segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Estará o scifi televisivo em crise?

Estará o scifi televisivo em crise?

O post anterior (sobre o cancelamento de Caprica e outras histórias) parece alimentar o argumento de uma atual crise scifi televisiva, mas não explica realmente a questão, sob o meu ponto de vista. Definitivamente não quero ver "mais do mesmo", mas também definitivamente não quero ver mais "muito de alguma coisa (por melhor que ela seja)":

(*) Sobre o "mais do mesmo":

No artigo já mencionado, falei um pouco de cada uma das séries scifi de nota ainda em produção (tirando as da CW por motivos óbvios eh! eh! eh!) e conclui estar gostando da atual sensibilidade britânica para o gênero (mesmo que muitas vezes influenciada pelo americano Joss Wheadon eh! eh! eh!) e que no fim do dia sempre espero ser surpreendido por um novo anime mais do que por qualquer outra coisa em scifi para tv.

Costumamos dizer que para se resolver um problema de matemática elementar você deve sempre se colocar na posição daquele que tem que contar, medir, construir etc. Para se avaliar uma série, ou mesmo uma idéia de série, o processo é inteiramente análogo, você deve sempre procurar se colocar na posição do realizador. Ali é que reside toda a questão

Existe uma tendência dos financiadores em se reduzir a ficção científica espacial na tv, a qual é um superconjunto do conceito clássico de space opera, mas definitivamente não se resume a este último. Muitos investidores acreditam que tal gênero distancie os espectadores da atração (algo que é uma óbvia falácia artística, mas que comercialmente deve ser sempre checado), outros temem os custos mais elevados de ter que se manter (incluindo ai toda a logística associada) algo que de fato não existe (maquiagem, próteses, vestuários, adereços, cenários, bebidas, comidas etc. etc. etc. Isto sem contar os mais tradicionais efeitos visuais da ficção científica espacial!!). Em anos recentes, várias idéias foram utilizadas para se minimizar tais condições mencionadas, com os realizadores cada vez mais conscientes de tais restrições, algo que somente amplifica a mencionada tendência.

A última década televisiva nos deixou um grande legado artístico. Inegável e talvez sem precedentes. Esperar da ficção especulativa televisiva um correspondente salto de sofisticação é mais do que óbvio. É até necessário. Space Opera é discutivelmente o gênero mais identificável e reconhecível de todo o scifi, o segundo talvez seja aquele que trata das distopias (que muitos nem identificam como scifi, aliás). A inspiração da última década mostra que "gênero engessa" e aponta o fim das "barreiras de gênero". Nestes termos, fazer uma space opera tradicional torna-se cada vez menos desejável. A única maneira de se atacar uma space opera tradicional nos dias de hoje, ao menos de forma artisticamente palatável, seria de contrariar as expectativas, ou seja não fazer uma space opera tradicional (risos). É mais do que óbvio que o caminho para os anos vindouros (do scifi televisivo) se baseia em conceitos de nicho e na segmentação do mercado e não em reciclagem de "gêneros" e na necessidade de certo "apelo universal".

(Obs: Muito tem se falado do tom de algumas séries scifi mais recentes, por vezes de maneira descuidada. O tom de uma atração é ditado pela sua premissa e não o contrário. Nenhum ser humano normal acorda decidido a fazer uma série "sombria". Ele acorda decidido a fazer uma série, se vai ser "sombria" ou "alegrinha" ou sejá lá o que for, dependerá da sua premissa, desde que lhe seja permitido evoluir livremente e consistentemente nos seus termos.)

(**) Sobre o "muito de alguma coisa (por melhor que ela seja)":

A realidade é que tenho cada vez mais dificuldade em acompanhar as produções seriadas (para o horário nobre) das redes americanas (e sistemas similares), sempre me parecendo ter episódios em excesso, idéias interessantes de menos e um texto consistentemente aguado.

Espero nunca mais assistir a uma série scifi (ou não) com mais do que cinco temporadas e mais do que 13 episódios de uma hora por temporada (ou 26 de meia hora por temporada). Mais do que isto qualquer tosquice já se torna ÓBVIA e a cada dia este sentimento apenas piora.

Obviamente, as séries que já foram feitas, foram feitas e muitas vou amar (nos seus termos) até o dia em que eu morrer, mas há que se trocar o chip em muitas ocasiões, não por qualquer aspecto cultural ou histórico (geralmente o que muitos tem que fazer com produções não americanas e/ou com mais de dez anos de idade), mas simplesmente pela absurda quantidade de episódios.

(E sim, quando Star Trek INEVITAVELMENTE voltar para a TV, espero que seja nos moldes que acabei de mencionar.)

Franquias como Star Trek, Doctor Who e Ultraman, pela sua distinta relevância cultural, irão produzir séries enquanto existir o meio, mas espero que sempre controlando o número de episódios e a qualidade, tendo em vista o seu público alvo e (principalmente) a sua história.

Não podemos esquecer de que a história do scifi televisivo é uma de baixos orçamentos, baixas audiências em geral, cancelamentos precoces, absurdas interferências dos financiadores e reconhecimento póstumo (nas vezes que ocorreu). Séries com apelo mainstream foram raríssimas, sendo mais a exceção do que a regra.

Se existe uma coisa que a última década mostrou indubitavelmente é que é financeiramente viável se trabalhar em nichos, que é obviamente a rota que o scifi televisivo tem que tomar.

Futuro realizador, aquele que tem uma idéia e anseia colocá-la para fora de alguma maneira: faça a síntese da sua idéia, faça uso do menor número possível de episódios, faça uso do menor orçamento possível para a execução da sua déia e conte a sua história. Aquela mesma que você sempre quis contar desde o seu primeiro contato com o gênero. É justo aquela que sempre vai valer mais a pena.


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