sábado, 11 de agosto de 2007

Sobre Doctor Who 2005 (2005-2007)

Sobre Doctor Who 2005 (2005-2007)

Visão geral:

A série de TV Doctor Who 2005 (de 2005) traz uma versão atualizada do mitológico personagem (e ícone britânico): um genial alienígena (conhecido apenas como: "O Doutor") de aparência humana e que navega o espaço e o tempo a bordo da sua nave (a TARDIS), a qual exteriormente parece ser apenas uma antiga cabine telefônica policial da Londres de 1963, e é maior por dentro do que por fora. Ele geralmente viaja com um ou mais humanos, chamados de companheiros. De tempos em tempos, geralmente após ser fatalmente ferido, ele se "regenera", assumindo uma diferente e nova forma humana (o que sempre permitiu a mudança dos atores que interpretaram o personagem ao longo dos anos).

O personagem do doutor é um dos mais antigos e mais bem conhecidos no SCIFI televisivo mundial. Sua antiguidade, longevidade e identificação com país de origem parecem ser comparáveis apenas com as de Star Trek dos Estados Unidos da América e Ultraman do Japão.

A principal força criativa por trás destas três primeiras temporadas de Doctor Who 2005 foi o britânico Russell T Davies (de séries controvertidas como Queer As Folk e The Second Coming), fã confesso do personagem (com o qual partilha o mesmo ano de nascimento), ele procurou ser fiél aos melhores momentos de seus mais de quarenta anos de história enquanto o adaptando aos dias de hoje. Entre 39 episódios regulares e 3 especiais natalinos, ele escreveu metade dos segmentos da nova série até aqui. Davies é considerado hoje (agosto de 2007) provavelmente o mais influente Gay de todo o Reino Unido e o mais importante produtor de TV também. A série do doutor é muito popular em seu país de origem, indo muito além de uma audiência de nicho de ficção científica. É um programa para toda a família. Todas as famílias.

Davies, para atualizar o personagem do doutor, buscou inspiração (por admissão própria) no americano Joss Whedon (Buffy, Angel e Firefly). O que não quer dizer que os trabalhos anteriores do britânico já não apontassem em similares direções. Eis alguns exemplos:

- Cada temporada televisiva têm um arco de história (ou tema recorrente) distinto e bem definido;

- Diálogos são extremamente afiados (muitas vezes mesmo indulgentes) e repletos de referências (populares ou não, obscuras ou não), os diálogos também objetivam a criação de um dialeto próprio em si mesmos;

- Metáforas embutidas em tramas e situações, não deixando os personagens terem percepção das mesmas (os personagens simplesmente tratam dos acontecimentos em seus termos dentro do seu próprio universo ficcional);

- Relacionamentos entre pessoas de mesmo sexo são comuns e tratados sem maior estardalhaço etc.

Entretanto a influência de Whedon pode não ser suficiente para suavizar a herança britância do programa para pessoas que tem como hábito (essencialmente exclusivo) assistir a séries originárias da terra do Tio Sam. Para melhor apreciar a série do bom doutor, pode ser necessário que alguns espectadores potenciais tenham que trocar o chip (TM)!

Ainda assim não devemos sofrer de uma síndrome de Borat em reverso (TM) em que tudo é justificado uma vez que "eles são britânicos e este é o jeito deles". Tentativas de humor e metáforas óbvias e grosseiras são ruins em qualquer país de forma independente da herança cultural. Episódio padrão de monstro é ruim em qualquer pátria, assim como uma óbvia falta de conhecimento científico. Atitude juvenil e uso de melodrama fora de controle idem. Tais problemas (e outros) aparecem na série mais do que os seus fãs mais devotos e fervorosos gostam de admitir. O importante é que, apesar de tais defeitos, e em seus melhores momentos, o programa é capaz de transcende-los oferecendo uma única combinação de leveza, excitação, beleza, pathos e senso de deslumbramento, que só podemos esperar de um dos definitivos pilares do gênero.

A nona encarnação do doutor foi vivida por Christopher Eccleston durante a primeira temporada da nova série. A partir do final do último episódio da primeira temporada em diante (até agora) tivemos a décima encarnação do doutor, vivida por David Tennant.

A principal companheira nas duas primeiras temporadas e no primeiro especial natalino foi Rose Tyler (vivida pela atriz Billie Piper) . Na terceira temporada tivemos como a principal companheira Martha Jones (Freema Agyeman). No segundo especial natalino tivemos Donna "A Noiva" Noble (Catherine Tate). O terceiro especial natalino (o de 2007) envolve o Titanic.

Tate voltará (no mesmo papel) como a principal companheira na já confirmada quarta temporada (em 2008). Junto comTennant e Davies é claro. Agyeman participará apenas do arco final da temporada (após uma programada aparição na segunda temporada de Torchwood).

Agora a analise episódio a episódio e em seguida os seus valores relativos. Os especiais natalinos não possuem comentários, apenas valores relativos.

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PRIMEIRA TEMPORADA (2005) (ANÁLISE):

O arco da primeira temporada gravita em torno da recorrente frase "Lobo Mau", que teima em aparecer em praticamente todo o episódio e nas situações mais improváveis. Ao final é revelado que Rose Tyler, de posse de poderes equivalentes aos de uma espécie de "Deusa Temporal" (TM), deixou tais "referências" como uma mensagem para ela mesma. O arco termina definitivamente a Guerra Temporal entre os Senhores do Tempo (a raça do doutor) e os Daleks (os seus inimigos mortais). É globalmente a mais satisfatória das três primeiras temporadas da nova série.

Rose & The End Of The World: O início da nova série não foi muito inspirado. Os manequins animados são mais ridículos do que interessantes e o seu mestre é o mais típico monstro da semana. Salvando-se a apresentação da titular em Rose. O episódio seguinte (The End Of The World) teve mais sorte, apesar do seu forte ser essencialmente o conceito do vislumbre do último suspiro natural da Terra (seguindo o final do ciclo de vida do Sol). Destaque para introdução da Face de Boe.

The Unquiet Dead: O primeiro verdadeiramente bom episódio da nova série. O Nono Doutor e Rose visitam o escritor Charles Dickens ao mesmo tempo que os mortos voltam a vida nas imediações. Cuidados com a produção e vislumbre de elementos do arco da temporada (via a excelente heroína do episódio, a personagem Gwyneth) coroam a curiosa história.

Aliens Of London (I) & World War Three (II): Aqui somos introduzidos aos tediosos Slitheen, a sua capacidade de assumir outras identidades em meio a uma infinidade de piadas flatulentas (ou não?) e os seus planos mirabolantes para a Terra que acabam beirando a comédia involuntária.

Dalek: O primeiro grande clássico da nova série. Um fascinante "museu particular de tecnologia alienígena" na Terra do ano 2012 guarda prisioneira uma criatura posteriormente identificada como um Dalek, aparentemente o outro único sobrevivente (além do Doutor) da Guerra Temporal. A última futilidade realizada da luta entre os dois sobreviventes de tal confronto é um marco para o novo programa.

The Long Game: A bordo de Satellite 5, uma estação de transmissão no distante futuro da Terra, somos apresentados ao mesmo tempo a uma excessiva metáfora sobre a escravidão da humanidade pela manipulação da mídia e um não menos excessivo monstro da semana que age como supervisor (!) de todo o processo. Honestamente nem dá para dizer que o episódio se alinha de fato com o final da temporada, apesar da estação aparecer novamente no mesmo.

Father's Day: Uma visita do Nono Doutor e de Rose Tyler ao cenário da morte de Peter Tyler, leva a companheira a evitar a morte do seu pai. O paradoxo faz surgir uma horda de monstruosas criaturas aladas que consomem as pessoas no local, os sobreviventes se refugiando numa igreja próxima. Obviamente (e felizmente) os tais "Ceifadores" não são o centro do episódio. Aqui cabe sim destacar o cuidado dos realizadores nos mínimos detalhes envolvendo a família Tyler daquela epoca, Rose e o Nono Doutor, preparando caminho até o inevitável e honesto desfecho, uma vez que não existe dúvida alguma Pete tem que de fato morrer, agora nos braços de Rose, para salvar a todos.

The Empty Child (I) & The Doctor Dances (II): O melhor da temporada, um dos melhores da nova série e ganhador do Prêmio Hugo de ficção científica de 2006. Cortesia do estupendo roteirista Steven Moffat. Aqui temos o gênero no seu melhor, uma clara consciência social (e mesmo intimista ultimamente), um honesto mistério, um uso de tanto belas (e marcantes) quanto bizarras (e assustadoras) imagens e a introdução de um vibrante personagem na pessoa do capitão Jack Harkness (John Barrowman), sendo tudo embalado em um pacote de múltiplas camadas e significados. BRAVO!

Boom Town: Basicamente uma Slitheen, que não morreu no episódio duplo anterior, quer explodir o mundo como parte dos seus novos planos e acaba sendo impedida e vira um ovo ao final do episódio. OH BOY!

Bad Wolf (I) & Parting Of The Ways (II): Rose, Jack e o Nono Doutor são trazidos a bordo de Satellite 5, um século após os eventos de The Long Game. Finalmente eles descobrem que a Terra tem sido controlada de forma distante por novos mestres desde antes da sua última visita a estação, porém é revelado que tais alienígenas temem o doutor de alguma forma. A atual controladora da estação trouxe o trio para ajudar a humanidade. Rose é feita prisioneira a bordo da nave dos invasores, que se revelam ser os Daleks, que de alguma forma sobreviveram a Guerra Temporal. Eles vieram invadir de fato a Terra e a estação é a última linha de defesa. O doutor tem como única opção usar uma arma que destruirá não somente os Daleks, mas toda a humanidade, salvando o resto da galáxia. Ele envia Rose para casa na TARDIS para salvá-la. De volta ao seu presente, ela não se conforma em deixar o doutor para trás e finalmente intui que todas as referências ao "lobo mau" eram dela para ela mesma. Rose abre o o "Coração da TARDIS", transformando-se essencialmente em uma Deusa do Tempo. Ela volta a estação no futuro e derrota os Daleks de uma vez por todas. O Doutor dá um beijo em Rose extraindo o excesso de energia, o que leva a sua necessidade de se regenerar. Relaxem e curtam este belo melodrama épico com carinho, onde mesmo os paradoxos temporais são postos para bom uso, para deixar as emoções ainda mais a flor da pele. Davies coloca para fora todo o seu amor pelo personagem, especialmente quando o Doutor envia Rose a bordo da TARDIS para o presente dela, para protegê-la, como prometeu a mãe da companheira. Um holograma do personagem diz o seguinte:

"
Rose, now listen, this is important.

If this message has activated, then it can only mean one thing.

We must be in danger,and I mean fatal.

I'm dead or about to die at any second with no chance of escape.

And that's OK, hope it's a good death.

But I promised to look after you, so the Tardis is taking you home.

And I bet you'refussing and moaning now, typical!
But hold on and just listen a bit more.
The Tardis can never return for me.

I'm facing an enemy that should never get this machine.
So this is what you do should do, let the Tardis die.
Just let this old box gather dust.
No-one can open it, no-one'll even notice it.
Let it become a strange little thing standing on a street corner.
Over the years the world will move on and the box will be buried.
And if you want to remember me, then you can do one thing.
That's all, one thing.
Have a good life.
Do that for me, Rose.
Have a fantastic life.
"

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SEGUNDA TEMPORADA (2006) (ANÁLISE):

Curiosamente o tema desta segunda temporada foi aparentemente preparar o caminho para a série derivada, com o personagem do capitão Jack Harkness como protagonista, Torchwood. Obviamente tal recorrência não sustenta a temporada, a qual tem pelo menos três episódios muito ruins, ficando isto sim a cargo do drama familiar de Rose, sua interação com uma versão alternativa do seu pai de uma Terra paralela e a sua despedida definitiva do Doutor e da série.

New Earth: Uma espécie de continuação do episódio The End Of The World. Rose e o Décimo Doutor visitam Nova Terra (algum tempo depois da destruição da primeira Terra), lá encontram a Noviça Hame e mais uma vez a Face de Boe e Lady Cassandra (que não morreu). Somos apresentados a uma excessiva alegoria sobre pesquisa médica avançada e diversas trocas de corpos, cortesia da consistentemente lamentável Cassandra. Fraco!

Tooth and Claw: Aqui o Décimo Doutor, Rose, a Rainha Vitória e um Lobisomen de origem alienígena colidem em uma surpreendente aventura, que emerge vencedora principalmente por usar pequenas brechas históricas para enfiar os seus mamutescos lampejos de bizarra criatividade. A cena final que brinca com a possibilidade da família real Britânica dos dias de hoje ser formada por lobisomens é definitivamente divertida em meio ao seu completo absurdo.

School Reunion: Uma raça alienígena planeja usar crianças de uma escola preparatória do presente como uma espécie de processador para alcançar o poder definitivo, o que curiosamente é o menos importante do episódio que traz um contagiante senso de honesta nostalgia ao marcar a aparição da antiga companheira Sarah Jane Smith (a atriz Elisabeth Sladen) e por utilizar tão bem tal evento como um momento importante para o relacionamento do Doutor e Rose. Outros destaques para o retorno do também clássico K9 (um COMPLETAMENTE ABSURDO cão andróide) e a participação de Anthony Stewart Head (o Giles da série Buffy) como o diretor da tal escola.

The Girl In The Fireplace: O melhor episódio da temporada, um dos melhores de toda a nova série, e indicado ao Prêmio Hugo de ficção científica de 2007, tudo cortesia do roteirista Steven Mofatt. Graças a bizarra necessidade de uma tripulação de andróides relógios de uma nave avariada, milhares de anos no futuro, pelo cérebro (aos 37 anos) da mitológica Madame De Pompadour (da França do século XVIII), o Décimo Doutor visita diferentes épocas da vida da figura histórica. Cada vez mais apaixonados a cada encontro. A beleza, a delicadeza e a honestidade de todos os aspectos da produção são muito difíceis de por em poucas palavras. A química entre o ator David Tennant e a atriz convidada Sophia Myles foi tanta que eles passaram a namorar após as filmagens.

Rise Of The Cybermen (I) & The Age Of Steel (II): A TARDIS vai parar em uma Terra paralela, com versões alternativas das pessoas, incluindo um vivo e rico Peter tyler. Naquele planeta um industrial criou um novo tipo de raça cibernética (os Cybermen) como uma forma de prolongar a vida humana. Uma claramente aceitável história sobre o possível fim da humanidade alternativa como a conhecemos aqui (com todos sendo "atualizados" como Cybermen), com algumas boas explorações pessoais nesta outra Terra e muito pouco além disto. Uma clara preparação para o final da temporada, mais do que qualquer outra coisa.

The Idiot's Lantern: O cenário da coroação da Rainha em 1953, com o correspondente aquecimento na compra de aparelhos de TV é um engenhoso cenário, mas que é enviado rapidamente para o toilete com o lamentável surgimento na história de um (Oh Boy!) monstro televisivo.

The Impossible Planet (I) & The Satan Pit (II): Este é provavelmente o melhor exemplo da nova série em que um aparente "Analfabetismo Científico" (TM) pode, mesmo assim, levar a um grande episódio. A vizinhança de um buraco negro parece ser de fato o local ideal para se aprisionar o mal primordial. Tudo aqui é vendido muito mais em termos de atmosfera e louca imaginação (com uma produção muito cara e complexa, que aparentemente até prejudicou os episódios imediatamente anteriores e posteriores) do que em termos de lógica e razão, com o segmento duplo funcionando em última instância, apesar do escorregadio conceito aqui desenvolvido.

Love And Monsters & Fear Her: Sejam muito bem-vindos ao pior momento da temporada em que um monstro absorvedor (e que lamentavelmente lembra muito os Slitheen) é seguido por um monstro de parede (!). O segundo segmento ainda leva uma estrela solitária mais pela infinitamente absurda cena em que o Doutor conduz a tocha olímpica até a respectiva pira. Fora isto...

Army Of Ghosts (I) & Doomsday (II) : O melhor do episódio é a sincera narrativa de Rose, que indica exatamente o que vai acontecer, o que acontece e o que aconteceu. Incluindo-se ai a antológica cena de despedida definitiva dela e do doutor. Rose não morre realmente, mas passa agora a viver (junto com o resto da sua família de fato) com a versão do seu pai da Terra alternativa e naquele planeta. Alguns podem reclamar do absurdo das presenças (especialmente ao mesmo tempo) dos Cybermen e dos Daleks no episódio, outros do modo relativamente fácil que o doutor se livra do literal oceano de alienígenas hostis, mas o episódio não é realmente sobre nada disto. Algumas irregularidades durante este segunda temporada sim, mas até que Russell T Davies mandou os espectadores felizes para o hiato do programa. E quanto a cena de despedida:

"
Where are you?

Inside the Tardis.

There's one tiny little gap in the universe left, just about to close.

And it takes a lot of power to send this projection - I'm in orbit around a supernova.

I'm burning up a sun, just to say goodbye.

You look like a ghost.

Hold on.

Can I t. . . ?

I'm still just an image.

No touch.

Can't you come through properly

The whole thing would fracture. Two universes would collapse.

So?

Where are we? Where did the gap come out?

We're in Norway.

Norway! Right.

About 50 miles out of Bergen.

It's called Darlig Ulv Stranden.

Dalek?

- Darlig.

It's Norwegian for bad.

This translates as Bad Wolf Bay.

How long have we got?

About two minutes.

I can't think of what to say!

You've still got Mr Mickey, then.

There's five of us now - Mum, Dad, Mickey and the baby.

You're not. . . ?

No! It's Mum.

She's three months gone.

More Tylers on the way.

And what about you, what are you. . . ?

Yeah, I'm back working in the shop.

Oh, good for you.

Shut up!

Nah, I'm not.

The Torchwood on this planet's still open for business. I think I know a thing or two about aliens.

Rose Tyler. Defender of the Earth.

You're dead, officially, back home.

So many people died that day, and you've gone missing.

You're on a list of the dead.

Here you are, living a life, day after day. The one adventure I can never have.

Am I ever going to see you again?

You can't.

What are you going to do?

I've got the Tardis. Same old life. Last of the Time Lords.

On your own.

I. . . I love you.

Quite right too.

And I suppose. . . If it's my last chance to say it. . .

Rose Tyler. . .
"

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TERCEIRA TEMPORADA (2007) (ANÁLISE):

A premissa da temporada é intrigante: O Mestre (maior inimigo do Doutor) volta no tempo antes do início da temporada e se torna Saxon, um político (com planos nefastos) a caminho do gabinete de Primeiro Ministro da Inglaterra. O detalhe é que tais eventos são postos em movimento justamente pelos nossos heróis somente mais ao final da temporada. Infelizmente tal interessante premissa não ganha vida como deveria e a temporada se mostra de longe a mais fraca até aqui da nova série, tanto em termos de organização global (inclusive conclusivamente) quanto na qualidade continuada, semana após semana.

É definitivamente tolo pensar em simplificar os problemas dizendo que "faltou Rose Tyler" e que "Martha Jones não funcionou". Basta assistir ao episódio Blink (ver a seguir) para perceber que o que faltou mesmo e de uma maneira geral foi um pouco mais de planejamento e principalmente uma melhor qualidade de escrita.

Russell T Davies termina a temporada aparentemente desgastado. Talvez seja a hora de uma mudança, talvez trazendo a bordo Steven Mofatt que emerge desta série até aqui como uma das mais distintas vozes da ficção científica televisiva do nosso tempo

Smith And Jones & The Shakespeare Code & Gridlock: No primeiro segmento conhecemos os Judoons (raça resultante de uma fofíssima aparente mistura de Juíz Dredge com Rinoceronte) na sua caça por uma Plasmavore (uma vampira transmorfa), o qual ganha uma meia estrela extra por nos introduzir a nova companheira Martha Jones (que é apresentada como uma alternativa mais madura e distinta de Rose Tyler, algo que não é desenvolvido a contento ao longo da temporada, o que é claramente culpa do texto da série e não da atriz). No segundo testemunhamos o plano de uma trupe de bruxas alienígenas em usar as palavras escritas de Shakespeare para acabar como mundo (!). O qual também ganha uma meia estrela extra pela cena quase final em que O Bardo com muita sensibilidade figura as reais identidades do Décimo Doutor e de Martha. E finalmente o terceiro, onde conhecemos uma civilização que essencialmente vive em um engarrafamento, que também ganha meia estrela extra por trazer as últimas palavras da Face de Boe para o Doutor: "Você não está sozinho" (se referindo a existência do Mestre, um outro Senhor do Tempo, revelada no arco final da temporada a seguir) Três episódios por demais inofensivos (sempre algo entre o "regular" e o "bonzinho"), mas que pela solidez dos aspectos gerais da produção nos levavam a entender então que o brilhantismo não estava muito longe. Ledo engano.

Daleks In Manhattan (I) & Evolution Of The Daleks (II): Após assistir a esta bomba de episódio duplo ficaram duas certezas: (a) Pagar ao espólio de Terry Nation para usar os Daleks sem um bom roteiro é burrice e (b) Os Daleks sem uma muita boa história não passam de saleiros gigantes enfeitados e com um ridículo e infinitamente irritante grito de guerra. Aqui os últimos filhos de Skaro planejam sobreviver criando híbrido humanos em um high-concept de história que não perdoa literalmente nada e que passa principalmente por Frankenstein e Moreau. O erro fatal para o segmento é curiosamente humanizar os Daleks, removendo as suas características mais alienígenas e ameaçadoras, algo similar ao que os Borgs sofreram em Jornada Nas Estrelas. Tudo coroado pela literal história de amor de uma corista e um porco (Oh Boy!). Cabe ainda lamentar a não utilização (apesar dos bons valores de produção) em nenhum senso artístico coerente e consistente o tão óbvio cenário da era da depressão americana (comparem, por exemplo, com o duplo da primeira temporada: The Empty Child (I) & The Doctor Dances (II)).

The Lazarus Experiment & 42: Com a impressão de que a temporada já estava com problemas, chegam em seguida dois episódios de monstros que confirmam a instabilidade. Um monstro evolutivo seguido por um monstro solar. Que são feitos ainda piores pelas fúteis tentativas de integrá-los no arco da temporada envolvendo o Mestre. Era hora de Russell T Davies pedir ajuda.

Human Nature (I) & The Family Of Blood (II): A ajuda veio do roteirista Paul Cornell (que já havia escrito o ótimo Father's Day da primeira temporada), que trouxe uma boa dose de competente maturidade a uma temporada infelizmente repleta até então de incompetetentes high-concepts juvenis. Em desvantagem, sendo perseguido de forma obstinada por uma família de assassinos alienígenas, o Décimo Doutor decide assumir uma forma humana e sem memórias e se esconder no passado da Terra posando com um professor (sendo Martha uma empregada da escola). Tal premissa acaba sendo apenas uma desculpa para uma interessante exploração e análise desta nova figura humana do doutor, até mesmo como uma possível alternativa de vida. O uso com propósito de bizarras imagens (um dos pontos altos desta nova série) se faz novamente presente, com uma conclusão esperada (como em Father's Day), mas que emerge vencedora ao apresentar a mais alienígena, distante e impiedosa caracterização do personagem na nova série até agora.

Blink: Simplesmente o melhor episódio da temporada e talvez de toda a nova série, cortesia do estupendo: STEVEN MOFATT! Aqui estátuas de anjos são na realidade alienígenas que deslocam suas vítimas para o passado. A única salvação de Martha e do Décimo Doutor (presos sem a TARDIS em 1969) é uma jovem fotógrafa de nome Sally Sparrow. A criatividade do roteiro do episódio em utilizar a assumida não linearidade do tempo é intrigante do começo ao fim, desafiando e deslumbrando o espectador. O mais importante de tudo é enfatizar que este foi o episódio mais barato de toda a temporada e que praticamente não tivemos nele a presença do elenco regular (exatamente a mesma situação vivida pelo tétrico Love And Monsters da segunda temporada, só para fixar uma comparação), Mofatt é realmente tão bom assim.

Utopia (I) & The Sound Of Drums (II) & The Last Of The Time Lords (III): Na primeira parte, a TARDIS, afetada pela presença do absurdo do capitão Jack Harkness agora não poder morrer, leva a todos para o "Final do Universo" (com Jack literalmente "a tiracolo"). Lá os últimos humanos planejam ir para um local chamado simplesmente de "Utopia", a bordo de uma nave inventada por um certo Professor Yana. Interagindo com os visitantes, Yana se mostra ser de fato apenas a forma humana de um outro Senhor do Tempo , na realidade o inimigo mortal do Doutor, aquele conhecido apenas como: O Mestre. Ele rouba a TARDIS e volta para a Londres de aproximadamente dezoito meses antes dos eventos de Smith And Jones. Um segmento perfeitamente passável como entretenimento de qualidade e que começa a desvendar o arco da temporada. Ele recebe meia estrela extra pela verdadeira mágica que Sir Derek Jacobi faz no papel de Yana, indo muito além do que está escrito (algo deveras raro de acontecer, ao contrário do que muitos pensam). A segunda parte é ainda sólida, onde nossos heróis de volta ao presente descobrem que Saxon e O Mestre são a mesma pessoa e um inevitável (e extremo) Cliff-Hanger é preparado. Problemas: a impressão fica de que alguns elementos foram reciclados da história da Terra paralela da segunda temporada, os ajudantes robóticos do Mestre são De Facto Daleks (no que se tornaram os humanos do futuro que procuravam por "Utopia") e principalmente, não importa o número de fogos de artifício que Davies possa tentar jogar na audiência, a sua história simplesmente não possui um claro foco emocional. A terceira parte (e todo o arco) colapsa centrada em uma peça de risível melodrama na "virada de mesa" do Doutor (que ficaria muito mais adequada em algum episódio de Ultraman) e no uso do botão de reset. Talvez esteja mesmo na hora de Davies recarregar as baterias e a ausência de uma citação aqui, fica justamente para sublinhar esta distinta possibilidade.

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PRIMEIRA TEMPORADA (2005) (DE '0' A '4' ESTRELAS):

1.01 Rose (**)
1.02 The End of the World (**1/2)
1.03 The Unquiet Dead (***)
1.04 Aliens of London (I) (**)
1.05 World War Three (II) (**)
1.06 Dalek (****)
1.07 The Long Game (**)
1.08 Father's Day (****)
1.09 The Empty Child (I) (****)
1.10 The Doctor Dances (II) (****)
1.11 Boom Town (**)
1.12 Bad Wolf (I) (****)
1.13 The Parting of the Ways (II) (****)

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SEGUNDA TEMPORADA (2006) (DE '0' A '4' ESTRELAS):

2.00A Children In Need (N/A)
2.00B The Christmas Invasion (***)

2.01 New Earth (**)
2.02 Tooth and Claw (***)
2.03 School Reunion (***1/2)
2.04 The Girl in the Fireplace (****)
2.05 Rise of the Cybermen (I) (***)
2.06 The Age of Steel (II) (***)
2.07 The Idiot's Lantern (*)
2.08 The Impossible Planet (I) (****)
2.09 The Satan Pit (II) (****)
2.10 Love & Monsters (SEM ESTRELAS)
2.11 Fear Her (*)
2.12 Army of Ghosts (I) (****)
2.13 Doomsday (II) (****)

2.14 The Runaway Bride (**)

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TERCEIRA TEMPORADA (2007) (DE '0' A '4' ESTRELAS):

3.01 Smith and Jones (***)
3.02 The Shakespeare Code (***)
3.03 Gridlock (***)
3.04 Daleks in Manhattan (I) (*)
3.05 Evolution of the Daleks (II) (*)
3.06 The Lazarus Experiment (**)
3.07 42 (**)
3.08 Human Nature (I) (****)
3.09 The Family of Blood (II) (***1/2)
3.10 Blink (****)
3.11 Utopia (I) (***1/2)
3.12 The Sound of Drums (II) (***)
3.13 Last of the Time Lords (III) (**)

3.14 Voyage of the Damned (A SER EXIBIDO NO NATAL DE 2007)

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Sobre Doctor Who 2005 (2005-2007)

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