na Economia Global (e notem que contrariando clichês a posição de Manousos não tem nada de socialista).

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