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EPISÓDIOS
01 Kassa [**1/2]
02 That Would Be Me [**1/2]
03 Reckoning [***1/2]
04 Aldhani [***]
05 The Axe Forgets [***]
06 The Eye [****]
07 Announcement [***]
08 Narkina 5 [***]
09 Nobody's Listening! [***1/2]
10 One Way Out [****]
11 Daughter of Ferrix [***1/2]
12 Rix Road [****]
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REVIEW
A primeira temporada da série Andor, lançada em 2022 na plataforma Disney+, representa um ponto de inflexão audacioso e maduro dentro da franquia Star Wars, fruto da visão singular do escritor e showrunner Tony Gilroy. Reconhecido por seu trabalho na consagrada série de filmes Bourne e no aclamado drama corporativo Michael Clayton, Gilroy consolida com esta produção sua posição como um artesão narrativo especializado em tramas de espionagem, moralidade ambígua e uma tensão política palpável, elementos que já havia introduzido de forma seminal em Rogue One: A Star Wars Story, da qual foi coautor e (até mesmo) salvador em reshoots decisivos. Sua abordagem para Andor, no entanto, é uma evolução radical e intencionalmente adulta em relação a seu trabalho anterior no universo, bem como um afastamento consciente das produções recentes da casa. Enquanto muitas séries derivadas de Star Wars recorriam à nostalgia e a personagens icônicos, Gilroy opta por uma expansão do cânone através de um realismo político e social, explorando os mecanismos burocráticos da opressão e a gênese desorganizada de uma revolução, temática que encontra ressonância profunda no contexto global de seu lançamento, marcado por polarizações políticas e debates sobre autoritarismo. A série, portanto, não se insere meramente como mais um produto do fluxo contínuo de conteúdo da franquia, mas se ergue como um comentário televisivo sofisticado, demonstrando que o universo de Star Wars pode ser um vaso condutor potente para reflexões urgentes sobre poder, resistência e o custo pessoal da liberdade, conquistando tanto a crítica especializada quanto um público adulto ávido por narrativas complexas.
A narrativa da primeira temporada de Andor estrutura-se em arcos de três episódios, funcionando como atos distintos de uma mesma tragédia política. A história acompanha Cassian Andor (Diego Luna), um vigarista e sobrevivente do planeta devastado de Kenari, que, após matar dois oficiais de segurança corporativa em um incidente, é arrastado para os primórdios da rebelião contra o Império Galáctico. Recrutado pelo misterioso e calculista Luthen Rael (Stellan Skarsgård), Cassian participa de um audacioso assalto a um depósito imperial no planeta Aldhani, um evento catalisador que demonstra a vulnerabilidade do regime. Contudo, sua jornada não é de heroísmo imediato, mas de radicalização forçada pela máquina estatal: capturado e enviado a uma prisão-fábrica em Narkina 5, ele experimenta na pele a desumanização e a lógica cruel do sistema carcerário imperial, culminando em uma fuga desesperada que solidifica seu compromisso com a luta. Paralelamente, a série constrói um mosaico de perspectivas fundamentais. Acompanhamos os esforços políticos da senadora Mon Mothma (Genevieve O’Reilly), que movimenta fundos para a causa sob o nariz de seu marido e do governo, e a ascensão metódica e implacável de Dedra Meero (Denise Gough) dentro do Bureau de Segurança Imperial, representando a face fria e eficiente da repressão. O tema central é a formação lenta e dolorosa de uma consciência coletiva rebelde, mostrada não como um movimento unificado, mas como um conjunto de atos desesperados de indivíduos comuns – como a mãe adotiva de Cassian, Maarva (Fiona Shaw), e os trabalhadores de Ferrix – cuja raiva acumulada finalmente explode. O conflito principal de Cassian é interno, uma luta entre seu instinto de autopreservação e a inevitável necessidade de escolher um lado, enquanto o conflito macro da temporada é a luta da sociedade civil contra a estrangulante expansão do autoritarismo.
A realização técnica e artística de Andor é minuciosamente calibrada para servir a essa narrativa sóbria e cerebral, gerando uma imersão e uma tensão raras no universo Star Wars. A direção, dividida entre profissionais como Toby Haynes e Benjamin Caron, opta por um ritmo deliberado, permitindo que a atmosfera de paranoia e os dilemas morais dos personagens respirem, uma escolha que, embora critique-se por seu início lento, constrói um crescendo de poder emocional devastador. A fotografia, frequentemente sombria e baseada em locações reais, abandona o excesso de cenários digitais para criar mundos palpáveis e sujos, como o planeta industrial de Ferrix, cuja construção prática demandou anos de planejamento. As atuações seguem o mesmo tom contido e poderoso: Diego Luna transmite a fadiga existencial e a inteligência prática de Cassian com profundo naturalismo; Stellan Skarsgård entrega um monólogo sobre o custo da resistência que é um dos pontos altos dramáticos da franquia; e Denise Gough, como Dedra Meero, cria uma vilã assustadoramente competente e ambiciosa. A trilha sonora de Nicholas Britell evita as fanfarras heroicas tradicionais, preferindo composições melancólicas e pulsantes que enfatizam o perigo e a clandestinidade. A montagem e o design de som são particularmente eficazes nas sequências de ação, como o assalto em Aldhani e a fuga da prisão, onde o suspense é construído através do silêncio, do som ambiente e de movimentos coreografados com precisão, resultando em cenas de impacto visceral. Este conjunto coeso de elementos afirma que o drama político e humano pode ser a fonte mais rica de tensão, dispensando piadas ou apelos fáceis ao fan service, e elevando a produção a um patamar cinematográfico digno das mais prestigiadas séries dramáticas contemporâneas.
Em conclusão, a primeira temporada de Andor, sob a mestria criativa de Tony Gilroy, transcende as expectativas do gênero e da franquia para estabelecer-se como um dos trabalhos mais relevantes e bem-executados da televisão de ficção científica recente. O veredicto final da série sobre seus temas é claro e amargo: a resistência ao fascismo não nasce de um idealismo puro, mas do acúmulo de injustiças insuportáveis, exigindo sacrifícios desumanos de indivíduos comuns e a aceitação de táticas moralmente cinzentas. Para personagens como Cassian Andor, Mon Mothma e Luthen Rael, a luta transforma-se em uma identidade inescapável e custosa. O impacto de Andor para sua audiência, para a televisão e para a própria franquia Star Wars é profundo. Ela prova que o universo pode abrigar narrativas de maturidade excepcional, capazes de dialogar com questões políticas contemporâneas sem didatismo, e que há espaço para um público adulto que busca complexidade e seriedade. A série não apenas enriquece enormemente o contexto de Rogue One, mas também redefine o potencial dramático de Star Wars na televisão, elevando o patamar de qualidade narrativa e demonstrando que, quando confiado a vozes autorais como a de Gilroy, este universo ainda pode surpreender, comover e provocar reflexão de maneira poderosa e mesmo inédita.
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