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ÁLBUNS:
1970 - Wishbone Ash [★★★½]
1971 - Pilgrimage [★★★½]
1972 - Argus [★★★★]
1973 - Wishbone Four [★★★]
1973 - Live Dates [★★★★]
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PESSOAL:
Andy Powell: guitarras solo, rítmicas e acústicas, vocais.
Ted Turner: guitarras solo, slides, rítmicas e acústicas, vocais.
Martin Turner: baixo, vocais.
Steve Upton: bateria, percussão.
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VISÃO GERAL:
A história da banda Wishbone Ash entre 1970 e 1973 começa num momento em que o rock atravessava uma transformação profunda. O fim dos anos 1960 havia deixado um terreno criativo fértil depois do psicodelismo e dos Beatles, enquanto o rock pesado começava a endurecer seus contornos com o Led Zeppelin, o Deep Purple e o Black Sabbath. Nesse cenário turbulento, quatro jovens britânicos surgiram com uma proposta que ninguém fazia então da mesma forma: duas guitarras dividindo o protagonismo sem competir, construindo melodias paralelas como se fossem vozes complementares de um mesmo personagem. Andy Powell, Ted Turner, Martin Turner e Steve Upton perceberam que podiam transformar a guitarra elétrica em ferramenta de narrativa, criando paisagens sonoras que misturavam inusitadamente: blues elétrico, folk pastoral e mesmo ambições progressivas tão em voga na época.
Desde o início, a banda se inspirava tanto na elegância harmônica do jazz quanto na energia bruta do rock britânico. Esse equilíbrio os aproximava tanto do Jethro Tull quanto do Cream, mas também os distanciava de ambos justamente por abrir caminhos que outros só seguiriam mais tarde. A forma como organizavam as melodias influenciaria diretamente bandas do movimento NWOBHM, especialmente o Iron Maiden, que adotou as guitarras gêmeas como marca registrada. Ao mesmo tempo, absorviam influências do já citado Cream, de Peter Green e até de elementos da música barroca que apareciam discretamente nas harmonias da banda.
Esse período 1970-1973 representa a fase de ouro da banda, quando gravaram quatro álbuns de estúdio e um registro ao vivo que capturou sua força no palco. Foi uma trajetória rápida, intensa e marcada por momentos decisivos, como o crucial lançamento de Argus, que consolidou a banda como uma das mais originais de sua geração. Cada álbum dessa fase revela uma faceta diferente do grupo, como se eles estivessem construindo capítulo por capítulo uma epopeia musical que unia mitologia, virtuosismo e sensibilidade melódica. O legado desse ciclo continua vivo porque ele representa uma fusão rara: técnica sem exibicionismo e emoção sem sentimentalismo excessivo. Um ponto de equilíbrio que poucos alcançaram com tamanha naturalidade.
1970 - Wishbone Ash [★★★½]
Lançado em dezembro de 1970, o álbum de estreia chegou num momento de ebulição: enquanto o Black Sabbath meio que inaugurava o metal e o Led Zeppelin dominava as paradas, o Wishbone Ash propunha um rock técnico e multifacetado porém melódico. Destaques como "Phoenix" (10 minutos de jornada psicodélica com solos entrelaçados) e "Handy" (blues-rock acelerado com harmonias vocais lembrando os Beatles) mostravam uma ambição incomum para estreantes. A faixa-título "Wishbone Ash" revelava mesmo o seu DNA jazzístico, com mudanças de tempo abruptas. Apesar de irregular, algo perdoável pela grande variedade apresentada, o disco estabeleceu sua assinatura: guitarras gêmeas de Andy Powell e Ted Turner dialogando sobre uma cozinha de ritmos intrincados e diversos ao extremo.
1971 - Pilgrimage [★★★½]
No segundo álbum, a banda refinou seu estilo entre o folk progressivo de "Vasilij" e o hard rock espacial de "Jail Bait". Gravado nos famosos Olympic Studios, onde competiam por espaço com Rolling Stones e Jimi Hendrix, Pilgrimage trouxe experimentações como o uso do mellotron em "Valediction" e a levada quase funk de "Where Were You Tomorrow". A épica "The Pilgrim" (de mais de oito minutos) sintetizava suas ambições: letras sobre jornadas espirituais, dinâmicas que iam facilmente do acústico ao pesado e solos que pareciam duelos medievais. Um degrau crucial para a obra-prima que viria logo a seguir.
1972 - Argus [★★★★]
Considerado uma das obras-primas do rock progressivo, Argus foi um álbum conceitual sobre mitologia e guerra, lançado no mesmo ano de pesos pesados como Close to the Edge (Yes) e Thick as a Brick (Jethro Tull)... A abertura com "Time Was" é basicamente uma aula de construção dramática: começa com violões melancólicos, explode em riffs sincopados e termina num diálogo guitarrístico hipnótico... "Warrior" e "Throw Down the Sword" formam (com "Time Was") uma trilogia medieval com letras sobre honra e sacrifício... Enquanto "Blowin' Free" tornou-se seu maior hit, misturando vocal melódico com um surpreendente break de baixo virtuosístico... A produção cristalina de Derek Lawrence capturou a essência da banda: grandiosa porém orgânica e sem exageros!
1973 - Wishbone Four [★★★]
Pressão da gravadora por material mais comercial resultou num álbum menor. Embora "Ballad of the Beacon" (piano e violino folk) e "Sorrel" (boogie rock acelerado) mantivessem a qualidade, canções como "Rock 'n Roll Widow" soavam um tanto genéricas. O destaque foi para "Everybody Needs a Friend", balada soulful com coros gospel – depois regravada por John Wetton (KC , UH , ASIA ETC.). Apesar de vender bem, críticos notaram falta da ambição anterior.
1973 - Live Dates [★★★★]
Este clássico ao vivo, gravado durante a turnê do Argus, capturou a banda no ápice criativo. A versão de "The King Will Come" (7:40) superou a de estúdio em intensidade, com Martin Turner (baixo) liderando coros quase operísticos. "Phoenix" expandiu-se para quase inacreditáveis 17 minutos, tornando-se uma viagem psicodélica com solos improvisados que influenciariam bandas como Gov't Mule. A mixagem crua, com microfonias propositais (como em "Baby What You Want Me to Do"), antecipou (talvez) o espírito despojado do punk rock.
CONCLUSÃO:
Entre 1970-1973, a banda Wishbone Ash redefiniu o papel da guitarra no rock, equilibrando virtuosismo e melodicismo. Argus permanece como um monumento atemporal e mesmo discos menores como Wishbone Four influenciaram a New Wave of British Heavy Metal e além. Seu legado ecoa em bandas desde Opeth (rock progressivo) até Wilco (rock alternativo), provando que complexidade e emoção podem coexistir até com certa naturalidade. Na era do rock conceitual, foram arquitetos de paisagens sonoras onde mito e música se fundiam – verdadeiros "Warriors of the Twin Guitars".
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