quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Estará o scifi televisivo em crise II?

Estará o scifi televisivo em crise II?

Relendo a parte anterior, creio que deixei um certo "ar de esperança" ao seu final. Esperança ao menos quanto ao futuro do scifi televisivo em geral, indicando um claro caminho de sucesso comercialmente sustentável e com qualidade artística (algo que definitivamente não passa por um remake americano de Misfits, por falar nisto!). Basta que a década que vier aprenda com a última década e prospere. Síntese... Ponto de partida...

Nestes momentos, de alegada crise, é muito comum associar-se o "fim de uma era" ao fim de uma série em particular, e tudo com vastas doses do mais barato saudosismo. Fazendo-o sem critério e de forma imediatista, sem o devido (e necessário) distanciamento. Também não é suficiente dizer que as coisas são cíclicas sem (ao menos tentar) explicar tal ciclo. Cabe então lembrar do mais crucial momento de baixa do scifi televisivo americano e fazer o seu constraste com o momento atual. De se estabelecer uma referência...

Após o melancólico cancelamento de Star Trek (em 1969), o scifi televisivo americano amargou uma profunda crise criativa que durou até a estréia de "V" (a minissérie original, de 1983). Tivemos sucesso comercial, pontual ou mesmo de múltiplas temporadas, mas artisticamente foi um periodo muito pobre quando comparado aquele do "Grande Trio SCIFI Americano (TM)" (das versões originais de The Twilight Zone, The Outer Limits e Star Trek). Não por acaso os anos de 1970 são conhecidos como a era de ouro do scifi televisivo britânico (e a melhor fase de Doctor Who) e o começo da era de ouro do anime no Japão. A natureza simplesmente odeia o vácuo...

Desejo de refazer o "Grande Trio SCIFI Americano (TM)" para novas audiências parece ter existido desde sempre e de forma independente. Se as continuações de "V" foram incapazes de manter a integridade artística (cometendo os mesmos erros das séries setentistas), a mediocre e conturbada produção oitentista de Zone tampouco parecia retomar a antiga glória do aludido grande trio. Enquanto Limits esperaria ainda mais uma década por um apropriado remake, o terceiro nome do trio, o mais moderno comparativamente, o único com personagens regulares (sempe eles!), mostraria o caminho da retomada do scifi televisivo americano (impulsionado por uma consistentemente bem sucedida série de filmes para o cinema). Era hora de mais uma Jornada...

I) O scifi televisivo americano está ruim hoje? Bem e como estava em torno de 28/09/1987? O que havia de scifi no ar quando da estréia de Star Trek: The Next Generation? (Quem souber, informe ao autor...)

Haviam basicamente as três grandes redes (NBC, ABC e CBS), as quais não pareciam muito interessadas no negócio. A série de Picard e cia. driblou a distribuição tradicional e basicamente inaugurou a primeira exibição em syndication, um mercado que foi bastante explorado pelo gênero (e fundamental para o seu desenvolvimento no período) até que a ida da série Andromeda para o canal SYFY em sua temporada final (circa 2004) decretou o de facto fim de tal sistema. Hoje, lugar para enfiar série scifi não falta, tem FOX, tem CW, tem vários canais a cabo básicos (incluindo SYFY e USA) e mesmo os canais a cabo premium. Isto sem contar com os diversos meios agregados (como games e internet, por exemplo). Infinitamente melhor cenário do que naquele setembro...

II) Séries que sobrevivem em nicho? Canais valorizando qualidade artística acima do Nielsen? Atrações tendo a sua audiência efetiva aumentada por mídias auxiliares? Lore deve ter sabotado a minha rede neural, capitão!

Nenhuma nova série scifi jamais trará de volta a monstruosa audiência da minissérie original de "V"; os números de Star Trek: The Next Generation e de X-Files também são coisa do passado, algo que, ironicamente, não constitui problema atualmente.

Hoje em dia, séries que servem como testemunho da qualidade (em amplo senso) do respectivo canal, sobrevivem SIM, muitas vezes "esticadas" além do que mandaria o bom senso artístico, tais como foram The Sopranos e Battlestar Galactica 2003 (algo que se espera, por exemplo, que não aconteça com Mad Men), mas SOBREVIVEM, mesmo com relativamente baixas audiências tradicionais.

Se uma série literalmente permeia toda a Internet, como fez Lost, não somente o seu canal de origem, mas toda a industria a trata como se ela tivesse uma audiência muito maior, talvez até uma ordem de grandeza maior, do que aquela medida tradicionalmente.

Nos termos mencionados acima, temos hoje direta valorização de qualidade pelos "homens da grana" e um rico universo não tradicional para popularizar a atração, como um projeto multimídia integrado. Infinitamente melhor cenário do que naquele outono... E, apesar de tudo... Aqui estamos!

MUITO ALÉM DAS ESTRELAS...

Muitos contactam o gênero em tenra idade... Parte da formação da própria personalidade... Tentativa de parecerem distintos... Orgulho de serem únicos...

Muitos lá gostavam sem saber articular o motivo... Muitas memórias não sobrevivem a tal capacidade... O que resiste ao crivo da idade... O latente escritor, o ponto de partida...

Muitos viveram aquelas histórias... Muitos inventaram tantas outras... Mas todos se lembram de todas... Especialmente das ainda não contadas...

Abraçar a sua incepção... Celebrar a sua inspiração... A sina do artista... O dever de ser ele mesmo...

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