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QUATERMASS II: ENEMY FROM SPACE (1957) [85'] [1.37:1] [★★★]
Val Guest, diretor britânico de formação versátil que transitou com igual desenvoltura pela comédia musical e pelo drama policial antes de se fixar no território da ficção científica, retorna ao comando da segunda adaptação cinematográfica das peripécias do Professor Bernard Quatermass, criação do roteirista Nigel Kneale para a televisão da BBC da época. Se no filme anterior, The Quatermass Xperiment (1955), Guest já ensaiava um tratamento documental para o horror espacial, em Quatermass II: Enemy From Space o cineasta aprofunda essa abordagem realista, expandindo o orçamento e as ambições narrativas sem jamais sacrificar a crueza visual que caracterizara a obra precursora. Enquanto a primeira aventura do cientista lidava com a contaminação alienígena de um único astronauta retornado do espaço, numa trama de inspiração gótica que (tipicamente) confinava o terror a espaços fechados e à perseguição de uma criatura em fuga, a sequência amplia o escopo para uma conspiração em escala nacional, na qual o próprio Estado britânico se revela infiltrado por uma inteligência extraterrestre. Essa mudança de escala não é meramente quantitativa: ela sinaliza uma inflexão temática decisiva na filmografia de Guest, que abandona o horror contido e claustrofóbico do primeiro longa em favor de uma parábola política de contornos nítidos, onde a ameaça vem de dentro das instituições que deveriam proteger a população. O filme se insere, assim, num momento particularmente fecundo da ficção científica dos anos 1950, quando o medo da Guerra Fria e da infiltração comunista encontrava na tela prateada uma válvula de escape e um campo de batalha simbólico. Contudo, diferentemente das produções estadunidenses que frequentemente associavam a ameaça vermelha a uma força externa e facilmente identificável, Quatermass II opta por um alvo mais sutil e mais perturbador: a própria burocracia governamental, seus mecanismos de opacidade e sua cumplicidade com forças que escapam ao controle democrático. O longa-metragem dialoga diretamente com o clima de desconfiança que se instalara no Reino Unido do pós-guerra, marcado pelo declínio irreversível da potência imperial e pela percepção de que as antigas certezas sobre a superioridade moral e institucional do Ocidente começavam a ruir. A escolha de Guest e Kneale por ambientar a trama em instalações industriais e áreas rurais britânicas, em vez dos cenários futuristas típicos do gênero, ancora o fantástico numa realidade reconhecível, potencializando o desconforto do espectador diante da possibilidade de que o inimigo já esteja entre nós, não como um soldado invasor, mas como um funcionário público de aparência inofensiva portando um estranho sinal em forma de V no corpo.
A trama de Quatermass II: Enemy From Space tem início quando o Professor Bernard Quatermass (Brian Donlevy), ainda abalado com o recente cancelamento do financiamento governamental para seu projeto de colonização lunar, toma conhecimento de relatos sobre centenas de meteoritos que têm caído numa área remota conhecida como Winnerden Flats. Acompanhado de seu assistente Marsh (Bryan Forbes), o cientista dirige-se ao local e depara-se com uma imensa planta industrial em construção, cujo projeto arquitetônico reproduz com precisão suspeita os planos de sua própria colônia na Lua. Quando Marsh manuseia um dos meteoritos, este se abre, liberando um gás que queima seu rosto e lhe deixa uma marca em forma de V. Imediatamente, guardas armados surgem das instalações, todos ostentando a mesma cicatriz, e levam Marsh sob custódia, enquanto Quatermass é agredido e forçado a deixar a área. A partir desse momento, o filme desenrola uma investigação que progressivamente revela a extensão da conspiração: os meteoritos não são fenômenos naturais, mas pequenos veículos alienígenas que transportam organismos gasosos capazes de se apoderar do sistema nervoso de suas vítimas, transformando-as em zumbis subservientes à vontade coletiva da espécie invasora. Quatermass conta com a ajuda do Inspetor Lomax (John Longden), que já o auxiliara no caso anterior, e de um membro do parlamento chamado Vincent Broadhead (Tom Chatto), que vinha tentando investigar o sigilo que envolve as operações em Winnerden Flats. Numa visita oficial à planta, Broadhead consegue se esgueirar para dentro de uma das cúpulas gigantes que dominam a paisagem, mas é encontrado por Quatermass já moribundo, coberto por uma gosma preta corrosiva, alertando-o sobre o que viu antes de expirar. Perseguido pelos guardas, o cientista foge e expõe a Lomax sua conclusão: a fábrica produz de fato alimento sintético, mas não para consumo humano – trata-se de um ambiente controlado que sustenta as pequenas criaturas alienígenas resgatadas dos meteoritos e alojadas nas cúpulas. A gravidade da situação se torna plenamente evidente quando Lomax tenta alertar seus superiores e descobre que o próprio comissário de polícia exibe a marca em V, indicando que os alienígenas já tomaram controle dos mais altos escalões do governo. Resta ao cientista e ao inspetor recorrer ao (ali disponível!) jornalista cínico Jimmy Hall (Sid James), que inicialmente duvida da história, mas aceita visitar Winnerden Flats. No centro comunitário local, os trabalhadores da construção civil, irlandeses na sua maioria, recebem os visitantes com hostilidade, pois estão bem pagos e instruídos a não fazer perguntas sobre o que constroem. O clima muda drasticamente quando um meteorito atravessa o telhado do edifício, ferindo e infectando a jovem Sheila (Vera Day). Os guardas da planta invadem o local e matam Hall a tiros enquanto ele tenta telefonar para seu jornal. Este assassinato brutal, testemunhado pelos trabalhadores, funciona como a gota d'água que transforma a passividade dos operários em revolta: eles formam uma multidão que marcha sobre o complexo industrial, invadindo seus portões ao lado de Quatermass e Lomax. Uma vez dentro, parte do grupo se entrincheira na sala de controle da planta, e Quatermass postula que a atmosfera terrestre é venenosa para os alienígenas. Ele então sabota o sistema de suporte de vida das cúpulas, bombeando oxigênio puro para o interior, o que sufoca as criaturas. Simultaneamente, seu assistente Brand (William Franklyn), que permanecera na base de foguetes, consegue lançar um segundo foguete (agora com propulsão atômica!) em direção ao asteroide próximo à Terra que serve (tudo indica!) como base dos invasores. A destruição do asteroide e a exposição das criaturas à atmosfera terrestre faz com que elas se combinem em massas gigantescas de cento e cinquenta pés de altura (ou algo assim!), que irrompem das cúpulas apenas para daí colapsarem e morrerem. As marcas em V desaparecem dos humanos controlados, que não guardam memória do que ocorreu. A conclusão do filme, no entanto, é deliberadamente ambígua: enquanto Lomax se pergunta como redigirá um relatório final crível sobre os acontecimentos, Quatermass questiona se esse relatório será realmente o último, deixando pairar a inquietante possibilidade de que a ameaça não tenha sido totalmente erradicada... Os conflitos dos personagens principais são igualmente elucidativos: Quatermass, o cientista racional, vê-se confrontado com uma burocracia que se recusa a ouvir a verdade, e sua luta é tanto contra os alienígenas quanto contra a inércia e a cumplicidade das autoridades; Lomax, o policial metódico, precisa conciliar seu dever institucional com a descoberta de que sua própria hierarquia está comprometida; e os trabalhadores da planta, figura central da crítica social do filme, encarnam a alienação do homem comum diante de forças que não compreendem, sendo manipulados tanto pelos alienígenas quanto pelos governantes que deveriam protegê-los, e sua adesão final à revolta representa a única via de ação possível quando as instituições falham.
A realização técnica de Quatermass II: Enemy From Space constitui um dos seus maiores ativos, e é nesse terreno que a assinatura de Val Guest se manifesta com maior clareza... O diretor, que vinha do cinema documental e do thriller realista, aplica à ficção científica um tratamento visual deliberadamente despojado, que recusa os exageros expressionistas típicos do gênero na década de 1950 em favor de uma crueza quase jornalística... A fotografia de Gerald Gibbs, em preto e branco, explora com maestria os contrastes entre luz e sombra, criando uma atmosfera opressiva que acompanha a progressão da trama. Gibbs faz uso extensivo da técnica de dia para noite, fotografando cenas diurnas com subexposição para simular a escuridão noturna, o que confere às sequências externas uma textura granulada e inquietante. As cenas noturnas em Winnerden Flats, com as silhuetas das cúpulas industriais recortadas contra um céu pesado, evocam uma paisagem pós-industrial de sonho febril, onde o progresso tecnológico se confunde com a monstruosidade. A escolha de filmar em locações reais – incluindo a refinaria de Shell Haven em Essex, que serviu de cenário para o complexo alienígena – e não em estúdios, reforça o realismo documental que Guest buscava. As cenas de ação, em particular a invasão da fábrica pelos trabalhadores e o tiroteio subsequente, são filmadas com câmera na mão, num estilo extremamente verossímil... A montagem de James Needs é ágil e funcional, mantendo o ritmo da narrativa sem jamais se render ao melodrama, e as transições entre os ambientes fechados do laboratório de Quatermass e os espaços abertos e industriais da planta são costuradas com precisão cirúrgica... A trilha sonora de James Bernard, um dos compositores mais associados à Hammer, é um elemento à parte nesse dispositivo audiovisual. Bernard, que mais tarde se tornaria célebre por suas partituras para os filmes de horror gótico do estúdio, compõe para Quatermass II uma música que oscila entre o suspense eletrônico e o romantismo sombrio, com momentos de intensidade quase insuportável, como na cena em que as criaturas gigantes emergem das cúpulas. Cabe notar, no entanto, que em certos trechos a música se sobrepõe aos diálogos, num desequilíbrio de mixagem que talvez reflita as limitações orçamentárias da produção... As atuações, por sua vez, são uniformemente competentes, com destaque para Brian Donlevy, que reprisa o papel de Quatermass com uma segurança (um pouco mais serena aqui!) que faltara no filme anterior. Donlevy, ator americano de voz grave e presença imponente, traz agora ao cientista uma combinação de autoritarismo intelectual e vulnerabilidade física que o torna mais humano: ele não é mais apenas o homem que berra ordens, mas alguém que corre, se esconde, atira e é repetidamente (!) ignorado pelas autoridades, mas persevera mesmo assim. Sid James, conhecido por seus papéis cômicos, surpreende como o jornalista Jimmy Hall, trazendo um alívio cínico e tragicamente interrompido à narrativa. John Longden, substituindo Jack Warner (do filme anterior) no papel de Lomax, oferece uma performance contida de policial burocrático que gradualmente desperta para a magnitude do perigo... O conjunto de atores coadjuvantes, muitos deles figuras habituais do elenco da Hammer, como Michael Ripper, contribui para a textura de um mundo onde ninguém é totalmente confiável, e onde a linha entre vítima e cúmplice se dissolve na indiferença burocrática. É precisamente nesse ponto que a linguagem audiovisual do filme encontra sua função mais poderosa: ao tratar o fantástico com a sobriedade de um documentário, Guest e Gibbs transformam a alegoria em denúncia, e a fábrica de Winnerden Flats, com suas cúpulas e seus guardas de marca em V, deixa de ser apenas um cenário de ficção científica para se tornar a imagem de um Estado que se tornou estranho a si mesmo.
Ao chegar ao seu desfecho, Quatermass II: Enemy From Space apresenta um veredicto sombrio sobre os temas que mobilizou ao longo de sua projeção. O filme não oferece a catarse típica do cinema de aventura espacial, na qual o herói triunfa e a ordem é restaurada; em vez disso, Guest e Kneale constroem uma conclusão que é, ao mesmo tempo, vitoriosa e profundamente ambígua. Os alienígenas são derrotados, as marcas em V desaparecem e os controlados recuperam a consciência, mas a pergunta final de Quatermass – sobre se aquele relatório será realmente o último – ecoa como um aviso de que a burocracia que encobriu a invasão continua intacta, pronta para abrigar a próxima ameaça que surgir. Os personagens principais, cada um a seu modo, sofrem transformações que confirmam a crítica central do longa: Quatermass, que começara como o cientista frustrado por um governo que não ouve a razão, termina como o herói que precisa agir à margem da lei, porque a lei já foi subvertida; Lomax, o representante da ordem, descobre que sua própria instituição está podre e que sua lealdade deve ser à verdade, não à hierarquia; e os trabalhadores da planta, símbolo da alienação proletária, só encontram agência quando a violência direta se torna a única linguagem compreensível diante do assassinato de um dos seus. O filme, assim, se alinha com uma tradição do cinema de ficção científica britânico que recusa o otimismo tecnológico americano em favor de uma desconfiança profunda em relação ao progresso e às instituições que o gerem. Val Guest, com este longa, consolida sua posição como um dos diretores mais politicamente engajados do gênero na década de 1950, ainda que seu engajamento se manifeste de forma indireta, através da escolha de cenários, da austeridade visual e da construção de personagens que são menos heróis do que sobreviventes de um sistema que os traiu. O legado de Quatermass II é, por isso mesmo, duradouro e multifacetado. Ele não apenas estabeleceu um padrão para o tratamento realista da ficção científica no cinema britânico, influenciando diretamente obras posteriores como The Day the Earth Caught Fire (1961), também dirigido por Guest, mas também antecipou em vários aspectos a estética do suspense conspiratório que dominaria o cinema das décadas seguintes. A ideia de que o inimigo não vem de fora, mas já está instalado nos corredores do poder, encontraria eco em filmes tão diversos quanto The Manchurian Candidate (1962) e, mais tarde, na prolífica safra de thrillers políticos dos anos 1970. No âmbito estritamente do gênero, a imagem dos meteoritos como veículos de infiltração e a noção de controle mental atestado por meio de marcas físicas seriam retomadas e reelaboradas em incontáveis produções de ficção científica, desde a série de televisão Doctor Who até o cinema de invasão corporal que floresceria nas décadas seguintes (Isso sem falar na série "V"!).
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A influência de Quatermass II: Enemy From Space, no entanto, não se restringe ao seu próprio tempo, nem se limita às fronteiras do cinema britânico. O longa-metragem de Val Guest deve muito, em sua concepção original, ao serial televisivo de Nigel Kneale exibido pela BBC em 1955, que por si só já representava um marco na história da ficção científica televisionada. Kneale, ao criar a narrativa de uma invasão alienígena que se aproveita da estrutura burocrática do Estado para se disseminar, estava respondendo a ansiedades profundamente enraizadas na cultura britânica do pós-guerra: o medo da tecnologia nuclear, o desconforto com a industrialização desenfreada e a percepção de que o Império Britânico, outrora onipotente, se via agora reduzido a uma potência secundária na ordem mundial dominada pelos Estados Unidos e pela União Soviética. A adaptação cinematográfica, ao condensar e modificar o desfecho do serial – substituindo a viagem de Quatermass ao espaço por um ataque não tripulado e mais realista à base alienígena –, acabou por criar uma obra que, embora fiel ao espírito de Kneale, adquiriu personalidade própria. Essa operação de transposição de mídia, da televisão ao cinema, é por si só um objeto de interesse para a história do gênero, pois demonstra como as narrativas de ficção científica, num período de rápida transformação tecnológica dos meios de comunicação, migravam e se adaptavam a diferentes formatos, ganhando novas camadas de significado. O filme, por sua vez, influenciou uma geração de realizadores que viam na Hammer não apenas uma fábrica de horrores góticos, mas também um laboratório de ideias para a ficção científica socialmente consciente. É possível traçar uma linha direta de Quatermass II a obras posteriores como o já mencionado The Day the Earth Caught Fire, no qual Guest novamente utiliza o formato de quase-documentário para discutir o desastre nuclear, e até mesmo a produções contemporâneas como a série The X-Files, cujo tom de conspiração governamental e invasão silenciosa deve muito (!) à matriz estabelecida por Kneale e Guest. Mais amplamente, o filme se insere numa tradição da ficção científica que utiliza o fantástico não como escapismo, mas como lente para examinar as contradições do presente – uma tradição que inclui desde os primeiros trabalhos de H.G. Wells até as distopias cinematográficas do final do século XX. Ao celebrarmos Quatermass II: Enemy From Space, celebramos, portanto, não apenas um filme notável de um estúdio lendário, mas um elo essencial numa corrente que conecta o medo da guerra atômica dos anos 1950 às ansiedades sobre vigilância e controle do século XXI. A obra de Guest permanece como um testemunho da capacidade do gênero de transformar o terror cósmico em crítica social, e de fazer do desconhecido – seja ele um alienígena de outro mundo ou um funcionário público de marca suspeita – o espelho de nossas próprias fragilidades institucionais. Que outros filmes, em outras épocas, continuem a explorar esse território fértil onde a ficção científica encontra a política, e onde a imaginação, longe de ser um mero divertimento, se torna um instrumento indispensável para compreender o mundo que habitamos. O legado de Quatermass, afinal, não é apenas o de um cientista fictício que salvou a Terra algumas vezes, mas o de uma narrativa que nos lembra, com inquietante persistência, que o maior perigo para a humanidade pode não vir das estrelas, mas sim das salas fechadas de reunião onde de fato se decidem nossos destinos.
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